sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um estado de espírito (28/01)

Em palácio, a avaliação é que o movimento sindical não tem nem força nem disposição para levar o confronto muito adiante. Não tem
capacidade real de colocar gente para brigar pelas reivindicações apresentadas


O governo acredita ter força para vencer a votação sobre o salário mínimo na Câmara dos Deputados. Passando ali, acredita num Senado em paz.

O governo vê nas reuniões com os sindicalistas apenas um gesto de boa vontade. O objetivo é munir os interlocutores de sinais externos de prestígio, essenciais para evitar a radicalização verbal, corriqueira no mundo do trabalho, e manter abertos os canais de entendimento.

Em palácio, a avaliação é que o movimento sindical não tem nem força nem disposição para levar o confronto muito adiante. Não tem
capacidade real de colocar gente para brigar pelas reivindicações apresentadas. Faltam-lhe garrafas para entregar.

Mas tampouco seria conveniente que recebesse desde logo do governo um certificado de alinhamento.

Daí por que a administração acena com alguns trocados a mais no mínimo, ou com um reajuste qualquer na tabela do Imposto de Renda.
Algo que possa ser apresentado pelos líderes sindicais — e talvez pela base governista — como “a vitória que foi possível conquistar”.

Mesmo assim, com cuidado. Preferível será não ceder nada. Uma ideia é que qualquer real a mais na negociação do mínimo seja visto como antecipação, e não reajuste. Se a regra acertada lá atrás está valendo, toda benesse de agora deverá ser descontada nos passos
futuros.

O que seria bom (pelo ângulo governista) no ano que vem, considerado o PIB gordo de 2010. Ele mais a inflação deverão jogar o aumento do mínimo em 2012 para algo da ordem de 14%. Pesado.

Numa empresa, o saudável seria poupar agora para encarar lá adiante o megarreajuste. Em governos as coisas não costumam funcionar assim. Governos não são vocacionados para poupança, mas para gastar. Mesmo antes de o dinheiro entrar já rola a briga para poder gastá-lo.

No cálculo do Planalto, os partidos da base entrarão os trabalhos sedentos para mostrar serviço, o passaporte mais seguro para abocanhar fatias saborosas nos escalões inferiores.

“Enquanto houver a perspectiva de espaços orçamentários, ninguém vai querer aparecer na coluna dos problemas para a presidente da
República”, confia um dos principais articuladores governistas. “Vão brigar para aparecer na coluna das soluções.”

O governo tampouco crê na real disposição de combate oposicionista. Nas conversas reservadas, o Planalto oferece aos parlamentares da
oposição um tratamento bastante isonômico, desde que não se criem no Congresso maiores obstáculos ao rolo compressor do situacionismo. Especialmente nas primeiras votações, essenciais para transmitir à sociedade a mensagem de que a presidente está no controle.

A receptividade — segundo o governo — tem sido boa. A oposição apenas pede a oportunidade de aparecer ao público como alguém que tentou. Deseja marcar suas posições em plenário. Mas o governo não está muito confortável com essa reivindicação. Teme que a temperatura na base suba em excesso.

O argumento é o tradicional. Se a oposição vai beneficiar-se da execução orçamentária, que assuma também parte do desgaste votando medidas impopulares.

O governo espera que a eleição do presidente da Câmara dos Deputados seja um balizador da situação política, uma demonstração de força que demova eventuais sonhos dissidentes.

Quem vai querer arrumar confusão para depois passar quatro anos na chuva?

Essa é a teoria. É isso que pensa o governo. É o estado de espírito atual.

Para saber se vai funcionar, melhor esperar pelos fatos. Mas tem chance de funcionar. Pelo menos no comecinho.

Vida fácil

O investimento externo está bombando. Em outros tempos, alguém denunciaria a desnacionalização maciça.

Mas quem denunciaria seria o PT, e o PT é exatamente o regente da farra.

O dólar que chega aqui para investir compra um ativo qualquer, não vem de graça. Não é presentinho. Houve um tempo em que a alienação era mais do estatal. Hoje é do privado.

Resumindo, estamos consumindo patrimônio e poupança. Foi como os Estados Unidos chegaram aos problemas atuais.

1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Boa análise.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 31/01/2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011 08:22:00 BRST  

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