terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Viajar juntos (18/01)

Os supostos responsáveis pela segurança das famílias na região das serras pedem atenção para o que não seriam capazes de fazer, só para escapar do juízo por não terem feito o que era perfeitamente possível fazer

O grau de mobilização do governo do estado do Rio de Janeiro neste mês de chuvas podia, antes de tragédia, ser medido por um detalhe singelo. Decorrido um ano do desastre de Angra dos Reis, a época crítica encontrou o governador reeleito de férias. Tomou posse do mandato novinho em folha e foi descansar fora do país.

Os desastres causados pela natureza (ou pela ação humana na natureza) são de duas categorias: os inevitáveis e os evitáveis. O governante cioso procura evitar a ocorrência dos evitáveis. O esperto usa os inevitáveis como biombo para escapar da justa divisão de responsabilidades quando acontece algo que poderia ter sido evitado.

Depois das centenas de mortos, descobre-se que a culpa é do “populismo”. O uso político do “antipopulismo” costuma ser bastante eficaz no Rio, pois atrai a simpatia de um pedaço influente da sociedade local.

A política carioca e fluminense vinha sendo monopolizada nas últimas décadas por descendentes políticos de Leonel Brizola. Todos acabaram brigados com ele. Uns foram para a esquerda, outros para a direita. O atual governador é o primeiro desde os anos 80 a vir de outra linhagem.

Quando no Rio alguém fala mal do populismo está de quebra falando mal dos governos de Brizola e da herança política e administrativa dele.

Não há espaço aqui para um balanço minucioso, mas fato é que o velho líder trabalhista, em seus dois mandatos após a redemocratização, tomou iniciativas importantes em favor dos mais pobres.

A mais vistosa talvez tenha sido implantar um ensino de boa qualidade e em tempo integral para os filhos dos pobres. Nunca entendi direito por quê, mas isso lhe rendeu alguns e importantes inimigos. Hoje, só se fala em educação, e escola integral virou quase unanimidade.

O antipopulismo costuma ser um bom disfarce para o político antipopular.

De volta à tragédia do Rio. Ninguém na posse das faculdades exigirá, a sério, que qualquer governo ali resolva em quatro anos o problema da ocupação irregular do solo. Mas quatro anos -sinto muito- é tempo mais que suficiente para montar e colocar em operação um bem azeitado sistema de alerta e providências em caso de chuva excessiva.

A esperteza de recorrer ao “populismo” como bode expiatório é bem esta: os supostos responsáveis pela segurança das famílias na região das serras pedem atenção para o que não seriam capazes de fazer, só para escapar do juízo por não terem feito o que era perfeitamente possível fazer.

Quantos teriam morrido se houvesse no Rio um sistema de alerta e providências compatível e operacional? Impossível fazer o cálculo exato, mas certamente menos do que o tanto de gente que morreu.

Comecei esta coluna notando que a tragédia encontrou o governador reeleito de férias. É elementar. Se o chefe não está concentrado num problema, muito menos os subordinados. Qualquer um que tenha sido chefe, nem que por cinco minutos, sabe disso. E sabe a importância da presença física do chefe nos momentos críticos.

O bom oficial vai na frente da tropa, não atrás.

Em qualquer ambiente político menos tolerante o atual governador do Rio estaria em sérios apuros. Mas ele tem a graça de ser aliado do governo federal, uma vacina contra críticas do PT. E tem outra graça, na simpatia dos militantes do antipopulismo. Daí que seja quase unanimidade.

Está na hora de o governador retribuir, em agradecimento pelas graças alcançadas. Não é todo dia que um político escapa quase ileso de fatos que, tecnicamente, deveriam encerrar a trajetória dele.

Se não é possível trazer de volta os mortos desta tragédia, o calendário ainda reserva no mandato de sua excelência mais este resto de verão, além de mais três verões inteirinhos. Tempo suficiente para mexer-se.

E sairá com certeza bem mais barato do que sairia o governador levar sempre com ele nos passeios fora do país, na época das
chuvas, toda a população do Rio.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (18) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

"Plano nunca saiu do papel", diz ex-secretário

FÁBIO AMATO
DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

O ex-secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia, Luiz Antonio Barreto de Castro, responsabilizou o governo e instituições envolvidas na criação do sistema de alerta contra desastres naturais pelo fato de o projeto não ter saído do papel.
"A gente falou muito e fez muito pouco. Não consegui fazer com que o projeto avançasse", disse Castro, que presidiu até a semana passada uma comissão que discute propostas na área.
O grupo, composto por 22 representantes -de ministérios, institutos como o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Marinha e Aeronáutica- debateu o projeto por ao menos dois anos.
Em setembro, a comissão pediu R$ 36 milhões para colocar em funcionamento um projeto piloto, que beneficiaria apenas parte dos Estados, mas o pedido foi engavetado pelo ministério.

FSP (18/01/2011)

Alon, uma merreca de R$ 36 milhões! Quanto isso representava no orçamento do MCT?

Gostaria de saber quanto o executivo federal gastou nesses dois anos de intensos debates, com essa "gente que falou muito", para, na prática, não fazer porcaria nenhuma.

Você sabe quanto custará a reforma do Maracanã para a copa? A se confirmarem os problemas estruturais identificados recentemente, a obra pode passar dos R$720 milhões para R$1 bilhão.

Que país é este, Alon?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011 09:44:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Em qualquer ambiente político menos tolerante o atual governador do Rio estaria em sérios apuros. Mas ele tem a graça de ser aliado do governo federal, uma vacina contra críticas do PT."

Na mosca! É só comparar com o tratamento dado ao Kassab pelo PT e seus tentáculos. Some-se a isso o fato de a oposição ficar manietada, com medo de ser acusada de exploração política da tragédia e temos então mais um intocável: Sérgio Cabral.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011 09:57:00 BRST  
Blogger Juan José Verdesio disse...

Lamento ter que concordar com o senhor no artigo Até a Próxima

O Sr certamente publicara artigo similar no próximo ou nos seguintes verões

Cheguei ao Brasil em 1973. Comecei trabalhando em Planejamento urbano auxiliando na cartografia básica com fotos aéreas para evitar ocupações indevidas ou arriscadas. Depois trabalhei na avaliação de um Plano de prevenção de inundações em Petrópolis depois do desastre de 1988. O prefeito anterior distribuía tijolos nos morros para os caras construírem mais e mais. Estudei bastante o assunto desde os anos 60 até os 90 em que me dediquei a outras coisas. Desde essa época tinha estudos bons sobre onde não construir, que tipo de planejamento urbano seguir, estudos geotécnicos, etc. Existia o brilhante geomorfólogo João José Bigarella que tinha feito livros com resultados das suas pesquisas sobre a formação das encostas na Serra do Mar. Tudo isso de nada serviu.

Mais recentemente o Ministério das Cidades inventou o guarda-chuvas (existem coisas similares anteriores) fazendo este Relatório MAPEAMENTO DE RISCOS EM ENCOSTAS E MARGENS DE RIOS (2009) com técnicos do IPT, resumindo o que se sabe acumulado em décadas.

Por isso lamento dizer mas continuaremos a ver cenas similares às vistas nos últimos dias. Não tem nada a ver com aquecimento global nem mudanças climáticas embora qualquer mudança tenha a sua importância no agravamento de algo que nós estamos criando. E que não iremos solucionar cedo. As áreas de risco no Brasil talvez tenha uma amplidão gigantesca atingindo alguns milhões de pessoas. A minha casa no Lago Norte, por exemplo, comprei feita e está construída sobre uma encosta com umidade presente a poucos metros da superfície. Solucionei o problema ampliando a drenagem por fora da casa com valas enterradas com brita e canos de escoamento para a rua. Como tenho rocha embaixo e ela está sobre um aterro de rocha não cairá. Mas molhadinha sempre esteve. Agora melhorou. O GDF permitiu o loteamento numa área que era de brejo e os ignorantes compradores, arquitetos e engenheiros construíram encima de solo molhado. Tem muitas áreas assim no Lago Norte e Sul. Estudos da Geotécnica da UnB já mostraram isso. Quando cheguei em Brasilia em 1982 fui alugar casa no Lago Norte e tive que descartar várias casas que eram verdadeiras criações de cogumelos. Vi uma em que todos os armários estavam desmontando de tanta água infiltrada pelo solo e paredes.

Aqui também temos áreas de risco de desabamento e enchentes na FERCAL e na Ceilandia já noticiados pelo mesmo jornal

terça-feira, 18 de janeiro de 2011 18:36:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não sei se ainda é possível comentários nos posts mais antigos. Se for possível aproveito aqui para indicar três posts onde eu fiz ou ainda deverei fazer referências a este seu post "Viajar juntos" de 18/01/2011. O primeiro é "Perguntas retóricas para um fim de ano intrigante" de 21/12/2010 no blog Possibilidades de Política do professor Marco A Nogueira, o segundo é "Sobre popular e populista" de sábado, 12/02/2011 às 20:36 no blog de Luis Nassif, e que foi postado a partir de comentário de um comentarista e o terceiro, também no blog de Luis Nassif intitulado "A negativa ao PMDB, por Janio de Freitas" de terça-feira, 08/02/2011 às 12:01, feito a partir do artigo de Janio de Freitas na Folha de S. Paulo da mesma data e intitulado ""O caminho".
Lembro ainda que junto ao post "Sobre popular e populista" de sábado, 12/02/2011 às 20:36 no blog de Luis Nassif há um comentário que se encontra na última página da caixa de comentários e que fora enviado por Clayton Filho, domingo, 13/02/2011 às 09:32 e que eu transcrevi para um comentário que ficou na primeira página. No comentário o Clayton Filho alerta para a perda de sentido que o conceito de populismo alcançou.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/02/2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 22:02:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Esse era um comentário antigo que eu aparentemente e erroneamente tentei encaminhar para o post "Jogo de largada" de 16/01/2011. Não sei se é possível ainda encaminhar comentários em posts mais antigos, mas como o comentário já estava pronto não custa tentar.
Gostei muito deste post "Viajar juntos" de 18/01/2011 na parte que trata do populismo e homenageia o Leonel Brizola. Sobre o populismo há um post curto no blog do Marco A Nogueira que eu passei a freqüentar depois de uma indicação sua e cujo título é “Perguntas retóricas para um fim de ano intrigante” de terça-feira, 21/12/2010 que me deu a esperança de ver também a academia revisitar o conceito de populismo.
Bem, mas nessa parte houve um ponto que me pareceu que merece uma correção. Você disse:
"O antipopulismo costuma ser um bom disfarce para o político antipopular".
Ora, não seria melhor dizer que o antipopulismo costuma ser um bom disfarce para o político não popular? Porque se ele é antipopular, o antipopulismo dele não é disfarce.
E no tema seguinte da tragédia no Rio de Janeiro você tenta estabelecer uma regra de bom gerente. Diz você:
"O bom oficial vai na frente da tropa, não atrás".
Ficou parecendo que você não deu muito ouvido ao que o banqueiro-investidor lhe disse segundo o que você disse no post anterior "Jogo de largada" de 16/01/2011. Segundo o que você disse o banqueiro-investidor teria dito que há uma única regra que define o bom executivo:
"Dar o retorno combinado com o acionista"
Para mim a regra não é aplicável ao setor público, mas ao a aceitar, você deu a entender que no setor público também não caberia estabelecer várias regras. E essa de ir na frente pareceu-me muito fraca. Até porque ela só parece válida se o oficial for índio e se aceita a tese racista de que índio bom é índio morto.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/02/2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 22:23:00 BRST  

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