quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A herança (19/01)

A operosidade exibida pela presidente acontece em lacunas deixadas pelo endeusado presidente que se foi. Não poderia ser diferente. O grupo que a elegeu está no poder já faz oito anos. Ela mesma está no Planalto há quase seis. Falta só cair a ficha

A presidente da República está diante do desafio colocado aos grandes jogadores em bolsa, ou nos demais ramos de mercado. Depois de faturar na alta, dar um jeito de acumular também na baixa.

Em linguagem figurada, Dilma Rousseff adquiriu as ações do governo anterior baratinho, assumiu a Casa Civil no vórtice da grande crise de 2005.

Ocupou inteligentemente os espaços e chegou à cadeira mais ambicionada da política nacional. Seu principal combustível foi o apoio de um governo muito bem avaliado no momento decisivo. Especialmente de um presidente muito bem avaliado.

O antecessor tinha um estilo bastante peculiar. Eventuais problemas recebiam, na preliminar, tratamento destinado a preservar a figura do chefe e desqualificar a crítica e os críticos.

Ou eram produto da torcida contra, de quem não se conformava com o sucesso de sua excelência, ou eram factoides colocados no caminho de um país em marcha irreversível para o grande destino. Ou, no mais das vezes, ambas as coisas.

O comportamento até agora da sucessora é de um contraste brutal. Por temperamento ou convicção, ou talvez pelo desejo de implantar um modus operandi próprio, antes de acusar adversários pelos problemas ela parece tratar de buscar alguma solução. O país agradece.

Mas tudo na vida tem um custo. A operosidade exibida pela presidente acontece obrigatoriamente em lacunas deixadas pelo endeusado presidente que se foi. Não poderia ser diferente. O grupo que a elegeu está no poder já faz oito anos. Ela mesma está no Planalto há quase seis. Falta só cair a ficha.

O governo do PT não foi inventado em primeiro de janeiro de 2011.

Para o antecessor, as críticas à gestão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) eram movidas pelo desejo de que não desse certo. Mas hoje, depois de mais uma trapalhada em sua área de atribuições, foi exonerado o presidente do Inep, o órgão federal responsável.

Esta semana um grupo de ministros reuniu-se, por determinação da presidente, e começou a trabalhar para o Brasil daqui a quatro anos estar dotado de um sistema confiável de alerta para desastres climáticos.

Aqui também a aritmética é soberana. Oito é maior do que quatro. Se o PT está no poder há oito anos, se o país precisa de um sistema assim e se implantá-lo leva quatro anos, por que não foi feito entre 2003 e 2010?

Um argumento é que só agora se comprovou a prioridade. Não é bem assim. É verdade que a tragédia da serra fluminense tem uma dimensão acima de outras recentes. Mas houve outras recentes.

Esta semana o Comitê de Política Monetária reúne-se num cenário complicado. A inflação galgou o degrau, ou alguns degraus, ao longo de 2010. O remédio de praxe é subir os juros.

Mas essa subida complica a situação por outro lado, ao estimular uma valorização maior ainda da moeda brasileira. Que insiste em ignorar as medidas anunciadas com pompa e estrondo para emagrecê-la.

Está evidente a cada dia que o Banco Central cometeu um erro grave na passagem de 2008 para 2009, perdendo a oportunidade de reduzir fortemente os juros num cenário de demanda tendendo a zero. Como resultado, as taxas agora vão subir de um patamar já elevado.

Enquanto isso, o ministro do Desenvolvimento, talvez a figura mais próxima da presidente hoje em Brasília, quebra a cabeça para encontrar um jeito de proteger as exportações e a indústria brasileiras sem criar um ambiente tão protegido que desestimule a competição, a inovação e a produtividade. Não é trivial.

Nas comunicações e nos direitos humanos, os titulares tateiam caminhos para evitar que contenciosos deflagrados no período passado se tornem minas explosivas no caminho inicial de um governo que, por enquanto, parece contar com boa vontade geral.

Não que os projetos tenham sido completamente abandonados. Apenas tenta-se fugir da armadilha do confronto a qualquer custo, outra criação de período que acabou.

E tem o imbroglio dos direitos humanos no Irã. Assunto em que o ex-presidente nos meteu sem nenhuma necessidade.

Em termos práticos, por enquanto Dilma só tem conseguido tempo para lidar com problemas herdados. Há, é certo, o programa de erradicação da miséria. Mas não chega a ser novidade verdadeira.

O que Dilma estaria dizendo da herança que recebeu, se o governo que acabou no dia 31 de dezembro fosse da hoje oposição?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (19) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O que o novo governo herdou, é produto de seis anos de coordenação da nova presidente. Fora alguns poucos aspectos de estilo, a presidente foi apontada, saudada e eleita como a responsável por tudo o que aconteceu no governo Lula. Tudo o que teria acontecido de bom, lógico. O interessante é que o governo dela não tem a quem culpar. Exceto o governo de 1998/2002, a "midia", o neo-liberalismo, a inveja e por ai vai. Parece que a ficha vai demorar a cair.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011 13:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não confunda marketing com boa governança. O marketing visa alcançar altos índices de popularidade. A boa governança é um atributo que conforme a nossa ideologia nós concedemos ou negamos aos nossos governantes.
Assim quando Lula estava se referindo a herança maldita ele estava fazendo marketing. Quando eu dizia que a desvalorização cambial que FHC deixou para Lula, embora fosse pensada por ele – FHC – como uma herança maldita, era uma herança bendita eu manifestava a minha ideologia favorável a desvalorização cambial. Ideologicamente também sou contra o câmbio flutuante. Para mim o câmbio tem que ser arrastado. Sou contra o livre fluxo de moedas. Sou contra a desoneração do comércio exterior. Sou contra o Regime de Metas de Inflação. Portanto, tudo isso é, na minha ideologia, herança maldita. Tudo isso FHC deixou para Lula e Lula para Dilma Rousseff.
E há ainda heranças que eu considero malditas e às vezes foram consideradas pelo marketing como malditas e outras vezes como benditas. É o caso da Lei de Responsabilidade Fiscal que no meu entendimento é maldita, mas que muitas vezes o governo federal usa para afugentar, rebater ou impedir pressões que o governo de per si não é capaz de enfrentar. No caso, o governo pode muitas vezes satisfeito bradar o impedimento da Lei de Responsabilidade Fiscal como se fosse uma herança maldita que ele estaria utilizando a contra gosto.
O que não me parece justificável é julgar o governante pelos produtos de marketing que ele utiliza. É bem verdade que se a mentira fosse mais bem recriminada talvez se pudesse criticar um governo que faz marketing mentiroso. Só que nesse sentido todos os governos seriam ruins, pois todos fazem.
Assim, não vejo razão para elogiar ou agradecer um chefe de executivo porque ele parece tratar de buscar alguma solução, pois pode ser que ele só faz parecer, mas não busca e mesmo quando a busca não a encontra. Enquanto o outro chefe de executivo, que não parece tratar de buscar, busca e mesmo quando não busca, acha a solução.
Aliás, a se fiar nos relatos que no post anterior “Viajar juntos” de terça-feira, 18/01/2011 tanto o comentarista Paulo Araújo, no comentário enviado terça-feira, 18/01/2011 às 09h44min00s BRST, como o comentarista Juan José Verdesio, no comentário enviado terça-feira, 18/01/2011 às 18h36min00s BRST, no governo anterior se buscava soluções. So não as obteve porque faltou no final um pouco mais de verbas. Seria o caso de o governo federal alegar que não vai elevar a faixa de desoneraração do IR e com a receita obtida implementar o projeto do sistema de alerta contra enchentes. Seria uma barganha que o governo poderia fazer com os sindicatos. Só não a efetiva porque para ele é mais fácil desonerar o IR e aumentar o IOF, pois a receita do IR é repartida para os estados e municípios enquanto o IOF é livre.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/11/2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011 10:22:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Gostei muito deste post “Jogo de largada” de 16/01/2011 na parte que trata do populismo e homenageia o Leonel Brizola. Sobre o populismo há um post curto no blog do Marco A Nogueira que eu passei a freqüentar depois de uma indicação sua e cujo título é “Perguntas retóricas para um fim de ano intrigante” de terça-feira, 21/12/2010 que me deu a esperança de ver também a academia revisitar o conceito de populismo.
Bem, mas nessa parte houve um ponto que me pareceu que merece uma correção. Você disse:
“O antipopulismo costuma ser um bom disfarce para o político antipopular”.
Ora, não seria melhor dizer que o antipopulismo costuma ser um bom disfarce para o político não popular? Porque se ele é antipopular, o antipopulismo dele não é disfarce.
E no tema seguinte da tragédia no Rio de Janeiro você tenta estabelecer uma regra de bom gerente. Diz você:
“O bom oficial vai na frente da tropa, não atrás”.
Ficou parecendo que você não deu muito ouvido ao que o banqueiro-investidor lhe disse segundo o que você disse no post anterior “Jogo de largada” de 16/01/2011. Segundo o que você disse o banqueiro-investidor teria dito que há uma única regra que define o bom executivo:
“Dar o retorno combinado com o acionista”
Para mim a regra não é aplicável ao setor público, mas ao a aceitar, você deu a entender que no setor público também não caberia estabelecer várias regras. E essa de ir na frente pareceu-me muito fraca. Até porque ela só parece válida se o oficial for índio e se aceita a tese racista de que índio bom é índio morto.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/01/2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011 10:38:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Desculpe-me a falha, mas esse comentário que eu enviei quarta-feira, 26/01/2011 às 10h38min00s BR ficou totalmente deslocado. Ele deveria ter ido para o post "Viajar juntos" de terça-feira, 18/01/2011 e, portanto, além de ele ter ido parar erroneamente na caixa de comentário do post "A herança" de quarta-feira, 19/01/2011 ele ainda traz no seu corpo a informação equivocada de que o elogio a Leonel Brizola saíra no post "Jogo de largada" de 16/01/2011. Na verdade o elogio saíra no post "Viajar juntos" e era para lá que esse comentário deveria ter sido enviado. Correção aliás que foi feita hoje, quinta-feira, 17/02/2011 às 22h23min00s BRST.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/01/2011

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011 01:13:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home