domingo, 16 de janeiro de 2011

Jogo de largada (16/01)

É humano, natural, que a maioria torça para tudo dar certo. Daí as pessoas agarrarem os mínimos sinais de que a coisa tem tudo para dar certo

O que é a boa administração? Em tese, a que funciona. Lembro de uma conversa anos atrás com um banqueiro-investidor, com quem falava por motivos profissionais quando trabalhava na área de negócios do UOL. Perguntei a ele as regras que definem o bom executivo. A resposta foi curta: “Uma só. Dar o retorno combinado com o acionista”.

O festejado novo estilo imposto pela presidente Dilma Rousseff tem feito a alegria do jornalismo nestes dias em que a tarefa se concentra na busca de traços distintivos do novo tempo. Dizer o que vai continuar igual ao ex-governo não chega a ser notícia.

Tem a turma que pega uma carona no elogio ao estilo de Dilma com o único propósito de falar mal do antecessor, pelo efeito-contraste. Foram ajudados nos primeiros dias do ano pela surpreendente inabilidade do ex-presidente quanto à semiótica.

Tem também o pessoal sempre louco por um governo "forte”, que suprima as diferenças e as ambições setoriais, que governe na paz dos cemitérios, que transforme o Congresso Nacional num carimbador de medidas provisórias. Mas atendendo a determinados interesses.

Uma gente que só lembra dos férreos compromissos com a democracia quando tem vontades contrariadas.

E há a galera disposta a dar um voto de confiança à nova presidente. São o maior contingente. Não existiria mesmo motivo fora da política para ficar de má vontade com quem nem bem começou a trabalhar. E para a maioria das pessoas interessa é o governo entregar um país cada dia mais próspero, mais justo, com mais oportunidades de trabalho e educação, com serviços públicos mais concentrados em bem atender o cidadão.

São os acionistas citados no episódio que abre esta coluna.

É humano, natural, que a maioria torça para tudo dar certo. Daí as pessoas agarrarem os mínimos sinais de que a coisa tem tudo para dar certo.

A nova presidente aproveita bem para concentrar poder neste período peculiar, marcado pela abundância de boa vontade.

O jogo de largada proposto por ela permite uma leitura. Há a presidente e seus assessores. Ministros não são para fazer política, a não ser para anabolizar a chefe. Há ministros de primeira e segunda divisão, e os últimos serão subcomandados pelos primeiros. Que aliás são todos do PT.

Diferenças de posição, só para dentro. Para fora restam o pensamento único e o monolitismo na ação, facilitado pela esmagadora maioria no Congresso Nacional.

Vai funcionar? Enquanto tudo estiver dando certo, sim. Pode parecer meio circular, mas é isso mesmo. Tudo funcionará enquanto estiver funcionando.

Sem atravessar

O governo sabe que a bela aritmética da base no Congresso Nacional esconde armadilhas políticas bem perigosas.

É da vida. Se a oposição formal não deseja executar o serviço, alguém o fará. Pois a dinâmica social nem sempre se adapta às conveniências do mundo político-parlamentar.

Nas conversas com articuladores palacianos e congressuais sobressai uma certeza: este governo não vai se meter em terreno pantanoso no Legislativo só para atender aos furores reformistas da opinião pública.

Será aparentemente um governo mais voltado para a execução orçamentária e menos para o reformismo nas leis.

A não ser quando for essencial para atingir objetivos governamentais na esfera material. Mas sempre com realismo.

No teorema, um corolário é imediato. Se o governo opera para precisar pouco do Congresso ajuda a emagrecer a força dos aliados e da base. Menor será o poder de pressão de quem tem muito músculo na Câmara dos Deputados ou no Senado mas pouco na esplanada.

Ou seja, a turma do Planalto irá economizar nas travessias para o centro da Praça dos Três Poderes. Inclusive para desestimular que o pessoal das conchas queira também fazer a travessia, mas no sentido oposto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (16) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

2 Comentários:

Blogger Blog Paulinho Veloso-Idéias e Fatos disse...

A esperança é a primeira que aparece e a última que morre...

sábado, 15 de janeiro de 2011 22:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É mais ou menos isso mesmo que você disse. E em todo o post. Faço além as ponderações a seguir. O autor da frase:
“Uma só. Dar o retorno combinado com o acionista”
Está certo, mas podia bem ter acrescentado, às vezes, hoje ele é bom gerente, pois dá o retorno combinado e amanhã deixa de ser para voltar a ser um bom gerente no depois de amanhã ou, às vezes nunca mais. E vale também ressaltar que a frase só cabe no setor privado, pois para o setor público não se sabe qual é o retorno, nem há como combinar com todos os acionistas.
E ainda dentro das ponderações que eu pretendia fazer, considerando agora a sua frase relativamente aos que elogiam a Dilma Rousseff para criticar Lula em que você diz:
“Foram ajudados nos primeiros dias do ano pela surpreendente inabilidade do ex-presidente quanto à semiótica”.
Não seria de se pensar que a inabilidade do presidente tenha sido exatamente para proteger a presidenta? Ele a elegeu e puxou para ele a fúria de quem é do contra, no início do mandato dela. Lá à frente, quando tudo estiver funcionando, tudo funcionará.
Usei a sua circularidade porque a achei bem adequada. E é bem mais circular do que parece, pois o que é mesmo funcionar na realidade brasileira, ou mundial? Talvez seja tudo continuar como está para ver como é que fica.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/01/2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011 12:00:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home