sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um último serviço (31/12)

Diante do comportamento de quem sai, qualquer gesto ou palavra mais civil de quem entra acabará batendo como agradável pancada de ar fresco no ambiente político

Se tivesse tempo e condições daria uma boa olhada nas raízes de um detalhe distintivo entre a política norte-americana e a brasileira. Enquanto aqui o presidente que sai saca sem perdão no cheque especial de sua origem pobre, nos Estados Unidos o ser negro está explicitamente ausente do discurso de Barack Obama. Pelo menos na função fartamente mobilizada aqui pelo homólogo: vetor de autovitimização em situações de dificuldade política.

A negritude esteve o tempo todo na campanha eleitoral que levou Obama à Casa Branca, mas o hoje presidente evitou como pôde na época vitimizar-se. E continua na mesma linha. Naquelas paragens esse tipo de coisa pega mal, o sujeito passa por "loser" (perdedor).

Ao contrário, o candidato e presidente democrata procurou e procura sempre situar a ascensão social e política dos compatriotas negros, bem como a própria, no âmbito dos valores e possibilidades existentes na América construída pelos brancos.

É um presidente 100% ocupado em promover a união nacional enquanto transforma o país.

Deve haver boas explicações para o contraste, e se você que me lê tiver sugestões bibliográficas eu agradeço de antemão.

Esse prólogo vem a propósito de um registro. Celebra-se em 2011 o sesquicentenário (150 anos) do início da Guerra Civil dali. A guerra que infelizmente não tivemos aqui, por mais chocante que possa lhe parecer a afirmação.

O acerto de contas entre o Norte e o Sul, entre a manufatura e a plantation, entre o trabalho livre e a escravidão. Daí o "celebra-se", mesmo tendo sido uma guerra.

Aquele elogio quase cultural da altivez -que nada tem a ver com arrogância- possivelmente beba algo dos resultados dessa ruptura sangrenta, que consumiu mais de meio milhão de vidas, mais de dois terços delas civis.

Cada país tem sua situação, sua História. Aqui, por exemplo, passa quase em branco um comportamento algo bizarro do presidente que sai, num aspecto específico. Já comentei o assunto, mas vale voltar. É inusual o tratamento que ele dá a certos adversários derrotados.

O quase ex-presidente amargou quatro grandes derrotas antes de se eleger, reeleger-se e eleger a sucessora. Para governador de São Paulo em 1982 e para presidente da República em 1989, 1994 e 1998. Após nenhuma delas sua excelência recebeu dos vitoriosos tratamento como o que hoje dispensa aos adversários caídos. Sempre foi tratado com respeito político.

O presidente buscou nas eleições derrotar alguns nomes da oposição que segundo ele atrapalharam sua vida no poder. São duas coisas normais, a oposição tentar atrapalhar o governo e este buscar reduzir ao mínimo a força política da oposição.

Ainda que na narrativa reste um buraco. O governo tinha base teoricamente suficiente para aprovar a CPMF no Senado. Não aprovou porque a base se dividiu.

Na sua guerra santa particular nos estados, o ainda presidente teve sucesso em algumas empreitadas mas não em outras. Do mesmo modo que sua excelência tripudia no Ceará, no Amazonas e no Piauí poderia receber o troco em São Paulo, Santa Catarina, Goiás e no Rio Grande do Norte. Ou em Minas Gerais.

Até por certo detalhe. Uma análise mais detida dos cenários estaduais mostra que as alianças eleitorais inspiradas pelo Planalto foram bem onde o governador e o candidato a governador cuidaram eles próprios da missão e foram mal onde a coisa passou a depender do presidente mais do que seria saudável.

Mas quando o leitor estiver lendo estas linhas faltarão poucas horas para Luiz Inácio Lula da Silva envergar o pijama. E aí inquetações como as desta coluna ficarão ainda mais desimportantes.

De todo modo, o antecessor presta um último serviço a Dilma Rousseff. Diante do comportamento de quem sai, qualquer gesto ou palavra mais civil de quem entra acabará batendo como uma agradável pancada de ar fresco no ambiente político.

Sem originalidade

O Congresso pato manco da Venezuela outorgou ao presidente Hugo Chávez poderes para governar por decreto. Um ato de força, visto que está para assumir uma nova e mais plural legislatura.

Talvez tenham se inspirado numa instituição nossa, a medida provisória. Na essência é a mesma coisa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (31) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

As melancias e os solavancos (30/12)

Arrumar confusão para o governo na medida certa, sem fechar as portas para futuras composições, eis uma arte da vida parlamentar. O problema é quando se erra na medida. E não há receitas 100% garantidas

O noticiário anda pontilhado de informações e boatos sobre uma
eventual instabilidade na base governista, especialmente na Câmara dos Deputados. As razões dos aliados do PT são especialmente duas: perda de substância na máquina e previsões de aperto orçamentário.

Aguarda-se agora a distribuição dos espaços nos escalões inferiores, preciosos para efeito de execução orçamentária e programática. Os otimistas dizem que no fim tudo se acomodará, mas os nem tanto anteveem um surto protecionista: cada subgrupo já contemplado fechará na sua área o caminho para os demais. E coitado de quem sobrar na chuva.

Já no governo o cenário é visto com naturalidade e certo otimismo cauteloso. Se estar espremido numa administração amplamente dominada pelo PT é desconfortável, pior ainda para o aliado seria de repente enxergar-se empurrado à oposição.

Assim, imagina o governo, uma hora a turma se ajeita dentro do barco para a viagem, sem compaixão pelos que ficaram a ver navios.

O então deputado Pedro Corrêa (hoje ex) tinha um discurso pronto quando lhe perguntavam se por causa de insatisfações parte da base poderia caminhar para a oposição. "Óculos escuros à noite, sapato branco e oposição são três coisas que ficam bem nos outros." É a síntese da política brasileira desde sempre.

Corrêa era presidente do PP e foi vitimado na crise de 2005, mas seu pensamento anda mais vivo que nunca. Basta recordar a manifestação dos governadores do PSDB dias atrás, com o anfitrião alagoano Teotônio Vilela Filho à frente -e explicitamente.

Pode haver variações no enredo? Sim, desde que preenchidos certos requisitos. É preciso em primeiro lugar uma oposição disposta a atravessar o deserto para criar dificuldades ao governo. É necessário também um núcleo parlamentar de dissidência, com expectativa de poder futuro- expectativa que pode inclusive ser realizada com a adesão ao poder presente.

Sim, a política tem dessas coisas. Quem ainda lembra que um dos
senadores mais ferrenhamente oposicionistas entre 2003 e 2006 era o então representante do PMDB do Rio Sérgio Cabral?

E quem ainda lembra que o então núcleo oposicionista do PMDB da Câmara dos Deputados, Michel Temer e Geddel Vieira Lima à frente, teve papel decisivo na vitória de Severino Cavalcanti em 2005?

Arrumar confusão para o governo na medida certa, sem fechar as portas para futuras composições, eis uma arte da vida parlamentar. O problema é quando se erra na medida. E não há receitas 100% garantidas.

O sujeito pode enganar-se acreditando que sempre haverá uma brecha para se aproximar do poder. Costuma ser um engano quase tão perigoso quando imaginar que o governo é devedor por serviços prestados.

Fora algums grupos e personalidades de destaque, o Congresso Nacional foi algo escanteado na composição ministerial de largada de Dilma Rousseff.  O núcleo da futura administração confia que eventuais insatisfações serão resolvidas do segundo escalão para baixo e por meio da execução orçamentária.

É habitual um freio nos gastos em começo de caminhada, então o governo acredita que terá pelo menos seis meses de fôlego. Nos quais suas excelências do outro lado da Praça dos Três Poderes, pela teoria, esforçar-se-ão para mostrar utilidade e serviço na nova era.

"As melancias vão se acomodando na carroceria do caminhão conforme os solavancos da estrada", resume um articulador político do Palácio do Planalto no Congresso Nacional.

Já na turma que se movimenta para provocar uma disputa nesta eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados a expectativa é diferente. Segundo eles, não se trata de um novo governo, mas da continuação de um estilo.

"Os deputados já sabem o que podem ou não esperar de um governo completamente dominado pelo PT, promessas de um maravilhoso futuro novo vão cair em ouvidos treinados", resume o parlamentar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (30) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Jogo do Poder com Carlos Zarattini (29/12)



O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Gargalos na mentalidade (29/12)

Infelizmente, não há entre os movimentos sociais nenhuma APCFVEPTDSTAN (Associação de Pais Cujos Filhos Voltam da Escola Pública Todo Dia Sem Ter Aprendido Nada)

A história da humanidade não é redutível a equações, e é complicado enxergá-la como ciência. Fosse uma, seria relativamente simples prever. Há entretanto certas regras. E prestar atenção nelas ajuda um bocado.

Uma regra é a inexistência de nexo absoluto entre os recursos naturais de um país e seu progresso. Uma parte da explicação pode ser debitada na conta do colonialismo, do imperialismo, mas enxergar a coisa só por aí seria miopia. 

Há bom exemplo de país fortemente subsidiado (o contrário de “explorado”) mas incapaz de dar o salto adiante.

Assim como existem ótimos casos de nações cujo praticamente único recurso natural é a população e apesar disso, ou por causa disso, seguem adiante aos pulos.

Já nós permanecemos mentalmente acorrentados a um pensamento pré-moderno, segundo o qual a natureza  é a fonte de toda riqueza.

Foi o que se viu na campanha presidencial deste ano, no debate sobre o petróleo do pré-sal. Polemizou-se sobre o modelo do negócio (concessão ou partilha), mas não sobre o que fazer com o dinheiro.

O modelo pode ser importante, mas em última instância a diferença entre as propostas é contábil. Quanto da receita fica com o governo e quanto com o parceiro privado.

O verdadeiro nó, se o foco estiver na soberania do país, é como converter a receita do pré-sal em alavanca para a inovação científica e tecnológica. Não apenas na esfera da indústria do petróleo, mas na economia nacional como um todo.

Pois se há uma regra bem estabelecida na História é a vantagem competitiva dos povos capazes de inovar e estar adiante de seu tempo, no esforço para controlar os elementos da natureza, na arte de fazê-los trabalhar para nós.

Qual é o maior desafio brasileiro? A forte desigualdade social é fenômeno algo recente. E vai sendo enfrentada. Imbatível mesmo é nossa resistência a transitar de uma sociedade recostada no extrativismo para uma fincada na indústria, no conhecimento, na agregação de valor-trabalho.

Tudo nos empurra para trás. O agrarismo está no nosso DNA. O único lugar em que o capital proveniente da agricultura serviu para catapultar a industrialização --São Paulo-- acabou ocupando o nicho de “opressor” no imaginário modelado pelas demais elites brasileiras.

Na era das delícias consumistas do real forte, nosso processo de “libertação nacional” vem se resumindo a uma substituição: sai o “Made in USA” e entre o “Made in China” (em inglês mesmo; em mandariam ficaria initeligível). 

Confira você mesmo. Dos presentes que deu nestas festas de fim de ano, quantos portavam a marca “Indústria Brasileira” (ainda é assim”)?

O imenso saldo comercial externo produzido pela agricultura é consumido em importações. E muitas vezes quando importamos maquinário é para alimentar indústrias apenas montadoras.

O Brasil orgulha-se da Embraer. Mas o que aconteceria à empresa se de repente ficasse proibida de importar tecnologia e componentes? 

Quando queremos vender aviões para alguém precisamos antes pedir licença a terceiros.

Ouve-se por aí que o grande desafio de Dilma Rousseff será consertar os gargalos na infraestrutura. É algo relativamente simples de fazer numa época de prosperidade continuada.

Difícil mesmo será consertar os gargalos na nossa mentalidade. A educação pública, por exemplo, é tratada como uma joint-venture entre os políticos grávidos de promessas nas eleições e os sindicatos das categorias profissionais diretamente envolvidas. 

A expressão “movimentos sociais” é um rótulo bonito para mascarar o corporativismo.

Sim, pois não se conhece entre os movimentos sociais nenhuma APCFVEPTDSTAN (Associação de Pais Cujos Filhos Voltam da Escola Pública Todo Dia Sem Ter Aprendido Nada).

Nosso grande desafio não está nas profundezas do pré-sal, nem nos buracos das estradas, ou na falta delas. Está em transformar a escola pública brasileira, de baixo até em cima, em um dínamo do saber, da ciência, da inovação, da competição, do progresso. 

Uma escola completamente voltada para a ascensão profissional e social do aluno e da família dele. Simples assim.

Infelizmente, não se nota no governo que entra um desejo de promover essa ruptura tão necessária. Parece ainda acorrentado ao continuísmo, ao corporativismo. 

Mas tomara que eu esteja errado, e não seria justo fazer pré-julgamento. 

Melhor torcer para que desta vez aconteça um milagre.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (29) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dúvidas sobre a agenda (28/12)

O controle "social" da mídia tem paralelismos com a capacidade nuclear. A possibilidade de usar a arma é útil para efeito de dissuasão, mas uma vez disparado o primeiro míssil a coisa muda completamente de figura

Na reta final do presidente que vai para casa sobressai o desagrado dele com a imprensa. É verdade que nestes oito anos o chefe do governo foi alvo de artilharia. Era previsível. Mas mesmo assim reelegeu-se, elegeu a sucessora e sai otimamente bem avaliado.

Ou seja, ele venceu a guerra e a liberdade de imprensa foi preservada. Qual o motivo de tanto incômodo?

Talvez porque para sua excelência certas guerras ainda não tenham terminado.

O quase ex-presidente parece ter a pretensão de dominar a narrativa atual e vindoura sobre si próprio. Seria sem dúvida uma fonte de poder futuro, e estes dias assistem a uma notável exibição de músculos, a um esforço imenso para reger os elementos.

Que entretanto são mais fortes.

Há também a preocupação com os quatro anos até 2014. Na teoria, Dilma Rousseff não domina tão bem as artes de vitimizar-se e demonizar os críticos, e deverá enfrentar mais dificuldades.

Ela seria mais vulnerável a pressões, mais arrastável a vir combater na planície. Daí o bombardeio preventivo.

Mas a suposta fragilidade de Dilma na comunicação é por enquanto teoria. Ela aprendeu outras artes da política, pode muito bem aprender também aqui.

Ou talvez já tenha aprendido, com a expertise apenas encoberta pela ubiquidade do mestre.

Dilma ofereceu na Casa Civil demonstrações de apetite e frieza para lidar com o poder. Foi contemporânea da consagração da linha de que a melhor defesa contra qualquer crítica é o ataque, a desqualificação do crítico.

O governo que sai operou espertamente um elo imaginário entre o "controle social da mídia" e a "democratização da comunicação". Como esse "social" significa também "estatal", o elo fica algo prejudicado. Uma contradição insolúvel na vida prática.

O quase ex-presidente deixa para a sucessora pelo menos uma herança maldita.

Como Dilma administrará a ameaça de interferência estatal mais direta no conteúdo produzido pelas empresas e pessoas que vivem de se comunicar?

O bom senso recomendaria zerar o jogo e não trazer automaticamente para si os contenciosos do antecessor, até por ela própria não ter maiores contenciosos na área.

Mas isso exigiria um grau de independência que a presidente eleita ainda precisa exibir. E como o ex-presidente reagiria à inflexão? Bem ele, que já conclamou o PT a desencadear a guerra em 2011.

O controle "social" da mídia tem paralelismos com a capacidade nuclear. A possibilidade de usar a arma é útil para efeito de dissuasão, mas uma vez disparado o primeiro míssil a coisa muda completamente de figura

Uma curiosidade sobre esta largada de governo Dilma Rousseff é saber se virá dela o primeiro tiro, saber se interessa ao novo governo que o tema da guerra particular do PT contra a imprensa (e vice-versa) domine o primeiro ano de mandato.

O assunto tem tudo para empurrar a administração ao atoleiro, mas vai saber? Já o jornalismo teria matéria prima de primeira. Notícia não iria faltar.

Ainda mais se a coisa viesse junto com a reforma política dos sonhos do presidente que sai, que tentou mas não teve força para abolir a eleição direta dos representantes do povo na Câmara dos Deputados, nas assembleias estaduais e câmaras municipais.

Tentou impor o voto em lista fechada, a eleição indireta de deputados e vereadores em listas partidárias preordenadas (pelos caciques das legendas).

Claro que com o simpático chamariz do "financiamento exclusivamente público".

Se essa for mesmo a agenda de 2011, vai ter diversão garantida.

Lá como aqui

Como diria Mark Twain, parecem ter sido algo exageradas as notícias sobre a morte política de Barack Obama após a surra aplicada pelos republicanos nos democratas na eleição intermediária de novembro último.

A reta final deste Congresso americano, pato manco no jargão deles, foi ineditamente produtiva, aprovando a prorrogação do corte de impostos, ratificando o tratado militar com a Rússia e outras medidas de interesse do governo.

O detalhe é que em todas as votações ou houve acordo ou Obama rachou o campo adversário. Os republicanos parecem querer evitar que Obama os acuse de investir indefinidamente em impasses prejudiciais aos eleitores.

O desafio da oposição a Obama é ser destrutiva e construtiva na combinação certa.

Mais ou menos como aqui.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (28) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um partido patrulhado (24/12)

O PSDB tem vergonha de defender os valores de certa classe média. Prefere ter com esse eleitor, conservador, uma relação de concubinato. Aceita bem o patrulhamento dos adversários

Diante das condições objetivas, o PSDB saiu-se bastante bem no processo eleitoral. Elegeu oito governadores, fincados inclusive em estados fortes em economia e população, e manteve bancadas relevantes no Congresso Nacional.

Na eleição presidencial fez 44% dos votos válidos no segundo turno, quando a aprovação do governo adversário beira a unanimidade. Claro que ganhar é sempre infinitamente melhor do que perder, mas ter o apoio de quarenta e quatro em cada cem eleitores que saíram de casa para votar não foi pouco.

Ainda mais quando um presidente como o que sai se joga e joga o governo na campanha do jeito que fez.

Mas derrota é sempre derrota, e abre-se uma temporada de disputa algo renhida por espaços, por liderança. O ensaio preliminar para a luta de mais adiante (2014) parece ser a troca (ou não) de guarda na presidência do partido, agendada para a primeira metade do ano que vem.

O país sairia ganhando se a disputa no PSDB, chamada por alguns de “refundação”, acontecesse com algumas pitadas de petismo, ainda que hoje o próprio PT tenha abandonado certos rituais.

Refiro-me à obsessão por teses, documentos, divergências colocadas por escrito, resoluções formais. Falta um pouco disso ao PSDB. Colocar no papel, preto no branco, o que propõe para o Brasil de diferente em relação ao governo que aí está.

Vem sendo um problema tucano nesta década de hegemonia federal petista. Sabe-se o nome dos candidatos a conduzir a sigla de volta ao poder, mas não se tem ideia definida sobre o que propõem. Ou no que diferem entre si.

Sem falar na pergunta sem cuja resposta dificilmente a legenda chegará ao porto seguro.

“No que exatamente um Brasil governado pelo PSDB seria melhor do que é hoje?”

Os tucanos comportam-se como se tivessem algum direito de origem divina ao poder. Um destino glorioso inevitável, explicável por  expressões dogmáticas, como “superioridade na gestão”. Que pode significar tudo, ou nada.

Mas talvez essa fuga para o nebuloso seja menos fruto da vontade que da necessidade. Como diria Guimarães Rosa, mais precisão que boniteza.

O espaço da centro-esquerda, da social-democracia, está no Brasil ocupado pelo PT. Que, como todo partido reformista, busca operar melhorias no capitalismo mas sem contestá-lo. Oito anos de PT em Brasília não mexeram na estrutura fundiária, nem no domínio dos bancos, nem na arquitetura da propriedade.

Há portanto espaço para uma “oposição de esquerda”, mas essa possibilidade está amortecida pela participação dos embriões dessa esquerda no bloco de poder reformista.

Se o PSDB não tem vocação para tal, há também espaço para uma oposição à direita do PT. Poderia ser do Democratas, não estivesse o partido tão empenhado na autodestruição.

Se o maior ativo do petismo após estes oito anos é ter acelerado o ingresso dos pobres na classe média, com a formalização do trabalho e a ampliação do crédito, é verdade também que essa classe média robustecida não necessariamente vota no PT ou gosta do PT.

Os resultados eleitorais de outubro foram esclarecedores a esse respeito.

Nota-se porém no PSDB certa ojeriza, certo horror a caminhar por aí. Do que muitos tucanos gostariam mesmo seria receberem do PT um tratamento de “iguais no progressismo”. Um certificado de que -ufa!- não são “de direita”. O problema é que para receber tal certificado será preciso aderir, abrir mão do projeto de poder.

O PSDB lida mal com os valores e desejos de certa classe média emergente, que não se sente tão bem representada pelo PT. Tem vergonha de defendê-los. Prefere estabelecer com esse eleitor, conservador, uma relação de concubinato. Aceita bem o patrulhamento dos adversários.

Quer o voto conservador, mas não quer ser visto como conservador.

Da redução de impostos à proibição do aborto, da redução da maioridade penal à proibição do consumo de drogas, nada dessas coisas mobiliza verdadeiramente o PSDB.

Se bobear, até o PT é capaz de chegar antes nesse nicho de mercado.

Natal

Volto semana que vem. Então boas festas, muita felicidade e muita paz para todos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (24) no Correio Braziliense

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Recorrer ao velho PT (23/12)

A pauta desta vez não é um problema no âmbito dos fardados. É entre os civis mesmo. Alguém tem, afinal, uma boa explicação de por que mesmo antes da ameaça de greve os aeroportos já iam mal?

Vamos combinar. Estivéssemos num governo do PSDB, haveria agora em Brasília um plantão de parlamentares petistas. Cuja missão seria entupir a imprensa com aspas culpando a administração pelas desventuras dos infelizes que resolveram viajar de avião neste feriado.

Talvez haja algum exagero no “infelizes”, pois os viajantes vão turistar, enquanto muitos ficam na ativa. Mas vamos em frente.

E que o governo tucano não se atrevesse a colocar pressão sobre os sindicalistas em ponto de greve. Teria imediatamente contra ele um discurso arrumadinho, de como a incompetência das autoridades acabou empurrando os pobres coitados dos aeroviários e aeronautas ao último recurso, desesperado, da paralisação.

Tudo pela absoluta falta de sensibilidade social de quem deveria ter se preparado com antecedência e negociado um bom acordo antes de deixar as coisas chegarem ao ponto que chegaram.

Ah, e teria mais. As dificuldades da Infraero se explicariam por uma política deliberada de sucateamento, cujo objetivo oculto seria a malfadada privatização, sob o bonito nome de “abertura do capital”.

Mas o governo é do PT, e não do PSDB. Para começar, é preciso fazer justiça. Os principais aeroportos do país, com raras exceções, estão melhor do que há oito anos. Há alguns relegados, e talvez o mais emblemático seja o de Vitória, capital do Espírito Santo. Mas no geral a coisa andou.

Só que não no ritmo do crescimento da demanda. Ficou longe. O governo -bom de comunicação que só ele- explora o aspecto positivo, de que o poder de compra avançou e hoje muito mais gente voa em vez de pegar uma estrada. Mas, e o tal planejamento?

A explicação fácil seria um déficit de capacidade de gestão, mas eu peço vênia para desconfiar toda vez que alguém fala em “problemas de gestão”.

Prefiro acreditar no velho PT, crer que tem gente fazendo há muito tempo corpo mole neste assunto, de olho num filé.

Foi assim no primeiro “caos aéreo”, depois que a irresponsabilidade de dois pilotos americanos causou o acidente da Gol em 2006. Em meio à politicagem, uma parceria entre o sindicalismo e o governo procurou vender à opinião pública a necessidade da “desmilitarização” do controle do espaço aéreo nacional.

Com o tempo, comprovou-se não haver a propagandeada “falência” do sistema de controle, mas aí os americanos (e com a ajuda do nosso altivo Itamaraty, segundo o WikiLeaks), já estavam no país deles, fora do alcance da Justiça verde-amarela.

Como o gato já tinha posto o rabo de fora, o apêndice do bichano pôde ser medido em muitos e muitos dólares, a serem desembolsados para construir o tal sistema paralelo civil de controle do espaço aéreo nacional.

E a ideia acabou indo na época ao arquivo, pois as pessoas notaram que se a Força Aérea Brasileira deixasse a função haveria o risco de o controle ficar à mercê do sindicalismo. Como agora na ameaça de greve dos aeroviários e aeronautas. Conseguem imaginar o que seria?

Mas a pauta desta vez não é um problema no âmbito dos fardados. É entre os civis mesmo. Alguém tem, afinal, uma boa explicação de por que os aeroportos já iam mal mesmo antes do ensaio de greve?

Só não vale dizer que não tem dinheiro. Afinal, este governo, quando quis, deu um jeito de capitalizar a Petrobras como parte das operações político-empresariais do pré-sal. Achou que deveria fazer e fez. Passou por cima de todo tipo de dificuldade e reticência. Hoje as ações da empresa sofrem, talvez momentaneamente. Mas o governo chegou onde quis.

Por que nunca houve a mesma vontade política no tema dos aeroportos? Deveríamos recorrer ao velho PT e desconfiar de que há mais gente interessada na privatização da Infraero do que supõe a vã filosofia?

Alistamento de todos

Não há razão para as Forças Armadas brasileiras deixarem de observar com atenção a correta medida adotada pelos Estados Unidos, de banir o veto ao aliastamento de homens e mulheres assumidamente homossexuais.

Patriotismo, orgulho nacional e vontade de servir fardado à pátria nada têm a ver com orientação sexual. Mesmo no aspecto operacional, todas as pesquisas realizadas nas FFAA americanas revelaram uma maioria favorável à revogação do “Don’t ask, don’t tell”, o “Não pergunte, não diga".

Considerando que os americanos estão o tempo todo em guerra, é um resultado ainda mais significativo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (23) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Jogo do Poder com Álvaro Dias (22/12)



O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Variável subestimada (22/12)

Este talvez tenha sido um fator subestimado pelo governo brasileiro quando enveredou pela aventura de Teerã: o grau de parceria entre Washington e Pequim pela manutenção da estabilidade planetária

O presidente da República que sai vem reafirmando seguidamente a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, segundo ele representativo de uma realidade já superada pela História.

Argumenta que o século 21 não pode ser lido apenas à luz das realidades produzidas na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Um diagnóstico razoável.

Nestes oito anos a diplomacia brasileira esteve particularmente ativa nos investimentos para ampliar os espaços nos fóruns multilaterais, com resultados práticos imediatos modestos.

Sempre será possível argumentar, no futuro, sobre a veia visionária dos dirigentes brasileiros no início do século 21, mas aí a coisa passará ao terreno intangível.

O aumento da importância brasileira no mundo alimenta-se de vetores objetivos e subjetivos.

Estava escrito nas estrelas que quando o Brasil debelasse a inflação e entrasse numa rota de prosperidade nosso peso passaria a ser aceleradamente sentido. Com os Estados Unidos, a China e a Rússia, somos dos pouquíssimos no planeta com alta ponderação em território, população e economia. Simultaneamente.

E houve nas duas últimas duas décadas a forte presença do aspecto subjetivo. Uma boa sequência de governantes democráticos e empenhados na correção das nossas graves injustiças sociais.

Há diversos caminhos para ampliar o poder global, e a eficácia de um não é veredito da ineficácia de outros. A China, por exemplo, trabalhou em silêncio durante décadas, cuidando apenas de crescer, crescer, crescer. Os vetores inerciais da História conspiram a favor dos chineses e eles mostram perfeita noção disso.

Mais recentemente, nota-se alguma inflexão, com Pequim tateando crescentemente nas esferas política e militar. Só que sempre com a economia no comando. A preocupação mais recente dos líderes chineses parece ser com a garantia de desimpedimento das grandes rotas mundiais que cobrem a produção e o transporte de matérias primas.

Aqui um detalhe interessante. Poderia despertar curiosidade a relativa despreocupação da China com a hegemonia militar dos Estados Unidos. Acontece que ambos os projetos nacionais têm sido algo complementares.

Os investimentos militares de Washington ajudam a sustentar o domínio da superpotência, mas garantem também uma estabilidade planetária essencial para os negócios. E ninguém como a China tem mimetizado tão bem os Estados Unidos num aspecto central, bem explicado no bordão de que “o negócio dos Estados Unidos são os negócios".

Há pendências, como a de Taiwan, que tem tudo para no futuro ser resolvida pacificamente, a exemplo do acontecido em Hong-Kong e Macau. Há temas mais complicados, como as Coreias, onde entretanto o consenso sino-americano é maior que o aparente. Que o diga o WikiLeaks.

Esta talvez tenha sido uma variável subestimada pelo governo brasileiro quando enveredou pela aventura de Teerã: o grau de parceria entre Washington e Pequim pela manutenção da estabilidade planetária.

Doce minoria

Todos os sinais apontam: ficou mais fácil a vida de Barack Obama no Congresso dos Estados Unidos depois que os democratas se arrebentaram nas eleições intermediárias este ano.

Para um governante como Obama, que no poder tem buscado fazer o que dissera na eleição, nem sempre é boa uma maioria congressual automática. O sujeito acaba ficando prisioneiro da própria agenda partidária.

Agora, quando os democratas protestam contra alguma coisa, Obama pode dizer -como fez no debate sobre a prorrogação dos cortes de impostos- que adoraria seguir a cartilha democrata, mas infelizmente precisa negociar com os republicanos.

Esperando Lula

Dias atrás o presidente que sai protestou veementemente contra as pressões sobre Julian Assange, o chefe do WikiLeaks.

Se foi o início de uma bela carreira internacional em defesa da liberdade de expressão, aparece agora uma nova -e até melhor- oportunidade para agir.

O cineasta iraniano Jafar Panahi acaba de ser condenado a seis anos de prisão e a 20 anos sem poder filmar, escrever roteiros, dar entrevistas ou viajar para o exterior.

É acusado de apoiar a oposição ao governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (22) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Não pergunte, não diga (21/12)

Uma regra útil na política é a que foi agora revogada pelos Estados Unidos no tema do alistamento gay. "Don't ask, don't tell." Por que os governadores do PSDB não praticam o teatro habitual da política?

Os governadores do PSDB receberam críticas por reafirmarem o óbvio na reunião de Maceió, semana passada: não vão fazer oposição ao governo federal. Na pseudofederação brasileira faltam aos estados condições mínimas para bater de frente com a União.

Nem São Paulo, Minas Gerais ou Paraná podem. Quanto mais, por exemplo, Alagoas, Roraima ou Tocantins.

Se os governadores petistas não fizeram oposição ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, por que deveriam agora os tucanos estaduais agir diferente?

Basta a administração federal desejar e transformará a vida do governador num inferno. Brasília libera as verbas e também dá aval ao endividamento. Para começar.

O sonho descentralizador da Constituinte de 1988 vem desde então sendo desmontado com método. Aliás, FHC carrega o mérito (ou a culpa) de boa parte do processo recentralizador.

Sem o fim dos bancos estaduais e sem a Lei de Responsabilidade Fiscal ficaria difícil imaginar um país equilibrado e estável. Querem saber aonde leva o federalismo exacerbado? Perguntem aos argentinos.

Bem, dito isso, resta uma dúvida. Por que os governadores do PSDB se deslocaram a Maceió e convocaram uma entrevista coletiva para reafirmar o óbvio?

Foi como se, por exemplo, os líderes da base do governo no Congresso Nacional chamassem toda a imprensa, antes mesmo de iniciado o mandato de Dilma Rousseff, e distribuíssem um documento lembrando que ou o novo governo toma os devidos cuidados na liberação das emendas parlamentares ou então nada feito nas votações.

Uma regra útil na política é a que foi agora revogada pelos Estados Unidos no tema do alistamento gay. "Don't ask, don't tell." Não pergunte, não diga. Por que os governadores do PSDB não praticam o teatro habitual?

O clima de campanha esteve acirrado demais e os tucanos imaginaram passar um recado conciliatório à nova ocupante do Palácio do Planalto? Governos ligam pouco para o blá-blá-blá dos adversários, inclusive no Congresso. Estão mais interessados nas ações. A regra não escrita é o governo deixar a oposição falar e esta deixar o governo votar e agir.

Será a luta interna no PSDB? Se for, terá sido pouco inteligente. A vantagem na disputa interna tucana não estará com quem propuser a colaboração com o PT. O desejo profundo da opinião pública de oposição é fazer oposição. E é natural.

Além do mais, é o que vai acontecer no Congresso. Em dois momentos o presidente que sai foi embalado pelo sonho da colaboração dos governadores na tarefa de dobrar deputados e senadores em temas impopulares: quando apresentou as reformas tributária e da previdência e quando tentou prorrogar a CPMF.

Em nenhum deles os governadores entregaram a mercadoria. Falaram para um lado e os parlamentares votaram para outro.

E agora? Irá o PSDB dividir com o governo petista o ônus de aumentar impostos, para supostamente melhorar a Saúde? Os governadores terão poder para tanger deputados e senadores como gado?

Todo começo de governo é um passeio pelos Campos Elíseos, os de Paris. O noticiário está lotado de burburinhos sobre o adjetivo que se deva pespegar na palavra "oposição". O redobrado interesse recente no assunto decorre de um mito. De que o PT prejudicou irremediavelmente o governo FHC, assim como o PSDB criou imensos obstáculos ao governo do PT.

Onde? Quando? Nestes oito anos o PT só perdeu votações congressuais quando foi derrotado pela própria base. Inclusive na CPMF. E nos anos FHC o PT não tinha nem tamanho para ser culpado de nada de ruim que acontecesse ao governo.

Um sonho dourado dos bem-pensantes das "manhattans" brasileiras é o tal acordo PSDB-PT para reduzir o fisiologismo.

Tucanos e petistas são dois partidos geniais. Observe-se a formação dos governos, em Brasília e nos estados, e se verá a ocupação maciça de cargos pela turma da casa, que entretanto consegue emplacar o rótulo de "fisiológicos" nos coitados dos aliados que tentam arrancar uma coisinha aqui e outra ali.

Para concluir, uma constatação. O tradicional lero-lero de fim de mandato é agravado desta vez por certo detalhe. Quem teria o que dizer, Dilma, está calada. E o noticiário vai sendo preenchido pelo lame duck e por quem perdeu a eleição. Com as naturais consequências.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça no Correio Braziliense.

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domingo, 19 de dezembro de 2010

Faca quente na manteiga (19/12)

Na eleição deste ano, o progressismo pátrio reagiu com virulência ao protagonismo eleitoral das igrejas, a Católica e as evangélicas. Mas pelo menos uma crença escapou e vem escapando ilesa de qualquer crítica

Na edição de sexta-feira, o Valor Econômico publicou um especial do governo que sai, com um recurso visual esclarecedor. Perfilou na capa do caderno gráficos com os principais indicadores destes oito anos. Foi autoexplicativo. Também esta semana, a Economist traz conteúdo editorial sobre o deslocamento da esperança do eixo Europa-Estados Unidos para os emergentes.

Os bons resultados e as boas expectativas do Brasil e dos emergentes repousam numa curiosidade histórica e também na aritmética.

Os emergentes no conjunto (ou quase) beneficiam-se de ter colocado a casa em ordem, depois de sucessivas crises de raiz fiscal. Foi a receita recomendada pelos desenvolvidos, que entretanto fizeram o contrário. E hoje o assim chamado Primeiro Mundo patina para escapar da desconfiança e da falta de vontade de consumir.

Essa é a curiosidade. E a aritmética? Ela é simples. Quem tem mais pobres, mais gente fora do mercado, tem também mais potencial de formação de novos consumidores e mais potencial de crescimento incomprimível do consumo.

Uma coisa é o sujeito abrir mão de trocar o carro todo ano porque tem medo de perder o emprego. Outra coisa, bem diferente, é renunciar a comer carne todo dia.

Os emergentes, Brasil incluído, aceleram o passo para tentar chegar onde americanos e europeus já estão. E quem vem depois colhe vantagens e desvantagens.

Pode haver críticas à moldura social da revolução industrial chinesa, mas ela não se compara ao ambiente de horrores, por exemplo, da Revolução Industrial inglesa. Nas esferas social e ambiental, a industrialização da periferia corre bem mais civilizadamente que a do centro.

A desvantagem óbvia é a concorrência. O mundo emergente chega num palco já congestionado. As polêmicas ambientais têm sido termômetro. Diz a cartilha ambientalista que o planeta não suportaria chineses, indianos, brasileiros e africanos emitindo carbono nos níveis da média do europeu e do norte-americano. Eis um problema.

A China, no seu estilo habitual, vai cozinhando o galo e esperando a inércia carregar o gigante asiático para o lugar merecido na produção e no consumo globais. O modo de ser chinês, nesse ponto, é um ativo da humanidade. Se o compartilhamento de riqueza e poder entre as superpotências puder ser alcançado de modo pacífico, vai ser melhor para todo mundo.

Já nós, pelos menos nos últimos dezesseis anos, parecemos conformados com a reafirmação do nosso papel subalterno na divisão internacional do trabalho. Social-democratas e socialistas chegaram ao poder e apenas aprofundaram a subalternidade. Falamos grosso para os microfones e câmeras, mas ainda somos na essência extratores e vendedores de matérias primas.

No nosso “outro mundo possível”, por enquanto, deixamos relativamente de exportar grãos, minério e carne para o “Norte” e agora fazemo-lo para o “Sul”. Que avanço monumental! Na última grande crise, entre um e outro discurso sobre a necessária reforma multilateral das finanças planetárias, nossos governantes cruzavam os dedos na torcida pela recuperação rápida do ritmo chinês.

Na eleição deste ano, o progressismo pátrio reagiu com virulência ao protagonismo eleitoral das igrejas, a Católica e as evangélicas. Mas pelo menos uma religião escapou e vem escapando ilesa de qualquer crítica. A Assembleia dos Protetores do Real Forte, os Adoradores das Importações, os teólogos do juro exorbitante.

A cena era - e é- repetitiva. O sujeito vai entrevistar o governante, nos diversos niveis, para tratar das exportações em baixa, da degeneração da balança comercial, do buraco crescente nas contas correntes, da incapacidade de elevar os investimentos públicos, da extorsão financeira. Mas a única angústia do perguntador é arrancar garantias de que tudo permanecerá exatamente como está, de que nada vai mudar.

Duvida? Procure nos arquivos do Senado pela tramitação nos dias recentes do novo presidente do Banco Central. Faca na manteiga, confraternização geral. Uma festa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (19) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mistificações (17/12)

Parte da esquerda considerou que o golpe de 1964 contra Jango Goulart havia comprovado o esgotamento da chamada "democracia burguesa", e portanto da possibilidade de transformações progressistas por meios pacíficos. Era descrito na época como o  "colapso do populismo"

É razoável que a participação de Dilma Rousseff na luta armada contra a ditadura tenha sido objeto de atenção na campanha eleitoral, e é democrático que ela, como presidente eleita para governar o Brasil, sofra a iluminação dos holofotes sobre a biografia.

Quem se candidata a dirigir o país tem certas regalias mas abre mão de outras. Ou deveria abrir.

Um subproduto indesejado, porém, é a luta política contaminar excessivamente a observação histórica. É inevitável, mas as taxas andam acima do recomendado pela razoabilidade. 

O que não é razoável? A insistência em caracterizar as ações da oposição armada de quatro décadas atrás como "terrorismo".

Se terrorismo houve no Brasil naquelas épocas, foi esporádico e praticado durante a abertura dos anos 70 e 80, exatamente por quem se opunha à redemocratização. O Riocentro ficou como símbolo dos espasmos.

A esquerda armada fez aqui foi guerrilha, urbana e rural. Pode-se definir guerrilha e terrorismo como mais convém. Mas se as palavras são distintas é por significarem coisas diferentes.

Guerrilha é uma guerra com certas características, irregulares. Travada portanto entre contingentes militares. Terrorismo é o uso de violência maciça contra a população civil, ainda que com propósitos políticos.

Se a mitologia da direita alimenta o espectro do "terrorismo" supostamente praticado por organizações políticas da esquerda, esta última adquiriu a mania de responder à mistificação com outra: de que a luta armada foi o único recurso restante a quem desejava combater a ditadura.

Seria, então, ou a guerrilha ou a passividade.

Bonito, mas completamente furado. A luta armada foi integralmente derrotada no início dos anos 70. Seu último suspiro foi o Araguaia. Mesmo assim dez anos depois a ditadura caiu, culminando uma longa agonia, iniciada na eleição de 1974.

Se o único meio de luta possível era o militar, e se as atividades militares da oposição haviam cessado mais de uma década antes, quem e o que derrubaram o regime? Seria um mistério e tanto.

A escapatória mítica da "ausência de opção" exibe esse buraco lógico.

A luta armada naquela época não foi resultado da ausência de alternativas, mas uma opção política.

Parte da esquerda considerou que o golpe de 1964 contra Jango Goulart havia comprovado o esgotamento da chamada "democracia burguesa", e portanto da possibilidade de transformações progressistas por meios pacíficos. Era descrito na época como o "colapso do populismo".

Juntaram a isso o entusiasmo com as revoluções chinesa e cubana e arremataram a receita.

Deu errado, como se sabe. O que deu certo foi outro caminho, de participação nos espaços políticos remanescentes para a oposição, de engajamento firme no processo eleitoral, de reorganização da resistência social, a começar do movimento estudantil. A luta pela redemocratização como é bem conhecida dos historiadores.

Deu tão certo que relativamente pouco tempo depois o regime foi obrigado a revogar o discricionário Ato Institucional número 5, abrindo ainda mais espaço para a ação política pacífica. Não foi coincidência o movimento operário do ABC ter emergido depois da revogação do AI-5. E não antes.

As grandes mobilizações que desfecharam os golpes finais no autoritarismo foram principalmente consequência dos espaços arrancados pela resistência democrática, não causa.

Outra mistificação é dizer que quem enfrentou o regime de armas na mão fê-lo por ter mais coragem. Coragem é atributo difícil de medir, ou de comparar, mas enfrentar uma ditadura desarmado costuma ser ato de enorme coragem.

Coragem

Por falar em coragem, oportuna e corajosa a manifestação do ministro da Defesa,  reafirmando a Anistia brasileira.

A lei de anistia de 1979 foi uma grande conquista da luta democrática do povo brasileiro, e fechou de maneira inteligente e generosa toda uma etapa complicada da História do Brasil. Merece ser defendida.

O país tem o direito a conhecer sua memória. As famílias dos combatentes caídos na luta contra o regime militar têm total direito de saber o que se passou com os entes queridos.

A Anistia não é impedimento para nenhuma das duas coisas. É apenas, como sempre foi na trajetória nacional, um instrumento para impedir que o passado seja oportunisticamente tranformado em obstáculo à construção do futuro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (17) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Assembleia de cotistas (16/12)

Vimos transitando de um ambiente de histerias automáticas para um de acomodações automáticas. Tão ruim quanto, ou até pior. Do exagero na crítica sempre se recolhe algo útil. Da paz dos cemitérios, nada

O Congresso Nacional consumou ontem no vapt-vupt um ato para o qual não tivera coragem, ou força, ou ambas, na passagem de 2006 para 2007: equiparou o salário dos parlamentares ao dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

E fez isso sem ao menos precisar conceder em outra alternativa, de reajustar sim os vencimentos de suas excelências mas cortando na verba indenizatória. Aquela usada pelos parlamentares para despesas relativas ao mandato.

Tive a curiosidade de fazer uma busca no noticiário daquela época, quando a proposta gerou reações e enfrentou resistência, ao ponto de inviabilizar-se. Autoridades econômicas apressaram-se a negar a possibilidade financeira do aumento. Hoje, os mesmos personagens, nos mesmos postos, recolhem-se ao silêncio.

Houve quatro anos atrás também alguma reação dos movimentos sociais, com destaque para a União Nacional dos Estudantes (UNE). Hoje, nada.

Os personagens não mudaram. Mudou foi o ambiente. Na política, a situação era algo paralela, com Luiz Inácio Lula da Silva tendo conquistado a reeleição. Talvez a diferença hoje esteja na relativa fraqueza dos equipamentos à disposição da sociedade para resistir ao poder. Uns foram absorvidos. Outros, derrotados na recente eleição.

Veremos qual a reação. Se vier, virá de canais insuspeitados. A política insititucional encontra-se acomodada e, digamos, encaixada, na arquitetura do exercício do poder. Sua aparência é de uma sociedade por ações. Mais que um desenho clássico de situação e oposição, parece uma assembleia de cotistas.

O Executivo não reagirá à proposta de aumento porque nela está contemplado. E o Judiciário ficará agora mais confortável, menos saliente, na companhia das outras duas hastes do tripé.

Os parlamentares antes do aumento ganhavam abaixo do razoável? Sim. O salário de quase R$ 27 mil reais é adequado para deputados, senadores, presidente, vice e ministros de Estado? Sim. O problema não é esse.

Preocupante é a coisa ter acontecido sem debate, sem resistência, sem indignação. Vimos transitando de um ambiente de histerias automáticas para um de acomodações automáticas. Tão ruim quanto, ou até pior.

Do exagero na crítica sempre se recolhe algo útil. Da paz dos cemitérios, nada.

Frente ampla

O deputado Cândido Vaccarezza caiu vítima da frente de descontentamentos que se organiza em torno do governo Dilma Rousseff. Saiu do favoritismo à presidência da Câmara dos Deputados para a renúncia à indicação na bancada do PT.

Não conheço caso de administração que ao se formar tenha deixado contentes todos os apoiadores. Mas esta parece caminhar por uma lógica toda sua, peculiar: a cada decisão, gera um lote fornido de insatisfações.

Nada que preocupe no curto prazo, pois governos nascentes têm força para neutralizar arestas. Mas convém observar o desenvolvimento da trama.

Pelo que se desenha, será na essência um governo do PT acrescido de penduricalhos. A primeira etapa de Lula começou assim, e depois teve que se render à realidade da política.

Não é automático que o mesmo se dê com Dilma, cuja base é mais ampla.

No fritar dos ovos, vai depender do andamento das coisas práticas, especialmente da aprovação popular à presidente. Se continuar nos patamares do antecessor, ou mesmo um pouquinho abaixo, as insatisfações tenderão a ser engolidas a seco.

Inclusive as do PT. Que tem uma miríade de posições preenchidas, mas mesmo assim vê serem deixados ao relento líderes importantes do partido.

Adeus

O presidente da República que sai protagonizou ontem no Palácio do Planalto um ato festivo de balanço da gestão.

Festivo com razão. Lula ficará para a História como governante de um período próspero, marcado também pela redução das desigualdades sociais.

Sem contar a vitória política de ter eleito a sucessora.

Além de competência, Lula teve também sorte. Reuniu força suficiente para promover acertos expressivos, mas não a necessária para errar em grande escala.

Como na profissão de goleiro, sem sorte a competência pouco vale na política.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (16) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Jogo do Poder com Marcelo Bechara (15/12)



O procurador-geral da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Marcelo Bechara, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Um desejo e tanto (15/12)

O que lhe falta para, finalmente, ficar de bem com a vida? Talvez a certeza de que os adversários precisarão engolir no futuro uma narrativa história hegemônica ao gosto do presidente que sai

É fascinante observar o comportamento do presidente que sai, nestes últimos dias de mandato. É de todo não convencional.

A alegria por terminar bem o segundo e último quadriênio é merecida e compreensível. Mais enigmática é a ofensiva permanente contra os políticos batidos, especialmente contra os derrotados com a participação direta e intensa de sua excelência.

Ainda que o valor de tal participação possa ser discutido. O mapa eleitoral nos estados permite concluir que a coalizão do presidente ganhou onde ganharia mesmo sem a performance presencial dele, e perdeu em lugares-chave onde o chefe de governo empenhou-se pessoal e avassaladoramente pelos candidatos.

Quando o vetor presidencial foi mais decisivo? Talvez na costura das alianças para o Senado, onde pretendia montar uma maioria confortável para Dilma Rousseff. Conseguiu, mas isso não irradiou pelos estados, especialmente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Não que as derrotas locais tirem o sono dos sacrificados, metodicamente alojados em boas posições na máquina federal.

Enfim, o presidente colhe os frutos da vitória, mas, como já se notou, o triunfo não parece ter trazido paz de espírito a sua excelência.

É até compreensível que ele continue a fustigar a imprensa e a oposição, numa operação para enfraquecer as possíveis fontes de crítica e resistência ao poder de Dilma.

Mas espezinhar os políticos derrotados nos estados? Gente que visivelmente terá imensa dificuldade para retomar a trajetória? Para quê?

Há explicações de viés psíquico, mas eu confesso ter algum pé atrás com essas coisas. Políticos são especialistas em não dinamitar as últimas pontes que os ligam a adversários, que amanhã poderão ser necessários como aliados. Daí por que a perenidade de certos rituais protetores da honra.

O presidente que sai se dá ao trabalho de percorrer o país para tripudiar sobre -e tentar cobrir de ridículo- gente que não teve sorte nas urnas. Os gestos carregam tinturas supostamente relacionadas à política, quando entra em pauta a derrota na votação da CPMF no Senado. Mas Dilma tem teoricamente maioria no Congresso para retomar o imposto, se decidir pagar o preço.

Será que o quase ex-presidente tenta mostrar a possíveis resistentes o que poderá lhes passar se arrumarem problemas para a sucessora? Ou é só pessoal mesmo?

Toda vez que o tema das motivações presidenciais entra em pauta assomam duas tentações igualmente perigosas. A primeira é analisar o personagem exclusivamente pelo ângulo da racionalidade política. A segunda é acreditar piamente na prevalência dos aspectos emocionais.

A verdade científica deve estar em alguma combinação das duas coisas, em algum ponto intermediário, mas um detalhe é inescapável: o presidente da República que conseguiu dois mandatos para si e mais um para sua indicada não parece estar deixando o cargo de bem a vida. Falta alguma alguma coisa, que ele parece desejar e ainda não ter.

O que lhe falta para, finalmente, ficar de bem com a vida? Talvez a certeza de que os adversários precisarão engolir no futuro uma narrativa história hegemônica ao gosto do presidente que sai. Seria um desejo e tanto.

Essa certeza nem ele nem ninguém pode ter com margem razoável de segurança.

Narrativas também flutuam ao sabor da política, são funções com variáveis obscuras, e que podem surgir como do nada, depois de dormitar por longos períodos.

Sem noção

Um bom aumento para as autoridades federais de primeiro escalão pode encontrar justificativas, sei lá. A compra de um novo avião, com mais autonomia, para a presidente da República que assume em janeiro, também.

Mas defender ambas as coisas simultaneamente à defesa de um reajuste magro para o salário mínimo e para as aposentadorias, isso é coisa de quem está se lixando para os outros.

Especialmente no caso do avião. O governo diz que vai desembolsar um caminhão de dinheiro só para poupar a presidente de escalas em viagens muito longas.

Só pode ser coisa do MSN, o Movimento dos Sem Noção.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (15) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Liderança construtiva (14/12)

Liderança construtiva

A decisão brasileira de reconhecer a existência de um Estado Palestino nas áreas não controladas por Israel entre 1949 e 1967 é essencialmente positiva e ajuda na busca de uma solução pacífica para o problema

As negociações diretas entre Israel e Autoridade Palestina estão interrompidas mais uma vez. O motivo formal é a recusa israelense de congelar as construções na Cisjordândia e Jerusalém Leste. Tecnicamente são duas regiões com situações diferentes, a primeira é território ocupado e a segunda, anexado. Mas para os palestinos são ambas áreas alimentadoras do futuro estado nacional.

O impasse reforça uma tendência recente em Ramallah: caminhar para a declaração unilateral de soberania. Aqui aparecem de cara dois problemas.

De que modo reagiriam ao unilateralismo países como China e Rússia, eles próprios às voltas com movimentos de afirmação nacional de grupos dentro de suas fronteiras? E sobre que território a Palestina proclamará soberania? As areas entre o Jordão e o Mediterrâneo conquistadas por Israel em 1967? Ou reivindicará também autoridade sobre o resto, afirmando o objetivo de eliminar o estado judeu?

Claro que pode haver soluções intermediárias: manter as fronteiras propositalmente indefinidas ou mesmo a fundação de um país “provisório”, tudo com o objetivo de não renunciar à meta de apagar o vizinho do mapa.

O Hamas acena aceitar a tática da “Hudna” (trégua) com o inimigo, mas a explicitação desse caminho deixaria a Palestina isolada e vulnerável, ao ponto de colocar em risco -aí sim estrategicamente- o projeto nacional.

Pois há nos bastidores outras soluções, como a criação de uma autonomia, mas dentro da vizinha Jordânia. Um desdobramento da situação vivida entre 1949 e 1967, sob a forma de uma federação, ou confederação. Ninguém diz desejar, mas a incapacidade de superar impasses pode avivar certas ambições.

A viabilidade do Estado Palestino repousa na disposição de luta dos palestinos, na sua capacidade de construir instituições estatais unificadoras e na condição de a liderança nacional reconhecer a realidade no terreno, conduzindo os liderados a soluções viáveis. Este aspecto é o mais delicado.

Um acordo 100% ao gosto dos palestinos levaria hoje à guerra civil em Israel, e um acordo 100% ao gosto de Israel apenas transferiria a conflagração para o outro lado. A proposta de um estado binacional falha na premissa, como ensinou a crise iugoslava: quando dois povos não querem viver sob o mesmo teto, dão um jeito de separar-se. Melhor que seja na paz.

Todo esse preâmbulo é para dizer que a decisão brasileira de reconhecer a existência de fato de um Estado Palestino nas áreas não controladas por Israel entre 1949 e 1967 é essencialmente positiva e ajuda na busca de uma solução pacífica para o problema.

É improvável que as fronteiras do eventual futuro estado sejam essas que o Brasil diz apoiar. Se houver acordo será obrigatória alguma permuta de terras, por motivos demográficos. Também é impossível um acordo sem antes a Palestina renunciar à proclamada missão de varrer Israel para o mar, na bala ou na demografia.

Mas o Brasil não é nem será decisivo para os detalhes. Importante foi o maior país da América do Sul reafirmar a convicção de que a paz ali só será conquistada quando cada lado reconhecer o direito do outro à afirmação nacional na região. Esse é o principal, talvez único, obstáculo real para um acordo.

E a referência às fronteiras de 1949-67 embute um recado interessante. O Brasil defende, na prática, que a afirmação nacional de cada um só poderá ser construída admitindo-se as realidades demográficas.

Com o Irã isolado e regionalmente questionado -tema esclarecido nos vazamentos do Wikileaks- há um espaço real para avançar por esse caminho. Diferentemente de quando errou em Teerã, desta vez a diplomacia brasileira deu um passo no sentido certo. Foi um exercício de liderança construtiva.

Recebeu críticas, mas paciência. Não se faz omelete sem quebrar ovos. Não seria inteligente o Brasil chancelar previamente as exigências de uma ou outra parte. Seria fugir do nosso papel.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (14) no Correio Braziliense.

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domingo, 12 de dezembro de 2010

Teorias da relatividade (12/12)

Se o tsunami de crescimento projetado para o segundo quadriênio do presidente que sai revelou-se uma marolinha, é preciso saber que coelho Dilma Rousseff vai tirar da cartola para fugir do déjà vu

Há uma maneira simples e engenhosa de fazer concluir que o Brasil vai bem em todas as áreas. Basta escolher adequadamente, em cada caso, com quem comparar. Uma “teoria da relatividade” que revoluciona não a Física, mas a arte da esperteza.

Nos indicadores sociais somos melhores que a média dos vizinhos. No crescimento vamos bem além dos países desenvolvidos. Na democracia somos um exemplo no universo dos emergentes.

E se compararmos nosso crescimento ao dos demais emergentes, nossos indicadores sociais aos dos países desenvolvidos, nossa democracia à dos nórdicos? Haverá talvez motivo para depressão.

Outro expediente sábio, para essa finalidade, é olhar de modo seletivo para o passado ou para o futuro, conforme a conveniência.

Quando a economia brasileira, especialmente a indústria, sofria o tranco forte da recente grande crise, o discurso das autoridades diante de cada índice ruim era repetitivo: o número preocupante refletia o passado, sendo mais eficaz olhar para as promessas de futuro, grávidas das tendências de superação.

Agora, ao contrário, festeja-se o crescimento do PIB de sete mais alguma coisa em 2010, sem que o discurso oficial procure atentar para dois detalhes: 1) na média do pós crise o crescimento tem sido modesto e, principalmente, 2) a taxa reflete um movimento passado de recuperação, que portanto já foi.

Uso a redundância porque são tempos em que ela se tornou fundamental, dada a intensa produção da fábrica de lides do oficialismo. Essa é aliás uma que não sente a crise. Nunca sentiu.

O presidente da República que sai não conseguiu, infelizmente, cumprir a principal promessa do segundo mandato, que pode ser desdobrada em duas: colocar o país em crescimento acelerado e também sustentado. Não confundir com sustentável. São coisas bem diferentes.

Os últimos números desenham a situação com certa clareza. A sensação de prosperidade, que tantos dividendos políticos trouxe ao situacionismo este ano, decorre de uma positiva expansão do crédito e do consumo, mas que infelizmente não vem sendo adequadamente acompanhados pela produção nacional.

As importações fecham o buraco, ao custo da deterioração da balança comercial e das contas externas consolidadas, que dependem como nunca antes na história deste país (ou como sempre) da entrada de investimentos diretos, o nome bonito da alienação de ativos, da desnacionalização.

Em miúdos, estamos como a família que vive bem (ou pelo menos melhor do que vivia antes), mas à custa da poupança e do sacrifício alheios. Há exemplos históricos às pencas a alertar para o desfecho comum nesse tipo de enredo. E nem é preciso escarafunchar muito. Basta prestar atencão ao que vai pelos Estados Unidos.

Mas sigamos a receita de 2008/09 e esqueçamos o que passou. Olhemos para adiante. Se o tsunami de crescimento projetado para o segundo quadriênio do presidente que sai revelou-se uma marolinha, é preciso saber que coelho Dilma Rousseff vai tirar da cartola para fugir do déjà vu.

O primeiro movimento, como sempre, é cortar à vista no custeio, com a esperança de abrir um fôlego ao investimento público. A dúvida é se Dilma no médio e longo prazos terá como resistir às pressões políticas e corporativas, dado que os políticos e as corporações são a espinha dorsal da base de sustentação e vêm habituados à generosidade do antecessor.

Outra indagação é se Dilma conseguirá finalmente elevar, para valer, as taxas de investimento público, ou se vai acabar concluindo que a única maneira de subir os índices de poupança e investimento é dar as costas ao paquiderme e confiar a coisa ao setor privado. Esta variável tem a ver com a anterior, do custeio.

O noticiário tem se debruçado sobre a composição da equipe, atendendo a uma curiosidade natural. Do meu lado, estou mais curioso para saber como -e se- a presidente que assume em janeiro vai desfazer o nó dos juros, do câmbio, do custeio, dos investimentos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (12) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Assange e Yoani (10/12)

É positivo o compromisso público do agora quase ex-presidente. Quem sabe depois de janeiro ele não aproveita e protagoniza uma campanha global pela proteção das liberdades de expressão e de imprensa?

Há duas liberdades em discussão no caso WikiLeaks: 1) a de vazar informações estatais sigilosas e 2) a de a imprensa divulgar o conteúdo vazado. Em situações de respeito absoluto às liberdades de imprensa e expressão há uma barreira intransponível entre as duas coisas, mas isso é teoria.

Na prática, e mesmo nos países mais democráticos, jornalistas que divulgam material sigiloso vazado ilegalmente costumam enfrentar dissabores. E a discussão complica um pouquinho mais quando se veem os limites pouco e mal definidos do conceito de jornalismo nos dias que correm, uma época em que todo mundo é jornalista.

Então talvez seja melhor começar pelo mais fácil. É legítimo e defensável o jornalismo colocar em circulação tudo que considera relevante do material divulgado por Julian Assange.

Como o conceito de “jornalisticamente relevante” é das coisas mais fluidas e subjetivas na face da Terra, melhor não enveredar pelo labirinto dos juízos de valor sobre as decisões jornalísticas alheias, de publicar ou não.

No caso do Wikileaks, cada veículo trouxe o que considerou relevante. Aqui no Brasil, por exemplo, achei relevantíssimas e divertidíssimas as revelações sobre a intimidade das conversas entre membros do nosso governo e autoridades americanas.

O estado de espírito dos personagens da política às vezes revela bem mais do que as aspas treinadas e fabricadas para oferecer a ração diária de lides.

E o outro direito, de vazar material secreto, ou ultrassecreto? Bem, aí cada país tem suas leis, e se o sujeito não aceita cumpri-las deve assumir o risco de perder a liberdade e/ou o patrimônio, ou então arrumar a trouxa e fazer a mudança.

São sempre discussões complicadas. Seria aceitável, por exemplo, publicar informações vazadas da polícia do Rio de Janeiro que facilitassem a vida dos traficantes de drogas encastelados nas comunidades?

Cada país tem os seus problemas.

Ontem o presidente da República que sai manifestou solidariedade ao fundador do WikiLeaks. É positivo. Mostra compromisso do chefe do governo brasileiro com a liberdade de expressão, bem num tempo em que na administração dele germinam ensaios de restrições a ela.

Pode ter sido apenas um jab verbal, uma chance de espicaçar o império, mas isso importa pouco. Vale o compromisso público do agora quase ex-presidente.

Quem sabe depois de janeiro ele não aproveita e protagoniza uma campanha global pela proteção das liberdades de expressão e de imprensa?

Capital político para isso tem. E não há na minha sugestão qualquer ironia.

Um presidente enfrenta as restrições do cargo, fala não apenas por ele mas também pelo país. Não dá para um presidente sair por aí dizendo o que dá na telha e defendendo em cada situação o que é mais justo, de um ângulo ético ou moral. Há os constrangimentos decorrentes das razões de estado, e desconsiderá-los levaria ao desastre.

Um ex-presidente não sofre dessas amarras. Veja-se o exemplo de Jimmy Carter, promotor global de causas nobres desde que deixou a Casa Branca derrotado por Ronald Reagan.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia inclusive inaugurar a nova fase operando um gesto de grande simbolismo.

Além de se engajar na defesa de Julian Assange, poderia unir-se ao colega de partido Eduardo Suplicy e interceder junto ao governo de Cuba para Havana abrandar o inexplicável veto a viagens internacionais da blogueira oposicionista Yoani Maria Sánchez Cordero, por isso impedida de atender ao convite para visitar o Brasil.

Baita vantagem

A única coisa certa sobre o futuro é que ele sempre chega. E chegou o nosso futuro de desaceleração econômica combinada a pressões inflacionárias em alta.

A seu modo, o presidente que sai deixará sua herança maldita. No câmbio, nos juros, no custeio da máquina. No crescimento medíocre.

Nada que se compare ao fardo legado por José Sarney a Fernando Collor, ou ao abacaxi que Fernando Henrique Cardoso entregou a si  mesmo na passagem do primeiro para o segundo mandato.

Lula tem ainda a vantagem de passar o bastão a alguém que não reclamará dele. O que é uma baita vantagem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (10) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O controle subjetivo (09/12)

Nunca se viu político elogiar reportagem ou opinião que o prejudique, nem criticar opinião ou reportagem que o beneficie

Volta o tema do controle social/estatal sobre o conteúdo distribuído pelas empresas e pessoas que trabalham em comunicação. Parece que o atual governo tem um projeto para isso. Caberá ao próximo conduzir -ou não.

O debate é legítimo, não há por que deixar de discutir os assuntos de interesse do país, ou de parte dele. E as intenções apresentam-se como boas. Em teoria, o controle seria útil para proteger a sociedade dos abusos na comunicação.

Como de boas intenções o inferno está lotado, talvez seja melhor passar à discussão do mérito. Um ponto é que nas concessões públicas seria razoável o público exercer algum controle sobra a atividade dos concessionários.

De novo parece fazer sentido. Os problemas aparecem quando se desce um degrau no nível de detalhe. Se vai haver controle, quem o exercerá, e com base em que normas?

Há iniciativas recentes nas esferas do poder para instituir conselhos de comunicação. Como a imprensa tem por vocação investigar e fiscalizar os poderes, estamos diante de um antagonismo.

Dependendo de quem estiver no governo, a tendência será considerar abusivo tudo que incomode o governo. E razoável tudo que incomode a oposição. Preto no branco, os conselhos tenderão a defender o interesse de uma parte, partidário portanto.

É instrutivo observar o comportamento dos políticos diante do chamado jornalismo investigativo.

Nunca se viu político elogiar reportagem ou opinião que o prejudique, nem criticar opinião ou reportagem que o beneficie.

E os parâmetros? Há ramos de atividade em que a resposta é mais fácil. Na medicina existe um sistema de normatização que permite, com margem razoável, discutir se determinado procedimento foi correto ou não. É possível portanto reduzir bastante as taxas de subjetivismo.

Mas como decidir se determinada reportagem deveria ou não ter sido publicada, com os elementos à disposição do jornalista ou do jornal na hora de decidir? O grau de subjetivismo é imenso.

Na última campanha presidencial o PT odiou as reportagens que incomodaram o PT e adorou as que incomodaram o PSDB. E o PSDB vice-versa.

Quantas das reportagens criticadas por petistas ou tucanos estavam formalmente erradas? Não sei se alguém contabilizou. Quando houve erro formal a Justiça deu imediato direito de resposta, mas foram exceções.

Outra preocupação é com o suposto “baixo nível” da programação. Já existe o sistema de classificação, que parece bom. E como definir o limite entre o “baixo nível” e o “alto”? Voltamos à situação anterior, em que os ocupantes do poder ficarão em situação privilegiada para sufocar a crítica, a sátira ou o esculacho, tudo em nome do “interesse social”.

Há também a questão do preconceito. De novo, quem vai definir o que é preconceituoso e o que não é? Há o preconceito contra o pobre, o negro, a mulher, o índio, o trabalhador braçal. E há também o preconceito contra o rico, o branco, o homem, o empresário, o trabalhador intelectual.

Todo juízo de valor inclui alguma caricaturização e pode ser acusado de embutir preconceito. E aí, quem vai deter o poder de separar os preconceitos "aceitáveis" dos "inaceitáveis"?

Há uma resposta habitual para as indagações desta coluna. Em tese, o controle sociai da comunicação poderia ser feito por uma instância politicamente neutra, representativa de todo o espectro social.

Eu acredito na possibilidade real de algo assim tanto quanto acredito em duente, saci-pererê e mula-sem-cabeça. E peço, por favor, que esta minha manifestação não seja vista como exemplo de preconceito contra o folclore nacional.

De férias

A eleição passou e a nossa oposição voltou à clandestinidade. Ou decidiu antecipar as férias.

Vai aqui uma modesta sugestão, se é que já não foi feita. Entre uma conversa e outra sobre 2014, por que algum cacique da oposição não aproveita para dizer de quanto deveria ser o reajuste do salário mínimo?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (09) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Jogo do Poder com Eduardo Campos (08/12)



O governador reeleito de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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A falta de um Uiquilíquis (08/12)

Seria fascinante conhecer as mensagens trocadas entre a diplomacia e o governo brasileiros nos episódios mais delicados dos anos recentes, situações em que os personagens ainda estão aí

O mais intrigante no manancial de documentos tornados públicos pelo WikiLeaks é até agora não terem trazido novidade digna do nome. Pensando bem, tem uma sim: os vazamentos revelaram o abismo entre a política real e quanto dela vem a público.

Inclusive no Brasil. Com a exposição das vísceras das mensagens secretas do Departamento de Estado, ficamos sabendo, por exemplo, que quando o assunto são conexões aqui do terrorismo existem mais coisas entre o céu e a terra do que supunha nossa vã filosofiazinha.

Alguma novidade nisso? Nenhuma, apenas que o tema costuma repousar na prateleira dos ignorados, e agora foi diferente. Está na hora de colocar a lupa sobre a Tríplice Fronteira para que, pelo menos, o país todo saiba o que vai ali.

Um capítulo especial da papelada, no nosso caso, são as relações recentes entre o Brasil e os Estados Unidos. Revela-se que mais habitual é os parceiros estarem de acordo. Diferenças são exceção, em geral dizem respeito a irrelevâncias.

Em Honduras, Brasil e Estados Unidos estavam de acordo ao caracterizar a deposição de Manuel Zelaya como golpe de estado. Não há aqui juízo de valor do colunista, apenas constatação. A mensagem do representante americano aos superiores não deixa dúvidas.

Onde esteve então a diferença, a ponto de a coisa acabar azedando as relações entre “o cara” e o cara que disse que ele era “o cara”?

Talvez tenha estado na distância entre o profissionalismo e o amadorismo. Washington tinha informação suficiente e sabia que Zelaya não reunia suporte político para impor uma saída que o beneficiasse. Brasília não tinha, ou não soube usar.

Abre parênteses. Pode se criticar o conteúdo do trabalho de coleta de informações da diplomacia americana. Mas eles trabalham, e duro. E nós? Fecha parênteses.

Quanto das nossas trapalhadas em Honduras se deveram a falta de informação, e quanto a sede de protagonismo ou viés ideológico, eis um bom assunto para os historiadores. Na prática, enfiamo-nos ali num labirinto do qual se espera que a nova presidente saiba sair.

Que falta faz um “WikiLeaks” nacional! Um Uiquilíquis. Alguém suficientemente corajoso para reproduzir no nosso microcosmo o que Julian Assange perpetrou em escala global.

Seria fascinante conhecer as mensagens trocadas pela diplomacia e o governo brasileiros nos episódios mais delicados dos anos recentes, situações em que os personagens ainda estão aí.

Em Honduras, saberíamos se foram os diplomatas a informar mal os governantes, ou se estes enrolaram-se por conta própria.

Os temas há aos montes. Quem sugeriu ao presidente da República apostar todas as fichas no discurso pelo livre comércio e nos apelos à retomada das negociações da Rodada Doha no fim de 2008, quando a eclosão da crise já permitia antever o recrudescimento do protecionismo? Quem lhe informou haver chances de sucesso?

Quem propôs ao presidente intervir na crise planetária das finanças alavancando o G20 como fórum global de reforma do sistema financeiro?

Por quê, e com base em que avaliação precisamente, o governo brasileiro ajustou seu discurso nos debates sobre o aquecimento global, transitando da posição “os ricos criaram o problema, eles que resolvam” para uma de “participação construtiva”?

Matéria prima não faltaria.

No vagão

A minissérie dos ministérios do PMDB terminou como esperado. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Governo no comecinho, fresquinho que nem pão quente, ninguém vai brigar para valer. Melhor se ajeitar num vagão de segunda classe do que ficar fora do trem.

Governos são dinâmicos, e quem está por perto, e bem, sempre tem mais chance de mudar de vagão mais adiante.

E de vez em quando nem precisa trocar. Em governos centralizados e centralizadores, a capacidade de influenciar politicamente costuma superar as delícias de dominar uma caneta formalmente cheia de tinta.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (08) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Principismos e pragmatismos (07/12)

A vaga de candidato brasileiro a guia genial dos povos já está ocupada. O que talvez vá ser útil para a presidente que entra

A presidente eleita, Dilma Rousseff, procurou demarcar terreno num assunto delicado, os direitos humanos no Irã. Delicado pelo tema em si e por um fato singelo: as relações com os iranianos têm sido um banco de areia movediça para a diplomacia, e não apenas a nossa. A regra é a esfinge persa devorar os candidatos a decifrá-la.

O Itamaraty fez uma aposta de como lidar com Teerã, e o presidente que sai embarcou nela com gosto. Teria voltado para casa com o troféu, se as grandes potências tivessem aceitado aproveitar a janela de oportunidade.

Infelizmente, para o Palácio do Planalto e o Itamaraty, aconteceu ali um duplo infortúnio. Nem os iranianos transmitiram a necessária confiança, nem as autoridades brasileiras exibiram suficiente habilidade. Prevaleceu o fototropismo. Promoveram a solenidade de comemoração antes do problema resolvido. Deu no que deu.

Mas isso é passado, e se eventualmente o affair acabar num desfecho negociado o presidente que sai colherá os frutos para a História. Para a presidente que entra, o problema é mais prático.

Já que nos meteram num assunto -a atitude do mundo diante do programa nuclear do Irã- para o qual não tinhamos sido convidados, trata-se de achar o melhor jeito de tudo acabar bem.

O que seria "tudo acabar bem"? Para uma parte do establishment político-militar nacional, se o Irã alcançar o domínio da bomba será uma bela oportunidade de darmos tchauzinho ao Tratado de Não Proliferação (TNP).

Já outros acreditam que o melhor será aderirmos rapidamente ao protocolo adicional do TNP, e termos em mãos um instrumento decisivo na estratégia de garantir que a América do Sul permaneça o único continente sem armas de destruição em massa.

É ótimo -para os cidadãos iranianos- que a presidente Dilma defenda os direitos humanos no Irã. Mas não é suficiente. É preciso saber o que o novo governo brasileiro vai fazer com outro desafio, a ameaça de proliferação nuclear na vizinhança. Por que "na vizinhança"? As relações hemisféricas do presidente Mahmoud Ahmadinejad são autoexplicativas.

O Brasil tem dito que busca um mundo desnuclearizado. Até aí há consenso. As diferenças começam a aparecer quando se discute o melhor caminho para alcançar a meta.

Uns, como Barack Obama, defendem que mais ninguém obtenha a tecnologia bélica. E que a partir dessa premissa se promova progressivamente a renúncia coletiva. Outros líderes, como o presidente brasileiro que sai, ensaiam um discurso mais oblíquo. Os detentores da bomba não teriam "moral" para tentar impedir os demais de seguir pelo mesmo caminho.

Uma defesa indireta do armamento geral -ou pelo menos da ameaça de armamento geral- como melhor caminho para o desarmamento geral.

O que Dilma pensa disso? Os debates eleitorais não foram suficientes para esclarecer.

A presidente eleita tende a levar uma vantagem sobre o antecessor. Parece menos instada a uma política externa de viés presidencial, e parece ter o espírito menos vulnerável à necessidade compulsiva do reconhecimento.

Sempre haverá a tentação de "desafiar o império" para colher aqui dentro os frutos propagandísticos, mas a vaga de candidato brasileiro a guia genial dos povos já está ocupada. O que talvez vá ser útil para a presidente que entra.

Uma diplomacia menos presidencial e mais profissional exigirá, a cada momento, saber onde fica o legítimo interesse nacional. Não há receitas prontas.

Nos direitos humanos, por exemplo, não haverá como Dilma replicar a indignação em todas as circunstâncias. Os interesses, especialmente comerciais, sempre farão valer seu peso.

O principismo tampouco será possível na posição a adotar sobre a soberania dos povos. O Brasil vem de reconhecer o Estado Palestino, mas não apoia a independência de Kosovo, nem vê legitimidade nas aspirações autonomistas do Tibete. E a amicíssima Turquia veta a independência na nação curda.

Pragmatismo. Política externa é assunto para ser decidido caso a caso, conforme o interesse nacional. Dilma está em situação confortável para reajustar a situação por esse parâmetro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (07) no Correio Braziliense.

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