sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Até a próxima (14/01)

Catástrofes naturais costumam ser um corredor polonês para o político. A sorte dele depende do que faz, mas é função principalmente da abordagem, da atitude, enquanto o público ainda presta atenção na coisa

Há um meio de minorar, no tempo, o impacto negativo dos fenômenos naturais na vida das pessoas: eleger governantes tão bons de providências quanto são de entrevistas e photo-ops. Mas isso é uma utopia.

Não que não deva ser buscada. Apenas é inatingível. Como por exemplo a objetividade jornalística.

Catástrofes provocadas pela natureza (ou pelas ações do homem junto à natureza) costumam ser um corredor polonês para o político. A sorte dele depende do que faz, mas é função principalmente da abordagem, da atitude, enquanto o público ainda presta atenção na coisa.

Ontem Dilma Rousseff evitou o erro número zero de George W. Bush (ele mesmo diz isso) na tragédia de Nova Orleans. Colocou os pés no barro. A foto de um Bush na janela do Air Force One olhando a coisa de longe transmitiu distanciamento, alheamento.

Quando os democratas, com grande senso de oportunidade, associaram essa suposta frieza ao fato de a maioria dos atingidos serem negros foi fogo na gasolina.

Mas manter distância nem sempre é ruim, do ângulo do poder. O antecessor de Dilma era mestre em escapulir de situações de risco à imagem. Somada ao talento inato de colocar a culpa dos problemas em terceiros, a fórmula provou-se boa.

É sempre complicado em desastres como agora no Rio, ou nos alagamentos rotineiros em São Paulo, medir exatamente quanto da responsabilidade é dos governantes. Costuma ser subjetivo. Em geral, a porcentagem de culpa atribuída costuma oscilar inversamente ao apoio político-midiático.

Ou melhor, à disposição oposicionista e crítica.

No Rio, o governador Sérgio Cabral (PMDB) beneficia-se de suas ótimas e amplas relações para governar praticamente sem oposição ou crítica. Então não se ouvirão muitos ataques a ele, justos ou injustos.

Cabral pode até dar-se ao luxo de tirar férias no exterior numa época sabidamente complicada.

Em São Paulo há, pelo menos, oposição política do PT aos sucessivos governos do PSDB. Sempre tem alguém para colocar a boca no trombone e atacar as autoridades. O que é bom, pois ajuda a quebrar a inércia governamental, um fenômeno que independe de partido ou facção.

Na capital paulista desta vez as águas não inundaram certos trechos que antes sofriam, porque a prefeitura, criticada, tomou providências. Agora são outros a sofrer e a exigir ação das autoridades. E a caravana roda.

Já no Rio é justo reconhecer que o volume destas cheias teria causado danos gravíssimos mesmo se tudo tivesse sido feito certinho, no padrão. O maciço de serras do Sudeste está localizado em área tropical. Então uma hora a chuva vai cair para valer e os rios vão subir idem.

Assim como sobem nas áreas que recebem as águas do degelo onde há montanhas em clima frio.

Uma solução é proibir as construções perto dos leitos dos rios e córregos, ou nas encostas. Fácil de falar, difícil de fazer. Mas não impossível. Só depende de autoridade. O problema é que o exercício desse tipo de autoridade no Brasil é associado a autoritarismo.

Para todo prefeito ou governador que tente deslocar gente que mora em situação de risco sempre haverá um adversário a conclamar a população a resistir.

Se os ameaçados forem pobres, a acusação será de insensibilidade social. Se forem ricos, ou de uma classe média bem relacionada, os canais competentes encarregar-se-ão de fazer chegar ao governante a inconveniência da medida.

De tempos em tempos vai continuar morrendo gente.

Jornalistas esquadrinharão as execuções orçamentárias para saber quanto porcento da verba foi efetivamente empregada.

Autoridades reunirão séquitos de assessores e comparecerão aos locais atingidos, para mostrar sensibilidade e anunciar medidas, desta vez sem dúvida supereficazes.

E os marqueteiros correrão aflitos para auscultar as pesquisas. Para saber o efeito líquido da coisa no prestígio do chefe. Para saber se a operação comunicacional funcionou.

E a vida seguirá. Até a próxima catástrofe.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (14) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

E ela virá. Outra vez. Ou elas virão. E as emissoras de TV mostrarão os seus históricos de cobertura dos mesmos locais, dos mesmos morros, do mesmo lixão. Talvez até das mesmas pessoas, como aquela valorosa senhora e seus valorosos vizinhos que a salvaram. Ela, apesar do sufoco, tentou salvar também o cachorro. Pena que não deu. Seria maior a glória. Talvez, reencontrem o bebê que ficou salvo pelo pai dentro de um buraco por horas a fio. Enfim, todos estarão lá. Do cachorrinho valente, à valente adolescente que, encontrada e salva de um monte de barro e água, deu à luz. E o bebê, herói que resolveu nascer, apesar de tudo. Ou seja, a velha senhora, como os economistas batizaram a carestia que insistia em permanecer firme e forte, trouxe companhia. Pois é. As velhas senhoras, a parente próxima Dona Catástrofe e a dileta Dona Inflação, velha e senhora conhecida, duas baita "entas", de respeito, resolveram fazer uma visita conjunta. Não demorem muito. Ainda será que funciona a simpatia, lá do interior, de colocar vassoura de cabeça para baixo, atrás da porta, para expulsar visitas inconvenientes? Pois é.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011 15:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A Lucidez Perigosa

Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011 15:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Consistente, Anônimo-sexta-feira, 14 de janeiro de 2011 15h39min00s BRST. Mas, que virão virão. Claras e realmente, muito perigosas.
Swamoro Songhay

sábado, 15 de janeiro de 2011 13:13:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Os desastres naturais ocorrem no mundo todo. E a reação dos políticos seja ela qual seja é tratada também de modo semelhante. Quando ocorreu Katrina, criticou-se o Bush por não ter reagido a tempo. Se, entretanto, ele tivesse arregaçado as mangas e participado de um mutirão de ajuda aos necessitados, não teria feito menor diferença. E a mídia contrária o criticaria dizendo que era demagogia barata.
Há a crítica até bem razoável de que não se adotou as medidas preventivas adequadas. Em Katrina, nas monções na Índia, nas minas chinesas, nas avalanches de neve nos Alpes ou nos Andes, nos terremotos e tsunamis pelo mundo, as medidas preventivas adotadas foram e são sempre insuficientes. Ai eu lembro, uma conversa com um engenheiro há mais de 30 anos em que ele dizia que o bom engenheiro era o que construía um prédio que caia diante de uma destes imprevistos e não o que construía um prédio para não cair. Para construir um prédio que não caia, o cálculo é muito mais fácil. O custo do prédio é que o torna inviável.
Agora não resta dúvida que as medidas de planejamento urbanísticos no Brasil são irrisórias. Em Belo Horizonte, as ruas dentro da Avenida do Contorno que foram projetadas no final do Séc. XIX são largas. Fora do perímetro da Avenida do Contorno, em áreas projetadas até mesmo depois da década de 60, há ruas que comportam no máximo três veículos enfileirados, não permitindo para uma via de mão dupla nem o estacionamento dos dois lados da rua.
Agora há que se considerar também as condições de miserabilidade em que vive a grande maioria dos brasileiros. Como não ser autoritário impondo aos pobres normas de segurança, quer requer um nível mínimo de recursos para serem cumpridas?
Você se expressou bem quando disse
“Uma solução é proibir as construções perto dos leitos dos rios e córregos, ou nas encostas. Fácil de falar, difícil de fazer. Mas não impossível. Só depende de autoridade. O problema é que o exercício desse tipo de autoridade no Brasil é associado a autoritarismo”.
A questão que surge é saber se você disse “associado a autoritarismo” em tom crítico aos que fazem essa associação ou por reconhecer que dada a pobreza de uma quantidade muito grande de brasileiros o exercício desse tipo de autoridade é realmente autoritarismo.
Sem esquecer que quando alguém ainda que de tendência autoritária tem uma boa idéia, como o projeto cingapura, é logo criticado porque pertence a uma corrente política mal vista nos meios mais intelectuais.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/01/2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011 23:39:00 BRST  

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