domingo, 31 de outubro de 2010

Um apartheid temático (31/10)

Como as mudanças maciças na esfera espiritual e cultural costumam vir com delay em relação à vida material, as campanhas eleitorais ainda são dirigidas a um Brasil repartido entre os “naturalmente” mais sabidos e os mais alienados

No último debate do segundo turno, sexta-feira à noite na TV Globo, as surpresas não apareceram. Sem tempo hábil para sedimentar novidades, ambos os candidatos preferiram consolidar o que se convencionou chamar de “propostas”.

É uma visão minimalista do conceito “proposta”, mas paciência. A sabedoria -ou burrice- geral exige que candidato a presidente da República se comporte como postulante a gerente do governo.

Se ele ou ela enveredam pela polarização em torno de valores, de visões, haverá o risco de gerar um ambiente de passionalismo. O que será imediatamente denunciado como “baixo nível”.

Trata-se de viés elitista, segundo a qual o presidente da República deveria abdicar do papel de líder. Luiz Inácio Lula da Silva cuidou espertamente de fugir do figurino, assim como havia feito Fernando Henrique Cardoso.

Justiça se faça, tanto Dilma Rousseff quanto José Serra também ensaiaram libertar-se das amarras, mas o fogo de artilharia que receberam parece ter acabado por demovê-los.

Então o formato do último debate, quando não há mais tempo para quase nada, acaba vindo a calhar. O evento já tradicionalmente organizado pela TV Globo vai adquirindo caráter quase institucional, ritual, sem maiores implicações.

Curioso é que nas democracias mais antigas os debates presidenciais são essencialmente políticos, em torno de visões. Há propostas sim, mas exatamente para concretizar as grandes abordagens.

Será que o povo dali é mais universalista? Possivelmente não. Nos Estados Unidos, todos os testes mostram a ignorância dos americanos sobre assuntos distantes e mesmo próximos.

Talvez a explicação esteja mesmo no caráter mais antigo e consolidado daquelas democracias. Lá é mais complicado dizer que determinados assuntos não devem ser abordados, pois não interessam ao homem simples da rua.

Impressiona que dois pontos, pelo menos, tenham estado completamente ausentes da disputa este ano: a política externa e o binômio juros-câmbio. Quanto ao segundo, é compreensível, pois a patrulha da “pátria financeira” não é bolinho. Ainda que o brasileiro seja esfolado diariamente. O mais esfolado do mundo, aliás.

Mas choca o contraste entre os volume de informações publicadas e veiculadas sobre a política externa brasileira nos últimos oito anos e a quase total ausência do tema nas intervenções dos homens e mulheres que ambicionaram a cadeira hoje de Lula.

A estabilidade econômica -herança principalmente de FHC- e a busca de mais justiça social -herança principalmente de Lula- vão entregar ao próximo chefe de governo um país menos materialmente dividido.

Como as mudanças maciças na esfera espiritual e cultural costumam vir com delay em relação à vida material, as campanhas eleitorais ainda são dirigidas a um Brasil repartido entre os “naturalmente” mais sabidos e os mais alienados.

Uma divisão que expressa muito mais a visão que a elite tem do povo do que a nova realidade do país.

Mas talvez essa seja uma tarefa para as próximas eleições, talvez seja missão para uma próxima etapa.

Façanha

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, carregará este ano uma façanha para o currículo.

A mais acirrada campanha eleitoral desde a redemocratização começou, transcorreu e terminou sem que ninguém, absolutamente ninguém mencionasse uma vez sequer ele, Shannon, a embaixada, o Departamento de Estado ou a Casa Branca.

Nem para o mal nem para o bem.

O sujeito merece uma condecoração em Washingnon.

Bento 16 e Chávez

Para contrastar, personagens como Hugo Chávez e o Papa Bento 16 andaram dando pitaco por aqui. O presidente da Venezuela manifestou publicamente apoio a Dilma e o Sumo Pontífice teve que intervir em defesa dos nossos bispos e padres que pedem aos eleitores não votar em quem defende a legalização do aborto.

Em ambos os casos, como não há sensibilidades coloniais, a coisa foi vista com certa normalidade. É saudável que tenha sido assim.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (31) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A variável do ambiente (29/10)

Um dado curioso neste fim de Era Lula: ao impulsionar a transformação do pobre em classe média o PT ajuda a desenhar um país teoricamente menos permeável às ideias remanescentes do PT original

Passada a eleição, haverá inevitável louvação aos vencedores e igualmente esperadas críticas aos derrotados. É da natureza humana. Quem vencer terá feito tudo certo. E quem perder deverá receber em silêncio a batelada de laudos dos engenheiros de obra feita.

Mas a verdade é que o homem interpreta um papel no teatro da História a partir de enredo constrangido. Não há improvisos sem limite, ninguém é livre para fazer o que bem entende.

A ação política é em larga medida delimitada pelo ambiente, pelo espírito predominante na época. Um exemplo é o debate atual sobre as privatizações.

No começo dos anos 90 o cansaço era com o Estado ineficaz e perdulário. Duas décadas e algumas crises financeiras depois o Estado é visto pela maioria como a reserva de segurança contra as incertezas do capitalismo.

Eis uma vantagem comparativa e competitiva do PT nestes dias. Ele rema a favor do espírito do tempo, numa época em que o vento estatista ainda não encontrou entre nós seu limite. Já o PSDB carrega os bônus e os ônus de ter ajudado a arrastar o país pelos cabelos para um capitalismo mais merecedor do nome.

Mas os tempos dão sinais de esgotamento, e um sintoma foram os vinte milhões de votos recebidos por Marina Silva no primeiro turno. O eleitor está à cata de alternativas. Além disso, o Brasil que chamarei de moderno -na falta de nome melhor- anda em relativo descompasso com o país ainda hegemônico.

O equilíbrio político que vai resultar da eleição, se confirmados os prognósticos, será resultado dessa contradição entre os vetores da hegemonia e do cansaço com ela.

E o equilíbrio, disfarçado pela maioria ilusória que qualquer governo alcançará no Congresso, exigirá em teoria uma grande reserva de paciência do presidente para negociar num regime de 24x7x365.

O Brasil que vai sair das eleições terá dado o recado sobre seu perfil plural e contraditório. E aqui desempenha um fator: o crescimento acelerado da classe média, cujos valores tendem a mimetizar o pensamento do topo social.

Um dado curioso neste fim de Era Lula: ao impulsionar a transformação do pobre em classe média o PT ajuda a desenhar um país teoricamente menos permeável às ideias remanescentes do PT original.

Com o tempo, irá crescer a importância de temas como, por exemplo, o direito à propriedade. Será função da democratização da propriedade. Quem passa a ter algo de seu fica menos permeável à pregação de que os que têm precisam transferir uma parte para os que não têm.

Se o altruísmo fosse natural no homem não precisaríamos das leis terrenas, nem das divinas.

Celebração

Como não basta botar ovos, e informar tê-los posto é prudente, o Papa Bento 16 celebrou ontem com bispos brasileiros no Vaticano a vitória da Igreja Católica neste segundo turno, quando ajudou a impor à candidata do PT o recuo no tema da legalização do aborto.

Fica a lição, em particular para o governo. Popularidade não é tudo. Se desejam introduzir assuntos polêmicos na pauta, para faturarem em nichos, melhor preparar-se para o contraditório.

Ou então preparar antecipadamente a retirada. Que poderá ser embalada em cores de indignação, mágoa e revolta contra a "injustiça", mas será sempre uma retirada.

UnB

Participo hoje pela manhã na Faculdade de Comunicação da UnB do seminário “Democracia e Jornalismo na Era Digital”, uma parceria com a Associação Nacional de Jornais (ANJ). Vou dividir a mesa com o professor Luiz Gonzaga Motta.

O debate será às 11h no auditório da faculdade.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (29) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Deixando o jogo correr (28/10)

Os árbitros não estão marcando qualquer coisa, este jogo não é para os cai-cai. Eleição é hora de os candidatos e a sociedade ficarem expostos. E o direito à informação concretiza o direito de escolha. Sem o primeiro, o segundo fica meio capenga

Em eleição, como no futebol, juiz bom passa despercebido. Tem sido o caso do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) este ano.

A corrida de 2010, pelo menos a de presidente, vai com grande fluência, e devemos isso também ao TSE. Tem havido alguns poucos direitos de resposta, em situações, segundo os juízes, de inverdades flagrantes. No mais, suas excelências deixaram o jogo correr.

Um sintoma da ampliação da democracia brasileira é a erosão progressiva do poder de veto dos candidatos a donos da opinião pública. A polêmica sobre o aborto ficará como marco.

Já escrevi aqui e repito. Muitos acharam bonito quando o tema foi incluído no Programa Nacional de Direitos Humanos, na terceira versão (PNDH 3). Na época eu critiquei, por não considerar razoável que alguém precise ficar a favor da legalização do aborto para receber um certificado de defensor ou respeitador dos direitos humanos.

Se uma candidatura a presidente adotasse a legalização ampla do aborto como ponto central de seu programa de governo, os mesmos que agora se opuseram à iniciativa das igrejas (tomadas aqui como religiões) de entrar nesse debate (“há coisas mais importantes para discutir”) teriam saudado efusivamente a atitude revolucionária, em defesa do direito de escolha e de a mulher decidir sobre o próprio corpo. Ou não?

Outro sintoma do mesmo fenômeno democratizante é a desjudicialização. Os árbitros não estão marcando qualquer coisa, este jogo não é para os cai-cai.

Eleição é hora de os candidatos e a sociedade ficarem expostos. E o direito à informação concretiza o direito de escolha. Sem o primeiro, o segundo fica meio capenga.

Há os crimes contra a honra, descritos na lei. E o resto? Ora, cada candidato tem seu tempo no rádio e tevê para colocar o que bem entender. E quanto mais o contendor diz o que acha do outro, melhor para o país e para o eleitor.

Eleição, ou campanha eleitoral, é quase um ensaio de governo. Os planos do candidato a governante são submetidos ao fogo cerrado da crítica, justa ou injusta. O postulante a líder mostra como reage sob pressão, sob ataque.

Pois numa democracia o que mais há são ataques contra o governo. O que é bom. É aliás vital. Governo é um bicho muito selvagem e muito forte. Precisa sempre de um vetor de contenção.

Ao deixar fluir a campanha eleitoral, o TSE ajuda a reforçar a construção e o aperfeiçoamento do nosso sistema de freios e contrapesos.

Kirchner

A morte do ex-presidente Néstor Kirchner é uma perda e tanto para a Argentina. Ele vinha cometendo certos erros, como enredar-se numa batalha campal contra os grandes veículos de comunicação, mas sua contribuição para a o país vizinho vinha sendo muito positiva.

A Era Kirchner na Argentina traz um saldo positivo na economia e na política -interna e externa.

Os credores internacionais foram confrontados, o país aplicou um desconto na dívida externa e nada se passou de mais grave. Um belo exemplo. E com ótimos resultados práticos. A Argentina cresce e está melhor agora do que previamente ao calote.

Na política interna, o estilo Kirchner tem sido de choque, mas há estabilidade e a disputa do poder roda em trilhos bastante normais.

Na área externa os Kirchner conseguiram talvez o mais difícil. Manter uma linha soberana e altiva sem passar a mão na cabeça de genocidas ou candidatos a genocida. Outro belo exemplo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (28) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Jogo do Poder com Luciano Dias (27/10)



O cientista político Luciano Dias é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Palavras e expressões (27/10)

O penúltimo debate entre os candidatos a presidente neste segundo turno, segunda-feira à noite na TV Record, foi útil. Nunca antes cada candidato havia exposto com tanta clareza o que pensa sobre o adversário. Em palavras e expressões corporais e faciais

Se já há derrotados nesta duríssima temporada política, são os candidatos a censor de agenda eleitoral. Contra a voltade de alguns, não tem havido agora temas interditados, exerce-se amplamente o direito de discutir tudo. É um salto adiante na nossa democracia.

A Igreja Católica Apostólica Romana ou um pedaço dela desejam recomendar o voto em quem combate mudanças na legislação sobre o aborto? Pois que recomendem.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra entende ser necessário evitar a vitória da candidatura oposta às diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (terceira versão) sobre a mediação dos conflitos rurais? Que fique à vontade para fazê-lo.

É um tema recorrente aqui, mas talvez seja o caso de repisá-lo ainda a quente. A democracia emergente nunca será “limpinha”, se for para valer. E talvez seja melhor amputar o “emergente”. Duvida? Acompanhe uma eleição qualquer nos Estados Unidos.

Ali a radicalização política é a regra, por um detalhe: todas as disputas, ou quase, são polarizadas entre dois candidatos, um democrata em um republicano. O sistema distrital puro em turno único mais a legislação que praticamente impõe o bipartidarismo produzem o desenho.

De vez em quando aparecem nanicos ou independentes que supreendem. São exceções.

Talvez devesse ser objeto de estudo acadêmico específico (se já tiver sido, peço desculpas pela ignorância), mas alguém com tempo e recursos faria um favor se analisasse “taxas de radicalização” nas eleições brasileiras, procurando alguma métrica distintiva entre primeiros e segundos turnos.

Nesse ponto, o que falta para nos equipararmos às democracias mais antigas? Talvez a sedimentação de uma cultura política em que a agressividade seja olhada como natural. Desde que, também naturalmente, as campanhas não enveredem pelos crimes contra a honra.

E, claro, desde que não se tolerem agressões físicas ou tentativas de intimidação política no braço, ou de assassinatos morais.

O penúltimo debate entre os candidatos a presidente neste segundo turno, segunda-feira à noite na TV Record, foi útil. Nunca antes cada candidato havia exposto com tanta clareza o que pensa sobre o adversário. Em palavras e expressões corporais e faciais.

Uma campanha é também o ensaio geral do possível governo. Como governos nunca são flores de estufa, as campanhas são ótimas para aferir como os eventuais governantes se comportam sob pressão.

Por isso, todo debate é um serviço prestado ao eleitor. Mesmo quando os entendidos o consideram chato, ou de baixo nível.

E o que falta então para a coisa ficar ainda melhor? Talvez os candidatos evoluírem para uma agressividade serena. Cada vez que um candidato ou candidata dá sinais de odiar o adversário, ou repelir gastricamente a possibilidade de o adversário ganhar a corrida, acaba perdendo pontos preciosos.

Seria bom se evoluíssemos para uma civilidade sem não me toques. Um sistema sem interdições, mas absolutamente intolerante às tentativas de calar quem quer que seja.

Rapidez

Por falar nisso, pipocam as iniciativas para criar instâncias oficiais de acompanhamento da atividade jornalística. Em tese há uma contradição com decisões recentes do Supremo Tribunal Federal.

Mas quem vai analisar se há ou não conflito com a Constituição Federal é o próprio STF, e até lá o resto será palpite. Como em outros assuntos de imensa relevância para o estado de direito, seria fundamental que a corte se manifestasse com agilidade, claro que com todos os cuidados para produzir uma solução consistente, mesmo por enquanto provisória.

Será péssimo se o próximo mandato presidencial amanhecer acompanhado mais esse vetor de conflagração.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (27) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

A novidade está do outro lado (26/10)

Não tenho como certificar as razões íntimas de sua excelência. Posso é olhar as consequências. Nunca desde as campanhas vitoriosas de FHC viu-se uma oposição tão ajeitada como esta do segundo turno

Assim como em 2002 e 2006, o PT entra em vantagem na reta final do segundo turno. Uma vantagem menor que naqueles anos, mas vantagem.

No futebol, diz o ditado que 2 a 0 é um resultado perigoso, como meu Santos pôde comprovar mais uma vez no domingo. Mas há os piadistas, segundo os quais 2 a 0 é perigoso sim, para quem está perdendo.

Também na política é melhor estar adiante do que comer poeira. E o estado de espírito dos candidatos e estafes reflete isso.

A diferença este ano, na comparação com as duas disputas anteriores, é a oposição a Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT entrar mobilizada, coesa e disciplinada na semana decisiva. Uma situação incomum para quem vem na rabeira.

Talvez seja mais uma obra de Lula. Na sua onipresença, cuidou de organizar ambas as campanhas, a dele e a dos adversários.

Sobre a influência de Lula na campanha de Dilma Rousseff, desnecessário repisar. A novidade está mesmo é do outro lado.

Em 2002 e 2006 o recado de Lula ao campo oposto foi claro. Não se unam contra mim, pois dizimar todos vocês não faz parte do meu projeto e sempre haverá espaço para uma convivência pacífica de contrários.

Continuo intrigado por que raios Lula vai alinhavando esta campanha de Dilma com um compasso antagônico àquele discurso. O mesmo Lula que lá atrás sugeriu à oposição não conduzir a eleição com raiva, pois, dizia Lula, quando ele próprio fez isso perdeu.

Não tenho como certificar as razões íntimas de sua excelência. Posso é olhar as consequências. Nunca desde as campanhas vitoriosas de FHC viu-se uma oposição tão ajeitada como esta do segundo turno.

Talvez por algo já registrado aqui. Quando procurou jogar decisivamente o peso da máquina federal nas eleições estaduais, Lula emitiu o sinal de que algo tinha mudado na política brasileira habitual em tempos democráticos.

Mas o pior mesmo, para ele, foi não ter conseguido. O esforço do presidente para reduzir o peso do PSDB e do Democratas no Senado foi recompensado, mas as incursões nas eleições de governadores resultaram em fiasco.

Mesmo se não vencerem domingo, tucanos e democratas têm bunkers para atravessar confortavelmente o quadriênio e boas plataformas de lançamento de alternativas em 2014.

O resultado é agora Dilma enfrentar uma oposição que está no lucro, leve, depois de dada como morta de véspera pelas supostamente inevitáveis ondas vermelha e lulista, que não aconteceram.

No vermelho

O desenho político original das estratégias no dilmismo era vencer no primeiro turno, com uma linha quase magnânima, capitalizando tanto a nova presidenta quando o patrono da candidatura.

Lula ficaria por essa lógica abastecido para desempenhar um papel político na nova era. Seria em certa medida o avalista externo da administração.

Mas este segundo turno, da maneira como vem sendo conduzido, contribui para corroer esse capital político do futuro ex-presidente. Lula, Dilma e o PT amalgamaram-se num grau que os levou a ser a mesma coisa.

Neste segundo turno, Lula entrou no vermelho e está no limite do seu cheque especial.

Silêncio

Os candidatos têm mais um debate pela frente, e esta coluna foi fechada antes do de ontem à noite na TV Record.

Se não tiverem discutido o câmbio e os juros, restará apenas o encontro da TV Globo na quinta-feira.

Esta eleição tem um aspecto similar à de 1998. Um nó cambial grave mas que não é debatido no processo eleitoral.

O assunto é árido, não é fácil traduzi-lo no popular, mas seria útil que cada um dos corredores desse sinais do que pretende fazer.

Afinal, o tema tem tudo a ver com o crescimento sustentado da economia e com a geração de empregos, essa sim uma pauta bem popular.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (26) no Correio Braziliense.

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domingo, 24 de outubro de 2010

Política com alambrados

O curioso é notar a emergência desse Lula complicado num cenário não de dificuldade, mas de relativa bonança, de favoritismo. Se há gente que sabe lidar melhor com o fracasso do que com o sucesso, talvez estejamos diante de um exemplo

Ninguém ganha eleição por pontos. Mesmo se liderar as pesquisas toda a campanha, o que vale é o dia. E se no dia tiver menos votos, perdeu. Eleições ganham-se, portanto, na base do nocaute. E quem nocauteia é o eleitor na urna.

Mas é difícil suportar uma luta em desvantagem. Não é missão para qualquer um. Talvez para um Muhammad Ali, que aguentou bem o favoritismo e a predominância física de George Foreman em 1974 no Zaire. Ali ganhou por nocaute. Talvez a luta de boxe mais famosa de todos os tempos.

O PT está vencendo o combate por pontos nesta eleição, e há bom motivo. A campanha convergiu com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, apoiado por três em cada quatro moradores do país em idade de responder às pesquisas.

Faltaram pouco mais de três pontinhos para a fatura ser liquidada no primeiro turno. E o segundo turno vem, na política, desenvolvendo-se razoavelmente para o PT, desde que que Marina Silva e o PV decidiram não pender em bloco para nenhum lado. Na teoria, o PSDB precisaria atrair em massa os eleitores da candidata verde no primeiro turno para virar o jogo.

Mas neste boxe particular da reta final um detalhe chama a atenção e já registrei aqui. Registro de novo. Quem está na frente, o PT, anda estabanado, sem maior capacidade de autocontrole. Já quem vem atrás, o PSDB, exibe mais disciplina e método do que seria natural no contendor que vai perdendo por pontos.

Um exemplo é o caso dos objetos atirados contra o candidato do PSDB no Rio esta semana, com as consequências conhecidas. O PT tem uma propensão a aceitar bem que certas diferenças políticas sejam resolvidas na base da pressão verbal e física pela “militância”. É visto como elemento constitutivo da luta política. Coisa quase orgânica.

E vem sendo reforçado por Lula nos últimos dias.

Mas qual é o limite aceitável para a pressão física ou verbal? Qual é o peso máximo, a consistência, o formato que podem ter os objetos para serem impunemente atirados contra uma candidata, ou candidato, a presidente da República?

No futebol do Reino Unido, os conflitos nos estádios só tiveram fim, depois de algumas tragédias, quando até as transgressões leves passaram a ser punidas com sanções pesadas. Concluíram que era melhor prevenir do que remediar. Resolveram tão bem que você vê um jogo do Campeonato Inglês pela televisão e nota que ali não há alambrados.

Aqui não. Infelizmente, os índices de popularidade e o temor de ver seu grupo fora do poder parecem ter levado o presidente da República a um estado de regressão. Sai de cena o Lula produzido pelas décadas de militância sindical e política e entra no palco um Lula irreconhecível. Parecido apenas com alguns adversários que Lula precisou enfrentar no passado.

E o curioso -como também já escrevi aqui- é notar a emergência desse Lula complicado num cenário não de dificuldade, mas de relativa bonança, de favoritismo. Se há gente que sabe lidar melhor com o fracasso do que com o sucesso, talvez estejamos diante de um exemplo.

Já os chineses...

Segundo a mitologia, o Brasil é um portento singular na saída da crise financeira. Na verdade, saem bem dela todos os países com contas públicas e bancos relativamente sólidos e cidadãos e empresas com baixo grau de endividamento. Esse último, um problema que vira solução em tempos de falta de confiança no arcabouço creditício.

A dúvida é saber como vamos manter a expansão com exportações em atrofia progressiva e importações explodindo num planeta tendente ao forte protecionismo nacional e de blocos.

As autoridades dizem que o mercado interno vai resolver, que ainda há espaço para os cidadãos e as empresas se endividarem, mas talvez esse diagnóstico esteja mais baseado no estoque das dívidas do que no seu custo estratosférico, alavancado pela recordista taxa de juros.

Um problema e tanto. Já os chineses...

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (24) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A conta para o futuro (22/10)

É possível que a próxima presidenta, ou presidente, surpreenda como um prodígio de habilidade política e talento reconciliatório. Mas não é irrealista imaginar que a nova era se abra com os derrotados de faca nos dentes, ainda que no começo possa não parecer

Há sempre algum exagero nas previsões catastróficas feitas a partir de campanhas eleitorais acirradas. Governos têm meios de buscar um alto grau de consenso, especialmente nos períodos de bonança econômica. E passada a eleição prevalece no primeiro momento a tendência centrípeta. Potencializada pelo instinto de sobrevivência.

Mas é razoável também tentar compreender os elos entre o ambiente construído ao longo da campanha e as circunstâncias que acabam se impondo depois. Quando colocou Miriam Cordeiro no programa eleitoral, Fernando Collor de algum modo ajudou a traçar o destino que teria na Presidência. E, segundo a mesma lógica, o perfil “Lula paz e amor” capitalizou o atual presidente um tanto que lhe deu fôlego de sobra para gastar nos maus momentos destes oito anos.

O Lula que chegou ao Planalto era -lembram-se?- conciliador e prometia transformar o Palácio na grande instância de negociação entre contrários. Oito anos e muitas crises depois, Lula vai deixar o cargo legando ao sucessor, ou sucessora, um cenário com traços de conflagração. E importa menos discutir “de quem é a culpa”, algo que na política nunca tem maior importância.

O presidente preferiu conduzir a sucessão de 2010 com uma tática antagônica a 2002. Suposições são sempre perigosas, mas talvez isso explique que um governo com 80% de ótimo/bom e montado na maior aliança política da história das eleições presidenciais brasileiras tenha chegado a uma semana do segundo turno ainda em clima de disputa.

O governismo poderá argumentar que a radicalização veio de fora e atrapalhou, mas isso não explica por que quase metade dos que apoiam o governo não apoiam hoje Dilma.

Em Pernambuco, por exemplo, assistiu-se a uma campanha bastante radicalizada (como costumam ser as eleições naquele estado). Mas o governador reeleito, Eduardo Campos (PSB), concretizou integralmente em votos suas taxas de aprovação e foi campeão brasileiro da modalidade este ano.

Uma questão de estilo. Nesse quesito Eduardo Campos é um anti-Lula e tanto.

Lula preferiu o caminho de dividir os brasileiros entre quem está com ele e com o Brasil ou contra ele e contra o Brasil.

A fatura vai ser paga por quem sentar na cadeira presidencial a partir de janeiro de 2011.

Se vai sair caro ou barato, ninguém sabe. É possível que a próxima presidenta, ou presidente, surpreenda como um prodígio de habilidade política e talento reconciliatório. Mas não é irrealista imaginar que a nova era se abra com os derrotados de faca nos dentes, ainda que no começo possa não parecer.

Mudança estratégica

A oposição ressentiu-se nos últimos anos de ter seus principais líderes em posições administrativas. Não dá para um governador estar na linha de frente da luta política contra o presidente da República. E se o general está constrangido pelas circunstâncias, a tropa tem naturais dificuldades para combater.

Agora não. Seja qual for o resultado, haverá pelo menos um líder oposicionista em tempo integral. Se ganha José Serra, terá Lula na oposição assim que o petista colocar o pé fora do Palácio -ou antes. Se ganha Dilma Rousseff, o PSDB terá no senador Aécio Neves (MG) o maestro perfeito para comandar a orquestra rival.

Eis um resultado já certo desta eleição. Diferentemente dos últimos oito anos, teremos uma oposição de verdade. Até porque ela vem sendo construída nesta campanha, de ambos os lados.

Em 2002 e mesmo em 2006 havia algum contrangimento de confrontar Lula, pelo simbolismo social ou pelo simples temor do choque contra a maior liderança político-popular do país.

Isso mudou.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (22) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Trincheira estadual (21/10)

As teorias não se confirmaram, e deveria haver uma reavaliação do conceito de “lulismo”, que na modesta opinião deste colunista não existe. Há a força política de Lula, decorrente dos êxitos econômicos e sociais do governo dele. Só

Luiz Inácio Lula da Silva está nas alturas, a candidata dele levou um solavanco no primeiro turno mas lidera no segundo, enquanto os partidos hoje governistas alcançaram inédita musculatura no Congresso Nacional.

Esse é um lado da moeda. O outro é que PSDB e DEM já conquistaram no primeiro turno seis estados e, se as pesquisas forem confirmadas, têm boas chances em mais três. Fincaram bandeira nos dois maiores estoques de voto do Sudeste e disputam bem nos principais polos do Centro-Oeste e Norte.

Fazer a conta aritmética de estados é jornalístico, mas politicamente a agregação de São Paulo, Minas, Paraná, Santa Catarina, Tocantins, Rio Grande do Norte e, eventualmente, Goiás, Pará e Alagoas dá ao condomínio PSDB-DEM massa crítica até para enfrentar uma hipotética travessia do deserto.

O cenário contrasta com projeções anteriores à eleição, de que a popularidade de Lula, aliada à amplitude da frente política governista, impulsionaria uma onda vermelha, ou “lulista”, que varreria a atual oposição e abriria espaço à “mexicanização”.

É sempre uma referência ao domínio por décadas do PRI (Partido Revolucionário Institucional) naquele país.

As teorias não se confirmaram, e deveria haver uma reavaliação do conceito de “lulismo”, que na modesta opinião deste colunista não existe. Há a força política de Lula, decorrente dos êxitos econômicos e sociais do governo dele. Só.

Lula tem carisma, mas sua relação com o povo/eleitorado é essencialmente pragmática. Aliás o pragmatismo será a marca de Lula para a História. Ele deixará uma obra social e será respeitado por ela. Só. Estará mais para Bill Clinton do que para Abraham Lincoln.

Os resultados estaduais falam por si. Mesmo com o risco de a força do governo conseguir, especialmente em Goiás e no Pará, o que não alcançou no primeiro turno, já é possível reafirmar o peso da política regional nas disputas estaduais. O eleitor não “raciocina em bloco”, como se dizia brincando na época do Pasquim.

O PT, apesar de todo o momentum, continua incapaz de transformar sua hegemonia na máquina federal em hegemonia nos estados.

É dos estados que nasce a oposição real aos governos federais, como alternativa de poder. A oposição congressual é retórica e investigativa, pois as administrações nunca encontram dificuldade para reunir maiorias acachapantes. Coisa necessária entre nós para evitar a paralisia.

O criadouro de opções está é nas unidades da federação. Brasília tem como tentar sufocar os estados economicamente, para enfraquecer eventuais concorrentes eleitorais, mas é sempre arriscado. Os presidentes, inclusive Lula, tem preferido outro caminho, da cooperação e do ganha-ganha.

Antifederativo

Ainda sobre estados, um detalhe curioso. A estratégia eleitoral do PT neste segundo turno inclui um “segundo turno” que não aconteceu em São Paulo. Apesar de todo o esforço do partido nas terras paulistas.

Bem ou mal o eleitor de São Paulo manifestou-se, o que teoricamente deveria ser objeto de algum respeito da parte dos derrotados.

Deve haver alguma lógica eleitoral no “segundo turno paulista” patrocinado pela campanha oficial, mas politicamente é curioso. Parece embutir uma visão unitarista do país. Uma certa aversão à federação.

Cada um tem seu estilo.

Não tem preço

Vou pedir licença àquele pessoal do cartão de crédito. Assistir a programas especializados em economia e constatar que agora até alguns insuspeitos pedem o controle da entrada de "capitais especulativos", isso realmente não tem preço.

O problema é saber se funcionaria. Ou se o fluxo restante já seria suficiente para manter a apreciação da moeda nacional. Que já mostra efeitos perversos na atividade econômica, especialmente na indústria.

Já o preço de não ter baixado os juros radicalmente no fim de 2008 será altíssimo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (21) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Jogo do Poder com Ophyr Cavalcante (20/10)



O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophyr Cavalcante, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Reciprocidade (20/10)

Se o presidente pede crédito, é razoável que ele conceda outro: vai dar para acreditar melhor nas restrições de Lula ao denuncismo jornalístico se ele as reafirmar quando voltar à oposição

O presidente da República voltou a tratar da imprensa. Foi a pauta de Luiz Inácio Lula da Silva num certo momento do primeiro turno, com o ápice no já histórico comício de Campinas (SP).

Depois sua excelência recuou algo, no comício de Porto Alegre (RS), talvez por vislumbrar a vitória no fim do túnel do primeiro turno. Elogiou a imprensa e prometeu que caso eleita Dilma faria um governo de unidade, com o olhar para adiante e não para trás.

Mas o PT não ganhou em 3 de outubro, e eis Lula de volta ao discurso de Campinas. E fica a dúvida. O que vai exatamente pela cabeça do presidente? Qual é o “verdadeiro” Lula? O de Campinas ou o de Porto Alegre?

Lula lamenta que a imprensa acuse sem provas. É verdade, o jornalista não pode esperar o julgamento definitivo, em última instância, pelo Judiciário. Tem que publicar antes. E isso embute risco brutal de cometer injustiça.

É do que se trata quando a liberdade de imprensa entra na agenda do debate doutrinário. Qual o equilíbrio ótimo entre o direito de falar, ou escrever, e o direito à imagem, à privacidade, à honra? O Supremo Tribunal Federal tem decidido que o primeiro prevalece sobre o segundo, e que os eventualmente atingidos busquem reparação judicial.

Já o governo ensaia de tempos em tempos estimular algum tipo de controle social sobre a atividade jornalística, fora os controles judiciais já existentes a posteriori. O governo tem o direito de propor esse debate, mas também aqui a dúvida mora nos detalhes. Especialmente num: quem exatamente vai controlar a imprensa em nome da sociedade?

Nada há de ilegítimo em Lula pedir uma imprensa cautelosa, e pelo menos num aspecto sua excelência tem razão. Os jornais dos países mais desenvolvidos não têm a nossa obsessão por escândalos.

Uns dizem que é por haver ali menos matéria-prima para escândalos. Outros, que se trata da diferença entre o bom e o mau jornalismo.

Mas a fala presidencial embute um detalhe complicado, quando visto de um ângulo histórico: Lula e o PT construíram toda uma carreira na oposição explorando eficazmente a tendência de o jornalismo operar, digamos, no limite da irresponsabilidade.

Nunca se incomodaram, desde que fosse contra os adversários.

Claro que todo mundo pode mudar de ideia. Mas fatos são fatos. Quando estava na oposição, Lula não via problema em reportagens que criavam embaraços aos inimigos, não saía a exigir provas e pedir prudência a cada acusação contra os governos Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar ou Fernando Henrique.

O presidente pode dizer — e não há como duvidar — que só no governo entendeu melhor o prejuízo causado ao país por uma imprensa irresponsável. Mas se sua excelência pede esse crédito, é razoável que conceda outro, por reciprocidade.

Vai dar para acreditar mais e melhor nas restrições de Lula ao denuncismo jornalístico se ele as reafirmar a partir do dia em que, não se sabe quando, estiver de volta à oposição.

Mais e menos

As pesquisas eleitorais continuam despertando paixões enlouquecidas. Um caso de amor doentio. Mesmo quando traem são aceitas de volta, apenas para serem acusadas de traição mais adiante.

Nossa fúria por encontrar regras que resolvam todos os problemas impele-nos instintivamente a imaginar então mais e mais mecanismos de controle de qualidade das pesquisas.

Queremos pesquisas imunes. O que é tão improvável quanto uma pesquisa sem margem de erro.

Talvez o caminho seja outro, já seguido em países mais velhos do que nós nessa coisa de democracia e eleições.

Talvez seja o caso de dar às pesquisas, apenas, mais liberdade e menos importância.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (20) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Soltos pela língua (19/10)

O fato é que as igrejas (uso como sinônimo de religiões) mostraram força e obrigaram o PT a escrever uma nova “carta aos brasileiros”, desta vez não sobre economia

Dilma Rousseff e José Serra fizeram domingo à noite na RedeTV! o melhor debate desta campanha eleitoral. O formato ajudou, pois deu aos candidatos tempo para desenvolver o raciocínio, sem precisar compactar as ideias além do desejável.

Faltaram ainda alguns detalhes, como a deterioração das contas externas. O tema não é popular, e tampouco seria fácil editá-lo para ficar digerível no horário eleitoral.

Mas seria bacana poder perguntar aos candidatos se vão cortar radicalmente os juros, quanto e quando, se irão estabelecer novos e mais rigorosos controles sobre o fluxo de capitais, ou onde e quanto irão reduzir os gastos de custeio. Ou se é desnecessário fazer essas coisas todas. Ou mesmo alguma delas.

A economia e a necessidade de ajustes no Estado parecem não dar audiência nesta corrida, e o ingênuo que entrar por aí será crivado de balas retóricas. Por um adversário que provavelmente, uma vez na cadeira, implantaria as coisas chatas que ele próprio havia criticado na campanha. O clássico estelionato eleitoral. Não pegaria bem.

Como ambos, Serra e Dilma, imaginam que podem ganhar, não parecem querer ficar presos pela língua.

Mas o debate foi bom, e a campanha vem bastante democrática. O tema do aborto não voltou no domingo, nem teria por quê. Deixou de ter importância política desde que o PT e sua candidata assumiram, semana passada, o compromisso de não mexer na legislação.

Se Dilma for eleita e mudar de ideia, o tempo voltará a esquentar. Mas cada dia com sua agonia, bobagem querer controlar o futuro.

O fato é que as igrejas (uso como sinônimo de religiões) mostraram força e obrigaram o PT a escrever uma nova “carta aos brasileiros”, desta vez não sobre economia.

Assim é a vida democrática. Todos devem ter o direito de se manifestar, e o ator político calcula a cada instante a relação custo-benefício de fincar pé em propostas que criam novas e perigosas zonas de atrito.

Uma coisa é fazer média com grupos minoritários de pressão e assinar decretos para inglês ver. Outra coisa é perder uma eleição por causa disso.

A política externa também anda ausente. Mas, de novo, os candidatos e seus marqueteiros devem estar movidos pela constatação de que o tema não é popular. Paciência.

Muitas coisas ainda não foram discutidas, mas muitas vêm sendo. E as promessas sucedem-se. Aqui vou recorrer ao conceito imortalizado por Joãosinho Trinta. Quem gosta de candidato que ataca o “promessômetro” é intelectual. Pobre gosta, com razão, de saber o que o político vai fazer por ele, pobre, quando chegar lá.

Lembro que Luiz Inácio Lula da Silva ganhou em 2002 com duas propostas que acabaram não dando em nada, o Primeiro Emprego e o Fome Zero, e uma que mesmo implantada, o Farmácia Popular, não tomou relevância política. Mas era um tripé simbólico poderoso, eram promessas e compromissos que balizavam um alinhamento social diferente.

Novidades

O tempo vai dizer se Marina Silva fez bem ou mal ao ficar neutra neste segundo turno. Tem uma lógica. Lula impediu o PT de entrar em qualquer governo que não fosse o dele, Lula, e isso não chegou a ser problema no fim das contas.

Mas há outras lógicas. O PSDB apoiou Lula no segundo turno de 1989, depois quase entrou pelas mãos de Fernando Henrique Cardoso no governo Collor. Mesmo assim FHC ganhou a Presidência na eleição seguinte.

Marina foi a novidade agora, num cenário dominado pela falta delas. Como fará para continuar novidade na próxima? É um desafio e tanto.

Nada impede que no lado derrotado neste segundo turno se produza alguma coisa nova em quatro anos. E aí Marina precisaria buscar outro patamar, mais consistente, orgânica e programaticamente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (19) no Correio Braziliense.

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sábado, 16 de outubro de 2010

A prova do líder (17/10)

Se a sucessão nacional tivesse sido liquidada na primeira rodada, o jogo estaria jogado. Só que não foi. E a vida impôs a três personagens da política nacional uma espécie de prova do líder neste segundo turno

A coluna não será sobre o Big Brother Brasil, apesar do título. Será sobre o duelo entre alguns políticos para saber quem possui garrafas para entregar.

Esta disputa eleitoral leva jeito de corrida de automóvel. Vai terminar onde começou.

Se a oposição conseguir produzir uma soma vetorial ótima de dois estados, Minas Gerais e São Paulo, tem chance razoável de levar. Se não, o troféu penderá para o PT.

O novo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, está bem na foto. Elegeu-se em primeiro turno e ainda alavancou a eleição do senador mais votado do país, o também tucano Aloysio Nunes Ferreira.

Luiz Inácio Lula da Silva fez de tudo para levar a disputa ao segundo turno em São Paulo. Montou em torno do PT uma aliança ampla, para os padrões locais. Incentivou a candidatura do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, pelo PSB e viu com bons olhos o pleito de Celso Russomano, do PP.

Skaf e Russomano ajudariam a dispersar uma base tradicionalmente antipetista, na polarizada política paulista. Com Dilma Rousseff eleita em primeiro turno, toda a força política do governo federal seria despejada no segundo na aldeia gaulesa do PSDB.

Como se sabe, deu errado.

Em Minas Gerais, a coisa andou um pouco mais sutil. A candidatura de Hélio Costa ao governo foi praticamente imposta pelo PMDB ao PT, como condição para o acordo nacional. É razoável supor que o pacto com os peemedebistas em torno de Dilma teria saído de qualquer jeito, mas o PT/governo topou pagar essa fatura. Não quis arriscar.

Ali o plano era derrotar politicamente já no primeiro turno o ex-governador Aécio Neves, candidato imbatível ao Senado e concorrente potencial em futuras sucessões presidenciais. A frente política para executar a missão era respeitável.

Além de Lula, tradicional campeão de votos em Minas, havia o vice-presidente, José Alencar, o próprio Costa e os ex-prefeitos petistas de Belo Horizonte, Patrus Ananias e Fernando Pimentel. Além de Dilma, novata mas sempre com o poder projetado da caneta a partir de 2011.

Como se sabe, deu mais errado ainda do que em São Paulo, onde pelo menos Marta Suplicy abocanhou uma cadeira de senadora. Em Minas o PSDB arrastou todas as fichas. Ali a invencível armada de Lula foi a pique, e sem estrondo. Os adversários elegeram o governador Antonio Anastasia em primeiro turno e os dois senadores, Aécio e Itamar Franco.

Se a sucessão nacional tivesse sido liquidada na primeira rodada, o jogo estaria jogado. Só que não foi. E a vida, pelas mãos de Marina Silva, impôs a três personagens da política nacional uma espécie de prova do líder neste segundo turno.

Nas urnas eletrônicas do próximo dia 31 estarão programados os nomes de José Serra e Dilma, com os respectivos vices. Mas a disputa mais feroz será entre outros jogadores.

Lula, com sua popularidade e seu apetite de poder, enfrentará um desafiante que pretendia ver liquidado, Alckmin, e outro que nunca conseguiu cooptar, Aécio.

É mesmo hora de ver quem tem garrafas para entregar.

Pensando bem, não deixa de ser um Big Brother.

Nuvens carregadas

O Brasil parece despertar e começa a levantar de seu berço esplêndido. Até os ortodoxos do câmbio flutuante já pedem que o real deixe de flutuar para cima, pelo efeito mortal nas exportações e, portanto, nos empregos.

Desenha-se um cenário comum em eleições brasileiras, nos períodos em que as coisas parecem caminhar bem. Louva-se a intocabilidade do arcabouço econômico-financeiro exatamente quando se sabe que precisará ser tocado.

O dólar ladeira abaixo, infelizmente, não quer nem saber se “no tempo do Fernando Henrique o juro real era maior”. Ou baixa-se o juro no Brasil, para valer, ou nossas exportações, especialmente das não commodities, vão definhar. Com todas as consequências.

Alguma coisa séria vem aí. Pena que ninguém queira tocar no assunto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (17) no Correio Braziliense.

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Bem antes da última curva (16/10)

Agora é cabeça a cabeça, freio nos dentes, rumo ao disco final. Mas ainda não estamos na reta de chegada, nem ao menos na última curva. Há ainda algumas variáveis a observar

Vem aí mais um debate entre os candidatos a presidente. Em seguida comparecerá a pergunta inevitável: “Quem ganhou o debate?”.

Sites farão pesquisas online (com a obrigatória advertência de que os resultados não valem nada). Spin doctors de ambas as campanhas inundarão os ouvidos dos jornalistas com impressões maravilhosas colhidas nos grupos qualitativos. Institutos de pesquisas quantitativas divulgarão resultados sobre o embate.

O problema é que “ganhar os debates” e “ganhar a eleição” podem, no fim das contas, revelar-se coisas bastante diferentes.

A corrida leva jeito de vir a ser definida por um contingente de no máximo dez milhões de eleitores, talvez metade disso. Se o candidato for superbem no debate para os demais 125 milhões mas muito mal no grupo em disputa, estará frito.

Claro que é só uma hipótese matemática, bastante improvável. Mas serve para ilustrar.

O grande desafio neste momento da corrida é identificar o eleitor flutuante e encontrar uma maneira de dialogar com ele.

Para o PT a linha parece desenhada. Na busca do punhado de votos que faltaram a Dilma Rousseff no primeiro turno, mais fácil seria recolhê-los entre quem é de esquerda, não votou na candidata de Luiz Inácio Lula da Silva, mas quer votar contra o PSDB. Daí a ênfase nas privatizações.

Para o PSDB, trata-se, desde o começo da corrida, de trazer para José Serra um monte de gente que gosta de Lula e do governo mas sente mais segurança na capacidade realizadora do candidato tucano. Ou não gosta do PT.

A missão da marquetagem tucana é bem menos trivial, e ela conseguiu atravessar os primeiros dois corredores poloneses: levou o candidato ao segundo turno e, pelo menos até agora, evitou que esta nova fase, decisiva, abrisse com o alargamento da vantagem de Dilma.

Agora é cabeça a cabeça, freio nos dentes, rumo ao disco final. Mas ainda não estamos na reta de chegada, nem ao menos na última curva. Há ainda algumas variáveis a observar.

Como funcionarão os acordos políticos nos estados, especialmente nos grandes estoques de voto do Sudeste?

No Rio de Janeiro as forças serristas estão bem debilitadas pela séria derrota no primeiro turno, e será preciso ver para onde irão os eleitores de Marina Silva. Mas o enigma maior encontra-se em São Paulo e Minas Gerais.

Nos dois estados será preciso verificar o efeito prático dos novos cenários políticos. Se no Rio a eleição de Sérgio Cabral no primeiro turno era óbvia, em SP e MG Lula investiu tudo para quebrar a hegemonia tucana. Não conseguiu.

Os polos políticos dos Bandeirantes e da Liberdade saíram reforçados da batalha inicial, e agora operam as naturais forças centrípetas. Vai funcionar?

Se funcionar, Serra terá a oportunidade não apenas de atrair votos dados a Marina Silva, mas de sangrar a caixa d’água da candidata do PT. Se não, a reta final estará aberta para o PT.

Instabilidade

O resumo das eleições nos estados: a coligação apoiada por Lula ganhou onde ganharia sem o apoio do presidente e perdeu nos lugares-chave onde sua excelência imaginou jogar o papel decisivo.

Há certas coisas permanentes na política brasileira. Uma é a política de governadores, que vem, bem ou mal, desde a República Velha.

O presidente não se mete a jogar papel decisivo nas disputas regionais e os governadores, em último caso, apoiam o presidente da República. Mesmo quando fingem não apoiar.

Até nos períodos de maior centralização essa regra jogou seu papel.

Lula tentou romper a lógica e perdeu. Uma parte da radicalização política no segundo turno nasce daí.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste sábado (16) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Teocracia antiteocrática (14/10)

Talvez seja melhor nos habituarmos à democracia. Estado laico não significa que as igrejas (tomadas aqui como sinônimo de religiões) estejam impedidas de opinar. Estado laico não é estado ateu

Está certo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando diz que a opinião pública tem cada vez menos donos. É possível que aqui o chefe de governo esteja a empregar “opinião pública” como sinônimo de “opinião da sociedade”.

Prefiro usar a expressão com outro significado. “Opinião pública” nesta coluna tem servido tanto para designar os profissionais de comunicação que buscam influenciar o ambiente político quanto o pedaço do ambiente político que se influencia por eles.

Opinião pública e sociedade não são sinônimos. A disseminação dos meios para distribuir informação digitalizada as torna coisas diferentes cada vez mais. Tenho até dúvida se algum dia foram a mesma coisa. Ou se é um passado mitificado para ajudar a explicar o presente.

No obrigatório “Minha Razão de Viver”, Samuel Wainer (com texto final de Augusto Nunes) conta como a imprensa da época “escondia” a campanha de Getúlio Vargas à Presidência em 1950, e mesmo assim o então ex-ditador acabou eleito. E bem eleito.

Wainer era aliado de Getúlio e eventualmente sua descrição daqueles momentos históricos possa ser contestada, um dia. O fato é que até hoje ninguém o contestou.

O eleitor não tem dono. Quando está mais vulnerável a ter, é por razões de ordem econômica, não por falta de informação.

O debate sobre o aborto é um bom exemplo. A opinião pública é esmagadoramente adepta de que o tema não deve ser debatido na campanha eleitoral. Só que está sendo.

Os candidatos a donos da opinião alheia são como o sujeito que olha pela janela num dia de agosto aqui em Brasília e descobre que chove intensamente. Mas não deveria estar chovendo nessa época, e por isso ele sai de casa a pé e sem guarda-chuva.

Só que está chovendo sim, e o “formador de opinião” chega ao destino todo encharcado.

E chega protestando contra o absurdo de chover numa época naturalmente programada para a seca.

É bom que nos habituemos. O Brasil é uma democracia e ninguém possui o monopólio da agenda eleitoral. Como os principais contendores tem cada um sua mídia reservada em rede nacional, cada um tenta emplacar os temas que mais convêm.

Mais democrático é discutir os assuntos e ponto final. Responder às acusações esclarecendo, sem achar que fugir delas fará o milagre de levá-las ao desaparecimento “natural”.

Talvez o Brasil esteja assistindo à melhor corrida presidencial desde a redemocratização. Ou pelo menos desde que Lula e Fernando Collor se enfrentaram no segundo turno de 1989. Há uma disputa real, com possibilidades ainda algo abertas.

De 1994 para cá, todas as vezes, a reta final do turno decisivo já apontava um vitorioso muitíssimo provável, e a natural agregação em torno dele tirava o oxigênio do debate.

O favorito já se comportava como presidente eleito, e o marcado para a derrota só se preocupava em tocar o barco dignamente até o dia da má notícia definitiva.

Agora não. Há algum espaço para a dúvida. Então, em vez de resmungar sobre a “agenda errada” seria mais proveitoso surfar nas ondas antes que acalmem.

É a hora em que o eleitor pode arrancar compromissos dos candidatos. Por que não aproveitar? E por que tentar discriminar certos assuntos?

Estado laico não significa que as igrejas (tomadas aqui como sinônimo de religiões) estejam impedidas de opinar. Estado laico não é estado ateu.

Como reagiriam os ateus se as igrejas procurassem interditar o debate dos temas mais críticos aos adeptos do ateísmo? Achariam bom? Duvido. Aliás já aconteceu e não acharam bom.

Não faz sentido invocar a ameaça teocrática para, de contrabando, tentar impor a teocracia antiteocrática.

Aborto, privatizações, corrupção, analfabetismo. Que se discuta tudo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (14) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Jogo do Poder com José Antonio Reguffe (13/10)



O deputado federal eleito, José Antonio Reguffe (PDT-DF), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Situação original (12/10)

No debate de domingo à noite a candidata do PT agiu como se precisasse estancar algum processo, e concentrou energias na missão. Se foi isso mesmo que lhe pediram, mostrou-se disciplinada

O pensamento convencional e o bom senso ajudam a enfrentar quase todos os problemas. Menos os mais importantes. Mas nem sempre é possível saber a priori quais as situações “mais importantes”. Que não recomendariam bom senso, mas algo diferente. Por isso o mundo dos observadores e analistas está povoado de engenheiros de obra feita.

Segundo o pensamento convencional, uma candidatura que ficou a apenas três pontos de vencer no primeiro turno e que abre o segundo com oito pontos de dianteira nos votos válidos deve, em primeiro lugar, tomar conta dessa vantagem.

Por que então a candidata do PT buscou criar um fato novo, uma nova dinâmica, um novo eixo de polarização com o candidato do PSDB? Só age assim quem não está confortável na corrida. E aqui as coisas são bem objetivas. Não se trata de desconforto com algo que eventualmente tenha sido dito e produzido mágoa.

Os números numa eleição sempre falam mais alto que as suscetibilidades.

No debate de domingo à noite a candidata do PT agiu como se precisasse estancar algum processo, e concentrou energias na missão. Se foi isso mesmo que lhe pediram, mostrou-se disciplinada. Dilma Rousseff é combativa, e foi combativa no debate. Certamente agradou aos fiéis dela. E os demais, acharam o quê?

Ontem foi um dia intenso no spinning job, a atividade frenética de assessores para convencer os jornalistas de que tudo saiu maravilhosamente bem para o candidato do spin doctor.

Há dois paradigmas já clássicos em situações como esta.

Um foi a virada de Mário Covas sobre Paulo Maluf na eleição para governador de São Paulo em 1998. O tucano passara ao segundo turno raspando, e corria atrás. No debate Covas partiu para cima de Maluf, explorando a duvidosa imagem do adversário no terreno dos valores.

Covas virou a eleição, reelegeu-se a consolidou a ponte para a atual hegemonia do PSDB em São Paulo.

O caso oposto foi a goleada que Luiz Inácio Lula da Silva aplicou em Geraldo Alckmin no segundo turno de 2006, depois de um primeiro turno apertado. Como Covas em 1998, o tucano passara ao segundo turno raspando e corria atrás. No debate Alckmin botou para quebrar sobre Lula, explorando as acusações de corrupção.

Mas Lula na sequência só ampliou a vantagem, e chegou a uma vitória confortável.

Não há portanto uma fórmula definitiva, uma receita de manual que cubra todas as situações. Mas os exemplos de 1998 e 2006 têm pelo menos um ponto em comum: quem tomou a iniciativa de atacar vinha em desvantagem. Não lhe interessava a simples administração do statu quo.

A operação política no campo do governismo neste segundo turno pode estar sendo preventiva ou curativa. Se Dilma finalmente levar a eleição, é possível que os observadores externos jamais cheguemos a um diagnóstico definitivo.

Aritmética

É bastante provável que no segundo turno o eleitor de quem passou repita o voto, com a decisão ficando para os eleitores de quem não passou.

Mas há variáveis algo sutis, que inoculam alguma instabilidade nessa aritmética. Uma é a variação nas abstenções, brancos e nulos. Institutos de pesquisa não projetam abstenção, muito menos a segmentada.

Outro elemento são as alianças políticas. A oposição tem dito que espera agora maior engajamento de líderes regionais, ausentes no primeiro turno. A observar se vai mesmo acontecer.

Dependerá da delicada relação de forças entre as esferas federal e estadual. Como tomar posição de modo a não desagradar o governador eleito nem o futuro ocupante do Palácio do Planalto.

Será um jogo e tanto de adivinhação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (12) no Correio Braziliense.

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domingo, 10 de outubro de 2010

Não é trivial (10/10)

Construir o monopólio do poder a partir de uma situação em que as massas estejam satisfeitas com a vida material, reduzindo a política a atividade apenas de alguns políticos: eis o sonho de todo candidato a líder inconteste. Ou déspota, conforme o ângulo de visão

O militante oposicionista chinês Liu Xiaobo foi premiado com o Nobel da Paz. O noticiário carimba-o como “dissidente”. A escolha das palavras é uma atividade fascinante. Por que “dissidente”, e não “oposicionista”?

Talvez considerem que em determinadas situações dissentir seja a versão mais radical da atitude corriqueira de oposição. Ou é o verbo adequado a situações em que se opor vira tarefa perigosa para além da rotina. Vai saber.

De todo modo, a premiação de Xiaobo abre um debate sobre as características do socialismo chinês, sobre os limites da fórmula prosperidade+controle.

A China vem exibindo ao mundo nas últimas três décadas belíssimas curvas de crescimento econômico e inclusão social. Pelas leis da inércia, bastará àquela grande nação esperar com calma o dia de liderar o planeta, econômica e militarmente. Seria questão apenas de calendário.

É espantoso que um país de tais dimensões geopolíticas e com esse brilhante futuro projetado não consiga conviver com uma oposição política pacífica, só por ela transbordar os limites do Partido Comunista.

A China tem lá seus motivos para enxergar-se pressionada do exterior. Especialmente quando entra em pauta a integridade territorial do país. Há a divergência sobre Taiwan e as pressões independentistas, no Tibet e em áreas de forte presença muçulmana. Todos problemas reais.

Mas a encrenca maior é outra.

Para inocular prosperidade social numa sociedade atrasada, a elite dirigente do país vem há mais de trinta anos abrindo a economia a investimentos de fora e também incentivando internamente a atividade econômica privada.

Por não haver almoço grátis, essa nova sociedade civil, urbana e próspera, entra em contradição com o monopólio do poder pelo Partido Comunista, ainda que o PCC tenha absorvido, no período recente, mecanismos internos de alternância não traumáticos.

O mesmo temor bloqueia maiores atrevimentos democráticos na cúpula cubana. Também vem daí o impasse aparentemente eterno na Coreia do Norte.

Ao menos nos países em que até agora se tentou implantá-lo, o socialismo parece precisar bastante de capitalismo para sobreviver, ou para fazer sobreviver politicamente o grupo dirigente.

Mas a prosperidade trazida pelo uso intensivo do capitalismo produz novos e mais fortes atores, e eles entram em contradição com o desenho político que luta para persistir.

É o nó chinês. Observado com atenção e curiosidade no mundo todo.

Construir o monopólio do poder a partir de uma situação em que as massas estejam satisfeitas com a vida material, reduzindo a política a atividade apenas de alguns políticos: eis o sonho de todo candidato a líder inconteste. Ou déspota, conforme o ângulo de visão.

Mas congelar a História nunca é trivial.

Tarso

Números tomados por si podem ser a origem dos mais terríveis enganos. O que os 46% e os 48% de Luiz Inácio Lula da Silva nos primeiros turnos de 2002 e 2006 têm a ver entre si e com os 46% de Dilma Rousseff em 2010?

Pouquíssimo. A proximidade numérica apenas mascara a mudança de perfil. O PT desloca-se para as profundezas do Brasil, enquanto os adversários do PT consolidam posições no pedaço mais moderno e economicamente dinâmico.

Resumindo, os votos do PT em 2002 eram para o partido. Em 2010 estão misturados aos votos do governo. Votos que costumam ser oferecidos a qualquer governo.

O mapa eleitoral mostra a dificuldade de o PT estabelecer ou retomar a hegemonia nas regiões mais prósperas do Sul/Sudeste/Centro-Oeste. Quanto mais forte e expressiva a classe média, maiores as dificuldades relativas do petismo.

Talvez este fim de coluna tenha a ver com o começo dela.

E o Rio Grande do Sul? Parece que ali o PT conseguiu reeencontrar alguns elos que o ligam ao Brasil moderno.

Por quê? Houve o caos político dos últimos quatro anos. E há também certos traços favoráveis da personalidade política de Tarso Genro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (10) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Excesso de esperteza (08/10)

No mundo ideal de alguns, o eleitor irá às urnas no segundo turno depositar um voto contra as (ou a favor das) privatizações e ganhará no dia seguinte um governo disposto a impulsionar no Congresso um monte de surpresas sobre
outras pautas


Vazam do poder informações sobre o estado de espírito de Luiz Inácio Lula da Silva, relacionadas à avaliação que sua excelência faz do próprio desempenho até agora nas eleições.

Estaria o presidente propenso a admitir certo exagero na retórica? Ou viu o eventual excesso como tendo sido necessário para cumprir determinadas missões no primeiro turno?

Faço como os ministros do Supremo (que pretensão!). Peço vênia para dizer que isso não tem a menor importância.

Inclusive por não haver como medir a suposta soberba. O que seria uma taxa ideal de soberba? A que serviria para trucidar os adversários políticos sem entretanto ouriçar a imprensa?

Pouco importa se o presidente da República acredita que ele e os dele são a opinião pública. Lula tem o direito de achar e dizer qualquer coisa. O mesmo direito que a imprensa reivindica para si -e que a Constituição garante a todos.

Mas interessam jornalisticamente as medidas que sua excelência e a candidata do PT imaginam implementar para estabelecer o controle social da comunicação. Quem vai controlar? Quais serão os parâmetros desse controle?

Recorro ao tema porque ele é recorrente nos textos que vêm do coração do PT. Assim como o direito ao aborto legal.

Aqui vale a mesma regra. Pouco importa se Dilma Rousseff foi anos atrás a favor da legalização e agora deixou de ser. Todo mundo tem o direito de mudar de opinião, mais ainda em assuntos complexos e com raízes na esfera espiritual.

Importante é o que Dilma fará, se eleita. Não vale dizer que deixará por conta do Congresso. Numa eventual administração dela o PT terá bastante força e poderá, a partir das posições de mando, operar em assuntos polêmicos sem o governo deixar muitas digitais.

Por isso Dilma precisa esclarecer -e o mesmo vale para José Serra- não suas opiniões pessoais, que aliás interessam só a ela. Os candidatos devem é nitidez sobre como vão orientar a base política em temas complicados, como o aborto, se chegarem à Presidência.

Por ironia, o assunto provoca incômodo tanto no PT/governo quanto nos que Lula critica por se enxergarem como donos da opinião pública. Ambos pedem que o debate sobre o aborto seja abandonado em favor de assuntos "mais elevados".

Talvez não compreendam que a agenda das igrejas cristãs é, pelo menos, tão importante quanto qualquer outra.

Um tema que o PT/governo e os adversários parecem desejar discutir são as privatizações. Desejo legítimo.

A encrenca está em outro ponto. No mundo ideal de alguns, o eleitor irá às urnas no segundo turno depositar um voto contra as (ou a favor das) privatizações e ganhará no dia seguinte um governo disposto a impulsionar no Congresso um monte de suspresas sobre pautas não debatidas na eleição. Como por exemplo o aborto.

É excesso de esperteza.

Um ditado mineiro volta e meia repetido nesta coluna é que esperteza quando é muita vira bicho e come o dono. Para evitar esse triste desfecho, por que o PT e o PSDB não assumem o compromisso com uma moratória de pelo menos quatro anos, a suspensão por esse período de qualquer inciativa para alterar as leis relativas ao aborto?

Seria razoável. Especialmente para quem acha ser um assunto menor. Se não tem importância, imagino que não se incomodarão de o colocarem na geladeira até 2015.

Boato regulamentado

É espantosa a quantidade de gente em Brasília nestes dias brandindo números de pesquisas que não foram feitas e jamais serão.

Se bobear, qualquer dia aparece um deputado ou senador propondo regulamentar boato sobre pesquisa.

Para moralizar a coisa, o boato só poderia ser espalhado depois de registrado noTSE.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (08) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Do tudo ao nada (07/10)

O PT está entre o céu e o mais absoluto inferno. O céu não virá tão bonito quanto a ideia original, dada a força da oposição nos estados. Mas o inferno seria de lascar

Em seu já célebre discurso de 18 de setembro em Campinas (SP), quando anunciou que “nós somos a opinião pública”, Luiz Inácio Lula da Silva produziu uma passagem reveladora. Na época passou meio despercebida.

- Vocês sabem que tucano come até filhote no ninho. Quando o (Aloizio) Mercadante se eleger governador, vou criar um Bolsa Família para os tucanos não passarem fome.

Lula é bom de palanque, e sempre é preciso dar um desconto. Mas o trecho lança luz sobre a essência da política. Nas eleições, tribos entram em luta pelo domínio do aparelho de estado. Vencida a eleição, o grupo terá poder sobre orçamentos e cargos, essenciais para alimentar os exércitos vencedores.

Sempre foi assim, desde que a política e a guerra eram uma coisa só. Nunca mudou na essência. Se hoje há normas a civilizar a repartição do butim, ele continua sendo repartido. Com a possibilidade de alternância, abre-se a porta para um revezamento.

Qual era a situação das tropas antes do primeiro turno? A fortaleza federal estava teoricamente bem defendida pelas forças petistas, que acossavam os dois maiores redutos do inimigo, São Paulo e Minas Gerais.

Em Minas, montou-se uma mega aliança contra os tucanos. Se não em número de partidos, na amplitude do arco simbólico. A lista impressiona. Lula, José Alencar, Dilma Rousseff, Fernando Pimentel, Patrus Ananias, Hélio Costa.

Nas terras paulistas a tática foi diferente. O PT investiu na fragmentação do campo adversário, para fugir da bipolarização e tentar provocar um segundo turno.

Mas não deu, o PSDB garantiu já no primeiro turno mais quatro anos no comando de suas principais máquinas político-eleitorais. E a incerteza mudou rapidamente de endereço.

Dilma foi bem numericamente no primeiro turno, ficou perto de ganhar a eleição e precisa agregar quantitativamente menos do que José Serra. Mas suponhamos, só para especular, que o PT perca a disputa presidencial no segundo turno. Onde suas tropas encontrariam abrigo?

Ao contrário do PSDB, o PT venceu no domingo passado em unidades da federação com relativamente pouca autonomia diante do governo federal, estados que estão longe de ser potências orçamentárias.

O PT conseguiu boas bancadas na Câmara dos Deputados e do Senado, mas se derrapar no segundo turno será perfeitamente possível ao novo governo tucano articular uma maioria. Bastará atrair o grosso da base de Lula/Dilma e isolar o petismo.

Não deverá exigir muito esforço. Será quase natural. O que o PT teria a oferecer aos aliados para impedir que mudassem de lado?

O PT está entre um certo céu e o mais absoluto inferno.

O céu não virá tão bonito quanto a ideia original, dada a força da oposição nos estados e a fragmentação partidária no Congresso, que verá em 2011 aumentado seu poder de barganha.

Mas o inferno seria de lascar. O PT regrediria em peso político, e com um detalhe: antes de chegar ao Planalto a legenda tinha mais poder na esfera local do que tem hoje.

Lula operou esta eleição na base do tudo ou nada. Conseguiu matar politicamente alguns adversários não tão fortes, mas quem sobreviveu está com musculatura.

Já para o PT, o tudo ficou fora de alcance, e agora o partido foge de ser colhido pelo nada. Tem uma chance razoável de conseguir, mas eleição é eleição.

Piorou

Lula livrou-se de um grupo de senadores que discursavam contra ele. Ficaram fora Heráclito Fortes, Mão Santa, Artur Virgílio. Livrou-se ainda de senadores que discursavam pouco e nunca lhe criaram problemas reais, como Tasso Jereissati e Marco Maciel.

Em compensação, o possível governo Dilma receberá de presente um Senado bem mais perigoso, com o PMDB em posição de dominância incontestável e a oposição reforçada por políticos craques em falar macio e operar nos bastidores.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (07) no Correio Braziliense.

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Jogo do Poder com Thomas Shannon (07/10)



O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Ofender-se para não debater (06/10)

Quando a Igreja defendia os perseguidos políticos na ditadura, o pessoal hoje no poder achava muito natural os religiosos terem militância

Se o partido que abraça determinada bandeira tem o direito de faturar politicamente a partir dela, por que não estender o mesmo direito a quem não concorda com a proposta?

O PT capitalizou alto em círculos socialmente progressistas quando tentou bancar a ferro e fogo o Programa Nacional de Direitos Humanos, na sua terceira versão (PNDH 3). O texto nasceu de uma conferência nacional. Depois de muita negociação interna no governo, foi mexido e virou decreto presidencial.

Com isso, o partido e Luiz Inácio Lula da Silva aproximaram-se ainda mais de quem defende a legalização do aborto, o controle social sobre os veículos de comunicação e mecanismos jurídicos mais favoráveis à rapidez na reforma agrária. Certamente ganharam votos nos grupos que concordam com o conteúdo do PNDH 3 e com o espírito deste.

Mas o PT ofende-se quando os contrários à visão de mundo embutida no PNDH 3 e às iniciativas decorrentes do programa se mobilizam e procuram convencer o eleitorado a votar contra o PT.

As iniciativas do PT são sempre “positivas” e “propositivas”, ainda que circunstancialmente precisem ser engavetadas por causa das condições desfavoráveis. Já os movimentos em oposição às propostas do PT são sempre “negativos”.

Menos. Assim como é legítimo o PT buscar votos nos movimentos feministas comprometidos com a defesa do aborto legal, é perfeitamente democrático grupos religiosos proporem que o eleitor deixe de votar no PT por causa disso.

A maneira não agrada? Que os magoados -vale para ambos os lados- busquem reparação judicial. Não dá é o PT, ou qualquer outra legenda, achar que vai introduzir e retirar assuntos da pauta unicamente a partir das conveniências eleitorais.

O eleitor não dá muita importância para as opiniões e preferências pessoais dos candidatos sobre temas comportamentais. Ninguém ganha nem perde eleição por causa disso. Temas só adquirem densidade política quando o debate aponta para ações efetivas.

A questão não é o que os candidatos “pensam sobre”, é o que farão se eleitos. Por isso todo debate é bom, e não deve haver temas interditados.

O PT lá atrás foi vanguarda para desbloquear a discussão de pontos como a união civil homossexual, a legalização do uso das drogas e a ampliação irrestrita do direito ao aborto legal.

Agora, como a polêmica não parece adequada aos propósitos imediatos, trata de interditar a suposta “baixaria”, a pretexto de “elevar o nível” na eleição.

A vida é mais simples do que isso. O PT deseja fazer avançar, num eventual novo governo, as propostas do PNDH 3? Que defenda abertamente e peça votos com isso. O PT acha que não é o caso de implementá-las? Então assuma publicamente o compromisso de mandar o calhamaço ao arquivo pelos próximos quatro anos.

No grito é que não vai levar. Nem na base da cara feia ou de se fazer de ofendido. Vai precisar assumir compromissos e entender que o poder tem limites. Por forte que o PT possa ser hoje, a Igreja Católica carrega mais de 2 mil anos na estrada e já enfrentou gente bem mais poderosa do que Lula e os aliados dele.

Sem falar nas igrejas evangélicas. Aqui, um aspecto especialmente triste. Como a turma não tem coragem de bater de frente com o pessoal do Papa, preferem investir contra os evangélicos.

Afinal, esta nação foi inaugurada com uma missa católica.

Apesar disso, não lembro de outra ocasião em que padres e pastores alcançaram este grau de unidade, pelo menos desde que ambas as categorias ajudavam a combater a ditadura.

E, a propósito, quando as igrejas cristãs defendiam os perseguidos políticos na ditadura, o pessoal hoje no poder achava muito natural os religiosos terem militância política.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (06) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Voto de desconfiança (05/10)

Esta eleição de 2010 não é para os profetas do apocalipse, nem para os anunciadores da “mexicanização”, ou da “ameaça neoliberal”. Parece ser mais uma escolha banal em tempos de estabilidade e prosperidade, quando o eleitor já considera ter garantido coisas boas para si e quer saber o que pode ganhar mais

Os números são aproximados. O Brasil tem 136 milhões de eleitores. Saíram de casa no domingo para votar em Dilma Rousseff quase 48 milhões. É 35% do eleitorado, pouco acima de um terço. José Serra chegou ao patamar de 33 milhões, 24%. Marina alcançou quase 20 milhões, perto de 15%.

Houve algumas quebras em relação ao que previam os institutos de pesquisa. Mesmo na boca da urna aconteceram problemas. Mas a dificuldade maior é antes do dia da eleição, e os números, especialmente de Dilma, mostram com nitidez. Uma coisa é o universo dos eleitores. Outra coisa é o universo dos eleitores que vão votar em algum candidato.

Esta coluna porém não será sobre pesquisas. Que os institutos se expliquem. Pesquisa boa mesmo, como gostam de dizer os políticos que estão nelas em desvantagem, é a da urna. E o que as urnas disseram no domingo, de mais significativo?

Que apenas 35% dos eleitores acharam importante dar apoio agora à candidata de um presidente da República aprovado por quase oito em cada dez brasileiros. Mais de seis em cada dez, dos mesmos que respondem às pesquisas de aprovação do governo e do presidente, preferiram um voto de desconfiança.

“De desconfiança” porque tampouco dá para simplesmente somar os votos de Serra e Marina e concluir que exista aí uma maioria em oposição à escolhida de Luiz Inácio Lula da Silva. Como gosta de dizer a candidata verde, a presença expressiva dela despolarizou a disputa no primeiro turno, matizou o plebiscito idealizado por Lula.

E como Marina conseguiu isso? As teses mais confortáveis, para o governo, procuram divulgar que a verde foi apenas beneficiária do voto de um certo “atraso” religioso-comportamental. A explicação não combina com o perfil do eleitorado dela, mais concentrado em áreas bem desenvolvidas.

Uma candidatura que ganha no Distrito Federal, pega quase um terço dos votos válidos no Rio de Janeiro e fica acima da sua média nacional em São Paulo e Minas Gerais não pode ser lida como alavancada pelos grotões.

O primeiro turno mostrou, ao contrário, que Marina conseguiu tomar posição para surfar na próxima onda, se se observar que a política brasileira se renova por ondas de partidos, pois internamente nas legendas não é possível, pela falta de democracia.

Ou seja, o eleitor disse no domingo que se as coisas estão boas sempre será possível trabalhar para melhorá-las. José Serra defendeu-se bem entre os trabalhadores de salário mínimo e os aposentados, ao propor reajustes agressivos no mínimo e nas aposentadorias, além de um 13o. para o Bolsa Família.

Já Dilma ficou presa ao figurino “o governo Lula foi melhor que o de Fernando Henrique Cardoso”. Qual terá sido a dificuldade de Dilma para liquidar a fatura dois dias atrás? Se é verdade que o PT de Lula faz uma boa administração federal, também é verdade que o PSDB de FHC faz boas gestões nos estados. Em ambos os casos, aqui o “boa” é sinônimo de “avaliada como boa”.

O PSDB, disputando sua eleição mais difícil, elegeu em primeiro turno governadores nos dois maiores eleitorados, São Paulo e Minas Gerais. Será o quinto governo tucano seguido em terras paulistas e o terceiro nas mineiras. Ninguém consegue esses números só na base da saliva.

E no Paraná o ex-prefeito tucano da capital derrotou de uma só vez o presidente da República, o governador e o ex-governador.

Esta eleição de 2010 não é para os profetas do apocalipse, nem para os anunciadores da “mexicanização”, ou da “ameaça neoliberal”. Parece ser mais uma escolha banal em tempos de estabilidade e prosperidade, quando o eleitor já considera ter garantido coisas boas para si e quer saber o que pode ganhar mais.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (05) no Correio Braziliense.

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domingo, 3 de outubro de 2010

Uma boa campanha (03/10)

Das coisas importantes, talvez tenha faltado discutir uma única: a precariedade das contas externas e a necessidade de enfrentar os altíssimos juros. Pelo menos constatou-se que as taxas precisam mesmo baixar, e muito

O primeiro turno da eleição presidencial de 2010 foi um salto adiante em qualidade. Antes de tudo, pelo número de debates. Cinco, contando só os entre candidatos à Presidência, um deles exclusivo para internet. Nenhum dos corredores sentiu-se suficientemente forte para desdenhar do eleitor. Bom sinal. Ficou para trás o tempo do líder fujão.

E os debates estiveram centrados em assuntos de alto interesse. Das coisas importantes, talvez tenha faltado discutir uma única: a precariedade das contas externas e a necessidade de enfrentar os altíssimos juros. Pelo menos constatou-se que as taxas precisam mesmo baixar, e muito. E foi só. Mas não é culpa dos candidatos. A interdição do tema é extra-eleitoral. Ninguém quer bater de frente com os donos do dinheiro no Brasil.

Num ambiente de bonança econômica, houve pouco espaço para advertências sobre os riscos potenciais na economia. Repetiram-se as circunstâncias da eleição de 1998, quando as pessoas preferiram acreditar que tudo estava bem. Não há riscos cambiais imediatos, como havia naquela época, mas a deterioração da balança comercial e das contas correntes deveria, num país menos interditado, despertar alguma emoção na corrida.

Como compensação, discorreu-se exaustivamente sobre drogas, saúde, educação e segurança. A oposição falou em criar um ministério para esse último problema e em policiar as fronteiras. A situação, em estender para o Brasil todo o modelo das UPPs do Rio.

A pauta incluiu na reta final outro assunto decisivo: a defesa da democracia. As pressões da oposição e da opinião pública empurraram o governo para certos compromissos verbais democráticos. Não é nada, não é nada, é sempre alguma coisa. Luiz Inácio Lula da Silva disse certo dia que ele e os seus eram a opinião pública. Depois do contra-ataque, partido de gente como Hélio Bicudo e Dom Paulo Evaristo Arns, Lula operou um ligeiro recuo.

Sentiu-se até obrigado a ir para a tevê anunciar que o governo dele se concluía com o país mais democrático do que oito anos atrás, e com mais liberdade religiosa. Este ponto ficou meio no ar. Ninguém questionou o governo e o PT no tema da liberdade de culto.

Mas o presidente enveredou por aí para tentar neutralizar os possíveis prejuízos à candidata oficial por causa das posições sobre o aborto.

No fim, cada postulante acabou tomando posição sobre. Marina Silva, que é contra legalizar o aborto, aceitou promover um plebiscito. José Serra não quer nem saber da legalização, nem apoia o plebiscito. Depois de pressionada por católicos e evangélicos, Dilma Rousseff encontrou uma saída formal: o assunto é do Congresso, e não do Executivo.

O tamanho do estrago que o tema aborto causou no estoque de votos de Dilma, veremos amanhã. Se liquidar a eleição no primeiro turno, deverá agradecer a Lula. Se não liquidar, aos formuladores do Programa Nacional de Direitos Humanos, na sua terceira versão (PNDH-3).

Que perambula por esta eleição como um órfão. Ninguém foi responsável por ele. Tratou-se de um engano, uma ligeireza, um equívoco.

Neste final de primeiro turno, solidão mesmo, só a do PNDH-3.

Gato e lebre

Dilma comportou-se no último debate como se o tempo jogasse a favor dela. Serra, como se jogasse a favor dele. Ou seja, o comando dilmista acha que já ganhou a eleição no primeiro turno e o serrista acha que já levou para o segundo turno.

Como ambas as campanhas monitoram isso a partir de tracking diário, pode-se conscluir que os trackings estão diferentes. Como é razoável supor que os fornecedores de pesquisas para ambos são tecnicamente capazes, não é demais concluir: alguém está vendendo gato por lebre.

Ou então existe gente que merece o Nobel da dissimulação.

Ou, melhor ainda, talvez todas essas hipóteses devam ser combinadas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (03) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Documento único (01/10)

O Título de Eleitor nacional com foto fecharia essas brechas. Aliás, o que resolveria mesmo seria o tal documento único de identificação. Uma boa ideia, nunca implementada

De tudo se aproveita algo. As turbulências no julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a exigência de dois documentos do eleitor produziram a constatação lógica: o Título é dispensável. Se o sujeito pode votar só com a Carteira de Identidade (ou outro documento oficial com foto), para que mesmo o Título de Eleitor?

Mas há outro debate, tão urgente quanto. O Brasil precisa de um recadastramento eleitoral, como aconteceu um quarto de século atrás, no nascimento da Nova República. Antes, para quem não lembra, não tinha nascido ou não ouviu falar, o Título era um papel com foto, para o mesário anotar o comparecimento.

No recadastramento dos anos 1980 tiraram a foto, reduziram o tamanho e agora a ideia é implantar universalmente a verificação digital.

A infraestrutura eleitoral brasileira é boa, mas poderia melhorar. Uma providência desejável seria imprimir todos os votos, para a possível checagem. O eleitor veria o voto impresso antes do “confirma”. Seria possível recorrer de um resultado e haveria meios práticos — os votos impressos — para tirar as dúvidas.

Hoje não tem válvula de escape. Como fazer uma recontagem dos votos eletrônicos? E se houver fraude no recolhimento dos votos? E se houver fraude na totalização?

O tribunal garante que essas coisas são impossíveis de acontecer, que nosso sistema é inviolável. Não existe sistema 100% inviolável, existem os sistemas extremamente difíceis de violar. Os que ainda não foram violados.

Quem brigava muito pela implantação de backup impresso do voto eletrônico era Leonel Brizola. Quando morreu, a bandeira foi herdada pelo seu PDT. Nunca nenhum dos grandes partidos se entusiasmou pela ideia.

E será assim, até o dia em que houver uma crise real, com dúvidas razoáveis sobre o resultado da eleição e sem instrumentos para pacificar definitivamente a pendenga.

Mas importante mesmo é o recadastramento eleitoral. Na prática começou ontem no STF, quando os juízes decretaram informalmente a desimportância do atual título de eleitor. Qual o problema? O tribunal decidiu também que o eleitor pode usar qualquer documento oficial com foto, o que permite alguma margem de insegurança.

Ideal seria então um título de eleitor com foto, mas se todo mundo no Brasil precisa ter Carteira de Identidade, para que mesmo a duplicação de esforços? Será porque as cédulas de identidade regulares são estaduais? E não é que eu achei uma brecha na decisão do STF?

E se a pessoa tiver várias cédulas de identidade, emitidas por diferentes estados, não haverá o risco de votar mais de uma vez? Alguém explica?

O título de eleitor nacional com foto fecharia essas brechas. Aliás, o que resolveria mesmo seria o tal documento único de identificação. Uma boa ideia, nunca implementada.

Controle

De tudo o que se previu sobre a importância da internet nestas eleições, o resultado final ficou bem aquém.

Mas para uma coisa a internet funcionou. Como ferramenta de controle de qualidade sobre o discurso dos candidatos e o trabalho jornalístico.

São os freios e contrapesos em ação. Pode parecer pouco, mas já é muito.

Normalidade

Um impasse em torno de salários e benefícios de policiais desencadeou grave crise no Equador. O razoável é que a coisa acabe rapidamente, com a total prevalência da normalidade democrática.

A América Latina tem mostrado boa resiliência quando confrontada com tentativas de ruptura da ordem institucional, vindas da oposição ou do governo. Que o Equador siga o bom caminho.

Não há mesmo clima para golpes por aqui. Não têm apoio regional, nem em Washington. Quando a situação desanda, como em Honduras, a tendência das forças é recompor a normalidade em prazos curtos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (01) no Correio Braziliense.

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