terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Soluções fáceis, escolhas difíceis (25/01)

A crise libanesa deixa claro por que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, pediu ao Brasil que solicitasse ao Irã o fim da ingerência. Pedido que, infelizmente para o projeto de uma Palestina independente, e por razões ainda obscuras, o Itamaraty não julgou do próprio interesse encaminhar

Em dezembro o Brasil deu um passo adiante e reconheceu formalmente a existência de um Estado Palestino nos territórios entre o Jordão e o Mediterrâneo que estiveram em poder da Jordânia e do Egito de 1949 a 1967.

Classifiquei aqui a decisão como essencialmente positiva e afirmei que ela ajudava na busca de uma solução pacífica para o problema regional.

Notei também que a posição brasileira sobre o formato final das fronteiras entre Israel e Palestina era pouco relevante, pois num cenário de solução negociada os limites seriam definidos por acordo.

Importava mesmo era o Brasil reafirmar que a paz e a segurança ali só serão alcançadas com o amplo reconhecimento do direito de todos os povos na região à afirmação nacional soberana. O reconhecimento de que ambos os nacionalismos (o sionista e o árabe) têm legitimidade.

Aliás, o nacionalismo árabe na Palestina e o sionismo são praticamente contemporâneos na origem, ainda que o o segundo seja um pouquinho mais antigo.

Agora vazam informações sobre o estágio de entendimentos anos atrás entre Israel e Autoridade Palestina (AP). Segundo os vazamentos, havia terreno para uma convergência nos temas essenciais, territoriais e demográficos. Há alguma polêmica sobre detalhes secundários, mas as informações têm verossimilhança.

É um equívoco imaginar que a paz e a segurança no Oriente Médio dependem de encontrar soluções complexas para problemas intrincadíssimos. Os problemas são conhecidos e as soluções, apesar de múltiplas, convergem em parâmetros simples.

Dois estados vivendo lado a lado em segurança, com o reconhecimento das realidades demográficas. E, preliminarmente, a admissão recíproca do direito do outro à autodeterminação e à segurança.

Essa é a decisão política que falta tomar. Para a AP, se de fato está disposta a ir além do ponto em que Yasser Arafat estacionou uma década atrás em Camp David, seria uma posição patriótica.

Se os palestinos tivessem aproveitado no últimos quase cem anos alguma das oportunidades que tiveram para reconhecer a realidade no terreno estariam bem mais avançados em seu projeto nacional. No tudo ou nada, têm invariavelmente restado com a segunda opção.

Qual é o obstáculo, então? O propalado radicalismo da “rua árabe” é um mito, haveria apoio político ao entendimento. As dificuldades tem um viés, digamos, libanês.

Uma liderança palestina que abdicasse formalmente do objetivo de destruir Israel colocaria o próprio pescoço na guilhotina. Viraria alvo imediatamente de um processo de deslegitimação e mesmo eliminação física pelo eixo Irã-Hamas-Hezbollah, com a eventual participação síria.

Aliás, esse eixo tem hoje força para deflagrar uma guerra civil na Palestina se não estiver satisfeito com o andamento das coisas. Mais ou menos como acontece no Líbano, onde o Hezbollah exige a impunidade de seus militantes que eventualmente forem indiciados pelo assassinato do premiê Rafik Hariri em 2005.

O grupo prefere acusar o tribunal das Nações Unidas que conduz a investigação sobre o caso de ser um instrumento dos Estados Unidos e de Israel.

Mas é razoável supor que se a investigação da ONU sobre a recente guerra em Gaza mereceu crédito o mesmo deverá acontecer com as conclusões do tribunal internacional sobre o caso Hariri.

O Hezbollah perdeu as últimas eleições mas tem força militar para exercer poder de veto na política libanesa. 

E usa a musculatura de “estado dentro do Estado”, sob a aura da "resistência" a uma ocupação que não mais existe, para chantagear a nação com a ameaça de uma nova guerra civil, se seus integrantes que vierem a ser acusados de matar Hariri forem levados ao banco dos réus.

Em escala maior, é o que passaria num cenário de possível acordo equilibrado e justo entre a Palestina e Israel. O Irã reivindicaria poder de veto. Caso estivesse de posse de armas nucleares, essa reivindicação teria outro peso.

O Líbano ajuda a compreender por que o presidente da AP, Mahmoud Abbas, pediu ao então presidente do Brasil que solicitasse a Teerã o fim da ingerência nos assuntos palestinos. Pedido que, infelizmente para o projeto de uma Palestina independente, e por razões ainda obscuras, o Itamaraty não julgou do próprio interesse encaminhar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Fica bem melhor na foto posições claras da diplomacia brasileira a respeito de assuntos fortes, como o Oriente Médio em geral e a Palestina em particular. Pode-se até discutir se a opção diplomática foi mais adequada ou acertada ou não. Contudo, ela aparenta ser mais objetiva do que posicionamentos anteriores cheios de dubiedades e frases feitas. Muito melhor do que o ranger de dentes e/ou a mistificação de um protagonismo inexistente. Notadamente numa região onde quem não tiver com o que contribuir, efetivamente, com a distensão e o entendimento, deve ter, ao menos, a capacidade e a inteligência diplomática de cair fora. E rápido.
Swamoro Songhay

terça-feira, 25 de janeiro de 2011 10:36:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Durante os preparativos da viagem de Lula para o Oriente Médio o jornal ESP publicou entrevista com Abbas, que não poderia ser mais explícito:

Fatah e Hamas podem chegar a um acordo neste ano? Esse diálogo pode ser mediado pelo presidente Lula, como ele sugeriu em novembro?

Atores influentes da região dificultam a reconciliação nacional, PARTICULARMENTE O IRÃ, que não se mostra interessado no diálogo palestino com base em uma agenda palestina.
Para o nosso diálogo com o Hamas, nós temos os nossos irmãos árabes, que têm sido muito ativos. MAS PEDIMOS AO PRESIDENTE LULA que inclua o tema palestino no seu diálogo com o Irã.

ESP, 18/03/2010

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100318/not_imp525831,0.php

o Itamaraty e o presidente Lula ignoraram completamente o pedido de Abbas. O final do périplo presidencial marcou um dos episódios mais vexaminosos da diplomacia brasileira, o que pode ser constatado por análise dos resultados alcançados e, para vergonha nacional, visto com muita clareza naquela histórica foto de Lula levantando os braços de Ahmadinejad. O que de bom restou disso tudo?

Ah! Lembra o tanto que escreveram nos jornais e disseram nas TVs a respeito os "especialistas" acólitos?

Abs.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011 10:41:00 BRST  
Blogger Walmir disse...

Hummmm... rsss... o seu post é tolinho, Alon.
Bobaginha.
Nele, você tenta fazer com que a realidade seja o que você pensa.
Portanto, tolinho.
Claro que vc não vai publicar, pois estou censurado neste blog limpinho e democrático.
Abraço.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011 14:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Gostaria de saber onde você obteve a informação de que
"o presidente da AP, Mahmoud Abbas, pediu ao então presidente do Brasil que solicitasse a Teerã o fim da ingerência nos assuntos palestinos".
E também onde você obteve a informação sobre o não encaminhamento do pedido e que o levou a dizer:
"Pedido que, infelizmente para o projeto de uma Palestina independente, e por razões ainda obscuras, o Itamaraty não julgou do próprio interesse encaminhar.
Em relação a sua segunda informação, e se for certo que houve o pedido do presidente da AP, Mahmoud Abbas, há dois aspectos que para mim seriam importantes serem esclarecidos. Primeiro saber se houve ou não o encaminhamento do pedido e segundo saber se o julgamento de se encaminhar ou não coube ao Itamaraty. Esse segundo aspecto é importante até para desmistificar ou mistificar ainda mais a idéia de diplomacia presidencial brasileira.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/01/2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011 18:12:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Aqui, Cleber:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,abbas-quer-que-lula-questione-ira-sobre-elo-com-hamas,525928,0.htm

terça-feira, 25 de janeiro de 2011 18:44:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Obrigado pela resposta.
Eu havia lido a reportagem sobre o desejo da Autoridade Palestina que o Brasil levasse a outros fóruns a discussão do tema palestino. É possível que ele tenha dito exatamente o que saiu no título da reportagem do jornal O Estado de São Paulo. No link que você indicou com a reportagem de 18/03/2010, o título "Abbas quer que Lula questione Irã sobre elo com Hamas" não ficou bem caracterizado nas frases entre aspas que teriam sido ditas pelo presidente da AP, Mahmoud Abbas.
Mesmo assim, o meu questionamento centrava mais na segunda questão. Há fonte fidedigna que garanta que o Brasil (Uma vez aceito que o pedido foi solicitado ao Brasil) tenha recusado a pedir que o Irã deixasse de ingerir nos assuntos palestinos? E essa recusa, que eu penso que deve ter ocorrido se o pedido foi feito na forma do título da reportagem do jornal O Estado de S. Paulo conforme o link que você deixou, foi definida pelo Itamaraty ou por outro setor da Administração Pública? A minha impressão é que você intuiu a recusa por se tratar de uma ingerência do Brasil na política externa do Irã que não seria própria da postura que o Itamaraty vem adotando há longa data.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/01/2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011 21:07:00 BRST  

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