sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Fora do jogo (21/01)

Quem quer ser potência tem que correr atrás, tem que poupar, industrializar-se, depender essencialmente de si próprio. E não se meter a dar lições para a humanidade enquanto vive do dinheiro alheio

O mundo observa atentamente o encontro bilateral Estados Unidos-China. Por um motivo singelo: se as coisas em ambos andarem bem, o mundo andará bem. O oposto também é verdadeiro.

O século 20 assistiu à substituição da hegemonia britânica pela estadunidense. Junto veio a Guerra Fria. Quando acabou, houve a ilusão momentânea de um mundo perenemente unipolar.

Houve também a ilusão da multipolaridade. Os fatos da vida agora desenham a reconstrução da bipolaridade, com a China ocupando o lugar que a União Soviética manteve na maior parte da segunda metade do século passado.

Mais uma ironia da História. O grande cisma sino-soviético a partir dos anos 1950 foi também explicado pelas diferenças quanto à “competição pacífica” entre capitalismo e socialismo, proposta pelos sucessores de Josef Stalin. Estratégia que a China de Mao Tsetung desprezava como revisionista.

Hoje é a China dos herdeiros de Mao (a foto dele continua a comandar a Praça da Paz Celestial) quem desenha o caminho nacional com base exatamente na tal competição pacífica.

Por um motivo: com a população que tem, se a China fizer tudo certo bastará esperar pelo dia de assumir a pole-position.

Aos olhos do Ocidente, a China tem atenuantes em relação à antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Seu processo parece ser essencialmente nacional, não se observam maiores movimentos de Pequim para exportar o modelo. E os chineses estão na Ásia, longe da Europa. Além de falarem chinês, ou mandarim.

Um processo de transição em paz da unipolaridade para a nova bipolaridade política parece bastante possível. Na economia já é fato.

Os Estados Unidos querem o acesso de seus produtos de bom valor agregado ao mercado chinês. Agora que a China já está plenamente industrializada há terreno de negociação.

Os chineses desejam segurança para os roteiros e fontes das matérias primas e produtos agrícolas e também a garantia de respeito a sua integridade nacional (Taiwan, Tibet). Nada que não possa ser calmamente resolvido. Hong Kong não foi?

Em Washington há desconfianças no tema militar, pelos gastos crescentes dos chineses na rubrica. Mas por qualquer critério eles estão ainda anos-luz atrás do que gastam os americanos.

O fio condutor das hegemonias planetárias nos últimos duzentos anos tem sido a industrialização. Ela é a expressão moderna da capacidade de inovar. Portugal e Espanha empreenderam os descobrimentos, mas a hegemonia restou para o Reino Unido. Depois vieram os Estados Unidos, a URSS e agora a China. Os três fizeram da industrialização o motor.

Até por não haver como avançar na ciência e na tecnologia, inclusive a militar, sem apoiar-se fortemente na indústria. E sem fazer da industrialização uma cultura. E um dínamo para a educação.

E nós? Infelizmente, a ascensão da centro-esquerda e da esquerda ao poder não rompeu com as deformações de uma economia subalterna, essencialmente produtora e exportadora de matérias primas. Em vez de poupança interna e industrialização, preferimos a comodidade de viver à custa do esforço e do sacrifício alheios, inclusive para manter nosso arremedo de estado de bem-estar social.

No governo, a esquerda brasileira reciclou a ideologia da subalternidade, enquanto se entretém falando mal das elites que governaram o Brasil nos últimos cinco séculos.

E a subalternidade vem maquiada com tinturas ultramodernas, como o suposto antagonismo entre industrialização e responsabilidade ambiental. Mas sob a maquiagem é só o arcaico agrarismo.

Viver da exportação de primários -ou semi- para os Estados Unidos era colonial. Já fazer o mesmo para a China é apresentado como sinônimo de afirmação nacional soberana.

O antecessor de Dilma Rousseff não estava errado ao ambicionar um papel protagonista para o Brasil. O problema é que esse protagonismo não se alcança apenas com discursos bonitos em duvidosos fóruns multilaterais, ou com uma diplomacia de viés presidencial. Ou com tentativas de colocar a qualquer custo em pé todos os ovos.

Quem quer ser potência tem que correr atrás, tem que poupar, industrializar-se, depender essencialmente de si próprio. E não se meter a dar lições para a humanidade enquanto vive do dinheiro alheio.

Nem se satisfazer com o elogio interessado de quem vem aqui apenas para ganhar muito dinheiro rapidamente e cair fora com ele depois.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (21/01) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Blogger pait disse...

Os brasileiros são os americanos do sul. Já os estadunidenses são os brasilianos do norte.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011 20:52:00 BRST  
Blogger pait disse...

Segundo comentário, agora sem piada. A questão é que a esquerda nacionalista confunde indústria - produção apoiada em ciência e tecnologia - com fábricas daquelas da época da revolução industrial, cheia de operários robotizados, intoxicados, e sindicalizáveis. Aliás, a direita também pensa assim.

Como só os mais desesperados querem esses empregos, a indústria fica sem apoio. Por exemplo, as barreiras de importação de computadores protegem montadoras que têm valor agregado nulo, e aumentam os custos das indústrias de software e de componentes. Trabalhar em alta tecnologia fica inviável, sobram os empregos em agricultura, mineração, e finanças. Enquanto isso os ministérios e bancos oficiais se acham o máximo, por criarem dificuldades e venderem facilidades.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011 21:06:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

acho engraçado essas previsões sobre a china, só falta combinar com os chineses; falo desse um bilhão de carinhas de olhos puxados, não da elite que os coordena, por enquanto.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011 21:12:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Um comentário um tanto à margem.

Hipólito José da Costa partiu de Lisboa em 10 de outubro 1798 para os EUA, a serviço do governo português e a mando de D. Rodrigo de Souza Coutinho (futuro conde de Linhares). Partiu a bordo da corveta americana William e no mesmo dia iniciou um diário pessoal, que manteve atualizado até 27 de dezembro de 1799.

Em 1955 a ABL, na Coleção Afrânio Peixoto, publicou o diário sob o título DIÁRIO DA MINHA VIAGEM PARA FILADÉLFIA (1798-1799). Recomendo vivamente. Comprei o meu exemplar bem baratinho em sebo de SP. Acho que foram só R$ 12,00.

Tudo isso para lhe dizer que o neologismo "estadunidense" seria impossível na época de Hipólito. O tempo todo Hipólito registra que está na América, e quando se refere aos cidadãos da primeira república do mundo moderno ele os designa sempre por "os americanos". Por que? Simples. Era inconcebível para qualquer europeu, mesmo que natural da Colônia do Sacramento, dizer-se americano ou mesmo brasileiro. Ressalvo que afirmar-se brasileiro na época de Hipólito, e até mesmo durante quase toda metade do século XIX no Brasil, era algo bem mais ligado à naturalidade, semelhante ao que hoje são os naturais de SP, MG, RJ, RS etc. Mesmo exilado em Londres, Hipólito pensava-se e agia como um integrante do império português e súdito de SAR, assim como também os espanhóis naturais das colônias hispânicas.

Observo que o relativismo, que hoje nos aborrece e nos insulta (vide a defesa do direito ao apedrejamento de mulheres) com o multiculturalismo politicamente correto, não reconheça o direito o direito dos cidadãos dos EUA a sua auto-denominação original, nascida com a Revolução Americana: americanos. Ou seja, a cidadania e a identidade americana forjou-se sobretudo na guerra de libertação contra o opressivo e absolutista colonialismo inglês: americanos contra ingleses. Essa identidade não foi roubada dos americanos nascidos no Continente(e afinal, essa identidade nem sequer existia), mas foi constituída pela primeira vez no Continente pelos cidadãos e fundadores dos Estados Unidos da América.

sábado, 22 de janeiro de 2011 01:53:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Hipólito passou o seu 4 de julho em New York, com população ele estimou, com dados de 1795, em 52.272 habitantes:

“Hoje se celeborou aqui o aniversário da declaração da Independência da América, e declaração dos direitos do homem, o que se costuma fazer todos os anos. Juntaram-se todas as milícias da cidade, em uma rua (porque aqui não há praças), e um corpo de artilharia de milícia em um lugar chamado Bateria, as diferentes frondescentes sociedades particulares que aqui há, isto é, a Sociedade Democrática, a Sociedade dos mecânicos (coperssociety), a Sociedade Ordem Colúmbia, a Sociedade dos Carreiros, etc., etc., etc., e quando estas sociedades chegaram à Bateria, salvou a artilharia, e depois se formaram em ordem de procissão.” (continua, na página 151)

sábado, 22 de janeiro de 2011 01:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

enquanto grande parte dos "analistas" de plantao se reocuam com abobrinhas, parabens Alon, ce foi + 1 vez direto ao ponto. cadê politica industrial? cadê investimento feroz em educacao?

sábado, 22 de janeiro de 2011 07:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
A diplomacia brasileira tinha viés presidencial porque Lula deu ao Brasil uma dimensão maior do que o país tinha e tem. Como você diz:
"Quem quer ser potência tem que correr atrás, tem que poupar, industrializar-se, depender essencialmente de si próprio. E não se meter a dar lições para a humanidade enquanto vive do dinheiro alheio.
Nem se satisfazer com o elogio interessado de quem vem aqui apenas para ganhar muito dinheiro rapidamente e cair fora com ele depois".

Daqui a 20 anos, se o Brasil industrializar-se, se o país desenvolver tecnologia própria para fazer a bomba, para enviar ao espaço um foguete tripulado, dá para o país se impor como potência por si só.
Sem Lula, só com a Dilma, o Brasil volta ao "rez-de-chaussée".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/12/2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011 16:57:00 BRST  

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