segunda-feira, 31 de maio de 2010

Apontar para quem? (31/05)

Na América do Sul temos a vantagem de não haver até o momento situações como a do Irã ou a da Coreia. Se alguma nação daqui evoluísse para o produção da bomba, atrairia imediatamente os Estados Unidos de maneira ainda mais decisiva do que hoje

A presença brasileira no imbróglio alavancou o noticiário aqui sobre a crise em torno do projeto nuclear iraniano. Menos badalada, outra confusão forma-se no Extremo Oriente, entre as duas Coreias. A do Sul acusa a do Norte de ter afundado um navio militar.

As Coreias estão tecnicamente em estado de beligerância desde o conflito dos anos 1950. Ele acabou num armistício, mas nunca chegou a haver acordo de paz.

Por que há duas Coreias? O arranjo vem do fim da Segunda Guerra Mundial. Entre os entendimentos das grandes potências, um previa que derrotada a Alemanha Nazista a União Soviética entraria efetivamente em guerra contra o Japão. E a península coreana seria compartilhada por americanos e soviéticos.

A cristalização da Guerra Fria transformou a península em zona de grande tensão e criou uma divisão nacional que o Norte, governado pelo Partido Comunista, jamais aceitou. E o Norte tentou resolver o assunto à força, invadindo o Sul. Quase conseguiu. Ocupou praticamente todo o vizinho.

No pedaço de chão que sobrou, tropas americanas e outras, sob a bandeira da ONU, desembarcaram e empurraram os norte-coreanos para bem além da separação original. Os militares dos Estados Unidos chegaram à fronteira com a China, ameaçando unificar a península sob a batuta do Sul.

Mas aí os chineses, já governados por Mao Tsé-Tung, não acharam graça e entraram na guerra, empurrando os americanos para os limites de 1950. Aí o conflito parou. Morreram uns 800 mil do lado aliado e 1,5 milhão do lado sino-norte-coreano. Para que tudo ficasse como estava antes de a bagunça estourar.

A divisão das Coreias sobreviveu ao fim da Guerra Fria, também porque a existência do Norte é um vetor de equilíbrio regional entre chineses e americanos. E porque o Norte investe maciçamente em força militar como elemento estabilizador do status quo. E do poder dominante ali.

Paradoxal é que a militarização do Norte e a ameaça permanente de conflito acabam consolidando a presença americana. É mais ou menos o que acontece no Oriente Médio, onde a potencial nuclearização do Irã abre caminho para reforçar estrategicamente o papel da Casa Branca.

Já escrevi que nunca antes o movimento nacional palestino esteve tão limitado às opções políticas de Washington. E a escalada da presença americana no Levante será a resposta “natural” à persistência de um Irã ameaçador para os aliados dos Estados Unidos. Fala-se de Israel, mas este tem mais meios do que os vizinhos árabes para defender-se dos iranianos.

Um cenário de paz duradoura no Extremo Oriente e no Oriente Médio levaria à integração econômica de cada região e à redução da necessidade de alinhamentos — ou de intervenção externa. Mas não é o que se delineia.

Na Coreia do Norte e no Irã, a militarização e o fechamento político parecem ser a resposta de grupos voltados unicamente a manter-se no poder, incapazes de proporcionar bem-estar a seus povos ou de sobreviver num ambiente de democracia. E toda ação traz junto reação.

Na América do Sul temos a vantagem de não haver até o momento situações como a do Irã ou a da Coreia, do contrário haveria obstáculos intransponíveis à integração regional.

Eis uma variável que os apologistas da bomba brasileira deveriam levar em consideração: como nas duas regiões citadas, se alguma nação daqui evoluísse para o produção da bomba atrairia imediatamente para cá os Estados Unidos de maneira decisiva. Ainda mais decisiva do que hoje.

Numa América do Sul democrática, pluralista e completamente livre das armas de destruição em massa a liderança brasileira é natural, pelo peso específico em território, população e economia. Numa outra situação, não seria.

Ficaríamos os sulamericanos mais parecidos com as áreas atuais de conflito. Aliás, ainda sobre este assunto, todo mundo que busca armas nucleares é para apontá-las em direção a alguém. Com objetivos expansionistas ou dissuasórios.

E nós, apontaríamos nossos mísseis nucleares para quem?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (31) no Correio Braziliense.

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domingo, 30 de maio de 2010

Afeganistão, Bolívia, México (30/05)

Oferta quando há demanda é vetor dificílimo de controlar. O Brasil precisa de uma política eficaz para diminuir radicalmente o consumo de cocaína, entre outras drogas

Dias atrás Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu que a Embrapa pode ajudar o Afeganistão a substituir a papoula por outras culturas. Seria teoricamente uma bela contribuição pátria para desatar o nó estratégico das relações entre a política e o crime no país asiático: a estreita ligação do establishment com a produção e o tráfico de drogas.

Depois de por fim à presença soviética, o islamismo radical afegão cuidou de combater os senhores da papoula, e o governo do Talibã conseguiu resultados expressivos. Mas aí os talibãs tiveram a péssima ideia de dar salvo conduto à Al Qaeda, e de suportá-la no ataque aos Estados Unidos em 2001. Era uma retribuição pelo apoio recebido na guerra contra a URSS. Acabou mal, como se sabe.

Americanos de um lado, talibãs do outro, quem voltou a mandar no Afeganistão foi a turma da papoula. Cada lado cultiva — sem trocadilho — boas relações com esse revigorado motor da economia.

É um emblema da realpolitik de Washington: enquanto apertam a tenaz sobre o mercado da coca no noroeste da América do Sul, os Estados Unidos fecham taticamente um olho ao negócio da papoula na Ásia Central. Porque as Farc são adversárias, mas se você definir o combate à droga como pré-requisito para alianças políticas no Afeganistão você não achará aliado ali hoje em dia.

A realpolitik não é monopólio dos americanos, e até escrevi que no quesito ninguém chega aos pés de Lula. Se a Embrapa pode ajudar a diminuir a presença da papoula na economia afegã, por que sua excelência não impõe uma dinâmica semelhante nas relações com a Bolívia, quando o tema é a coca?

Talvez porque desfilar teorias sobre um pequeno país nos confins do mundo é uma coisa, outra coisa é tratar, em termos práticos, um problemaço bem aqui ao lado.

Evo Morales ascendeu em La Paz combatendo a pressão americana para o país diminuir a área plantada de coca. Esse é o nó político. Quem combatia ali a coca era (e é) tratado como serviçal americano. A retórica soa-lhe familiar?

E há o nó econômico. A Embrapa tem expertise para oferecer soluções técnicas, mas a matriz da confusão não está na inexistência de culturas alternativas à papoula e à coca no Afeganistão e na Bolívia, respectivamente. O impasse não é científico. A variável-chave é o dinheiro, o valor do mercado, do negócio. O xis da equação é a demanda pela droga e a rentabilidade da coisa.

Recentemente o governo americano admitiu o triste papel de seu país na tragédia em que o México mergulhou por causa do tráfico. Hillary Clinton foi lá e fez o mea culpa. O mercado americano é suficientemente valioso para justificar a atividade de alto risco ao sul do Rio Grande.

O México não estaria às voltas com a violência trazida pelos barões da droga se os americanos não estivessem dispostos a consumir a mercadoria que chega do vizinho.

É uma conta simples e universal. Considerada a demanda, qual o preço que compensa o investimento e garante o lucro máximo, tomados o risco de investir e a presença dos concorrentes?

No ótimo filme de Ridley Scott American Gangster, Frank Lucas (Denzel Washington) monta um esquema tão macabro quanto genial durante a Guerra do Vietnã: trazer dentro dos caixões dos militares mortos heroína do Sudeste Asiático para vender em Nova York.

Oferta quando há demanda é vetor dificílimo de controlar.

O PSDB introduziu na campanha o tema da cocaína vinda da Bolívia. Rapidamente o assunto caiu na gaveta da retórica. Discute-se a forma, se é a mais adequada para tratar um ponto delicado na relação com o país vizinho. O governo reagiu como se o assunto estivesse restrito aos limites da diplomacia.

Ora, não estamos tratando de gás natural, agenda que aliás Lula conduziu muito bem, preservando ao mesmo tempo o abastecimento e as relações com os bolivianos. Está em jogo a saúde dos nossos filhos e netos, o futuro dos nossos jovens, especialmente os mais pobres — as grandes vítimas do crack.

A poucos meses da eleição, o governo percebeu que precisamos lutar contra o crack. Por isso é que é bom ter eleição quase toda hora. Perto dela os governantes lembram rapidinho do que antes cuidaram de esquecer.

O Brasil precisa de uma política eficaz para diminuir radicalmente o consumo de cocaína, entre outras drogas. É urgente aumentar a pressão sobre o país de Evo Morales, mas não basta. Apertar o mercado consumidor é essencial para maximizar a eficácia da repressão ao narcotráfico.

Reduzir a demanda e aumentar (muito) o risco do negócio são as duas pernas do bom combate ao mal.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada este domingo (30) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Com prazo de validade (28/05)

Toda a estratégia de construção da musculatura política de Lula está alicerçada há pelo menos três décadas na cuidadosa seleção de inimigos, reais e imaginários

O PMDB esboçou suas ideias para o programa de governo de Dilma Rousseff. É uma plataforma que poderia ser assinada pelo PSDB. Haveria certas tensões, como por exemplo no tema da autonomia do Banco Central, mas nada que inviabilizasse a convergência.

O rol de sugestões peemedebistas terá também facilidade para trafegar pelo PT que decide. Porque o partido há tempos migrou programaticamente para um centro social-democrata e também porque o PT precisa do PMDB.

Não que o PMDB vá romper a aliança por causa de diferenças doutrinárias (esta coluna é sobre política, não sobre humorismo), mas o movimento da legenda reafirma seu novo papel. Em caso de vitória de Dilma, o PMDB deve fixar-se como lastro do establishment, especialmente se o enfraquecimento do PSDB passar de um ponto razoável.

Claro que esse é o cenário ruim para o PSDB, havendo os bons e os ótimos. Mas não custa especular.

As últimas semanas marcam também uma inclinação decisiva da candidatura Dilma rumo ao centrismo. As flechas verbais de José Serra contra a excessiva autonomia defendida pelo mercado e porta-vozes para o Banco Central foram a senha para os críticos petistas e dilmistas do BC repensarem instantaneamente as restrições à política monetária e se alistarem na blindagem a Henrique Meirelles.

Eis o Eldorado da política brasileira, desde que Luiz Inácio Lula da Silva mostrou o caminho do sucesso: ênfase oral na mudança genérica e abstrata, seleção cuidadosa de inimigos a demonizar (pois afinal a boa política não se faz sem eles) e compromisso granítico com o establishment econômico-financeiro.

É mais arte que técnica, e exige imenso talento. Que Lula tem. Com a vantagem de não ser escravo das próprias palavras, quando tomadas como referência. O que é dito hoje pode ser desdito amanhã. Sob admiração geral.

Dilma conseguirá adquirir pelo menos parte desse talento ao longo da campanha eleitoral? Ela vem tentando e treinando. E conta com Lula no manche. Pois pilotar com a maestria dele não é para qualquer um.

Tome-se a questão dos “inimigos”, tocada três parágrafos acima. Por estes dias Lula diz que a insistência em sanções contra o Irã vem de países (ou pessoas) incapazes de fazer política se não definirem inimigos. “No mundo tem gente que não sabe fazer política sem um inimigo”, disse literalmente o presidente.

Toda a estratégia de construção da musculatura política de Lula está montada há pelo menos três décadas na cuidadosa seleção de inimigos, reais e imaginários. Toda a comunicação do presidente baseia-se no ataque diário (às vezes mais de uma vez por dia) a eles.

Ora é a elite, o pessoal que comandou este país durante 500 anos. Podem ser também os que não acreditavam que um torneiro mecânico pudesse governar bem o Brasil. Ou então todos os presidentes anteriores, que administraram pensando só nos ricos, e jamais nos pobres. Etc.

Quem tiver a paciência de dissecar o discurso do presidente da República encontrará um único fio condutor inalterado. A ofensiva sistemática contra os adversários, como método de coesão dos fieis.

Mas como agora o que importa a Lula é uma solução negociada no caso do Irã, demoniza-se a demonização. É uma boa tática. Mas é só tática. É perecível, e com prazo de validade bem apertado.

O que interessa

Tenho escrito aqui que o tema nuclear iraniano tem duas soluções possíveis: a capitulação de Teerã ou a guerra. Lula foi o mensageiro da primeira opção, que Mahmoud Ahmadinejad aceitou parcialmente.

Há um problema em certas análises centradas na aplicação ou não de sanções. Elas são um meio, assim como a diplomacia.

A ameaça de sanções aumenta o cacife de Lula como negociador de uma saída menos traumática. E tem mais. O único lugar do mundo em que existe alguma obsessão sobre como nosso presidente vai emergir politicamente desta bagunça é aqui mesmo.

É um tema de política interna. No resto do planeta, a atenção está voltada para saber se o Irã vai ter a bomba ou não vai.

É o que interessa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (28) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Pressão que vem de cima (27/05)

O que vale mais, a orientação nacional de cada sigla ou a liberdade que ela deve ter nos estados para caminhar do jeito que achar melhor? O Planalto mandou a fatura e o PMDB busca a saída

Vêm aí capítulos animados na novela da “judicialização”. O PMDB está à espera de uma resposta dos tribunais sobre se filiados ao partido podem fazer nos estados campanha para outros candidatos a presidente da República que não Dilma Rousseff. No alvo, especialmente duas seções partidárias: São Paulo e Pernambuco.

Nos dois estados o PMDB irá de Serra, se não houver intervenção de cima e se a Justiça não proibir. Por que as situações são delicadas? São Paulo é a origem eleitoral do virtual candidato a vice na chapa governista, Michel Temer. E Pernambuco é a terra do cacique do PSB, o governador Eduardo Campos. Os socialistas sentem-se escanteados na coligação oficial, dado que todas as honras estão reservadas aos novos sócios do PMDB.

Campos manobrou nos bastidores para evitar este ano um confronto nas urnas com o senador e ex-governador peemedebista Jarbas Vasconcelos. Mas Jarbas decidiu entrar na disputa, para dar um palanque a Serra no estado natal de Luiz Inácio Lula da Silva. O que levou Campos a bater nas portas do poder com um protesto: enquanto o PMDB em Brasília leva a parte do leão e saboreia o bem bom, em Pernambuco a legenda do saudoso doutor Ulysses fica liberada para atazanar os projetos socialistas-dilmistas.

Em 2002 o PMDB apoiou oficialmente o então candidato do PSDB, José Serra, fornecendo a vice, Rita Camata. Mas um bom pedaço da turma foi de Lula desde o começo. O que mudou desde então? Duas coisas. O Congresso derrubou a verticalização nas eleições e instituíram-se regras mais duras de fidelidade partidária.

A verticalização vinha de uma decisão judicial e impedia coligações estaduais entre partidos participantes de diferentes chapas ou coligações nacionais. Para ter liberdade nos estados, a legenda precisaria abrir mão de concorrer à Presidência ou de apoiar algum outro partido oficialmente. Mas a verticalização foi revogada no Congresso e já não vale nesta eleição.

A fidelidade partidária vem de ser anabolizada na Justiça. Então fica a dúvida: o que vale mais, a orientação nacional de cada sigla ou a liberdade que ela deve ter nos estados para caminhar do jeito que achar melhor?

O governo pressiona pela primeira hipótese, que impediria dissidências peemedebistas pró- Serra. O principal efeito seria sentido nas inserções televisivas e radiofônicas estaduais, o espaço destinado aos candidatos locais. Que ao lado de pedirem votos para si pedem também para quem apoiam.

Mesmo na hipótese de a Justiça optar pela supremacia absoluta da fidelidade partidária, haveria uma trilha para os dissidentes. Ainda que não pudessem fazer o proselitismo no horário eleitoral, nada os impediria de defender sua preferência de outros jeitos. Em panfletos, cartazes, pichações, discursos, entrevistas.

Mas a direção do PMDB também está em busca de meios para matar essa possibilidade. Um caminho seria a impugnação da candidatura rebelde. Ou então a cassação do eleito.

Vai ser um bom debate na Justiça. Se ela decidir como deseja a cúpula peemedebista, vai também correr sangue. No sentido figurado, claro. Não que o PMDB seja especialmente afeito a soluções sangrentas. Mas depois de ceder a vice para quem o partido queria, no caso Temer, o Planalto acha que o aliado lhe deve essa. E mandou a fatura.

Convém ficar de olho.

Delay

Antes do Irã de Mahmoud Ahmadinejad, o último país que conseguiu reunir contra ele os Estados Unidos, a Rússia, a China, o Reino Unido e a França foi o Japão, quando atacou Pearl Harbor em dezembro de 1941. Coisa de gênio.

Por falar em Rússia, ontem a temperatura entre Moscou e Teerã subiu, após um ataque verbal de Ahmadinejad, logo rebatido por um assessor do presidente russo.

Interessantes mesmo foram as palavras mais amistosas do presidente iraniano em direção a Barack Obama, apelando ao colega americano por diálogo.

Ahmadinejad está pisando na chapa quente e parece algo desorientado pela pressão, mas ainda tem a chave da saída. É só assumir o compromisso de interromper o enriquecimento de urânio e permitir que isso seja 100% inspecionado pelas grandes potências. A carta agora é aceitar a tutela imperial no programa nuclear dele.

Doloroso, mas necessário. Talvez Lula — o campeão mundial da realpolitik — devesse aconselhá-lo nesse sentido.

O problema de Ahmadinejad é como explicar em casa, sem ser acusado de capitulação. Porque terá capitulado.

Assim como o problema de Obama é conseguir na ONU medidas que brequem a caminhada da proposta de sanções unilaterais, em marcha batida no Congresso dos Estados Unidos.

Nesse assunto, as potenciais soluções dão invariavelmente a impressão de estar chegando tarde, com delay.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (27) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Jogo do Poder com Demóstenes Torres (26/05)



O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Marco Antônio Gonçalves, da CNT. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Uma ordem não tão nova (26/05)

Os excessivamente otimistas com a “emergência de uma nova ordem diplomática no mundo” deveriam talvez recordar como França, Rússia e China torpedearam a Guerra do Iraque no Conselho de Segurança. E apesar disso ela aconteceu

O mito fundador do governo Luiz Inácio Lula da Silva é o mito do fundador. Sua suposta originalidade absoluta. Vimos aqui dias atrás como isso é operado com parâmetros bastante pragmáticos. Para os investidores estrangeiros, louva-se a continuidade na economia. Para o público interno, propagandeia-se a ruptura.

O debate sobre a iniciativa brasileira em relação ao Irã trafega pelo mesmo caminho. O que existe de original no que Lula fez? A diplomacia brasileira carrega tradição de pelo menos quatro décadas nesse campo. Sistematicamente procuramos traçar linhas demarcatórias em relação aos Estados Unidos, mas sem nos alinharmos contra os interesses estratégicos deles.

Tanto é assim que o discurso governamental da suposta subserviência dos antecessores deriva sempre para a caricatura, tem imensa dificuldade de comparecer ao mérito dos assuntos. E o suporte da caricaturização é a agressividade verbal. A tendência a intimidar. Ou pelo menos tentar.

Um parêntese. Não é razoável o governo dizer que está “de cócoras” quem eventualmente discorde da condução do affair iraniano. O sujeito pode divergir do governo sem que isso o lance imediatamente no index dos vendilhões da pátria. Mas parece que os índices de aprovação de Lula fornecem o salvo conduto para certas brutalidades represadas. É uma opção.

No debate sobre o Irã, nada indica que o governo brasileiro esteja a confrontar estrategicamente os Estados Unidos. Estaria, se operasse para Teerã adquirir o domínio sobre a tecnologia nuclear com fins bélicos. Até o momento, é forçação de barra dizer que Lula vai por aí.

Há no governo e no PT quem aprove a emergência de um Irã nuclear como relativizante da influência americana naquela região. O que abriria espaço, segundo tais fontes, para o Brasil deixar o Tratado de Não Proliferação. Mas essas opiniões não são por enquanto hegemônicas, ou não parecem ser.

O caminho de Lula leva jeito de ser outro. Esticar a corda ao ponto de poder discursar aqui dentro como alguém que enfrentou o império. Mas não ao ponto de permitir que a corda arrebente. É, aliás, uma tendência continental. Hugo Chávez vem de conceder a capitais americanos a exploração de megarrecursos petrolíferos. O trade-off proposto pelo presidente venezuelano a Washington é óbvio: bons negócios para os imperiais em troca de paz política na neocolônia.

Talvez Chávez tenha aprendido com Lula. O complicado desta vez é nosso presidente ter resvalado num ponto bastante sensível para a Casa Branca. Barack Obama e Hillary Clinton não ficarão bem diante do Congresso e dos eleitores dali se comerem mosca e permitirem a Teerã realizar o projeto de se transformar numa potência atômica.

Assunto que aqui, curiosamente, é tratado de vez em quando como “inevitável”, na torcida disfarçada do “lunatic fringe”.

Outro aspecto curioso no método analítico pátrio é a compulsão por fazer avaliações e balanços — sempre definitivos e irrecorríveis — antes da conclusão dos processos. O que Lula foi buscar em Teerã? Protagonismo. Conseguiu?

Depende de a carta de intenções lá assinada sobreviver. Se o presidente brasileiro tiver aberto uma picada que leve a algum lugar razoável, receberá palmas planetárias. Se não, restar-lhe-á o penoso papel de novamente denunciar as injustiças do ordenamento global.

Até agora, os países com poder de veto no Conselho de Segurança estão aparentemente unidos no propósito de aumentar as pressões sobre o regime de Mahmoud Ahmadinejad. Para fazer avançar a iniciativa turco-brasileira, será indispensável rachar o bloco das potências. Claro que a alternativa mais provável às sanções é a guerra. Mas nela Lula não perderia quase nada.

Os excessivamente otimistas com a “emergência de uma nova ordem diplomática no mundo” deveriam talvez recordar como França, Rússia e China torpedearam a Guerra do Iraque no Conselho de Segurança. E apesar disso ela aconteceu, e o Iraque deixou de existir na prática como ponto de contestação da hegemonia americana no Golfo Pérsico.

Objetivamente, a situação dos Estados Unidos é hoje mais confortável do que quando decidiram dar cabo de Sadam Hussein. Na vida real, portanto, a tal “nova ordem” parece mais distante, e não mais perto.

Se este episódio do Irã consolidar a aliança das grande potências, e contra a posição do Brasil, Lula precisará dar um passo atrás. Em vez da secretaria-geral da ONU, talvez irá contentar-se com a presidência da Assembleia Geral. Se algum grande com poder de veto roer a corda, Lula poderá celebrar vitória na ONU. E Obama terá provavelmente que buscar o seu objetivo de outro modo.

Vitória conjunta de Lula e de Obama? Só se o Irã aceitar o monitoramento internacional e parar de enriquecer urânio.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (26) no Correio Braziliense.

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domingo, 23 de maio de 2010

Uma situação bizarra (23/05)

Uma acusação que não se faz ao PT é ter inventado a atual política brasileira. A legenda adaptou-se a ela. Agora os adversários lamentam e protestam. Quando as posições se inverterem, um dia, os papeis também se inverterão

A bizarrice da nossa legislação eleitoral chegou ao paroxismo nestas semanas. Se não alcançamos ainda o limite do nonsense, talvez estejamos perto.

Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff vêm sendo seguidamente multados por “campanha antecipada”. O “crime” deriva de uma jabuticaba: aqui a lei prevê dia certo para o início oficial da campanha. Antes disso, nem o candidato pode dizer que é — mesmo sendo —, nem ninguém pode pedir votos para o candidato.

Conte isso a um cidadão de outro país e nos verá como uma nação de loucos. Mas nem tanto. As penas aplicadas pela Justiça são leves, embutem ótima relação custo benefício. Ou seja, nem os tribunais levam a coisa a sério.

Qual seria a saída? Mais rigor? Ou menos? Eu fico com a segunda opção. Todos deveriam ter o direito de fazer campanha na hora em que desejassem, com todos os adereços. Arrecadação inclusive. O que a democracia brasileira perderia? Nada.

O problema da oposição em maio não esteve nos supostos excessos cometidos pela candidatura oficial. A subida de Dilma nas pesquisas aconteceu porque desde o Dia do Trabalho Lula está no campo de jogo, e jogando. Aconteceu agora, como teria acontecido em julho/agosto. Foi só questão de datas.

O fato é que o PT, em todas as esferas, testa os limites, para alavancar seu projeto de continuidade. Faz o papel dele. Nem Lula nem o partido estão preocupados em promover qualquer aperfeiçoamento estrutural das instituições. Também aqui seguem o exemplo dos antecessores.

Há porém um detalhe. Pode-se acusar o PT de escarnecer das regras, mas não de as ter mudado em proveito próprio. Se você quer achar o Arquimedes, procure-o fora do PT. Se o partido de Lula encontra jeito de usar o poder como ponto de apoio para mover o mundo, inclusive nas eleições, é porque já recebeu a receita pronta. E também o bolo.

Quando no Planalto, o PSDB implantou a reeleição (que eu acho boa) e reduziu o tempo de campanha no rádio e na televisão (medida que achei ruim). E instituiu a regra da desincompatibilização assimétrica (péssima). Se você é parlamentar ou concorre à reeleição, pode fazê-lo no cargo. Já se você tem um cargo e vai desafiar um candidato à reeleição, precisa renunciar meio ano antes.

Também foi o PSDB a entronizar o BNDES e os fundos de pensão das estatais como donos do capitalismo brasileiro. O PT só teve o trabalho de tomar conta da máquina e colocá-la para trabalhar no rumo adequado aos novos donos do poder.

Uma acusação que não se faz ao PT é ter inventado a atual política brasileira. A legenda adaptou-se a ela. Agora os adversários lamentam e protestam. Quando as posições se inverterem, um dia, os papeis também se inverterão.

Há alguma saída? Talvez o caminho devesse apontar na contramão do que exige a opinião púbica. Menos regulamentos, menos limites, mais liberdade para a ação política.

Coerência

Quando fala a investidores estrangeiros, o governo bendiz a herança que recebeu. Quando fala ao povo aqui dentro, maldiz. E daí? E daí nada. Quem estiver atrás de coerência que se dedique à vida acadêmica, e olhe lá. Política é — ou tem sido — outra coisa.

A coerência na política não é um valor em si. Se o líder está prestes a conduzir a nação ao desastre, roga-se que seja incoerente e mude o rumo.

De todo modo, resta o esforço humorístico dos que tentam vender no mercado das ideias a tese da ruptura na passagem de Fernando Henrique Cardoso para Lula. Ou na transição do primeiro para o segundo governo do PT.

É gente atrás de algum significado histórico para sua passagem pelo governo. Humanamente compreensível.

Não mas sim

No meio termo entre produzir a bomba brasileira ou não, encontra-se no governo quem especule com um caminho: não fazer, pois a Constituição e os tratados internacionais proíbem, mas estar pronto para fazer quando houver as necessárias condições políticas.

Como pré-requisito, não aderir ao protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação. A adesão permitiria inspeções-surpresa da Agência Internacional de Energia Atômica aqui.

Por “as necessárias condições políticas” entendam-se inclusive as indispensáveis para mudar a Constituição.

Perigo

No meu twitter (@AlonFe): “Falar bem de goleiro, juiz e instituto de pesquisa antes do fim do jogo é um perigo”.


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sexta-feira, 21 de maio de 2010

O poder moderador (21/05)

Num sistema como o nosso, seria natural o Executivo chamar para si o papel de moderação. Mas progressivamente, e não apenas neste governo, o Planalto tem perdido a capacidade. E o Judiciário é puxado para o centro do palco. O poder tem horror ao vácuo

O Congresso Nacional concluiu com alguma polêmica a votação do Ficha Limpa, lei que vai impedir candidaturas de políticos (ou candidatos a políticos) condenados em grau colegiado por crimes de maior gravidade.

A conclusão ajuda para adiante, e também por evitar os extremos.

Se o impedimento do candidato pudesse ser feito por qualquer promotor, ou mesmo qualquer juiz, o Ministério Público e o Judiciário seriam arrastados ainda mais ao pântano das disputas partidárias. Se ficasse na dependência do trânsito em julgado, na prática cairia no vazio.

Neste processo eleitoral de 2010, a intensidade dos recursos à Justiça e das decisões judiciais concorre com o calor dos debates entre os assim chamados pré-candidatos. É a guerra de liminares, punições e dribles.

A política brasileira vive na plenitude o que os políticos, pejorativamente, chamam de “judicialização”. A coisa vem dos anos 90, quando a oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso encontrou o caminho dos tribunais para dar continuidade à luta parlamentar, onde não tinha maiores chances. E a moda pegou.

Até que ponto a intervenção da Justiça na cena político-eleitoral-partidária aperfeiçoa ou prejudica a democracia? A regra é o situacionismo criticar a “judicialização”, justificada sempre pelo outro campo como ferramenta para evitar o exercício absolutista do poder.

Mas por que exatamente a Justiça vem sendo atraída — talvez mais do que o desejável — para a arena dos embates partidários? Porque nenhum outro poder consegue exercitar o necessário papel moderador.

Na democracia representativa os poderes são teoricamente independentes, mas também harmônicos. Este detalhe é algumas vezes secundarizado. E a harmonia não nasce de geração espontânea. É preciso que alguém a imponha. Nem que por bem, com jeito.

Num sistema como o nosso, seria natural o Executivo chamar para si o papel de moderador. Mas progressivamente, e não apenas neste governo, o Planalto tem perdido a capacidade. E o Judiciário é puxado para o centro do palco. O poder tem horror ao vácuo.

Quando os políticos criticam a “judicialização” devem antes de tudo prestar atenção no que eles próprios vêm falhando. Se houvesse mais consensos sobre a necessidade da convivência algo pacífica das facções, haveria menos recursos à Justiça.

Parece-lhe ingênuo e utópico? Talvez seja um pouco.

Orfandade

A pátria operacional do liberalismo, os Estados Unidos, está na bica de aprovar uma revolução no sistema financeiro, aumentando drasticamente a regulação e os controles sobre ele. Isso depois de Barack Obama passar no Congresso uma também revolucionária reforma na Saúde, para incluir os excluídos da cobertura estatal.

O primeiro presidente negro dos Estados Unidos avança em sua agenda progressista, em todas as frentes. Na teoria, deveria estar sendo saudado pela esquerda latino-americana, incluída a brasileira. Mas a turma anda amuada porque Obama não lhes deu colher de chá em Honduras e agora aperta o cerco ao Irã.

O limite de Obama é o interesse nacional americano. Diferente do que alguns possam ter imaginado, ele não se elegeu para organizar a retirada, mas para continuar a hegemonia. Que hoje exige novos parâmetros.

Tem algo de humorístico a esquerda tupiniquim, Luiz Inácio Lula da Silva à frente, precisar falar mal do presidente americano bem no momento em que ele enfrenta interesses e grupos de pressão que aqui dentro o governo do PT nem pensa em criticar.

É dura a vida.

Secando

Um efeito da crise europeia é evidenciar que o endividamento tem limite. E que o keynesianismo não é um buraco sem fundo.

Os países em melhor situação, por todo o mundo, são os que fizeram lá atrás seu ajuste, especialmente o fiscal. Agora é a vez dos outros.

Mas esse “melhor” precisa ser visto com cuidado, especialmente se o país depende de inversões estrangeiras para fechar suas contas, o nosso caso.

A economia está bombando, mas o efeito “a fonte secou” anda provocando desconforto em quem olha a realidade com lentes menos róseas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (21) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Os propósitos e os holofotes (20/05)

No roteiro de Lula, a negociação é o antídoto contra as sanções. No roteiro proposto pelos americanos, talvez as sanções sejam a alternativa ao caminho das armas. Pelo menos é possível que russos e chineses enxerguem assim

É discutível a atitude brasileira de deixar a reunião do Conselho de Segurança da ONU em que se discutiam as possíveis sanções contra o Irã. Se o Brasil tem uma posição, deve defendê-la em qualquer instância. Por que não?

O Brasil parece ter ficado surpreso com a velocidade de reação das potências no CS, e com a unanimidade a favor do rascunho das sanções.

Na teoria, a declaração obtida por Luiz Inácio Lula da Silva em Teerã deveria ter dividido o bloco dos países com poder de veto. Deveria ter facilitado o descolamento entre de um lado Estados Unidos e de outro Rússia e China.

Mas não aconteceu. Um motivo é que as medidas vêm sendo costuradas faz tempo entre os protagonistas do CS. E costuras envolvem compromissos.

Um exemplo: os americanos toparam ceder aos russos no escudo antimísseis do leste da Europa. Os russos não podem agora simplesmente desconhecer as preocupações dos Estados Unidos com o Irã.

Os chineses também carregam um portfólio de pontos estratégicos delicados na relação com Washington. Não podem se dar ao luxo de flutuar ao sabor dos acontecimentos.

Outra razão é que nem russos, nem chineses, nem franceses nem súditos de Sua Majestade estão dispostos a conviver com um Irã nuclearizado. A França não se alinha automaticamente aos Estados Unidos, ao contrário: na crise do Iraque peitou o aliado do começo ao fim. Rússia e China tampouco.

Circula a teoria de que as sanções são um primeiro passo para os Estados Unidos intervirem militarmente no Irã. O histórico das guerras recentes encoraja a hipótese. Mas há nela um buraco lógico. Por que motivo russos e chineses iriam estimular a presença de tropas americanas no Irã? Qual o interesse dessas duas potências em incentivar a expansão bélica da superpotência?

Interesse nenhum. O que faz obrigatório levantar uma possibilidade: talvez os parceiros dos Estados Unidos no CS vejam as sanções como um caminho não para impulsionar a eventual agressão militar, mas para diminuir a probabilidade de ela acontecer.

No roteiro de Lula, a negociação é o antídoto contra as sanções. No roteiro proposto pelos americanos, talvez as sanções sejam a alternativa ao caminho das armas. Pelo menos é possível que russos e chineses enxerguem assim.

Também por isso escrevi na coluna de terça-feira que a tática brasileira levaria a aumentar as pressões sobre Teerã, em vez de diminuir. O Irã tem um histórico de enrolar o CS, e se as potências enxergassem a aceitação tardia da algumas condições pelos iranianos como manobra para novamente “comprar tempo” provavelmente dariam mais uma volta no parafuso. Ou mais algumas.

O Irã trabalha com a hipótese de os Estados Unidos não conseguirem abrir uma terceira frente, além do Iraque e do Afeganistão. É razoável. Como também é razoável imaginar que Washington esteja a rascunhar caminhos para enfrentar o problema, de um jeito ou de outro.

O documento assinado em Teerã rendeu dividendos políticos a Lula, mas é preciso agora ir além do brilhareco. Se o Brasil está sinceramente interessado numa saída pacífica — e não apenas em fazer propaganda de si próprio — talvez devesse considerar que os termos acertados no domingo com Mahmoud Ahmadinejad são, infelizmente, insuficientes. E que é preciso avançar.

A questão-chave do affair iraniano é o monitoramento internacional do programa atômico. O próprio Itamaraty admite isso, quando caracteriza o trato do último fim de semana como “primeiro passo”. Qual é a dificuldade, então? O ritmo. Brasil e Irã caminham a passo de tartaruga, mas os fatos já adquiriram velocidade de coelho.

Em resumo, a permanência do Irã como nação soberana depende da renúncia definitiva ao uso da energia nuclear para fins militares. E de isso poder ser efetivamente verificado e fiscalizado pelas potências. Em suma, para manter sua soberania o Irã deverá renunciar a uma parte dela.

Justa ou injusta, essa é a situação. E os dirigentes iranianos estão diante da encruzilhada. Na qual, aliás, eles mesmos fizeram tudo para se meter. As escolhas colocadas aos países nos momentos-chave da História nunca são fáceis.

Será ótimo se o Brasil e Lula puderem ajudar o Irã a fazer a escolha correta. É o que farão, se estiverem movidos pelos propósitos certos, e não apenas pela busca dos holofotes.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (20) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Jogo do Poder com Ronaldo Caiado (19/05)



O deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Tiago Pariz, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Falta a química (19/05)

Não que as coisas entre Estados Unidos e Brasil estejam indo mal, na vida real. Elas estão normais, evoluindo até. Outro dia assinamos um acordo militar com eles, o primeiro desde os anos 1970. Mas a sintonia entre os presidente não é a mesma de antes

Já notei aqui que as relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam mais azeitadas quando George W. Bush ocupava a Casa Branca e cultivava Luiz Inácio Lula da Silva como o particular progressista de estimação. Bush era um presidente de direita, e as circunstâncias do seu período no cargo reforçaram essa imagem.

A parceria entre os dois presidentes não trouxe maiores resultados práticos ao Brasil. Nós bem que fomos atrás. No primeiríssimo plano, as tentativas de concluir a Rodada Doha e de emplacar o etanol de cana como biocombustível no mercado americano.

Nada deu em nada. Ou deu em muito pouco. Lula gabava-se de ser atendido por Bush ao telefone quando quisesse (por exemplo, quando acordava “invocado”), mas a exuberância dessa laranja não resultou em muito suco.

Bush está aposentado no Texas e agora é Barack Obama. O primeiro negro na Casa Branca, o homem que mobilizou o segmento mais “liberal” (no jargão deles significa esquerdista) da sociedade americana, o político da ruptura antes impensável, o presidente das grandes preocupações sociais. Em teoria, na ideologia, muito mais próximo de Lula que o antecessor.

Ideologia nem sempre (quase nunca) é o principal instrumento a moldar as relações entre líderes.

Não que as coisas entre Estados Unidos e Brasil estejam indo mal, na vida real. Elas estão normais, evoluindo até. Outro dia assinamos um acordo militar, o primeiro desde os anos 1970. Se não fosse um petista na Presidência provavelmente o mundo teria caído. Como o governo é do PT, não caiu.

Mesmo no caso do Irã agora, a estratégia de Lula teoricamente converge para o interesse americano: o Brasil diz estar empenhado em impedir que os iranianos adquiram poderio atômico.

E não há elementos para afirmar com certeza que o Brasil esteja dissimulando. Existe no governo quem veja num Irã nuclear o desejado contraponto à influência americana na região, mas fica difícil enxergar o que Lula ganharia se passasse à História como um cavalo de Troia.

Trata-se então, sempre em tese, de arrufos entre próximos, quase iguais. Mas o desconforto é visível do lado de cá. Menos no Itamaraty e mais no Palácio do Planalto.

Um problema é Obama não precisar de Lula para fazer relações públicas em escala planetária. Outro problema é Obama ter pouquíssimo ou quase nada a oferecer no âmbito dos nossos desejos imediatos.

A Casa Branca tem procurado concentrar-se na aprovação de pontos críticos da agenda eleitoral democrata, como as reformas da Saúde e do sistema financeiro. Diante da obstrução republicana, é improvável que aceite dispersar forças só para cultivar as relações com o amigo meridional.

Insuficiente

O assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, disse ontem que o Brasil prefere tratar assuntos relativos aos direitos humanos de maneira discreta, quando envolvem gestões junto a governos.

Garcia tem razão. Aqui vale mais o resultado do que o barulho. Especialmente quando o excesso de barulho pode dificultar o resultado desejado.

É complicado, porém, quando regimes ditatoriais oferecem aliviar as transgressões aos direitos humanos como moeda de troca de negociações políticas. É uma forma particularmente cruel e desprezível de obter dividendos.

O Brasil pouco ou nada pode fazer para interferir nas políticas de outras nações soberanas, inclusive quando a pauta são os direitos humanos. Pode obter concessões pontuais, e quando consegue é ótimo.

Pode também procurar exercer alguma forma — mesmo que discreta — de pressão moral. Movimentos junto à opinião pública. Lula tem cacife para isso. Deveria usá-lo.

É possível pressionar sem confrontar, advertir sem humilhar, criticar sem injuriar. É também para isso que existe a diplomacia.

Garcia tem razão se a coisa for tomada pelo ângulo puramente operacional. Já pelo ângulo simbólico, Lula está no vermelho na defesa pública dos direitos humanos em certos países amigos.

Não chega a ser original. Ele não está sozinho no comportamento. Mas vale o registro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (18) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Sem trouxas nem "enrolation" (18/05)

Uma vez no jogo, o Brasil será instado a somar esforços para garantir que o Irã não construa a bomba. Objetivo que poderá ser obtido no âmbito do protocolo adicional do TNP, com o rigoroso e completo monitoramento internacional sobre Teerã

Qual é o principal efeito prático da carta de intenções assinada por Brasil, Turquia e Irã no último fim de semana? Introduzir mais efetivamente os dois primeiros na mesa de negociação sobre o programa nuclear iraniano. Era algo que Luiz Inácio Lula da Silva desejava muito, e conseguiu.

O cacife das outras potências reside na força militar e econômica. Para ser chamado ao pôquer, o Brasil apresentou certas credenciais: ofereceu-se como interlocutor possível entre Teerã e os adversários. Interessa aos iranianos, ativos na busca de “comprar tempo” na corrida pela bomba. E interessa ao Brasil, em busca de protagonismo e espaço globais.

Onde está o desafio para Lula? A entrada na festa não é grátis. E nela os trouxas ficaram do lado de fora, não conseguiram convite.

O Brasil apoia os esforços planetários para evitar que o Irã tenha a bomba, apenas opõe-se ao método das sanções. Mas as palavras precisam ter reflexo nos atos. Se você está na mesa de pôquer não vai sair quando quiser, só porque ganhou umas fichas a mais.

Ficaria mal para o Brasil aparecer aos olhos do mundo como inocente útil dos aiatolás. Nem é razoável imaginar que Lula trabalhe com essa possibilidade. Outra hipótese é o Brasil tratar o Irã como boi de piranha das ambições nucleares brasileiras. O Itamaraty e o Palácio do Planalto negam. É um vetor no nosso establishment político e militar, mas ainda não parece ter alcançado dominância explícita.

Assim, uma vez dentro do jogo, o Brasil será instado a somar esforços para garantir, de fato, que o Irã não alcance a tecnologia e as condições materiais para construir a bomba. A troca do urânio enriquecido é apenas um aspecto. Há outros. Deverá haver garantias reais da neutralização atômica de Teerã. O que fará manter e até aumentar a pressão sobre os iranianos.

O Irã não tem uma terceira opção, é a capitulação ou a guerra. Segundo o Brasil, o pacto firmado é o primeiro passo da saída pacífica, e de um jeito que não fique tão vergonhoso para os iranianos. Mas é possível que eles não estejam convencidos disso, que vejam tudo como bela oportunidade de dar sequência ao “enrolation”.

De que jeito resolver isso? De novo, suas excelências, os fatos. É preciso que o rascunho evolua para a permissão de inspeções abrangentes e para a completa abertura de Teerã ao monitoramento internacional. De preferência, no âmbito do protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

Aliás, o Brasil poderia dar o exemplo, endossando ele próprio o protocolo, para ganhar autoridade junto aos amigos iranianos quando for convencê-los a fazer o mesmo.

Infelizmente, nos últimos anos o regime dos aiatolás, pressionado internamente por vetores modernizantes e ocidentalizantes, derivou para uma política externa expansionista e agressiva, inclusive em relação ao mundo árabe. É natural que um país assim liderado encare resistências quando deseja ampliar seu poderio bélico.

O Brasil, por exemplo, enfrenta desconfianças quanto ao viés pacífico do nosso programa nuclear. Mas como não andamos por aí ameaçando riscar ninguém do mapa, nem patrocinamos movimentos de desestabilização política em países das redondezas, a coisa vai sendo levada num certo banho-maria. Já com o Irã não dá para ser assim.

Por isso, no fritar dos ovos, o cenário continua mais ou menos como estava antes do fim de semana. O mundo precisa saber se o Irã aceita renunciar completamente à bomba, se está disposto a oferecer as necessárias garantias. A carta de intenções patrocinada por Lula é positiva, mas talvez ainda não suficiente.

O que não retira seu mérito. Apenas impõe novas obrigações ao novo jogador sentado na mesa do pôquer.

“Terrorismo”

Recebi uma certa quantidade de e-mails depois de escrever na coluna de domingo que não houve terrorismo no Brasil, mas guerrilha.
As definições são flexíveis, mas não existiram no Brasil movimentos de resistência à ditadura que tenham adotado a violência deliberada e sistemática contra alvos civis ou não propriamente políticos.

A expressão “terrorismo” acabou banalizada, inclusive com sua extrapolação ao “terrorismo de Estado”, que também serve para quase qualquer coisa. Quando convém.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (18) no Correio Braziliense.

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domingo, 16 de maio de 2010

A primeira vítima (16/05)

Se a luta armada era o único caminho para por fim à ditadura, e se as organizações guerrilheiras foram definitivamente batidas nos anos 70, por que razão o regime acabou removido uma década adiante? Quem o removeu?

Mais de um mês de pasmaceira depois, o PT conseguiu pautar algo no debate eleitoral: o paralelo entre Dilma Rousseff e Nelson Mandela. Como era previsível, a jogada nasceu da genialidade mercadológica de Luiz Inácio Lula da Silva.

E foi sutil. Comparou sem comparar. Lula não disse que Dilma está para o Brasil como Mandela para a África do Sul. Seria bizarro. Dizer que o fez é acusação injusta. O presidente apenas comparou a circunstância de cada um na adesão à luta armada.

Repisou a tese de a luta armada no Brasil ter sido produto da ausência de caminho alternativo para combater a ditadura. Segundo essa versão particular e interessada da História, era a guerrilha ou a capitulação. O expediente é duplamente eficaz. Transforma automaticamente em heroi quem decidiu pegar em armas na transição entre as décadas de 1960 e 70 do século passado. Transforma automaticamente em omisso quem não o fez.

Se a luta armada era o único meio de resistir ao regime, quem não a adotou não resistiu ao regime. Uma lógica simples e direta. E completamente furada.

Os movimentos guerrilheiros foram definitivamente neutralizados até o início de 1974. Uma derrota militar completa. Mas em novembro daquele mesmo ano a ditadura começou a morrer, soterrada pelos milhões de votos dados ao Movimento Democrático Brasileiro (oposição) contra a governista Aliança Renovadora Nacional (Arena).

A guerrilha perdeu. Assim como o voto nulo, seu irmão siamês. Quem acabou com o autoritarismo, uma década depois, foi o movimento de massas pacífico e institucional, na combinação das mobilizações sociais e eleitorais. Também aqui uma lógica cristalina: se a luta armada era o único caminho para por fim à ditadura, e se as organizações guerrilheiras foram definitivamente batidas nos anos 70, por que razão o regime acabou removido uma década depois? Quem o removeu?

Haveria talvez a explicação mítica do exemplo que a guerrilha teria deixado, mesmo após sua liquidação. Ou da canalização, para outras formas de combate, da energia guerrilheira. Quem estuda a sério aqueles anos sabe que não foi assim.

O movimento democrático lutava pela volta dos guerrilheiros exilados, pela soltura dos presos e, especialmente, contra a tortura. Mas os grupos políticos remanescentes da luta armada só decidiram aderir à assim chamada via pacífica quando o regime já estava, na prática, batido, depois da revogação do AI-5 em 1978. Batido exatamente por meio da tática e da estratégia que as organizações guerrilheiras recusavam.

São os fatos da História do Brasil. É natural que os personagens, uma vez em posições de poder, tentem reescrever as coisas. É humano. Mas os fatos são mesmo teimosos.

Lula tem uma vantagem sobre os adversários: o presidente não possui veleidades intelectuais, esse traço pequeno-burguês. Encontradiço especialmente em jornalistas.

Pode ser a favor do aborto num dia e contra no dia seguinte, pode estimular hoje a militância contra a criminalização da droga e demonizar amanhã o apoio de um adversário à descriminalização. Pode apoiar incondicionalmente uma greve de funcionários públicos contra um governo tucano e carimbar como altamente inadequado o grevismo contra o governo dele. Pode exigir num dia o bloqueio continental contra Honduras e atacar minutos depois o bloqueio americano a Cuba. Sempre em nome da soberania das nações.

Políticos não mudam de ideia a partir de bons argumentos. Eles selecionam os argumentos que servem à conveniência do momento. Convém agora a Lula apresentar Dilma como mártir da suposta ausência de alternativas fora da luta armada, para quem desejava combater o regime de 1964. É um antídoto às acusações de “terrorismo” feitas contra ela.

Nunca houve de fato terrorismo no Brasil. Houve guerrilha. São duas coisas bem diferentes. E a guerrilha foi uma opção, não uma necessidade. Foi um caminho irrigado pelo exemplo das revoluções cubana e chinesa. A tentativa de um atalho para o socialismo.

Nas guerras -que são apenas a continuação da política por outros meios- a primeira vítima é a verdade. Aqui não está sendo diferente.

Mas quem se importa com isso?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (16) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 14 de maio de 2010

O portador da má notícia (14/05)

A visita do presidente brasileiro a Teerã é um gol, mas será preciso esperar o resultado final do jogo. Para ver se Lula puxa Ahmadinejad para cima, ou Ahmadinejad puxa Lula para baixo

Está bem perto a hora da verdade para a diplomacia brasileira na crise do Irã. A estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva e do Itamaraty conduziu o Brasil para o centro da turbulência na disputa em torno do programa nuclear iraniano. Agora é hora de pousar o avião.

Nossa chancelaria vem movida por dois vetores principais: reafirmar o papel do Brasil como jogador global não alinhado aos Estados Unidos e consolidar nossa presença naquela região, especialmente no comércio.

O paradoxo da situação já foi apontado aqui. O Brasil opõe-se às sanções propostas pelos americanos para fazer o Irã desistir da bomba, mas Lula só poderá declarar vitória num desfecho que contemple o objetivo estratégico de Washington: a capitulação do Irã, com a renúncia ao projeto bélico nuclear.

É situação complicada para a liderança iraniana. Uma demonstração de fraqueza a esta altura revigoraria a oposição interna. Em caso de rendição, os adversários certamente acusarão Mahmoud Ahmadinejad de ter debilitado o país diante dos inimigos externos. E a luta interna passaria mais rapidamente a outro patamar.

Enquanto simula condescendência com os movimentos diplomáticos brasileiros, a diplomacia americana aperta os parafusos. Após uma década de pressões políticas e ofensivas bélicas, falta a capitulação do Irã para a pax americana vigorar do Paquistão ao Mediterrâneo.

Formalmente restam também a Síria e as facções mais fundamentalistas da Palestina e do Líbano. Mas a eventual neutralização de Teerã teria também o papel de empurrar os sírios à mesa de negociações, até por falta de alternativa militar. Enfraquecendo por tabela o Hamas e o Hezbollah.

Aliás, em nenhum outro momento os Estados Unidos tiveram sobre o movimento nacional palestino a influência que têm hoje. Falta apenas remover o vetor iraniano e controlar a variável síria. Difícil, mas em processo.

Ahmadinejad e Lula entraram, portanto, num jogo complexo. O iraniano foi inábil — ou lunático — ao ponto de colocar seu país à beira do precipício. Onde Lula enxergou uma oportunidade de entrar para estender a mão salvadora, buscando um belo troféu para a galeria.

A visita do presidente brasileiro a Teerã é nesse aspecto um gol, mas será preciso esperar o resultado final do jogo. Para ver se Lula puxa Ahmadinejad para cima, ou Ahmadinejad puxa Lula para baixo. Lula é o portador de uma má notícia para Ahmadinejad, de que talvez o tempo dele tenha se esgotado. Mas a má notícia pode não ser de todo ruim, se a alternativa for perder o pescoço.

Teimosia

Ontem passou mais um aniversário da Lei Áurea. Quase batido, como de costume. A neo-historiografia não gosta da Abolição. Também desdenha da Independência e da República. Tiradentes? Só é homenageado em Minas Gerais.

O Brasil desgosta de suas datas, da sua História. É uma pena. Virá o dia em que um governo realmente preocupado com os símbolos nacionais recolocará as coisas no devido lugar.

Enquanto não vem, continuaremos tentando resistir à sucção pelo vácuo histórico. É como se viéssemos de lugar nenhum. Aliás em nenhum outro lugar é assim. Todo país normal cultiva seus marcos, como referências do passado e signos de orientação para o futuro.

O governo Lula acelerou essa distorção, na ânsia de apresentar-se como o passo fundador da nacionalidade. É artificial, mas incomoda. Como consolo, a certeza de que a deformação do passado não tem como se eternizar.

Os fatos são teimosos.

Indigno

O governo vai dar um bônus imediato e uma pensão mensal aos campeões mundial de futebol de 1958, 1962 e 1970.
E os que não foram campeões em outras copas — e precisam —, não vão receber nada?

Ou seja, se o sujeito ganhou uma Copa pode envelhecer dignamente. Se não ganhou, que se dane.

Se o governo estivesse atrás de resolver o problema dos velhinhos, agiria com generosidade, sem mesquinhez, sem distinguir quem ganhou e quem perdeu nos mundiais.

É um detalhe a modificar quando a coisa for discutida no Congresso.

Não é porque o sujeito perdeu uma Copa que deve ser — como sugere o governo — esquecido, ignorado.

Seria indigno.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (14) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Caçada infinita (13/05)

Ninguém é mais escravo dos inimigos que o sujeito cuja autoestima se alimenta da aprovação e da admiração deles — ou do temor que neles possa instilar

Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil, apoia Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga, técnico da Seleção brasileira de futebol. É um “hedge”. O presidente está agora confortavelmente protegido do risco.

Se o time for bem na África, Lula poderá dizer que ofereceu o ombro amigo ao treinador quando todos criticavam. Se a Seleção for mal, Lula não poderá ser acusado de negar apoio na hora difícil.

Mas há elos mais íntimos entre os perfis dos personagens. Ambos adotam decisões sem dar a mínima para o entorno, atendendo unicamente ao próprio interesse, e em seguida apresentam o prato feito como de consumo obrigatório pela nacionalidade.

Uma vez tomada a decisão, resta ao brasileiro comum torcer a favor. Entrar na corrente. Sob pena de receber na cara a acusação de antipatriotismo. Discordou da convocação? Você deve ser um lobista marqueteiro descompromissado com a amarelinha. Discordou da política para Honduras, para a Bolívia ou para o Irã? Você é obviamente um serviçal dos ianques.

Um método, que pouco a pouco vai desenhando os contornos não apenas da política, mas toma traços de cultura abrangente. Ou talvez eu esteja errado. Talvez o Brasil tenha sido sempre assim na essência, desde a colonização. E por causa dela.

Em vez de uma sociedade de homens livres, a formação paraestatal sustentada na escravidão. Sempre atrás de uma “autoridade” que dê o soco na mesa e nos indique, com a desejada violência, o caminho da virtude. Para depois apresentar o eventual sucesso como prova definitiva do caráter virtuoso do caminho.

Despreze-se e reprima-se sistematicamente a diferença, a divergência, o contraponto. Eis a lei. Na boa, quando possível, ou nem tanto, se necessário.

Dunga tem toda condição de alcançar o sexto título mundial para o país. Tem time para isso, e uma trajetória de sucesso desde que assumiu o cargo. Assim como Lula deve chegar ao fim do governo com a popularidade lá em cima.

São ambos líderes competentes no cultivo da própria liderança — e concentrados nos objetivos.

Há diferenças? Dunga é direto. Lula é sedutor, envolvente. Diferenças cosméticas.

Dunga não precisa só que a Seleção brasileira vença a Copa. Dá a impressão de querer ganhá-la sozinho, com seu exército de incondicionais, sem ninguém para fazer sombra. Será “a vitória do Dunga”, e só dele. Para — quem sabe? — poder esfregar a conquista na cara dos inventores do “Era Dunga”. E de outras gracinhas mais perpetradas contra o vitorioso atleta.

Carlos Alberto Parreira foi o mais massacrado técnico de Seleção brasileira de futebol em todos os tempos. As eliminatórias para 1994 foram um circo de horrores. Daí ganhou a Copa dos Estados Unidos. Está até hoje curtindo a vitória.

Leva jeito de quem vai curti-la por toda a vida. Nem por um segundo desperdiçou tempo, ou energia, na caça aos antigos algozes. Decidiu saborear o sucesso com um sorriso nos lábios. Pare ele parece suficiente.

Já Mario Jorge Lobo Zagallo encasquetou um dia que todos teríamos de engoli-lo. Nunca se conformou com a afirmação — injusta — de que o time de 1970 foi obra de João Saldanha. Nunca conviveu bem com a crítica, com a pressão dos críticos e dos invejosos.

Zagallo é o maior colecionador de títulos mundiais da história do futebol brasileiro, mas parece acorrentado aos tormentos do “complexo de coadjuvante”.

Ao contrário de Parreira, Zagallo continua na eterna perseguição aos que nunca lhe deram “o devido valor”. Uma caçada infinita, pois ninguém é mais escravo dos inimigos do que alguém cuja autoestima se alimenta da aprovação e da admiração deles — ou do temor que neles possa instilar.

Lula vai ser um Parreira ou um Zagallo da política? Isso supondo que ele aceite a idéia de deixar de ser o nosso técnico um dia.

Você tem um palpite?

Enésimo

Já ferido pela trajetória recente, o Senado Federal talvez devesse evitar a tentação de colocar um freio no “Ficha Limpa”, projeto aprovado na Câmara dos Deputados para negar legenda a candidatos com problemas judiciais graves.

Seria um novo erro. O enésimo. E grave.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (13) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Jogo do Poder com Rodrigo Rollemberg (13/05)



O líder do PSB na Câmara dos Deputados, Rodrigo Rollemberg (DF), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Lilian Tahan, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Servidão voluntária (12/05)

Nossos liberais têm uma visão partida do mundo (para não dizer partidária): na política, quanto mais controles, melhor; na economia, o ideal é a ausência de controles. O predomínio soberano do mercado

Peça a algum especialista que explique a você como funciona o sistema de freios e contrapesos na democracia. Mas cuide para que seu especialista seja identificado com o liberalismo. E ouça a explicação com paciência, perguntando todo o necessário, até ficar completamente esclarecido. Até ficar convicto de que não pode haver no regime democrático qualquer instituição isenta de controles. Por princípio.

Em seguida, pergunte ao interlocutor por que o Banco Central deve ser exceção à regra. Sim, pois nossos liberais têm uma visão partida do mundo (para não dizer partidária): na política, quanto mais controles melhor, na economia, o ideal é a ausência deles. O predomínio soberano do mercado.

Uma contradição a estudar.

Eis a principal herança maldita, sem aspas, dos anos 90 do século passado, quando a História tinha supostamente acabado e o “Reich do Pensamento Único” exibia ares de querer durar uns mil anos.

Ali o país debelou a hiperinflação, a um custo social e econômico ínfimo, graças ao Plano Real. Essa é a herança bendita. Junto criou-se a maldita: a autoridade monetária foi entronizada acima do bem e do mal, por sobre qualquer crítica.

Não gostou de o Banco Central ter subido a taxa de juros? Você é um irresponsável, está flertando com a inflação, quer por a perder as conquistas das duas últimas décadas.

O PT é a vítima mais recente da armadilha. E entrou nela por boa razão. Não fosse a dura política monetária do primeiro mandato, o governo Luiz Inácio Lula da Silva provavelmente naufragasse. Infelizmente porém, o trade-off tático transformou-se gostosamente em estratégico.

De vez em quando alguém rateia, como fez o presidenciável do PSDB na última segunda-feira, num momento de mau humor. No geral, porém, os políticos estão de acordo com o mecanismo de troca hoje saboreado pelo PT.

Os eleitos pelo povo podem nomear os amigos para os cargos federais e as estatais, e administrar o pedacinho do orçamento que sobra após as vinculações. Já os eleitos pelo mercado administram a moeda. E se alguém questiona o arranjo, a patrulha trata logo de fuzilar.

De um lado, atacam os incondicionais de Lula. Do outro, os incondicionais do mercado. Um movimento em tenaz. Uma aliança difícil de enfrentar.

Até as divisórias —hoje retiradas— do Palácio do Planalto sabem que o Banco Central errou na crise, e comprometeu o crescimento em 2009. Para a indústria, os efeitos foram trágicos. As divisórias sabem também que as contas externas vão muito mal, porque nossa balança comercial vai minguando, inclusive por causa da sobrevalorização do Real. E sabem de muitas outras coisas, porque as ouvem das autoridades. As mesmas que publicamente se alinham com o BC pois convém na política.

O contraste entre o que os políticos falam em off e o que aceitam dizer em on sobre o Banco Central é o maior atestado da servidão voluntária que se impõem.

Para adiante

Mas talvez seja hora de reclamar menos e produzir mais soluções. Inclusive no jornalismo. Quem sabe desta vez o eleitor brasileiro tem a sorte de ver as perguntas certas serem feitas aos candidatos nas entrevistas e nos debates entre eles?

Cada um poderia dizer, por exemplo, o que fará para reduzir rapidamente o spread bancário, a diferença entre o juro que o banco paga ao poupador e o que cobra do tomador do empréstimo. Sim, pois o banco não empresta o dinheiro dele, empresta o nosso.

Outra dúvida é sobre as tarifas bancárias, essa coisa maligna para o cliente e superbenigna para o banco. Como impor concorrência de verdade? Como romper o cartel?

Enfim

Ao menos aparentemente, o governo percebeu que deve continuar governando. Decidiu endurecer com os grevistas do serviço público federal e tenta colocar um freio na compulsão congressual por criar despesas.

É bom saber que enquanto quase todos só querem saber da eleição alguém continua de olho na saúde da lojinha.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (12) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 11 de maio de 2010

Um dia complicado (11/05)

O eleitor não funciona por departamentos, não é uma caixa de luz onde certas chaves são ligadas e outras desligadas conforme a situação. A preferência por um candidato vai sendo construída tijolo por tijolo, a partir de percepções ao longo do tempo

Não é simples, nem confortável, escrever uma coluna sobre política para ser lida quando você, leitor ou leitora, está certamente com a atenção posta na lista da Seleção Brasileira de futebol para a Copa da África do Sul.

Ou não? Há gente no Brasil alheia ao futebol, mesmo em Copas do Mundo. Ocasião, aliás, propícia aos “torcedores de Seleção”, uma turma nem aí para a modalidade, mas sempre disposta a engrossar a festa de quatro em quatro anos. E haja paciência.

A crer na mitologia, o Brasil é um país que para entre o Natal e o Carnaval. E onde nada vai acontecer enquanto a Copa não passar.

A conversa sobre o interregno de dezembro a março é furada. Olhe em volta e verá que todo mundo continua trabalhando normalmente. Não conheço ninguém que vá buscar pão e leite na padaria em janeiro, ou fevereiro, e volte para casa de mãos abanando. A não ser em certas praias, por causa da superlotação.

Mas a mitologia é forte. E invade a política. Em tese, o eleitor só começará a prestar atenção nos candidatos depois do fim da Copa. Será?

À primeira vista tem verossimilhança, mas não para em pé. O eleitor não funciona por departamentos, não é uma caixa de luz onde certas chaves são ligadas e outras desligadas conforme a situação. A preferência por um candidato vai sendo construída tijolo por tijolo, a partir de percepções ao longo do tempo.

Se o eleitor ainda não estivesse nem aí para a eleição, Dilma Rousseff não teria subido do traço para perto de 30%. E as intenções espontâneas não estariam em alta permanente. Para todos os postulantes.

A verdade é que estamos em plena campanha eleitoral, antes mesmo do começo da “novela”, o tempo reservado aos candidatos oficiais no horário nobre das emissoras de rádio e televisão.

Para o que contribui também a inédita exposição dos “pré-candidatos” na imprensa. Já registrei aqui a beleza da sítuação. Vivemos uma primavera política, com as notícias a mil e os atores ocupando agressivamente os canais de comunicação. E sem retoques.

Depois virá a campanha oficial. Em que, pelo andar da carruagem, assistiremos a uma enxurrada de direitos de resposta concedidos pela Justiça Eleitoral. Os últimos movimentos do Tribunal Superior Eleitoral levam a concluir que os magistrados querem cuidar desta eleição com mão de ferro.

Impensável

Tem gente que defende a implantação do parlamentarismo no Brasil. A ideia já foi derrotada duas vezes em plebiscito, nos governos João Goulart e Itamar Franco, mas sempre aparece alguém para reapresentar a fórmula milagrosa.

O eleitor talvez tenha tido bom senso ao recusar essa saída. Basta ver o que acontece agora no Reino Unido, onde nenhum dos dois grandes partidos alcançou a maioria absoluta. Os democratas liberais, com um punhadinho de congressistas, transformaram-se no fiel da balança e negociam com os conservadores e os trabalhistas.

Imagine se fosse aqui. A eleição terminou, ninguém conseguiu metade mais um nas duas casas do Congresso e a decisão sobre que governo formar fica a cargo de suas excelências, os deputados e os senadores. Poderá ser um governo do PT, do PSDB ou do PMDB, ou de pequeno que arregimentar apoio suficiente.

Isso no Brasil, com nossos cargos de confiança às dezenas de milhares, com as estatais à disposição.

Então invertam

Ontem foi um dia de troca de chumbo por causa dos juros. PT e PV dizem estar plenamente satisfeitos com as políticas do Banco Central, enquanto o PSDB adota tom algo crítico. Mas com aquele medinho de desagradar ao “mercado”.

A profusão de comportamentos domesticados e dóceis diante da ditadura financeira faz ter saudades de um Ciro Gomes. Ou de um Roberto Requião. Alguém com coragem suficiente para dizer o que deve ser dito. Talvez por isso tenham sido escanteados.

Se é para o BC pairar acima de tudo e de todos, que o presidente da instituição seja escolhido pelo voto direto e universal dos eleitores brasileiros.

No novo sistema, o presidente da República poderia então ser aprovado pelo Senado, depois de indicado pelo presidente do BC.

Seria mais lógico.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (11) no Correio Braziliense.

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domingo, 9 de maio de 2010

Na TV Câmara, um debate sobre campanhas da imprensa (09/05)

Dificuldades políticas (09/05)

Quando você começa a ter ruídos de comunicação, deve buscar as razões na política. Políticos adoram culpar os comunicadores pelos problemas que eles, políticos, criam — ou não sabem resolver

O presidente da República introduziu esta semana formalmente no discurso a variável “quando eu pedir votos para a Dilma”. Quanto realmente Lula conseguirá de votos para a candidata do PT? Eis um tema para preencher o tempo até, pelo menos, a chegada do horário eleitoral no rádio e na televisão.

O assunto vem sendo tratado aqui, sempre com cautela. A verdade deve estar em algum ponto entre o ufanismo oficialista e o desdém oposicionista. Resta esperar pelos números.

Há porém um fato a analisar: Luiz Inácio Lula da Silva ter vindo a público para fazer a declaração. Ele poderia optar pelo trivial, o de hábito. “A campanha vai bem, exatamente como planejamos. Cada coisa tem sua hora. Liderança nas pesquisas é importante, mas o que decide mesmo é o eleitor no dia da eleição.”

O cardápio de frases feitas é conhecido e está disponível para todos os candidatos. De graça. Mas o presidente deu-se ao trabalho de dar uma explicação. Ou seja, admitiu a existência de um problema. Quem se explica já está errado por definição. Eis uma verdade absoluta.

O comportamento público de Lula não é o único sintoma. De semanas para cá, nota-se a necessidade de ajustes na campanha de Dilma. Como também é hábito, a responsabilidade acaba lançada sobre os bodes expiatórios de sempre. São os supostos “escorregões da candidata”, ou os inevitáveis “problemas na comunicação”.

O desempenho pessoal de Dilma tem correspondido na essência, e ela está em visível evolução. Como falta bastante tempo para a urna, a ex-ministra tem espaço para corrigir as insuficiências. E a comunicação? Qualquer um que tenha colocado os pés numa campanha eleitoral sabe: esta anda em sintonia finíssima com a política.

Quando você começa a ter ruídos de comunicação, deve buscar as razões na política. Políticos adoram culpar os comunicadores pelos problemas que eles, políticos, criam — ou não sabem resolver.

O governo tem um desafio no plano do discurso. Foi detectado por Elio Gaspari: preparou-se para uma linha de debate, sem antes combinar com os adversários. O PT/governo pode ainda empurrar o PSDB/oposição para a armadilha de fixar-se na defesa do passado, deixando para o petismo a bandeira do futuro? Sim, mas não está sendo fácil.

O enigma maior talvez esteja em outra área. Sempre é bom esperar o desfecho das articulações, mas a campanha governista enfrenta desafios incômodos no estados. Esta coluna é pequena para fazer a lista, basta dar uma olhada no noticiário.

Um caso é São Paulo. Ontem no pré-lançamento de Geraldo Alckmin (PSDB) a governador viu-se algo inédito no último quarto de século: as diversas facções e alas tucanas absolutamente unidas, coesas com o PMDB e também com o Democratas. E com a simpatia velada do PP nos bastidores. É um paradoxo: na eleição em que tem formalmente mais alianças em São Paulo, o PT nunca esteve tão perto de ficar isolado de todas as demais correntes históricas de São Paulo.

Outro exemplo é Pernambuco, onde o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), em meio de mandato, aceitou uma disputa dificílima contra o governador Eduardo Campos (PSB) para dar um palanque forte ao PSDB nacional e um alicerce para as chapas locais. Assim, Campos deve enfrentar, unida, a aliança que derrotou seu avô, Miguel Arraes. O socialista larga como favorito e tem Lula, mas eleição é eleição.

A oposição conseguiu um palanque forte também no Rio de Janeiro. Está a caminho de consegui-lo no Rio Grande do Sul e no Paraná. No Ceará, a condução amadora e tosca do assunto Ciro Gomes por Lula realavancou a liderança do senador Tasso Jereissati (PSDB). No Amazonas, há uma crise potencial no governismo, dividido entre duas candidaturas, detalhe que pode levar uma delas a deixar de ser governista.

Na Bahia, o PT vai conseguindo forjar uma liga inédita contra ele, entre o DEM, o PSDB e o PMDB. Vitaminada por outros herdeiros políticos do carlismo. Se você conhece a Bahia sabe o tamanho do problema do PT na eleição dali.

A situação geral é bem descrita pelo deputado federal Paulo Delgado (PT-MG), há muito tempo um outsider no establishment petista. “Entre os políticos, mesmo quem é Lula não é PT de jeito nenhum.”

E voltamos ao início desta coluna.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (09) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 7 de maio de 2010

O risco de parecer velho (07/05)

Seria uma injustiça tirar da oposição o monopólio da demagogia. Seria também um elemento perturbador do equilíbrio político. Não dá para o poder querer ser governo e oposição ao mesmo tempo

Políticos são a favor da responsabilidade fiscal quando estão no governo. E ficam contra quando chegam à oposição. É uma regra conhecida. Agora aparece a novidade: a base do governo é quem cuida de fazer aprovar no Congresso todo tipo de despesa.

Nem discuto aqui se são justas, ou injustas. Até por ser um juízo complicado. A crítica ao corporativismo é fácil quando o sapato aperta o calo do outro. E o que mais há em Brasília é gente protestando contra o corporativismo alheio enquanto cuida, muito bem cuidado, do seu próprio.

O jogo é assim. Uma regra de ouro vem descrita no começo desta coluna. A oposição sempre pede o impossível e apoia todo tipo de reivindicação. Cabendo ao governo zelar pelo cofre. Se o governo tem a delícia de manejar a caneta que determina a despesa, que aguente a pressão.

Seria uma injustiça tirar da oposição o monopólio da demagogia. Seria também um elemento perturbador do equilíbrio político. Não dá para o poder querer ser governo e oposição ao mesmo tempo.

Mas por que se chegou a este ponto, à disfunção orgânica de a própria base governista acelerar o caminhão ladeira abaixo?

O ano eleitoral explica apenas em parte. Já houve antes anos eleitorais e a taxa de descontrole agora está algo acima. Outra explicação é o fim do bloqueio da pauta pelas medidas provisórias. Desde que deputados e senadores retomaram na prática o direito de legislar, o Congresso passou ao regime de celebração permanente.

Mas daqui a pouco suas excelências entram em recesso branco e a coisa se acalma. A dúvida maior é sobre o futuro.

Como andará o Congresso em caso de vitória de Dilma Rousseff? E se o presidente for José Serra? E Marina Silva, o que tem a dizer sobre a festa?

Dos três, é Dilma quem mais pode sofrer prejuízo decorrente da situação.

As circunstâncias da candidatura são conhecidas. Sua força está em ser a escolhida de Luiz Inácio Lula da Silva e no leque de apoios políticos. Sua mensagem é a da continuidade. O que é bom para ganhar o voto dos alinhados ao presidente, mas embute um problema potencial: o prometido novo governo corre o risco de já parecer velho antes mesmo de nascer.

A perda de controle sobre o Congresso é sintoma típico de envelhecimento governamental. Se falta a convicção de que todos se salvarão juntos, cresce a tentação de cada um buscar a salvação individual, à custa do interesse da alcateia.

A operação política do Planalto leva jeito de estar meio à deriva. Parece andar relegada à esfera operacional, coisa a ser tocada pelo coordenador parlamentar e pelos representantes de Lula nas duas Casas. O presidente parece alheio. Uma sinalização péssima.

Dilma deveria na teoria estar empenhada em construir na sociedade e no chamado mundo político a convicção de que, uma vez na cadeira, vai comandar sua base, e não ser comandada por ela.

No quesito, até agora a candidata do PT está aquém.

Desunião europeia

A crise na Europa mostra, como nunca antes, os limites da “política de blocos”. Foi uma teoria das muitas que vicejaram no pós-Guerra Fria. O multilateralismo organizar-se-ia não no equilíbrio de nações, mas principalmente no de blocos, que agrupariam países com características estratégicas comuns.

Conversa. O que continua valendo é a identidade nacional. Especialmente porque os blocos podem até evoluir para políticas comerciais e monetárias comuns, mas a autoridade fiscal continua pulverizada.

Uma coisa é alemães aceitarem pagar mais impostos para resolver problemas da Alemanha. Outra coisa é aceitarem pacificamente que vão ficar mais endividados ou vão pagar mais impostos porque os gregos não querem apertar o cinto.

Exemplo

Vai se confirmando a previsão de que a campanha eleitoral terá um aspecto inédito, em particular neste período de “pré-campanha”: há espaço real para se debaterem os reais problemas e desafios do país. Por enquanto, os factoides não vão sozinhos ao palco.

Ontem, Dilma, Serra e Marina estiveram discutindo o municipalismo no evento da Associação Mineira de Municípios. Uma iniciativa a ser repetida.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (07) no Correio Braziliense.

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