terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Autossuficiências e gentilezas (09/02)

O povo comparece à política de quatro em quatro anos. Já a elite está presente no poder todo dia

Costuma acontecer com governos e ensaia repetir-se. Toda crítica ou contestação será recebida como ameaça à autoridade. E a reação também está no manual: a necessidade imperiosa de dar uma demonstração de força.

Governos adoram oferecer demonstrações de força, mas costumam escolher bem o alvo.

A autossuficiência comparece em assuntos como o salário mínimo e o reajuste da tabela do imposto de renda. 

Mas é substituída pela gentileza quando sobre a mesa estão os juros, as renúncias fiscais segmentadas ou as renegociações de grandes
dívidas com bancos públicos.

Ou a salvação de banqueiros amigos.

Por uma razão objetiva. O povo comparece à política de quatro em quatro anos. Já a elite está presente no poder todo dia.

De vez em quando a receita desanda, como comprova novamente o caso egípcio, mas é exceção.

O governo parece ter decidido enveredar pela desqualificação do debate sobre o salário mínimo.

Tenho convivido na minha vida profissional com alguns empresários de grande sucesso. Não conheci nenhum que levasse o tal “cumprimento de contratos” ao plano da religião.

Contratos foram feitos para serem discutidos quando apresentam problemas na execução.

Todo empresário sabe que entre manter o cliente e exigir o cumprimento draconiano do contrato a primeira opção sempre merece ser olhada.

Aliás, nem o governo leva a ferro e fogo essa teologia, pois propõe agora o encurtamento, no tempo, da política de aumentos reais do mínimo.

A política em vigor para o mínimo não chega a ser um mau contrato, mas apresenta um problema pontual na execução. A economia vai bem (não é o que diz o governo?), mas dois anos atrás estava mal.

Pelo critério de somar o penúltimo PIB à última inflação o reajuste agora resultará mixuruca.

Tão mixuruca que o próprio governo topou dar um troco a mais, para não ficar abaixo da inflação. Vê-se portanto que o tal cumprimento de
contratos não tem a estatura, por exemplo, dos dez mandamentos oferecidos a Moisés.

A solução é simples e está à mão. Antecipar parte dos quase 14% de reajuste previstos, pela regra, para 2012. Qualquer porcento a mais
agora seria deduzido do aumento ano que vem. É técnica conhecida nas negociações sindicais.

E seria bom para os trabalhadores e aposentados, que percorreriam 2011 de um jeito menos desconfortável.

Mas o governo parece preferir pagar o preço político com o lado mais fraco, e ganhar assim uma margem de arrocho fiscal à custa dos indefesos que tem vencimentos vinculados ao salário mínimo.

Mudança

O ex-presidente da República recém desempossado chamou de oportunistas dirigentes sindicais que pedem um mínimo maior.

Houve época em que sua excelência considerava oportunista, pelego, o sindicalista que, sem lutar, aceitava menos. Preferia os que
propunham lutar, para conquistar mais.

Não deixa de ser uma mudança.

Difícil

Quando o boom mundial dos biocombustíveis murchou, o governo brasileiro agarrou-se ao pré-sal. E ninguém mais fala no etanol.

Barack Obama vem aí. Será que vai trazer a notícia de uma colher de chá para o etanol brasileiro nos Estados Unidos?

Traria um alívio para quem acreditou na coisa.

Mas o mar não está para peixe. A humanidade sente o bafo quente da inflação de alimentos, e não anda fácil convencer as pessoas a
usar terras agricultáveis para encher tanque de combustível, em vez de encher a barriga de comida.

Na retaguarda

Impressiona a (falta de) agilidade do governo brasileiro na crise egípcia. Ou bem o Itamaraty mantém silêncio ou então precisa estar
mais sintonizado com os acontecimentos.

Tomar posição depois que as coisas já tiveram desfecho ou esperar para ver quem vai ganhar, para só depois alinhar-se, não chega a
exigir grande coragem ou competência.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (09) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

OpenID tuliovillaca disse...

Tenho a impressão de que o Lula resolveu chamar para si a discussão do mínimo como uma forma de resguardar um pouco a Dilma deste primeiro desgaste, seja por voluntarismo paternalista, seja por combinação. Mas também tenho a impressão de que o Lula num caso desses tomaria uma atitude diferente, como fez algumas vezes em situações próximas. Não sendo um tecnocrata como a Dilma, nessas horas ele virava para o Guido e dizia "o aumento vai ser de tanto, diga amanhã de onde sai o dinheiro", e pronto. Podia ser uma solução populista, mas o fato é que o Lula na presidência parecia ter a exata noção da diferença de coerências - uma para o povo, outra para as elites - que vocÊ descreve bem. E sabia driblá-la quando lhe parecia conveniente, ou indispensável.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 15:47:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A questão, meu caro Alon, é que a inflação está dando sinais bem claros de que está voltando, e o Governo, para contê-la, vai precisar cortar gastos e não aumentá-los. A Presidente sabe que a maior herança bendita da era FHC/Lula é a estabilidade econômica. Se ela vacilar, o Governo Dilma estará fadado ao fracasso. Assim, não é hora de dar aumentos maiores que os previstos para o SM. É hora, sim, de conter a gastança do governo e devolver o dragão para o fundo do armário, antes que ele nos queime de novo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 18:40:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Hoje durante a tarde o noticiário confirmou o prometido “forte ajuste fiscal”, com CORTE orçamentário no valor R$ 50 bilhões.

Você saberia explicar como vão executar essa missão impossível? Vão CORTAR exatamente o que no orçamento?

Para lembrar:

"Nós não vamos, nós não vamos. Vou repetir três vezes: nós não vamos contingenciar o PAC" (Dilma, 27/01/11)

E hoje o noticiário não fala em contingenciamento, mas em cortes, o que sabemos ser coisa bem distinta de contingenciar.

Afinal, o que exatamente o governo pensa ou quer fazer?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 20:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Cortar o PAC, naquilo que está iniciado e abandonar o que seria inviável. Não tem jeito. Como pode, de um lado, divulgar intenção de cortar R$ 50,00 bi e de outro, chamar a Eletrobras para participar do trem-bala? Da mesma forma que fez com os Correios?
Swamoro Songhay

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011 11:44:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Hoje, mais analistas colocam que o que foi informado não será realizado, por absoluta falta de espaço para cortar efetivamente, caso não sejam incluídos nos cortes, investimentos e gastos sociais. Cortar investimentos, afeta a credibilidade de quem prometeu não cortar. Cortar gastos sociais, vitrine do governo, seria impopular com repercussões políticas difíceis de prever e avaliar. E algo parcial, na altura da situação, gerará mais problemas do que soluções.
Dawran Numida

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 13:33:00 BRST  

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