quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Jogo do Poder com Murillo de Aragão (30/09)



O cientista político Murillo de Aragão, da consultoria Arko Advice, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Aperto rotineiro (30/09)

O que dizem os números? Que primeiro turno para presidente no Brasil é apertado, na alegria ou na tristeza, na bonança ou na escassez. E a fórmula para evitar a segunda rodada é sempre a mesma: combater ferozmente a pulverização do seu próprio campo

A movimentação do governismo nesta reta final é sintomática da estreiteza das margens. Há pesquisas para todos os gostos, mas todas dizem que será apertada a decisão entre haver ou não segundo turno na eleição presidencial de domingo.

Não tinha por que ser diferente. Tem sido assim desde 1994.

Em 1989 houvera grande pulverização, mas cinco anos depois (o mandato ainda era de cinco anos sem reeleição) Fernando Henrique Cardoso raspou na trave (pelo lado de dentro) no primeiro turno, com 55% dos votos válidos.

Luiz Inácio Lula da Silva quase chegou aos 40%. Enéas Carneiro, Orestes Quércia, Leonel Brizola e Esperidião Amin empacaram cada um no patamar de 1-2%. Não tiveram peso decisivo.

Em 1998 FHC abocanhou 53%, Lula recuou para 32% e Ciro Gomes resvalou nos 11%. Enéas ficou com 2%. Eram os únicos expressivos.

Em 2002 Lula teve que ir ao segundo turno com 46%. José Serra passou com 23%, Anthony Garotinho ameaçou com 18% e Ciro Gomes terminou em 12%

Em 2006 Lula voltou a raspar a trave, mas pelo lado de fora, com 49%. Geraldo Alckmin pegou 42%. Heloísa Helena roçou os 7% e Cristovam Buarque, os 3%.

O que dizem os números? Primeiro turno para presidente no Brasil é apertado, na alegria ou na tristeza, na bonança ou na escassez. A fórmula para evitar a segunda rodada é sempre a mesma: combater ferozmente a pulverização do seu próprio campo.

Foi o que fez Lula agora, quando em parceria com a cúpula do PSB detonou a candidatura de Ciro Gomes. Quis chegar à situação atual, Dilma Rousseff com chance real de matar o assunto logo de cara.

Copiou, também aqui, a carnificina promovida por FHC no PMDB para evitar que Itamar Franco conseguisse em 1998 a legenda para buscar uma nova temporada no Palácio do Planalto.

Qual o obstáculo ao plano original de Lula/Dilma? Marina Silva não confirmou, até agora, os repetidos prognósticos de desidratação.

A candidata verde superou o maior desafio, sair do cercadinho, deixar de ser uma candidata só verde.

Há um único método infalível para aferir que pesquisas de intenção de voto estão mais certas a esta altura. Infelizmente, o método exige esperar a contagem das urnas eletrônicas no domingo.

De todo modo, o governo/PT parece mais incomodado este ano com a possibilidade de uma nova rodada, na comparação com 2006.

A explicação fácil é que agora a candidata é Dilma, e não Lula. O desafio maior, entretanto, está em outro aspecto.

Em grandes linhas, Lula já conseguiu reunir para Dilma tudo o que havia para juntar. Num eventual segundo turno, não haverá migração natural em bloco dos votos de Marina Silva (se ela ficar fora).

Já em 2006 o caminho óbvio dos eleitores de Cristovam Buarque e, principalmente, Heloísa Helena era o PT. Isso mais as alianças rápida e eficazmente costuradas por Lula levaram Alckmin a ter menos votos na rodada decisiva do que tivera na anterior.

Bombando

Entre os erros políticos deste governo, o Programa Nacional de Direitos Humanos, na sua terceira versão (PNDH-3), tem tudo para brilhar além na galeria.

De lá para cá, só o que o PT e sua candidata fazem é correr atrás do prejuízo, dizer a cada dia que o ali escrito não é para valer, é de mentirinha.

Agora Dilma compromete-se a não impulsionar mudanças legislativas para ampliar o direito ao aborto. Faz parte da estratégia de controle de danos do governo/PT nesta reta final.

Talvez devessem cobrar o sujeito que teve a ideia genial de mandar o presidente da República assinar um papel que classifica a defesa do aborto como uma linha a separar quem defende os direitos humanos e quem não.

No YouTube, a polêmica sobre o tema é um sucesso estrondoso. Acho que nunca os pastores e os padres bombaram como estão bombando com seus vídeos na net. Talvez só os cantores tenham antes conseguido a façanha.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (30) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Mais uma obra (29/09)

Nem consigo me lembrar da última vez que assisti a tamanha movimentação na assim chamada “sociedade civil”, expressão bem usada até a queda da ditadura

Foi o presidente da República quem introduziu a polêmica sobre liberdade de imprensa neste desfecho de primeiro turno. Luiz Inácio Lula da Silva explodiu contra a “mídia” num comício em Campinas (SP). Depois aparentemente acalmou-se e procurou acalmar os companheiros, noutro comício em Porto Alegre (RS).

A discussão sobre a liberdade de imprensa matou aquela mais complicada, sobre corrupção na Casa Civil. Mas Lula teve algum azar (coisa rara). Avaliou mal a reação que viria. E em seguida ao desconforto causado pelo discurso agressivo contra “a mídia” veio a censura — já derrubada — que a Justiça de Tocantins impôs à divulgação das acusações contra o governador do estado, candidato à reeleição apoiado pelo PT.

Houve também uma manifestação de entidades favoráveis às teses do Lula de Campinas, e outra de gente que rechaçou essa linha presidencial. Aconteceu ainda um debate no Clube Militar, com a participação de jornalistas críticos do governo. Agora vem a público, a favor de Lula, um manifesto de advogados.

Nem consigo me lembrar da última vez que assisti a tamanha movimentação na assim chamada “sociedade civil”, expressão bem usada até a queda da ditadura e depois repaginada para atuar no impeachment de Fernando Collor. A palavra “civil” dava antigamente certo glamour à expressão, pela oposição semântica a “militar”.

Ainda que, conceitualmente, o alho nada tenha a ver com o bugalho. Como se notou no debate do Clube Militar.

Com a ascensão e a hegemonia do petismo, o termo “sociedade civil” caiu em desuso, substituído por “movimentos sociais”. Pode-se dizer que os “movimentos sociais” são a “sociedade civil” do PT. Uma acusação feita sistematicamente ao partido é que ele gostaria de reduzir a segunda à primeira.

Nota-se um certo cansaço da “sociedade civil” com os “movimentos sociais”, que justa ou injustamente vão levando o rótulo de “movimentos estatais”. E, como o curso do rio não pode ser simplesmente interrompido, a multiplicidade característica de uma formação complexa como a brasileira encontra novos caminhos, novas formas de expressão.

Eis mais uma realização do governo Lula. Conseguiu, à custa de muita saliva, muita fé na “luta política”, muita agressividade verbal e muita exibição de poder (e de disposição de exercer o poder), reabilitar a expressão “sociedade civil”.

Em boa medida contra ele, Lula, o que é um fenômeno novo. Por muito tempo, criticar o líder do PT era a senha para o sujeito ser apontado como elitista, preconceituoso, inimigo dos pobres e outras coisinhas mais. A turma mais progressista preferia não se expor.

Esse tempo acabou.

Boxeando

Tal como Rocky, o lutador, o Datafolha reagiu na reta final do primeiro turno e foi pioneiro ao apontar vazamento nas intenções de voto da candidata do PT, Dilma Rousseff.

Se a tendência for mesmo essa, especialmente se houver segundo turno, a corrida particular entre as empresas que fazem pesquisas eleitorais terá registrado nesta etapa um empate técnico.

Recapitulando. O Datafolha vinha de dois knockdowns (não confundir com “knockout”, o nocaute). Chegou atrasado à constatação de que Dilma tinha empatado com José Serra (PSDB). E chegou também com atraso à verificação de que a petista tinha disparado à frente.

Assim como para os candidatos, a disputa entre os institutos só acabará quando terminar. Diria Abelardo Barbosa, se vivo estivesse.

Aplaudido

O candidato do PSol, Plínio Sampaio, arrancou surpreendentes aplausos domingo do auditório no debate presidencial da TV Record, quando defendeu, entre outras coisas, que o Irã deve ter o direito de construir sua bomba nuclear e que os Estados Unidos são uma ditadura feroz.

Foi mesmo bastante aplaudido. O que é sintomático de um estado de espírito, que entretanto prefere ficar na moita, escondido atrás de platitudes e generalidades.

Se não houver segundo turno, terá feito falta nesta campanha presidencial uma discussão mais detalhada sobre política externa. Entre outras.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (29) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Usina de casuísmos (28/09)

O que é melhor: o sistema que abre espaço para um Tiririca, ou o que permitirá aos Tiriricas de todos os matizes funcionarem como fornecedores de voto para os donos de partido conquistarem cadeiras nos parlamentos sem nem precisar sair de casa?

O núcleo da reforma política em desenvolvimento nos últimos anos é o voto em lista fechada, ou preordenada. Funcionaria assim: cada partido define a ordem dos candidatos para a eleição de deputado federal, estadual e vereador, elegendo-se os primeiros de cada lista, conforme o número de cadeiras que a legenda conseguir na eleição.

Os candidatos chamados “exóticos” têm garantido alguma movimentação ao noticiário nesta, até agora, modorrenta eleição. O caso mais exposto é o do comediante Tiririca, em São Paulo. O postulante teria tudo para passar despercebido, não estivesse para recolher um caminhão de votos no próximo dia 3. Com ele, deverá eleger mais um punhado de gente, pois cada voto no Tiririca soma também para a coligação, contribuindo para engrossar a fatia dela na Câmara dos Deputados.

A função de “puxador de voto” não costuma incomodar a opinião pública quando os puxadores são, digamos, mais bem vistos. Tipicamente nosso. Mas Tiririca está incomodando, por ter-se transformado numa forma de protesto.

Argumentam também que é analfabeto. Sobre o tema do analfabetismo, pretendo escrever dia desses. Apenas registro que todas as confusões recentes da política brasileira nasceram das ações de brasileiros perfeitamente alfabetizados, no pleno domínio das habilidades de ler e escrever.

Mas o tema desta coluna não é a norma que proíbe o analfabeto de se candidatar, é a carona que a reforma política pega em cada polêmica surgida no processo eleitoral. Se muitos eleitores decidiram votar no Tiririca, trata-se agora de abolir o direito de o eleitor escolher o candidato. Melhor seria transferir esse poder ao partido, por meio da lista fechada.

Mas quais seriam mesmo as diferenças entre os dois métodos? Eu posso apontar uma. Hoje o sujeito vota no Tiririca e elege, além dele, mais um tanto de gente. No sistema proposto, os votos que a lista receberá do eleitor desejoso de eleger o Tiririca elegerão do mesmo modo um lote de candidatos da legenda ou coligação, mas sem a garantia de o Tiririca estar entre os eleitos.

Na regra de agora, o puxador de votos elege-se e ajuda a eleger outros. Na proposta nascida da esperteza brasiliense, essa fonte inesgotável de casuísmos, só estará garantida a eleição dos primeiros da lista. Se o puxador estiver numa boa posição, sorte dele. Se não, se o cacique partidário tiver conseguido enrolar o incauto e jogá-lo para um “ponto morto” na lista, os espertalhões só precisarão agradecer a ajuda do dono dos votos. E sugerir gentilmente que ele volte dali a quatro anos.

Haveria maneiras de evitar a injustiça? Sim, se a lei obrigasse as siglas a adotar mecanismos democráticos de composição das listas. A lei brasileira é, porém, peculiar. Os partidos recebem dinheiro público, mas estão livres para funcionar como bem desejarem. Por isso, com honrosas exceções, transformaram-se em cartórios dominados por caciques eternos.

O que é melhor: o sistema que abre espaço para um Tiririca, ou o que permitirá aos Tiriricas de todos os matizes funcionarem como fornecedores de voto para os donos de partido conquistarem cadeiras nos parlamentos sem nem precisar sair de casa?

Nova experiência

O partido do presidente Hugo Chávez conquistou a maioria das cadeiras no sistema unicameral, mas em teoria vai precisar dividir poder com a oposição. Essa volta ao parlamento com número suficiente para impedir o rolo compressor bolivariano.

Chávez já fez quase de tudo nos anos recentes, desde que tentou sem sucesso um golpe de estado. Foi para a cadeia, saiu, elegeu-se presidente, foi ele próprio vítima de um golpe mal-sucedido, perdeu um plebiscito, ganhou os demais.

Só o que falta a Chávez é a experiência de dialogar com os adversários. Terá a estatura necessária, ou vai buscar um jeito qualquer de esmagá-los?

Vai ser interessante acompanhar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (28) no Correio Braziliense.

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domingo, 26 de setembro de 2010

A prudência do STF (26/09)

As pessoas talvez não percebam que se hoje o estado de direito está sendo violado para punir alguém de quem você não gosta amanhã ele estará sendo arranhado para atingir você

É compreensível a dificuldade do Supremo Tribunal Federal para decidir sobre a validade do Ficha Limpa nestas eleições. De um lado, a pressão quase insuportável da opinião pública. Do outro, ameaças reais a princípios do texto constitucional. Como o Supremo deve zelar pelo cumprimento da Constituição, fica um nó difícil de desatar.

Aliás, é curioso como entre nós o radicalismo na defesa dos próprios direitos convive bem com o desprezo pelos direitos alheios. Basta convir. É traço característico da nossa formação autoritária. Eu sou contra a ditadura alheia, mas a minha até que não seria tão ruim assim.

Cada grupo social sonha com o dia em que vai se apoderar do Estado, e assim adquirir condições de botar para quebrar em cima dos adversários, concorrentes ou inimigos.

Nos últimos dias a opinião pública vem mobilizada na defesa da liberdade de imprensa, elemento constitutivo da democracia. A mobilização é justa, legítima, desde que se notam no poder movimentos incomodados com a revelação, pela imprensa, de graves problemas intestinais no Palácio do Planalto. A reação midiática tem sido tão vigorosa que o próprio presidente da República parece ter concluído pela conveniência de um recuo.

Mas a mesma opinião pública exige do STF que deixe para lá sem pestanejar quaisquer dúvidas sobre a possível violação de regras como a vedação da retroatividade das leis, a inexistência de crime sem lei anterior que o preveja e a fixação legal de prazos para a mudança das regras do jogo eleitoral. E por quê? Porque há certos políticos que a opinião pública não gostaria de ver disputando as eleições.

O Ficha Limpa é um bom projeto, mas desperta dúvidas jurídicas. Especialmente sua aplicação nestas eleições. E do STF espera-se que aja com prudência. A última coisa de que o Brasil precisa é um STF jacobino, movido principalmente pelas pressões momentâneas, a decidir conforme o vento na rua. Num país de candidatos a Robespierre, é bom que a tentação do Terror permaneça do lado de fora da suprema corte.

Banco não faz pão e padaria não vende fiado. A opinião pública, como o próprio nome diz, opina. E os tribunais decidem conforme a lei.

Mais ainda quando fatos recentes da política brasileira exibem certa assimetria entre os conceitos de opinião pública e sociedade. Então, de novo, talvez seja prudente não se precipitar.

Se o STF não puder decidir com segurança, que amadureça o assunto. Haverá consequências eleitorais, que o próprio sistema precisará digerir. Será um problema. Mas nada que se compare a autorizar na base da canetada, a partir de uma votação empatada em 5 a 5, a revogação pura e simples de direitos e garantias do cidadão.

Às vezes é preciso coragem para não decidir nada. Talvez tenha sido esse o maior mérito do presidente do STF, Cezar Peluso, na votação desta semana sobre o Ficha Limpa.

Reconheço que o debate carrega um incômodo. A defesa de uma posição ou outra corre o risco de ficar identificada com o alinhamento ao político ou ao partido “x” ou “y”.

Paciência. O risco merece ser corrido. A causa é boa. As pessoas talvez não percebam que se hoje o estado de direito está sendo violado para punir alguém de quem você não gosta amanhã ele estará sendo arranhado para atingir você.

É moleza ser democrata para defender os próprios direitos e os dos amigos. Duro é sê-lo quando essa defesa pode ajudar os adversários, ou inimigos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (26) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Fim de época (24/09)

É uma regra as revoluções devorarem seus propulsores, pois uma vez no poder a norma passa a ser mantê-lo. E a turma que não entende isso, ou não se sente bem contemplada na nova ordem, acaba entrando na fila da degola

Com o nascimento da Nova República, determinados valores passaram a ocupar o centro do palco. Na segunda metade dos anos 1980, as dificuldades do governo José Sarney e de seu multipolítico PMDB alavancaram o desejo por coisas como “coerência” e “ideologia”.

O ocaso do PMDB também colocou em desuso a cultura das frentes políticas, da amplitude, da tolerância, do diálogo, da busca de convergências.

Era um tempo de jornalistas e politólogos clamando pelo fortalecimento dos “partidos ideológicos”. A eleição de 1989 preencheu o desejo, enterrando toda uma geração de políticos tradicionais, pragmáticos, centristas.

Mas, diferente do que imaginava a opinião pública, não deu nem para Luiz Inácio Lula da Silva nem para Leonel Brizola. Muito menos para o Mário Covas do “choque de capitalismo”. Aliás os dois mandatos seguidos de governador de São Paulo salvaram Covas de encerrar a carreira naquele naufrágio coletivo.

Pouco tempo depois, o desfecho prematuro do mandato de Fernando Collor introduziu a “ética” no portfólio.

E aí a coisa ficou completa, abriu-se uma era jacobina, na qual jornalistas adquiriam estatuto de juízes, separando os bons dos maus, decidindo com polegares para cima e para baixo quem deveria viver ou morrer no circo. Em íntima associação com políticos que surfavam nas ondas, em direção à praia do poder.

As camadas petistas e peessedebistas que hoje cobrem o sistema são fruto dos valores então emergentes. Ao observar o cenário agora, os decepcionados podem até lamentar os fatos e fazer, a posteriori, o diagnóstico de farisaísmo, mas lá atrás era bacana ser principista.

Hoje os principistas da esquerda estão espremidos. Os da direita nem isso, estão escondidos.

É uma regra as revoluções devorarem seus propulsores, pois uma vez no poder a norma passa a ser mantê-lo. E a turma que não entende isso, ou não se sente bem contemplada na nova ordem, acaba entrando na fila da degola.

Como o ambiente aqui é razoavelmente democrático, a degola não é literal, restringe-se ao plano da política.

O primeiro golpe sério no jacobinismo tucano-petista do pós-Collor foi desfechado por Fernando Henrique Cardoso, quando trouxe o então PFL para apoiar seu PSDB na sucessão de Itamar Franco, em 1994.

Uma parte dos jacobinos do canto tucano da política engoliram a situação de fato, outros ficaram remoendo-se, mas sem maior possibilidade de reação.

E os demais órfãos da “nova política”, na qual os mais céticos enxergavam apenas o velho udenismo? Deslocaram-se para o polo petista e aí passaram a desenvolver sua militância. Com desenvoltura.

O cansaço com FHC em 2002 encontrou-os prontos a prosseguir a revolução inacabada.

Uma parte da radicalização nesta reta final das eleições é, como nos filmes em que o monstro sucumbe no epílogo em cenas horripilantes, o espetáculo da orfandade absoluta de quem, neste quarto de século, acabou por tornar-se massa de manobra de uns, de outros ou de ambos.

Estão por aí, meio avoados e perguntando, desconsolados: “O que faria o PT se denúncias como as de agora acontecessem num governo tucano?”.

É uma boa pergunta. Mas há uma melhor.

“E daí?”

Temas trocados

A imprensa está em chamas no debate sobre a liberdade de imprensa. Aqui Lula já vai no lucro. O que era uma discussão sobre corrupção virou polêmica sobre a “mídia”.

Corrupção é um tema popular. Liberdade de imprensa, bem menos. Tampouco é assunto positivo, causa também constrangimento, mas num grau bem menor.

É a velha receita de matar uma crise com outra crise. Vai funcionar?

Uma coisa é certa: em sagacidade e esperteza, o presidente continua deixando todo mundo na poeira.

Inclusive a imprensa. Lula segue aqui a receita clássica.

Manter o adversário ocupado defendendo-se.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (24) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sem hora de parar (23/09)

Este governo tem sido bom ao dobrar apostas. Por enquanto as fichas acumulam-se a cada rodada na frente do jogador. É a típica situação na qual ninguém consegue convencer o sortudo de que chegou a hora de interromper o jogo

Qual é o problema nos protestos de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT e de aliados contra a imprensa? Não são as reclamações em si. A imprensa possui o direito de publicar/veicular o que bem entende, e também os críticos da atividade jornalística têm a prerrogativa de dar opinião a respeito. É um direito universal.

Justamente empenhada na defesa da própria liberdade, não é razoável a imprensa ficar com não me toques quando se exerce a liberdade alheia. Se o jornalista ou a empresa jornalística avaliam que foram atingidos na sua honra, que recorram à Justiça. O Código Penal está aí. O mesmo vale para os políticos, do governo ou da oposição: o Judiciário é o caminho para a busca de reparação.

Já há um controle social formal da atividade jornalística. Ele é feito pelos juízes, a posteriori. Mas não só. A emergência de meios materiais para o cidadão comum, com a internet, romper a unidirecionalidade na comunicação estabeleceu formas adicionais de controle social do jornalismo. Quem sempre esteve acostumado a falar hoje precisa estar cada vez mais disposto a ouvir. E põe disposto nisso!

Há entretanto, no poder, a tentação permanente de introduzir na lei controles a priori sobre o trabalho dos profissionais e empresas. Mas controles assim são proibidos pela Constituição. Em pelo menos dois julgamentos nos últimos anos o Supremo Tribunal Federal deixou claro, por boas maiorias, o entendimento claríssimo sobre o tema.

Qualquer controle a priori representaria cerceamento da liberdade de expressão garantida pelo texto constitucional. Seria censura, que a Carta proíbe.

Mesmo que iniciativas para tal pareçam prosperar no Congresso, irão morrer na corte suprema, mantida a composição atual do STF. E mesmo no Legislativo o terreno não está tão propício. O presidente da Câmara dos Deputados e do PMDB, e candidato a vice na chapa do PT, Michel Temer, diz que nada assim tem futuro no Parlamento. Se ele está certo só o tempo dirá, mas parece razoável.

É duvidoso que os partidos e políticos mais centristas tomem como sua uma pendenga alheia. E o Congresso Nacional está coalhado de gente ligada a atividades de comunicação.

A relação de forças pode sempre mudar, mas não é realista projetar agora um cenário permeável à introdução de novos parâmetros legais cerceadores da atividade jornalística. Pelo menos não parâmetros capazes de sobreviver à via crucis no Congresso e no STF.

Valeria a pena a nova administração, em caso de vitória do PT, meter-se numa disputa sem luz no fim do túnel, apenas para estabelecer um clima permanente de confronto? A lógica simples diz que não. Mas a lógica do núcleo dirigente deste governo (e que espera permanecer) é mais complexa. Investe-se no conflito retórico e na polarização permanente como fonte de poder político. Por enquanto está funcionando.

Agitar o fantasma do “controle social da mídia” é duplamente útil. Alimenta-se retoricamente uma base social radicalizada, mas num item de materialização bem improvável. Ou seja, a ameaça existe, mas sempre será possível argumentar, para os públicos certos, que ela não se realizará. E está dado o recado.

Se o governo desejasse, se sentisse necessidade, faria aos veículos de comunicação o gesto que oito anos atrás fez ao mercado financeiro. Uma “carta aos brasileiros” para reafirmar o compromisso com certas prerrogativas democráticas. Não o faz porque acha que não precisa, entende que pode atravessar a eleição e ganhar sem isso. Alguns acham que podem até governar sem isso.

É uma aposta. Este governo tem sido bom ao dobrar apostas. Por enquanto as fichas acumulam-se a cada rodada na frente do jogador. É a típica situação na qual ninguém consegue convencer o sortudo de que chegou a hora de parar de apostar.

Hora de decidir

O STF informa que continua hoje a votação sobre se o Ficha Limpa vale ou não para esta eleição. Na boa, está na hora de acabar com a novela.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (23) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Jogo do Poder com Flávio Testa (22/09)



O professor e cientista político Flávio Testa é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista

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Sem nada a ganhar (22/09)

É nítido nos últimos tempos que os líderes continentais buscam aumentar a distância do imbróglio levantino, para que não cheguem a estas plagas os estilhaços de uma eventual confrontação

Publiquei dias atrás um comentário sobre as autocríticas de Fidel Castro, especialmente quando reconheceu, segundo dois jornalistas americanos, que o modelo em Cuba não funciona mais.

Depois Fidel fez questão de retificar o sentido das palavras, mas os entrevistadores reafirmaram o publicado. E a polêmica diluiu-se, inclusive porque a realidade se sobrepõe às versões. E poucos duvidam da necessidade de mudanças urgentes e profundas em Cuba.

Agora é o chanceler Celso Amorim quem vai à ilha, levando uma carta de Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente cubano, Raúl Castro. O Brasil tem sido agressivo na busca de espaços econômicos ali, mas move-se com cuidado para não bater de frente com os Estados Unidos.

Pois para os americanos não faz sentido estimular a prosperidade em Cuba sem antes arrancar dos dirigentes comunistas o compromisso com reformas democráticas. Uma encrenca, pois na cúpula cubana manter a revolução intocada é ponto de honra.

Continuar no poder é condição sine qua non.

Que Cuba siga seu caminho, como achar melhor. Cada país cuida da sua vida. Mas o objetivo desta coluna não é discutir, pela enésima vez, para onde vai Cuba. É também notar a suavidade de Fidel Castro ao reagir à publicação de algo desagradável. E que supostamente não correspondia à verdade.

Ressurgido da doença que o tirou do comando do país, o ex-líder tem dedicado os dias a escrever suas “reflexões”, a forma de ele intervir publicamente no processo político local e global. Se as entrevistas são esporádicas, os escritos são regulares. Segundo os relatos, Fidel usa uma caneta “Pilot” para rabiscar o papel sobre a mesinha, e o manuscrito é digitado por outra pessoa.

Goste-se ou não de Fidel, impressiona que na idade dele e nas condições precárias de saúde encontre energia e mantenha a disciplina mental para produzir os escritos. É também o produto de uma vida de leituras e atividade intelectual intensa. Com os anos (e aqui são muitos), cria-se um estoque de ideias útil para o crepúsculo. E o tirocínio agradece.

Fidel reagiu com fidalguia ao modo como Jeffrey Goldberg e Julia Sweig expuseram as considerações dele sobre o sistema em vigor na ilha. E engoliu a reconfirmação de ambos sobre o que ele tinha dito e procurado desmentir. Certamente não lhe interessava estender ou agravar a dissonância.

Até porque o tema não tinha sido central na conversa, voltada principalmente para discutir a possibilidade de um conflito no Irã.

O ex-presidente de Cuba tem consumido as energias nisso. Tem motivos de ordem global, mas também locais. Os nexos entre os projetos iranianos e os movimentos políticos emergentes na América Latina estreitaram-se nos últimos anos, e nos levaram a uma situação renovada.

Diante das novas relações hemisféricas com Teerã, um eventual problema que antes exigiria de nós apenas declarações protocolares e posições formais tem agora maior potencial de impacto aqui. Especialmente nas relações dos Estados Unidos com a Venezuela e o Brasil, os dois principais aliados de Havana — e de Teerã — no hemisfério.

É nítido nos últimos tempos que os líderes continentais buscam aumentar a distância do imbróglio levantino, para que não cheguem a estas plagas os estilhaços de uma eventual confrontação.

A mesma lógica comanda as recentes e unânimes conclamações às Farc pela libertação dos reféns na Colômbia e pela suspensão das atividades militares. Qual é a lógica? O melhor que pode acontecer é nada acontecer.

Uma década de paz política fez a esquerda latino-americana bombar. A última coisa que ela, esquerda, poderia desejar é ser arrastada para confusões nas quais agora, talvez um pouco tardiamente, percebe que nada tem a ganhar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (22) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 21 de setembro de 2010

De onde ela vem (21/09)

A oposição aos governos não nasce nos parlamentos, nem lhe é indispensável deter orçamentos públicos para azeitar a vida diária e suas campanhas. A origem da oposição é sempre social

Mesmo no meio de um processo eleitoral há espaço para a lógica. No fim de semana o presidente da República fez o que fez, disse o que disse sobre os veículos jornalísticos que publicam acusações de supostas irregularidades no governo. Já ontem, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, saiu de um encontro da coordenação de governo afirmando que Luiz Inácio Lula da Silva mandou apurar tudo, para a punição dos eventuais responsáveis.

Qual é a face real do comboio governista, o Lula do fim de semana ou o Padilha de ontem? Provavelmente ambos. O presidente deve sim estar enfurecido com a sucessão de acusações contra a administração, e é normal que veja nelas motivação político-eleitoral, mas numa democracia não há jeito de a autoridade escapar das obrigações legais. É preciso mover-se, produzir providências. Até por razões político-eleitorais. Pelo andar da carruagem, o governo sairá das urnas com motivos para sorrir. Mas a vida segue, e a política idem.

Lula deseja que a atual oposição encare outubro dizimada, e tem uma chance de conseguir. E daí? E daí nada, ou muito pouco. O Brasil já assistiu antes a belas hegemonias eleitoriais. Em 1970 a Arena massacrou o MDB, que chegou a pensar em autodissolução. Em 1986 o PMDB reacendeu os temores de “mexicanização”, ao ganhar tudo e mais alguma coisa. Tomou o Planalto, quase todos os governos estaduais e a maioria esmagadora na Constituinte. E em 1994 o PSDB abocanhou a Presidência da República, São Paulo, Minas Gerais e o Rio de Janeiro.

O poder absoluto, ou quase, não foi suficiente para a Arena, o PMDB e o PSDB se eternizarem. A “mexicanização” frequenta esporadicamente o noticiário, mas nunca se consumou. Por quê? Assunto para os doutores. De todo jeito, a oposição aos governos não nasce nos parlamentos, nem lhe é indispensável deter orçamentos públicos para azeitar a vida diária e suas campanhas. A origem da oposição é sempre social, e mesmo governos maravilhosamente bem avaliados, e votados, podem virar pó se o vento na rua muda de sentido.

Desde, é claro, que exista um ambiente institucional favorável à democracia. Como aqui.

Governos sempre colhem os frutos da bonança econômica. Este não é exceção. E as hegemonias recentes no Brasil foram minadas por frustrações econômicas. O eleitor sempre encontrou uma maneira de, nessas crises, manifestar o desejo de mudança. E recebeu a bola quem estava, como diria o Capitão Coutinho, no ponto futuro. Só isso. O problema é que para chegar a esses pontos futuros as forças da esperança precisaram atravessar, cada uma a seu tempo, um deserto particular.

Lula e a imprensa

Já identifiquei aqui antes uma rachadura na lógica do presidente da República quando trata da imprensa. Umas horas diz que ela não tem mais tanto poder quanto antes. Mas se isso é fato por que gastar tanta saliva com o assunto?

O que mudou na relação entre a imprensa e seus leitores, telespectadores, ouvintes? Hoje há bem mais fontes de informação, e essas fontes são fiscalizadas em tempo real pela internet. O sistema de freios e contrapesos funciona para valer, cada vez melhor.

O que não mudou? A razoável independência entre o que acham e dizem os jornalistas e o que pensa o eleitor.

Lula de vez em quando parece imaginar que está diante de uma baita novidade. Menos, presidente. A História do Brasil já teve outros episódios de dissonância entre o poder e a opinião pública, nos quais a maioria da população seguiu o primeiro e não a segunda. É só pesquisar. Um bom exemplo está no livro “Minha Razão de Viver”, na parte em que Samuel Wainer (com a redação de Augusto Nunes) conta da campanha que levou Getúlio Vargas de volta ao poder em 1950.

O papel dos “formadores de opinião” foi e é limitado. Em geral, quando alguém busca uma ideia é para poder defender melhor o que já desejava defender. O sujeito gosta de um governo ou não gosta. Mas sempre por razões objetivas. Depois vai buscar a explicação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (21) no Correio Braziliense.

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domingo, 19 de setembro de 2010

Distinção necessária (19/09)

Eleição resolve um bom número de problemas, define quem vai sentar na cadeira e a turma que vai ocupar os cargos, mas não tem o efeito de interromper o processo político-institucional

Há uma diferença entre governo e Estado. Um é de grupo, o outro é de todos. Uma distinção teórica, porque o Estado é comandado pelo governo, ainda que nas democracias o primeiro tenha dose de autonomia em relação ao segundo.

No Brasil algumas iniciativas de garantir ao Estado certa independência diante do governo deram certo. O Banco Central, o Ministério Público, a Polícia Federal são exemplos. Outras deram muito errado. Um ícone do fracasso são as agências reguladoras.

Mas sempre resta a tensão. Agora mesmo a onda de acusações contra a Casa Civil desperta dois tipos de reação: no governo a ansiedade é sobre possíveis efeitos nas urnas, no Estado deve ser por apurar tudo tintim por tintim, e adotar as devidas providências.

Não é realista imaginar que faltando duas semanas para a eleição o governo esteja disposto a cortar ilimitadamente na própria carne para descobrir até onde chegaram os problemas na Casa Civil.

O Palácio do Planalto toca a bola de lado à espera do apito final do eleitor. De vez em quando alguém dá um bico para a arquibancada, pois o jogo é de campeonato. Que o diga a ex-ministra Erenice Guerra.

Mas é legítimo desejar que as instituições de Estado entrem em ação, e não há motivo para suspeitar de que não entrem. Ou de que já não tenham entrado.

Até por uma razão de ordem profilática. Se derrapou, são necessárias medidas para desestimular que volte a derrapar.

Os desdobramentos da investigação não se confundem com os resultados da eleição.

Eleição resolve um bom número de problemas, define quem vai sentar na cadeira e a turma que vai ocupar os cargos, mas não tem o efeito de interromper o processo político-institucional.

Será ruim se um eventual governo Dilma Rousseff, eleito em primeiro ou segundo turno, precisar carregar na largada um fardo desse tamanho.

Será triste se o eventual futuro governo já nascer refém da maioria parlamentar, antes mesmo da posse. Precisando entregar anéis e dedos para evitar CPIs.

E a eleição propriamente dita? Toda reta final embute turbulências, com a possibilidade de mudanças. Desta vez o quadro aponta alguma estabilidade em cima. A novidade é que Marina Silva mostra mais fôlego que Heloísa Helena e Cristovam Buarque quatro anos atrás.

A verde terá gás para fazer algo de diferente nas próximas duas semanas? Essa é a dúvida, além das indagações sobre o efeito na campanha de Dilma Rousseff das denúncias recentes.

Há variações sobre o que levou a eleição presidencial de quatro anos atrás ao segundo turno. Uns dizem que foram as fotos do dinheiro do chamado dossiê dos aloprados. Outros, a ausência de Luiz Inácio Lula da Silva no debate final do primeiro turno.

Mais provável que tenha sido uma combinação das duas coisas. Lula deu a impressão de fugir das explicações sobre um assunto grave. Isso incomodou uma parte do eleitorado dele. Que decidiu castigar o presidente-candidato. Aí veio o segundo turno, o PT conseguiu encurralar o PSDB politicamente e levar a eleição para casa.

Como venho escrevendo nos dias recentes, há situações em que o lero-lero da politicagem adquire outra dimensão, e a sociedade passa a prestar atenção e a pedir explicações. O governo tem mostrado nos últimos dias maior permeabilidade à pressão. O que é bom, mas talvez ainda não tenha vindo na dose suficiente.

Governo e oposição correm contra o relógio. Isso é uma parte do enredo. Há porém outra parte, que não obedece ao tic-tac do cronograma da Justiça Eleitoral.

Se governo e Estado interligam-se, não são a mesma coisa, como engatou esta coluna no começo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (19) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Mudança de hábito (17/09)

Todo governante esperto cultiva canais de diálogo com as forças contrárias, para o dia em que precisar. Um dia que não costuma mandar recado, chega de repente. E quando chega, diria o velho filósofo, tudo que parece sólido se desmancha no ar

Mesmo antes da queda de Erenice Guerra da Casa Civil, notou-se nos últimos dias um ajuste na maneira como o governo aborda questões espinhosas. Pode ser só o efeito “falta pouco para a eleição”, mas isso é de menos.

O ministro da Fazenda finalmente se moveu diante dos descalabros na Receita Federal. Ergueu-se do berço esplêndido e tomou medidas. Se são boas ou não, se enfrentam ou não os nós, se é ou não diversionismo, que se discuta ad eternum. Mas o fato é que Guido Mantega precisou mexer-se.

E a própria candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, deu-se ao trabalho de explicar o que o presidente da República quis dizer quando falou em “extirpar” o Democratas da política nacional.

Segundo a ex-ministra, Luiz Inácio Lula da Silva usou o termo no sentido de “derrotar eleitoralmente”. A explicação é aceitável, não há por que duvidar dos propósitos democráticos do presidente e da sua porta-voz.

Já escrevi algumas vezes que a popularidade de Lula trouxe ao governo um efeito colateral indesejável. A convicção disseminada de que a cada contratempo a melhor coisa é desqualificar os críticos. Como se isso automaticamente desqualificasse a crítica.

A luta política existe, mas não engloba toda a realidade. O ataque, a denúncia ou a revelação podem muito bem partir de alguém com má-fé, movido apenas pela disputa do poder ou desejoso de enfraquecer o governo, ou mesmo de dar termo a ele. Mas sempre pode haver algum mérito no que se diz, independente de quem diz.

Um governo democrático deve permanentemente explicações, e isso não o diminui. Ao contrário, fortalece. A oposição e a vigilância firmes de fora ajudam os de dentro a se livrar das células malignas, ou mesmo dos tumores já mais desenvolvidos. E a combater o sentimento de “tudo pode”.

Quando esse sistema imunitário está deprimido o organismo todo periga.

O que mantém um governo, especialmente na democracia? A satisfação da maioria com a vida.

Há alguma ilusão sobre o conforto que o poder retira de imensas maiorias parlamentares. Mesmo sólidas bases de apoio correm o risco de virar fumaça quando muda o vento no mundo lá de fora.

Todo governante esperto cultiva canais de diálogo com as forças contrárias, para o dia em que precisar. Um dia que não costuma mandar recado, chega de repente. E quando chega, diria o velho filósofo, tudo que parece sólido se desmancha no ar.

Aqui Dilma leva vantagem sobre Lula, que com o tempo parece ter passado a considerar suficiente sua relação direta com as massas. Se for eleita, ela começará do zero, tem poucos contenciosos já instalados. E os que tem não lhe causaram até agora maior prejuízo.

Dilma também dependerá mais que Lula do sistema político orgânico.

Não tem por que não conversar.

Bode expiatório

Os republicanos veem chance real de retomar nas eleições parlamentares deste ano o controle da Câmara dos Representantes (Deputados), que nos Estados Unidos é completamente renovada a cada dois anos (deveriam implantar algo parecido aqui, mas precisaria haver o voto distrital).

Não é raro que presidentes americanos com dois anos no cargo sofram nas “midterm elections”. Desta vez, a oposição republicana a Barack Obama pode sair das urnas com um detalhe adicional: um punhado de parlamentares mais radicais, alinhados ao movimento ultraconservador da legenda.

Será um problema para Obama, mas também pode embutir uma oportunidade. Se a ação dos radicais inviabilizar os entendimentos no Congresso, Obama poderá na campanha de reeleição, daqui a dois anos, oferecer o Legislativo como bode expiatório.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (17) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Caindo na real (16/09)

Por causa de uma decisão duvidosa lá atrás, agora o Brasil precisa realizar a tarefa irrealizada, mas numa conjuntura bem mais complexa

A ficha caiu. O ministro da Fazenda revelou ontem que o Brasil vai tomar medidas para evitar a valorização ainda maior do Real. É uma mudança sutil, mas substancial. Desde 2003, quando assumiu o Banco Central, Henrique Meirelles repete sistematicamente: o país tem meta de inflação, não tem meta de câmbio. E não só o presidente do BC diz isso. O governo todo.

Uma frase irônica (ou bem-humorada) do então ministro Antonio Palocci era padrão quando se tocava no assunto. “O problema do câmbio flutuante é que ele flutua.”

Será que o Brasil agora vai mudar, vai ter meta de câmbio? A crer nas palavras do sucessor de Palocci, pelo menos um limite aceitável deve ser criado. Afinal, não dá para o Brasil ser o único do passo certo num mundo em que todos acirram a tendência protecionista.

Quando estourou a grande crise em setembro de 2008 houve algum otimismo sobre a possível conjugação de esforços para acelerar o livre comércio, inclusive com a participação decisiva do G20. O Brasil acreditou sinceramente nisso. Mas a utopia de um multilateralismo salvador acabou dando lugar à realidade crua. Cada país cuida de suas exportações, de seu mercado interno e, portanto, dos seus empregos. Ponto final.

É melhor isso, que o Brasil caia na real, sem trocadilhos. Mas onde está a dificuldade? No fato de o câmbio flutuante ser um alicerce da política antiinflacionária. O crescimento maciço das importações garante a oferta, e com a demanda interna aquecida pela forte expansão do crédito e da renda qualquer gargalo de oferta levaria a pressões indesejadas sobre os preços.

Ou seja, se decidir pela desvalorização, o governo precisará também dizer como vai controlar as pressões inflacionárias decorrentes.

Agora vê-se a dimensão da oportunidade perdida naquele final de 2008 e começo de 2009, quando o Banco Central decidiu adotar uma posição tímida em relação à obrigatória queda radical nas taxas de juros. Com a demanda praticamente a zero, consequência do estrangulamento instantâneo do crédito, esperou para ver se a desvalorização do real na época traria junto riscos à inflação.

Era uma aposta complicada, pois como falar em riscos à inflação num cenário de demanda caindo praticamente a zero? Era bem improvável.

Por causa de uma decisão duvidosa lá atrás, agora o Brasil precisa realizar a tarefa irrealizada, mas numa conjuntura bem mais complexa. Agora sim há pressão de demanda, as confianças do consumidor e do investidor estão em alta, o crédito voltou com tudo.

A equipe econômica do governo tem um abacaxi para descascar. Que não precisaria ser tão abacaxi assim não fosse o erro de dois anos atrás. Vamos esperar para ver a saída.

Um aspecto positivo: como o assunto da barreira à elevação do Real agora deixa o terreno das generalidades e abstrações, vindo para a vida prática, talvez seja momento de os candidatos a presidente entrarem mais decisivamente nesse debate econômico. Assunto por enquanto ausente na campanha eleitoral.

Até porque o próximo mandato presidencial está logo aí, dobrando a esquina, e esse pepino será mais do sucessor de Luiz Inácio Lula da Silva do que do próprio.

Ainda em relação às explicações, uma razão da embicada do dólar para baixo nos últimos dias é a operação de capitalização da Petrobras. Mas não é crível que seja só isso. O assunto é estrutural.

Tática

O chanceler Celso Amorim deve representar o Brasil na abertura da Assembleia Geral da ONU. Sobre o próximo período, se o governo for mesmo de continuidade, as apostas em Brasília apontam no sentido de uma diplomacia menos presidencial. Um perfil mais discreto.

Sempre é um risco tratar de especulações, ainda mais antes da eleição, mas há no Itamaraty um sentimento de que a política externa brasileira está algo superexposta, correndo riscos desnecessários.

Não haveria uma mudança de rumo, mas sim de tática. Avaliar melhor cada bola dividida.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (16) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Jogo do Poder Eleições com José Serra (15/09)

O candidato à Presidência da República José Serra (PSDB) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista

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A falta dos "porquês" (15/09)

O jornalista contemporâneo não necessariamente está em busca de uma explicação para a essência dos fenômenos. Basta-lhe o lide. De preferência entre aspas. Forneça um e o saciará

Os jornalistas não terem direito de réplica em debates eleitorais é um problema. Basta o candidato estar bem treinado e oferecer uma resposta não comprometedora à questão inicial. Pronto, o assunto foi contornado.

Menos mal que ainda não tenham abolido a réplica e a tréplica nas perguntas de candidato para candidato. Mas mesmo aqui as regras são restritivas. O sujeito tem um minuto, ou um minuto e meio, para desenvolver o raciocínio. Não é trivial.

Os políticos reclamam muito da imprensa, mas aprenderam a lidar com ela bastante bem. Alguém explicou a eles que o jornalista contemporâneo não necessariamente está em busca de uma explicação para a essência dos fenômenos, dos acontecimentos. Basta-lhe o lide. De preferência entre aspas. Forneça um e o saciará.

Uso intensivo do senso comum e fornecimento regular de lides, eis uma fórmula.

Mas sempre existe quem deseje ir além. Uma saída engenhosa do entrevistador ou debatedor chato é fazer a pergunta como se já fosse a réplica, para evitar desperdício. Usar a técnica bem desenvolvida por Luiz Inácio Lula da Silva, o estado da arte em comunicação, a referência para qualquer um que deseje se aventurar no ramo.

O estratagema é atribuir algo ruim — ou desagradável — ao adversário (o entrevistado). Nem precisa ser verdadeiro, basta a verossimilhança. Com uma vantagem. Não restará ao atacado nem a saída habitual de mudar de assunto, pois isso se voltaria contra ele. “Não conseguiu explicar.”

Acuse alguém de alguma coisa, e o dito cujo terá alguma dificuldade para se desvencilhar da nhaca da pauta negativa. Terá que se justificar.

De volta ao senso comum. Ele é como a matéria: parece contínuo e consistente, mas visto bem de pertinho é um tanto vazio.

Evite-o. Você pode até perguntar a um político da oposição se ele vai manter o Bolsa Família. Seria mais esperto perguntar por que no governo do PSDB o benefício era tão mais magrinho e chegava a tão menos gente do que no governo do PT.

A resposta à primeira pergunta é trivial. O PSDB está entre os fundadores da prática de distribuir dinheiro público para os mais pobres no Brasil. Já a segunda é mais complicada, pois embute juízo de valor sobre prioridades de governo.

Você pode perguntar a um político governista se ele acredita que a atual chefe da Casa Civil deve permanecer no cargo. Ou então indagar por que é aceitável o filho de um ministro intermediar negócios no governo, especialmente em áreas onde o ministro tem poder de decisão.

A resposta à primeira pergunta é trivial. Ninguém deve ser prejulgado, uma acusação não tem por si o efeito de condenar. Já a segunda é mais complicada de escapar.

O senso comum não costuma resistir a um “por quê?”. Infelizmente, o jornalismo recente estimulou a amputação de duas das seis perguntas do instrumental de construção do lide. Vão bem obrigado o “quem”, o “o quê”, o “quando” e o “onde”. Mas andam esquecidos o “como” e o nosso importantíssimo “por quê”.

Se a economia vai tão bem, e os bancos estão saudáveis além da conta, por que o usuário do cheque especial paga no governo Lula, em ordem de grandeza, o mesmo tanto que pagava no governo de Fernando Henrique Cardoso? E por que as tarifas escorchantes? Por que o spread indecente?

Se as privatizaçoes foram tão boas para o Brasil, por que não privatizar as demais estatais? Se foram tão ruins, por que não reestatizar as empresas já privatizadas?

Por que a oposição derrubou a CPMF depois que o governo já havia aceitado a proposta, vinda da própria oposição, de destinar todo o dinheiro para a Saúde?

Por que o Brasil está ajudando o Irã a ganhar tempo para construir uma bomba atômica?

Se os governantes dizem que fazem tanto pela escola pública, e garantem que elas estão ficando muito boas, por que os filhos deles estudam em escolas privadas?

Há “por que” para todos os gostos e posições. Basta querer usar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (15) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Platitudes (14/09)

Na hipótese de Dilma Rousseff chegar à Presidência, a força política intrínseca das urnas talvez dê a ela o impulso necessário para reconstruir o sistema imunológico governamental, debilitado nos anos recentes

Quem ganha mais quando um governo é alvo de denúncias? Ele mesmo ou a oposição?

A resposta óbvia seria “o país”.

Como toda generalização, seria também inútil. Platitude. É preciso sempre analisar tais episódios à luz da luta política, da disputa pelo poder, vetor que em última instância comanda as ações dos personagens.

Mas será que não há, em todo caso, um “interesse geral” embutido em qualquer braço de ferro da política?

Há outra pergunta razoável: Como combater um governo popular, termo aqui usado como sinônimo de “detentor de grande popularidade”? Ou deve-se abdicar de combatê-lo por causa das remotas possibilidades imediatas de sucesso?

Bom exemplo pode ser buscado em tempos não tão distantes, nas circunstâncias enfrentadas pela oposição ao regime militar na passagem dos anos 60 para os 70 do século passado.

Foi um período maravilhosamente próspero, o do “milagre brasileiro”. Infelizmente, a produção de prosperidade convivia com a supressão das liberdades, com a tortura dos presos políticos e outras coisas tristes e condenáveis.

Fez bem a oposição na época (o MDB, Movimento Democrático Brasileiro) quando decidiu não esmorecer. Mesmo passando por vexames homéricos, como a surra que tomou na eleição de 1970.

Daria o troco quatro anos depois, na lavada que impediu a institucionalização do regime e abriu o caminho para a democracia.

Antes que os lunáticos de plantão comecem a espumar, esclareço não haver aqui qualquer paralelismo estrito entre aquela época e hoje. São situações diferentes. Uso aqueles episódios históricos como referência para os acontecimentos atuais.

Existir uma oposição, orgânica e difusa, é sempre bom para a democracia. Mais: é essencial. E é bom para o próprio governo. Governos são conglomerados de interesses e ambições, cujo controle é impossível fazer só “de dentro”. Pois o normal é os “de dentro” serem solidários entre si quando a pressão “de fora” ameaça o condomínio.

E importa menos aqui saber se a oposição e a fiscalização externas em cada caso são “justas” ou “injustas”. O importante é que existam. Funcionam como um sistema imunológico sadio a eliminar regularmente células estranhas, que de outro modo poderiam se transformar em focos de doenças capazes de levar o organismo à debilidade extrema e mesmo à morte.

A administração de Luiz Inácio Lula da Silva vai muito bem. A economia cresce, a confiança dos consumidores e das empresas anda em alta, alguns nós estruturais da injustiça social vão sendo enfrentados. O resultado é a força política do presidente, do partido dele e da candidata que apresentaram à sucessão.

Mas o governo tem também uma deficiência séria. Seu sistema imunológico deprime-se progressivamente . Um sintoma são as reações tíbias aos desarranjos. Estes sucedem-se, sem que se note incômodo ou constrangimento. Ou ação real. Nada parece tão grave que não possa ser tratado com um muxoxo.

É da natureza do poder. Quando se vê muito forte, dá-se ao luxo de (não) reagir assim. E sempre haverá nos palácios quem sopre nos ouvidos do príncipe que o exercício bruto da força é a solução para todos os problemas.

Por um tempo, pode até ser. Pode ser até por um bom tempo. Mas nunca é para sempre.

Esta coluna não terminará pessimista. Eis uma vantagem da democracia. Em janeiro haverá um novo governo. Hoje o cenário mais visível na neblina é a continuidade. Se houver a virada, e a oposição ganhar, a ruptura será natural.

Mas mesmo na hipótese de Dilma Rousseff chegar à Presidência a força política intrínseca das urnas talvez dê a ela o impulso necessário para reconstruir o sistema imunológico governamental, debilitado nos anos recentes.

Você pode achar que é só torcida. Mas quem disse que o analista político não tem o direito de torcer de vez em quando?

A alternativa é ruim. É o eventual futuro governo já nascer velho, já manietado pelas coisas que não podem mais ser corrigidas facilmente, pelos tumores inoperáveis, com suas metástases.

Desculpem a platitude, mas o Brasil não merece isso.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (14) no Correio Braziliense.

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domingo, 12 de setembro de 2010

A travessia (12/09)

Quem conhece Marina sabe que ela tem tutano para encarar a caminhada. Mas será que o PV dará o necessário apoio? Como fez o PT para Lula?

A três semanas do primeiro turno, os números de todos os levantamentos convergem para um padrão. Entre eles e também na comparação com as duas eleições anteriores. Três quintos do eleitorado “útil” (o que vota em candidatos) pendem para a favorita de Luiz Inácio Lula da Silva. A diferença é que em 2002 e 2006 essa configuração só se cristalizou no segundo turno. Ou seja, em vez de a ex-petista Marina Silva dividir no primeiro turno votos de seu antigo campo, os números mostram que ela semeia no terreno da potencial oposição. Não só a atual, mas a futura.

Marina segue uma estratégia à la Antanas Mockus, o verde que chegou em segundo lugar na eleição da Colômbia: fincar estaca como a alternativa para adiante. É inteligente, mas sempre será preciso ver se a senadora do Acre e seu PV vão suportar a travessia do deserto. Lula e o PT atravessaram o deserto na oposição porque partiram de duas premissas. Não apoiariam nenhum governo liderado por outros e cauterizariam todas as possíveis dissidências conciliatórias.

Quem conhece Marina sabe que ela tem tutano para encarar a caminhada. Mas será que o PV dará a ela o necessário apoio? Como fez o PT para Lula? O exemplo de Ciro Gomes está aí. Na hora H o PSB puxou o tapete, ainda que a puxada estivesse escrita nas estrelas desde o esboço da candidatura.

O recuo do PSB decorreu de uma visão estratégica sobre a necessidade de coesão do bloco governista, diz o PSB. Ou de renunciar a um projeto nacional em favor de projetos regionais, dizem os críticos. Pouco importam as explicações. Ciro Gomes ficou fora e o PSB está agarradinho a Dilma Rousseff. O amor aliás é recíproco.

Marina ainda sonha com a ida a um hipotético segundo turno, e os ganhos pontuais dela entre os grupos mais formalmente instruídos certamente vão animar. Aí seria a sopa no mel, mesmo em caso de derrota. Ela restaria como a primeira da fila, posição que José Serra conquistou em 2002. Como o cenário mais visível não é esse, vale especular então sobre o grau de resistência da própria Marina e, principalmente, do novo partido dela às forças centrípetas do poder.

O PT pôde fincar pé na oposição por funcionar em boa medida como um único organismo e pela inserção social e no poder local, com importantes orçamentos municipais sob controle. Coisas que o PV não tem. Como os parlamentares do PV irão resistir à caneta do Executivo?

De outro ângulo, entretanto, a situação de Marina é animadora. A onda peemedebista nos anos 80 trazia na testa o atendimento às aspirações democráticas, a tucana nos anos 90 contemplou os desejos modernizantes, e a petista nesta primeira década do século 21 enfatizou a justiça social.

Quem está mais bem posicionada para a agenda do ponto futuro é Marina Silva. Falta a ela massa crítica para realizar agora este potencial, e é preciso saber se conseguirá manter a tropa reunida para, como disse, fazer a travessia. Mas sua resistência a ser desidratada nesta eleição é um sinal.

Como nos primórdios

Uma boa conversa ao longo da semana passada com dois próceres petistas, separadamente, revelou certo incômodo com a perspectiva de ter uma “oposição interna” peemedebista nos próximos quatro anos, na eventualidade de vitória de Dilma Rousseff. Acham que um também eventual enfraquecimento extremo da dupla PSDB-DEM fará a oposição social ao PT deslocar-se para o polo mais viável, o PMDB, mas argumentam que há aí duas atenuantes.

Uma é a expectativa de poder futuro simbolizada na possível volta de Lula. É um trunfo petista. Um cano frio a ser encostado na testa dos permeáveis a tentações de dissidência. Outro trunfo é o previsível inconformismo da oposição tradicional com o papel de coadjuvante. Por isso, acreditam, sempre poderão contar com o PSDB para enfraquecer o PMDB, caso necessário. Como se passava, aliás, nos primórdios petistas e tucanos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (12) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O sintoma (10/09)

Cuba precisa de prosperidade para manter o regime, o que significa investimento estrangeiro e mais (bem mais) espaço para o capitalismo. Mas Havana não tem o peso específico de Pequim. A estabilidade e o progresso da China são essenciais para toda a humanidade

E um revivido Fidel Castro segue na trilha das autocríticas, misturando as explícitas com as nem tanto. É um desfile de surpresas. Dias atrás pediu desculpas pela discriminação e perseguição dos homossexuais na Cuba pós-revolucionária. Agora vem a público dizer que o modelo cubano não deve ser exportado, pois não funciona nem na própria ilha.

Aguardam-se os próximos capítulos, sob os olhares aterrados de quem se habituou a defender qualquer coisa relativa ao status quo cubano, em nome da luta contra o imperialismo ou de sei lá o quê. Estaria então Fidel “capitulando” diante das pressões capitalistas e imperialistas? Penso que os áulicos espantados não chegariam a tanto. Vão preferir esperar em silêncio, até saber onde a coisa vai parar.

O establishment cubano busca caminhos para romper os nós que amarram a vida dos ilhéus, mas sem deixar o poder.

Quando Fidel adoeceu escreveu-se, aqui inclusive, sobre uma certa transição desejada pelo Partido Comunista de Cuba, mais ou menos nos moldes da China pós-Mao Tsé-tung. A construção política legada por Teng Hsiao-ping alicerçou-se na rotação de poder intrapartidária como mecanismo essencial para manter o leme firme nas mãos do partido.

Mas uma transição assim suave do mando unipessoal para o unipartidário exige certos requisitos. Um deles é o férreo controle das atividades políticas e sociais. O que em Cuba não chega a ser problema. Outro é a criação de um ambiente de bem-estar econômico que impeça o transbordamento das naturais guerras intestinas. Ou seja, impeça um ocaso “soviético” do regime.

Para o partido continuar monopolizando o poder, ele precisa estar coeso. Mas sem prosperidade essa coesão fica inviável, a não ser com um estado policial no último grau. O que em Cuba é impossível nos dias que correm, dada a relação de forças planetária, o novo governo de centro-esquerda em Washington e o cenário político latino-americano. Sem falar na oposição interna.

Até mesmo Luiz Inácio Lula da Silva, o diz-qualquer-coisa-e-nada-acontece, pagou um preço ao posar sorridente para fotos ao lado de dirigentes cubanos enquanto um preso de consciência dali morria depois de greve de fome. O que, num triste episódio, motivou nosso presidente a compará-lo aos presos comuns brasileiros, os bandidos aqui encarcerados por delitos que nada têm a ver com a política. Pegou mal.

Cuba precisa de prosperidade para manter o regime, o que significa investimento estrangeiro e mais (bem mais) espaço para o capitalismo. Mas Havana não tem o peso específico de Pequim. A estabilidade e o progresso da China são essenciais para toda a humanidade, e por isso o fim do isolamento chinês foi liderado por um dos governos mais conservadores que os Estados Unidos já tiveram, o de Richard Nixon. Pois é.

Já o fim da Guerra Fria, seguido pela emergência da ameaça terrorista global, relegou o tema cubano a prateleiras secundárias na administração dos assuntos mundiais pela Casa Branca. Se Washington precisou arquivar as diferenças ideológicas com Pequim em nome da centralidade estratégica da China, a mesma sorte não parece reservada a Cuba depois que a União Soviética se foi.

A população de Cuba transformada em boat people é um cenário indesejável para os americanos. Mas se acontecesse na China seria um apocalipse global.

Daí que os dirigentes cubanos estejam em busca de uma saída. Controlada. Meses atrás um expurgo dizimou politicamente parte da cúpula em Havana, gente graúda que esboçava cultivar um núcleo de poder paralelo. Como os tempos são outros, foram apenas para o ostracismo, em vez de ir para a cadeia ou o exílio.

Os desafios diante do Partido Comunista de Cuba são imensos, na tentativa de estabilizar a transição e ao mesmo tempo operar uma abertura na economia, sem perder o controle político.

As autocríticas seriais de Fidel Castro são disso um sintoma.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (10) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O limite do tirano (09)

O tirano mais vivo, mais esperto ou mais hábil consegue jogar a conta para depois da sua morte. Só que alcançar esse feito não é para qualquer um

Todo tirano ou candidato a tirano corre o risco de certo dia topar com um limite. Mais cedo ou mais tarde. Ainda que do psiquismo tirânico não costume constar essa noção: a do limite para o exercício do poder. Há tiranos como Adolf Hitler, que na busca patológica do poder ilimitado arrastam suas nações à ruína. Outros, como Sadam Hussein, vão tão longe que não deixam saída para si próprios.

O governo do Irã, aparentemente, decidiu recuar da sentença de morte por apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Ela está condenada por “adultério”, com o detalhe de ter praticado as relações extraconjugais quando já era viúva. As autoridades daquele país acenam com a possibilidade de enforcá-la, e para contrabalançar a pressão mundial ensaiam agora condená-la por homicídio.

É um sistema jurídico singular: se a pena parece severa demais para o delito, agrava-se a acusação.

O arcabouço judicial do Irã é assunto exclusivo deles, um país soberano. O interessante no episódio é finalmente Teerã ter precisado recuar em algum assunto. À primeira vista, o recuo resulta das fortes pressões globais em defesa dos direitos humanos. Mas a equação é um pouquinho mais complexa.

O principal desafio político da liderança iraniana é evitar o isolamento internacional, e assim comprar tempo para o desenvolvimento do programa nuclear. O Irã afirma ser ele inteiramente voltado para fins pacíficos, mas é nula a confiança planetária nessa garantia. Nem os aliados do presidente Mahmoud Ahmadinejad se animam a colocar a mão no fogo pelas boas intenções dele.

Você duvida? Procure no Itamaraty alguém que nas conversas a sério diga acreditar nas promessas pacifistas de Ahmadinejad. Se encontrar, avise.

Os amigos da atual liderança iraniana apostam num estratagema. Enrolar a plateia durante tempo suficiente para a bomba dos aiatolás virar fato consumado, com o decorrente rearranjo de forças regionais e planetárias.

Por esses cálculos, um Irã nuclear significaria o enfraquecimento estratégico da influência dos Estados Unidos no Oriente Médio, com ameaça direta à estabilidade dos principais aliados de Washington (Arábia Saudita, Egito) e possibilidade de colocar em xeque a sobrevivência de Israel como estado judeu.

Mas uma linha dessas exige tempo, e pede também medidas que dificultem a construção de uma aliança das superpotências voltada a neutralizar militarmente o Irã antes do tal fato consumado. Pois nem russos nem chineses parecem animados com a possibilidade de o vizinho adquirir esse poder de fogo.

Sorte de Sakineh Ashtiani. Não há garantias de um bom destino para ela, mas a situação já está melhor do que tempos atrás. Interessa agora aos algozes transmitir ao mundo sinais de compaixão, de humanidade, de justiça. Para evitar que engrosse a corrente mundial de opinião pública favorável a mais sanções, ou mesmo a uma solução militar para o impasse sobre o programa nuclear iraniano.

Abri esta coluna falando dos limites à tirania. Como demonstra o caso de Sakineh, mas não só o dela, o tirano pode até construir para si um mundo mental adaptado à mitologia que mais lhe convém, mas a realidade sempre acaba batendo à porta. O tirano mais vivo, mais esperto ou mais hábil consegue jogar a conta para depois da sua morte. Só que alcançar esse feito não é para qualquer um.

Nem aí

E segue a cascata de revelações espantosas na Receita Federal. Quando é que alguém vai tomar providências práticas para que o cidadão comum, o contribuinte comum, possa voltar a acreditar que as informações repassadas ao fisco estão bem guardadas?

Porque até agora o governo só tratou do assunto no âmbito político. Como se não devesse qualquer tipo de satisfação às pessoas que se lixam para a guerra entre o PT e o PSDB, mas que declaram e pagam os impostos como manda a lei.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (09) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Jogo do Poder Eleições com Marina Silva (08/09)



A candidata à Presidência da República Marina Silva (PV) é a entrevistada desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista

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Orfandade comunicacional (08/09)

Por que um bom pedaço da população fica “excluída” quando os candidatos ou seus programas dão sinal de vida nas ondas do rádio ou nas telas de tevê?

Se o sujeito descer aqui num disco voador vindo, sei lá, de Marte concluirá que no Brasil só há pobres, ou só gente que precisa desesperadamente do governo para resolver os próprios problemas. É a conclusão de alguém cuja única fonte de informação são os programas dos candidatos nos intervalos regulamentares no rádio e na televisão destinados às campanhas eleitorais.

Eleição é varejo, e o eleitor está atrás de soluções para sua vida. Eu mesmo já escrevi aqui sobre o tema, defendendo esse ponto de vista. Dito isso, é o caso de perguntar: será que não há na campanha presidencial brasileira interesse por debater assuntos que não digam exclusivamente respeito às necessidades fundamentais das camadas mais pobres?

Qualquer estatística comprovará que a mudança no perfil de renda do brasileiro e da brasileira foi radical nas últimas duas décadas. Tudo bem que tucanos e petistas debatam interminavelmente sobre quem contribuiu mais, talvez na casa do zero vírgula qualquer coisa. Mas um detalhe é consensual: independentemente da paternidade, o Brasil é hoje um país com ampla classe média.

Quem fala para esse novo país? Até agora ninguém. Os candidatos empenham-se na comunicação “do que eu vou fazer por você se eu chegar lá”, mas falta alguém para informar que medidas vai adotar para o novo emergente, inclusive e principalmente o beneficiário da recente aceleração da mobilidade social, para que ele possa cuidar melhor da vida.

Um exemplo é a discussão sobre os juros. Os candidatos não querem melindrar os bancos, está certo. Mas será que é só isso? Qual o motivo para nenhum dos principais postulantes sequer pensar em atacar duramente na tevê o juro de 10% ao mês no cheque especial, quando a inflação anual ronda os 5%?

Claro, esse é um problema para quem tem cheque especial e usa, uma turma que certamente não é a maioria. Mas será pouca gente?

Um argumento é que os materiais para tevê e rádio devem ser pensados conforme o perfil do público que se informa principalmente por esses dois meios. Não cola. Nos demais canais não há variações significativas. Além da tevê e do rádio, há os jornais, as revistas e, principalmente, a internet. Nem por isso os candidatos aproveitam para conversar com outros que não os pobres estilizados das qualis.

Naturalmente, os marqueteiros devem estar certos e eu errado. O que mais há em campanha eleitoral é gente, especialmente jornalistas, disposta a dizer o que os marqueteiros devem fazer ou deixar de fazer. Parece-me um tanto pretensioso, se se considerar que para produzir os programas de rádio e tevê os candidatos contratam marqueteiros, e não jornalistas.

Mas confesso que tenho essa curiosidade. Por que um bom pedaço da população fica “excluída” quando os candidatos ou seus programas dão sinal de vida nas ondas do rádio ou nas telas de tevê?

Acampado

Depois de oito anos de negociações (haja negociação!) parece que o governo vai anunciar o vencedor da concorrência para comprar um punhado de caças novos para a Força Aérea Brasileira.

Considerando que a administração tucana gastou também um tempo imenso, para não decidir, talvez seja conveniente agradecer aos céus pelo ambiente de paz e tranquilidade que nos cerca. Um país com nosso ritmo não pode mesmo se dar ao luxo de entrar numa guerra.

Houvesse ameaça bélica real, e se precisássemos depender da velocidade das nossas autoridades para concluir sobre temas assim, estaríamos todos fritos.

A turma nem teria ainda chegado à redação final mais adequada para os editais, mas o inimigo já estaria acampado na Praça dos Três Poderes.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (08) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sócios espertos da vitimização (07/09)

Como pode um órgão estatal ser ao mesmo tempo capaz de operar um sistema de arrecadação no estado da arte, em padrões mundiais, e de exibir tamanho desleixo no cumprimento de outras obrigações legais?

Seja qual for o resultado político-eleitoral do rififi em torno dos sigilos fiscais quebrados irregularmente, uma coisa já se pode dizer: de todos os protagonistas, quem faz o papel mais deplorável é a Receita Federal, como instituição.

Adote o observador ou analista o ângulo que desejar, já há um consenso. Impressiona o contraste entre, de um lado, a eficiência da Receita para apresentar a conta ao contribuinte e cobrar a fatura, e, de outro, a bagunça que se instalou nas suas fileiras.

Como pode um órgão estatal ser ao mesmo tempo capaz de operar um sistema de arrecadação no estado da arte, em padrões mundiais, e de exibir tamanho desleixo no cumprimento de outras obrigações legais?

Estivéssemos num país mais democraticamente constituído, boa parte da cúpula da Receita já estaria no olho da rua. Ou então os dirigentes da instituição já teriam colocado para correr a linha de comando nos lugares onde o descalabro com os sigilos está comprovado. Preventivamente.

Os cumes de popularidade do presidente da República geraram entre nós um subproduto indesejável. Sempre restará ao incompetente instalado na máquina alegar que as reclamações contra ele fazem parte de uma grande conspiração para derrubar o governo que mais fez pelos pobres na História do Brasil.

Assim, além dos oligarcas regionais e dos políticos em busca de uma boa lavanderia para o currículo, outra espécie que gosta de se abrigar sob o guarda-chuva presidencial em tempos recentes é o funcionário público nomeado em confiança mas que não consegue desempenhar.

Basta apresentar-se como herói da pátria, dizer que está ameaçado ou perseguido por apoiar um projeto político bom para o Brasil e pronto: o incompetente já virou sócio da vitimização.

E se ainda por cima o sujeito estiver sendo alvo de reportagens constrangedoras, melhor: bastará denunciar um complô da mídia e o felizardo terá aberto para si as portas do Palácio do Planalto. Um excelente negócio.

Assim vai o Brasil nos tempos de Luiz Inácio Lula da Silva. E como será a partir de janeiro de 2011? Talvez haja razão para algum otimismo.

A hoje favorita, Dilma Rousseff, criou em torno dela o mito do horror à incompetência e à enrolação. Horror que aparece de vez em quando no noticiário como mania de maltratar as pessoas. Mas talvez seja uma boa relação custo-benefício.

José Serra também é conhecido, até demais, pela aversão ao “embromation”, e Marina Silva apresenta ao Brasil como ideia-força a proposta de governar com bons quadros, independentemente da colocarão partidária.

Seria ingenuidade imaginar que algum deles poderá atravessar o governo sem os malas de praxe, os sem alça mas com apoio em tal tendência do PT, ou em tal grupo de deputados do PMDB. Isso no caso de Dilma. Sempre há um preço a pagar. Mas seria desejável que ao menos no começo do mandato as nomeações equilibrassem a fidelidade com a capacidade de entregar a mercadoria.

Ou então vai ficar como está. O sujeito é pego na contramão, dá uma explicação qualquer e fica tudo por isso mesmo. Em nome da governabilidade.

Anarquia

Já escrevi aqui e vou insistir. Passou da hora de o Supremo Tribunal Federal chamar para si a decisão sobre a retroatividade do Ficha Limpa.

O entendimento do Tribunal Superior Eleitoral é que a lei retroage. Como, supostamente, a Constituição diz que isso não é possível, parece a este leigo que é tema a ser submetido ao controle de constitucionalidade.

O que não dá é o eleitor chegar ao dia do voto sem saber se o candidato é candidato mesmo ou não. Para usar uma expressão do mundo jurídico, a dúvida pode trazer prejuízo eleitoral irreparável.

Se o STF decidir pela implantação de leis retroativas no Brasil será bizarro, creio. Mas menos bizarro do que deixar a coisa rolar anarquicamente, como está acontecendo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (07) no Correio Braziliense.

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domingo, 5 de setembro de 2010

O pêndulo (05/09)

Lula viu longe, e chegou longe, mas talvez não o suficiente. Lula não é Robert Mugabe, mas não leva jeito de chegar ao patamar de Nelson Mandela. A culpa pode até ser das circunstâncias, como alegaria Ortega y Gasset, mas aí, de novo, o que vale não é a explicação sobre a obra, é a obra em si

Luiz Inácio Lula da Silva terá sido um presidente singular na História do Brasil. Principalmente pelo agudo simbolismo da projeção nativa do “american dream”: depois de Lula, ninguém mais poderá dizer que o Brasil não tem mobilidade social, ou que aqui é uma sociedade de castas. Para um país de rosto e alma picados pela varíola dos séculos de escravidão, é um salto gigantesco adiante.

Vamos falar das coisas como são. Depois de Lula ter chegado lá e de ter governado bem, de ter liderado o país numa era de prosperidade e mais justiça social, todo branco bem nascido com alguma massa encefálica e algum caráter deverá fazer sua análise particular de consciência a respeito de como olhava antes para o trabalhador braçal com que cruzava no dia a dia. E observar como olha agora. Talvez seja um belo termômetro qualitativo das mudanças profundas em marcha no país.

O Brasil deve essa a Lula. O político, como o artista, precisa ser avaliado pela obra.

É provável que Lula passe a ser visto mais adiante como o consolidador de uma certa densidade de protagonismo popular nos nossos hábitos políticos. Se for para o bem, nada mau. É o bastante para preencher uma biografia.

Esse é o lado bom. E onde está o problema? No detalhe de que Lula, para cumprir a missão (ou saciar o desejo), precisou, ou preferiu, ou simplesmente quis reproduzir os mecanismos clássicos de exercício do poder entre nós. Os motivos para isso deverão ser analiados pelos historiadores ou cientistas políticos e sociais. Ou pelos estudiosos da alma.

Que façam bom uso dos seus salários nas universidades, ou de suas bolsas de pós-graduação. Como aqui o ofício é jornalismo, posso limitar-me a constatar e especular.

Não é um fenômeno original, mais ainda nas terras fatiadas pelos reis espanhois e portugueses no Tratado de Trodesilhas. O líder popular acaba caindo no canto das sereias que o convencem da beleza e da delícia de concentrar poder, de fundir-se a ele. Justiça se faça, talvez a exceção seja Evo Morales, que, independente das questiúnculas sobre a "pureza” de suas origens indígenas, parece ser bem mais índio do que “criollo” quando o assunto é política.

Lula viu longe, e chegou longe, mas talvez não o suficiente. Lula não é um Robert Mugabe, mas não leva jeito de chegar ao patamar de um Nelson Mandela. A culpa pode até ser das circunstâncias, como alegaria Ortega y Gasset, mas aí, de novo, o que vale não é a explicação sobre a obra, é a obra em si.

Notei outro dia que com o passar do tempo foram desaparecendo do discurso de Lula todos os antigamente citados como responsáveis pelas degraças do Brasil. Banqueiros, latifundiários, oligarcas, sindicalistas pelegos. Foi absorvendo e "anistiando" um a um sob o guarda-chuva legitimador. Sobrou como merecedora de críticas só uma “elite” em boa medida abstrata, cujo único traço comum é a resistência ao líder.

A História não se escreve como o "poderia ter sido”. Mas com seu cacife político e seu peso simbólico Lula está a desperdiçar a mais visível oportunidade que o Brasil já teve de fazer uma consolidação institucional democrática a partir do ângulo da busca de justiça social. Da libertação verdadeira do indivíduo, inclusive em relação ao Estado.

Foi no que Mandela investiu tudo que tinha acumulado politicamente ao longo da vida na oposição e na longa cadeia, e nem assim há a garantia de que sua herança fique intacta nesse aspecto. O que será o CNA (Congresso Nacional Africano) depois da morte de Mandela? Quem sabe?

Mas ele pelo menos tentou.

Vício

A crer nas pesquisas, e não há motivo para não crer, por enquanto não há influência decisiva das eleição nacional nas estaduais. Estas continuam a der desenhadas basicamente por razões estaduais. Pode mudar ainda? Veremos, mas a resistência dos vetores locais é a de praxe.

Assim como na nacional, as eleições estaduais parecem até agora obedecer à lógica da amplitude das alianças políticas. E depois dizem que no Brasil a política é inorgânica. Confunde-se pluralismo com inorganicidade.

É, de novo, nosso vício autoritário.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (05) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Grandes e espertos (03/08)

Sempre que a reforma política entra em discussão, misturam-se as relevâncias e as irrelevâncias, as necessidades e as perfumarias

Um tema recorrente é o incômodo causado pelos pequenos partidos e suas prerrogativas legais. No período das eleições e fora. Ou pelos candidatos assim chamados bizarros, com suas mensagens idem.

Ora bolas, qual foi mesmo o grande escândalo da política brasileira que tenha tido no foco um partido dos pequenos, ou micros? Rigorosamente nenhum. E qual problema relevante nasceu da atividade parlamentar de um outsider? Nenhunzinho.

O partido grande, ou com projeto de ser grande, desesencadeia as trapalhadas, para incontinenti seus líderes virem a público debitar a conta nas alegadas deformações da moldura político-institucional. E que solução apresentam? Mais poder para eles mesmos.

Há uma chance razoável de a reforma política entrar na pauta do próximo Congresso. Todo mundo diz querer (isso não significa que desejem de verdade) e o efeito-panaceia já está razoavelmente vendido para os bem-pensantes. Não há garantia de chegar a algum porto, mas barulho haverá.

O que será mesmo a reforma política? Outro dia o presidente da República disse que o Brasil precisa modernizar o sistema político. Mas o que é “modernizar”? A expressão serve para qualquer coisa.

No que depender de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT, a mudança virá com a lista fechada nas eleições proporcionais (deputado, vereador) e financiamento exclusivamente público das campanhas. No que depender de José Serra (ainda não se sabe o que o PSDB acha do assunto), ela virá pelo voto distrital implantado gradualmente.

O único consenso amplo (entre os donos da política brasileira) é dar um jeito de concentrar a representação em menos partidos. Como se fosse uma solução para as confusões por eles mesmos criadas. Não deixa de ser engenhoso. A dúvida é saber onde vamos parar, de engenhosidade em engenhosidade.

Num país mais democrático é que não será. A pluralidade partidária é uma conquista da Constituinte, e quem deve decidir se o partido vai ser grande ou pequeno, se vai morrer ou vai viver, é sua excelência, o eleitor.

É sempre o melhor critério.

Sem comércio

Atrapalha também os pequenos eles não encontrarem maneiras mais eficazes de comunicar no seu curto tempo de tevê. Deveriam aprender com Marina Silva, que está conseguindo escapar do estereótipo de autômato.

Tive a oportunidade de entrevistar os presidenciáveis das pequenas siglas para um programa de televisão e impressionou-me em alguns casos o contraste com o estereótipo.

Todo mundo tem algo a dizer, e um partido hoje pequeno pode ser grande amanhã.

Aliás, sobre tempo de tevê, e já que se fala em reforma política, há uma medida simples para debelar o comércio do horário eleitoral.

Não lançou candidato ao cargo majoritário, perdeu o tempo correspondente na tevê e no rádio. Já daria uma boa organizada na coisa.

Um espanto

Segundo reportagem do Valor Econômico, o Brasil é líder no crescimento das importações, quando comparado aos demais países expressivos no comércio
internacional.

Os dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam expansão de 56% das importações brasileiras entre abril e junho deste ano, em relação ao mesmo
período do ano passado.

Apenas para constar, a China, que é a China, cresceu menos as compras externas: 44%. Na exportação, os chineses cresceram 41% e nós, 29%.

Esses números são, ou deveriam ser, autoexplicativos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um acordo difícil (02/08)

Um acordo entre Israel e Palestina é difícil, porque os palestinos precisariam aceitar o direito de Israel existir na concepção atual, e falta-lhes unidade política para dar o passo. Yasser Arafat não se sentiu em condições de aceitar algo assim dez anos atrás em Camp David, e foi para o túmulo sem ter criado seu Estado

Ao registrar o fim das operações de combate no Iraque, o presidente Barack Obama fez questão de dar um telefonema ao antecessor, George W. Bush, responsável pelo reforço de guerra empreendido desde 2007, ação que permitiu aos Estados Unidos alcançarem uma relativa estabilidade na segurança interna do país mesopotâmico. Foi civilizado. Um dia talvez algo assim aconteça aqui entre adversários políticos.

Obama elegeu-se com duras críticas à guerra iraquiana, mas também com a promessa de fazer o necessário para vencer o conflito afegão. Quando assumiu, a primeira metade da laranja já estava bem descascada, com o Iraque suprimido como vetor militar e político regional relevante, ou autônomo. Restou a Obama orientar a arrumação do caminhão de mudança. Já no Afeganistão o buraco parece localizar-se um pouco mais abaixo.

Cumprida a promessa de retirar do Iraque as tropas de combate, e tendo garantido ali um governo aliado e dependente, o desafio de curto prazo da diplomacia da Casa Branca é impedir que o renovado diálogo entre Israel e Autoridade Palestina (AP) dê com os burros n'água. Já que, para usar uma expressão do nosso presidente, tem muita gente colocando olho gordo. Um acordo de paz interessa a Israel, à própria AP e aos aliados americanos no Oriente Médio. Não interessa ao Irã, ao Hezbollah, ao Hamas e aos amigos planetários dessa frente rejeicionista.

No meio de campo, pendulando conforme a necessidade, coloca-se a Síria. Convém aos sírios escapar da armadilha do isolamento, mas não podem fazâ-lo abrindo mão das reivindicações
nacionais, especialmente no tema libanês. Os Assad, antes o pai e agora o filho, percorrem uma trajetória mais inteligente do que Sadam Hussein: arreganham os dentes, evitando porém ter que desembainhar a faca.

O pivô do jogo regional é o Irã. Apesar dos esforços recentes para romper o isolamento, continua encalacrado na sua estratégia de ameaçar com o confronto. O último movimento dos aliados de Mahmoud Ahmadinejad para retirá-lo do cercadinho não foi suficiente: Brasil e Turquia bem que tentaram, mas um consenso inusual no Conselho de Segurança frustou parcialmente o plano iraniano de ganhar tempo na corrida para conseguir a bomba nuclear.

Ano que vem o ataque às torres gêmeas completa uma década, e a invasão do Kuait pelo Iraque, quase o dobro. Na contabilidade fria, a posição norte-americana naquele pedaço do mundo está mais consolidada agora que antes. Apesar do Irã, que tomou o lugar antes ocupado por Hussein e projeta uma hegemonia bélico-política. Teerã tem hoje mais força do que Bagdá vinte anos atrás, mas caminha para um isolamento semelhante, se é que já não se enroscou irremediavelmente nele.

E o Brasil? Sentou-se nessa mesa de pôquer, empolgou-se no começo, mas parece estar sentindo que ali o cacife talves custe caro demais. A diplomacia brasileira apostou num movimento ousado, tentando trazer para o carteado uma turma que os demais veem com desconfiança.

Como aliás o próprio Mahmoud Abbas havia feito ver a Luiz Inácio Lula da Silva, quando pediu que o presidente brasileiro rogasse ao colega iraniano não se meter nos assuntos internos da Palestina. Ou seja: parar de apoiar e armar o Hamas.

Um acordo entre Israel e Palestina é difícil, porque os palestinos precisariam aceitar o direito de Israel existir na concepção atual, e falta-lhes unidade política para dar o passo. Yasser Arafat não se sentiu em condições de aceitar algo assim dez anos atrás em Camp David, e foi para o túmulo sem ter criado seu Estado.

É preciso ver o quanto a relação de forças intrapalestina evoluiu desde então. Em outras palavras, talvez ainda cultivem a esperança de uma solução militar, impulsionada pelo projeto da potência regional iraniana. É uma aposta e tanto. É altamente improvável que o mundo árabe avalize o Irã em oposição aos Estados Unidos e Israel, pois uma Pérsia nuclear é mais ameaçadora para os vizinhos de Israel do que para o estado judeu. E, ao contrário de Gaza, a vida na Cisjordânia exibe progressos sensíveis nos últimos anos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (02) no Correio Braziliense.

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