sexta-feira, 30 de abril de 2010

O MST sem aliados (30/04)

Não há ator relevante da política disposto a defender o MST. O movimento hoje luta pela reforma agrária onde ela não é mais possível — pelo menos no capitalismo — e renuncia a buscá-la onde é necessária. Daí o isolamento

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desempenha um papel importante no Brasil. Se não por outro motivo, ao fazer recordar todo dia que o direito à propriedade é universal. Direito de propriedade só para alguns é contradição em termos.

Eis um aspecto bonito da reforma agrária. Ela talvez materialize melhor que outras bandeiras o desejo de o direito de propriedade ser praticado da maneira mais ampla e absoluta.

Como então os portadores dessa aspiração amplíssima chegaram ao isolamento político, facilmente verificável? Ontem Dilma Rousseff não citou o MST, mas mandou o recado de que não admite ilegalidades.

A ocupação de fazendas é ilegal, quando a Justiça assim decide. A mensagem não poderia ter sido mais clara.

Antes, José Serra tinha ido na mesma linha, só que mais explicitamente. Pois não está obrigado a tratar o tema com luvas macias.

O isolamento político do MST obedece também a razões estruturais.

O Brasil é um país secularmente reacionário quando o assunto é a terra. Aqui, a Independência não aboliu a escravidão e a República não trouxe a reforma agrária. Esta só avançou — pasmem! — a partir do regime militar, quando o presidente Castelo Branco deu ao país o Estatuto da Terra.

A redução do direito de propriedade a prerrogativa de alguns é construção ideológica arraigada entre nós. Mas o isolamento político do MST não bebe só dessa fonte. Suas raízes conjunturais estão na total assimetria entre a estratégia do movimento e o projeto de construção nacional.

Qual o sentido de o MST acampar à beira de estradas do Sul-Sudeste, ao lado de propriedades que já fizeram a transição para a agricultura plenamente capitalista, em vez de pressionar o governo para que a expansão da fronteira agrícola aconteça com base na democratização territorial?

Infelizmente, o MST deixou-se enredar já faz algum tempo numa aliança com as forças que procuram nos impor o congelamento da fronteira agrícola, o abandono da engenharia genética e a renúncia à população das fronteiras. Dessa aliança não sai — nem vai sair — nada útil para o país.

É como cruzar espécies distintas. Dá até prolezinha, mas estéril. Uma esterilidade política bem desenhada em teses como “a luta contra o agronegócio”.

Em resumo, o MST hoje busca a reforma agrária onde ela não é mais possível — pelo menos no capitalismo — e renuncia a buscá-la onde é necessária. Daí o isolamento.

Fraqueza que chega ao ponto de não conseguir arrancar do governo Luiz Inácio Lula da Silva nem a atualização dos índices mínimos de produtividade da terra para ela atender ao interesse social.

Cicatriz colonial

Houve alguma confusão ontem sobre a escolha de Lula como um dos indivíduos mais influentes, na relação organizada pela revista americana Time.

No fritar dos ovos, importa menos se o presidente é o primeiro da lista, ou o 17º. Ou o nono. É melhor estar nessas listas do que não estar. Mesmo que se discutam seus critérios.

Um detalhe porém chama a atenção em ocasiões assim. A necessidade quase patológica que temos do “reconhecimento internacional”. Precisamos sempre de um atestado, europeu ou americano, de estarmos fazendo as “coisas certas”.

É o velho complexo de inferioridade. Lula faz um bom governo, e isso se expressa nos resultados objetivos e na popularidade dele. Esse juízo não depende de o presidente comparecer ou não às capas das revistas americanas e europeias.

Mas o Planalto sabe que país governa. Um país complexado. Daí que tenha nos anos recentes colocado para rodar uma bem azeitada máquina de lobby junto às principais publicações do “Primeiro Mundo”.

Nesta terra de colonizados, falarem bem de você “lá fora” costuma valer ouro. E falarem mal é visto como tragédia.

Tirar uma nação da situação colonial é difícil, mas nada que se compare ao grau de dificuldade de tirar a cicatriz colonial da alma dela.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (30) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A nova dependência (29/04)

Este ano o Brasil exigirá do exterior em torno de US$ 50 bilhões para fechar as contas. Como nossa balança comercial patina, o buraco será coberto por investimentos diretos. Em vez de estarmos pendurados em credores, agora precisamos desesperadamente de sócios

O artigo semanal do ex-ministro Delfim Netto ontem na Folha de S. Paulo finalizava assim: “Deficits fiscais produzidos por políticas distributivas exageradas, aumentos cumulativos automáticos de despesas de custeio que sacrificam os investimentos públicos e câmbio valorizado são uma boa receita para transformar a alegria de curto prazo em tragédia grega no longo prazo”.

O recado está no duplo sentido do “grega”: a crise hoje é na Grécia (e outros da periferia europeia), mas teatro grego pode ser praticado em todo lugar. Inclusive aqui.

Este fim de governo Luiz Inácio Lula da Silva tem cacoetes do crepúsculo do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Para efeito político-eleitoral anda tudo maravilhosamente bem. Os problemas? Ficarão adormecidos até a posse do novo presidente (ou presidenta). Na campanha ninguém será espírito de porco, ou trouxa, de estragar o oba-oba.

O governo não tem interesse em refletir sobre se — e quanto — as aspas do texto de Delfim podem um dia vir pintadas de verde e amarelo. E a oposição não vai entrar nessa, pois seria atacada por Lula. Provavelmente com discursos dirigidos a quem, no mundo virtual que sua excelência construiu para si, “torce contra o Brasil”. Para ficar mais parecido ainda com FHC I, Lula II poderia, quem sabe?, usar doravante a expressão “fracassomaníacos”.

FHC semiocultou do país o estado real da economia quando lutava pela reeleição. E o governo do PT finge que está tudo ok para não atrapalhar a caminhada da ex-ministra Dilma Rousseff.

Há sim uma diferença essencial entre os dois cenários. Hoje o país tem reservas, que não havia na época. Não corremos o risco de quebrar e de precisar sair por aí atrás de dólares. Mas reservas não são tudo. Se o estoque delas é bom, o fluxo das contas externas vai mal. E quando o fluxo não ajuda, não há estoque que segure a onda indefinidamente. Numa família, empresa ou país.

Este ano, o Brasil demandará algo como US$ 50 bilhões de dinheiro de fora para fechar as contas. Como nossa balança comercial patina, o buraco será coberto por investimentos diretos. É uma nova modalidade de dependência: em vez de estarmos pendurados em credores, agora buscamos desesperadamente sócios.

Ser nosso sócio tem sido uma boa. A demanda anda forte e sempre existe a opção de fazer a festa no mercado financeiro, ou na bolsa.

Mas a situação traz também problemas. Inclusive num terreno caro ao presidente da República: nossa soberania. A China, por exemplo, tem condições de sustentar melhor que nós disputas com os Estados Unidos. Já o Brasil esbraveja nos fóruns internacionais e faz cara feia para Washington, mas depende de dinheiro americano para fechar as contas. Com todas as consequências.

No caso do Irã a Petrobras já pisa miudinho. E empresas brasileiras têm recusado pedidos iranianos de investimento. Empresas importantes.

Quando a autodeterminação deixa de ser só um princípio? Quando o país tem meios para praticá-la.

Código Florestal

O debate sobre as mudanças no Código Florestal segue aceso, uma queimada em plena Câmara dos Deputados. Mas além do calor ele poderá trazer também luz. Os deputados articulam convites para os presidenciáveis irem à comissão especial que cuida do tema.

Seria uma bela oportunidade para José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva ficarem expostos durante horas a todo tipo de pergunta sobre a pauta do desenvolvimento sustentável. Seria também uma demonstração de amadurecimento.

É difícil acontecer, mas não custa torcer para que aconteça.

Pressão

“Talvez não seja necessário, talvez eles mesmo entendam a necessidade de recuar.” Foi o que disse o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), quando perguntei se haverá intervenção no diretório estadual do Maranhão.

O PT nacional quer a aliança com a governadora Roseana Sarney (PMDB). O local decidiu pela coligação com Flávio Dino (PCdoB).

Se o PT achegar-se aos Sarney, será preciso observar se — e quanto — o PCdoB resistirá ao rolo compressor do Palácio do Planalto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (29) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Jogo do Poder com Aldo Rebelo (28/04)



O deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Leandro Colon, de O Estado de S.Paulo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

Esperança e contaminação (28/04)

A Justiça deve cuidar de garantir uma eleição sem golpes baixos ou abuso de poder -político ou econômico. Mas isso não se confunde com eleição desidratada, homogeneizada, artificialmente adocicada

Dias atrás escrevi que o Brasil deve a Luiz Inácio Lula da Silva a antecipação da campanha eleitoral. A necessidade de estabelecer prematuramente uma hegemonia clara no seu próprio campo acelerou o relógio biológico do presidente. E ele colheu o prêmio desejado, Dilma Rousseff será a única opção oficial do governismo.

Mas a limonada não veio tão doce quanto o PT previa. O impulso de Lula não parece ter sido suficiente para fazer Dilma ultrapassar José Serra. Houve pesquisas a apontar empate técnico, ou quase, mas convém olhar mais algumas, pela prudência.

E junto com a limonada veio o limão. Como Lula e Dilma estão na estrada há mais dois anos, quando a oposição entrou no ringue carregava a faca nos dentes. Nas eleições anteriores, entre a desincompatibilização e a convenção dominavam a modorra e a politicagem. Agora não, é a política quem dá as cartas.

Devem ser meses fantásticos, quando tudo -ou quase- poderá ser debatido e discutido, com grau de liberdade bem maior, se comparado ao da campanha oficial. Não à toa os “pré-candidatos” são diariamente pressionados por perguntas sobre os grandes problemas nacionais. E Lula tinha razão: o perfil dos principais corredores faz pressentir a possibilidade de uma campanha programática.

É preciso agora que o Tribunal Superior Eleitoral não impeça a contaminação benigna da campanha pela “pré-campanha”. Não fará sentido tentar tampar a partir de junho o caldeirão fervente. Dentro das regras, será adequado o TSE deixar o barco correr.

Na internet, aliás, o próprio Congresso Nacional -pelas mãos do relator e deputado Flávio Dino (PCdoB-MA)- e o presidente da República -com vetos providenciais- cuidaram de garantir o ambiente propício à liberdade.

A Justiça deve cuidar de evitar os golpes baixos e o abuso de poder -político ou econômico. Mas isso não se confunde com eleição desidratada, homogeneizada, artificialmente adocicada.

O leitor deve desculpar esta minha quase euforia, veterano que sou de cobrir e/ou acompanhar as eleições presidenciais desde 1989. E aposto, pela primeira vez, que há possíbilidade real de uma disputa não totalmente enredada em factoides, em acenos vazios, em generalidades primitivas.

Espero sinceramente não estar errado.

Sem ritmo

É inafastável a sensação de que, tendo começado a aquecer sua campanha com enorme antecedência, o PT simplesmente não se preparou de maneira adequada para o momento em que ela começaria, de fato.

A razão? Só eles mesmos podem explicar.

Tudo tem limite

Pergunte a alguém escolhido aleatoriamente na rua o que entende por “tripé macroeconômico que garante a estabilidade monetária”. A chance de o sujeito (ou sujeita) responder corretamente deve ser a mesma de ganhar numa loteria.

Em seguida, pergunte se sabe o que é a taxa de juros, e pergunte se acha que os juros no Brasil estão altos ou baixos. Provavelmente dará uma resposta perto de correta à primeira questão, e é 100% garantido que a segunda resposta virá certa.

Quem defende a continuidade perene do tripé, das metas de inflação com câmbio flutuante (ainda que no nosso caso deva-se intercalar o “supostamente”) e controle fiscal, precisa urgentemente buscar um caminho para os juros descerem a níveis civilizados.

Todos os juros, da Selic até o cheque especial. Pois é razoável supor que se, um dia, o país precisar descartar o modelo acadêmico em troca de as pessoas poderem tomar dinheiro emprestado a um preço normal, vai fazê-lo sem pensar duas vezes.

Achar que o próximo presidente (ou presidenta) cometerá haraquiri político para fazer um ajuste que permita ao eleito em 2014 governar como Lula governou, na bonança, é acreditar em história da carochinha.

Ontem o vice-presidente José Alencar recebeu sua enésima -e sempre merecida- homenagem. E falou pela enésima vez o que pensa dos juros. O estilo monocórdico do vice tem levado a que ao longo dos dois mandatos de Lula suas posições sobre os juros venham perdendo impacto.

Tampouco o ajudou ele ter ficado contra o aperto monetário quando era necessário, lá no comecinho do governo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (28) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

terça-feira, 27 de abril de 2010

Lágrimas de crocodilo (27/04)

E se não acontecer? Lula poderá dizer que pelo menos tentou. Que não se dobrou ao império. E, afinal, as eventuais sanções não serão contra nós, nem as possíveis bombas cairão aqui

O chanceler Celso Amorim está em Teerã, dando curso à estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva para a crise em torno do programa nuclear do Irã. A posição do Brasil é conhecida. Somos a favor de os iranianos terem direito de dominar a tecnologia atômica, para fins pacíficos. É bastante razoável. Os povos devem mesmo possuir a prerrogativa da autodeterminação, quando em paz.

É tão razoável que todo o mundo concorda. Onde está a dificuldade? Nas garantias que a Organização das Nações Unidas (ONU) exige, e que Teerã recusa dar. É um jogo de gato e rato, no qual os iranianos desfilam no fio da navalha. Indo e vindo. Buscando a cada passo “comprar” tempo.

E vem uma dúvida, também razoável. Para que exatamente o Irã busca mais tempo? Se o programa nuclear de Teerã é pacífico, como aposta o Brasil, e se é o que as grandes potências exigem do Irã, onde está a dificuldade?

Quando os Estados Unidos e o Reino Unido ocuparam o Iraque, verificaram que Saddam Hussein não detinha mais armas atômicas, químicas ou biológicas. Então por que o presidente iraquiano recusou as inspeções internacionais que poderiam atestar a falsidade das acusações e neutralizar o argumento formal para a invasão?

Há três hipóteses na obstinação suicida de Hussein.

A mais benigna é caracterizá-lo como um estúpido, um lunático que fez o país dele retroceder à dominação colonial em troca de nada. Ou em troca apenas do orgulho de resistir a uma inspeção da ONU.

No segundo caminho, algo mais verossímil, o sunita Saddam não desejava que o xiita Irã tivesse exata noção da fragilidade militar de Bagdá. Inclusive para não desequilibrar o precário equilíbrio político no Iraque do Partido Baath, onde a ditadura da minoria sunita dava as cartas na relação com a maioria xiita.

A terceira, conectada à segunda e mais realista, tem a ver com a política interna iraquiana. A possível existência de armas de destruição maciça era apenas secundariamente uma ameaça para fora: ela apontava prioritariamente para dentro, para controlar a oposição. Pelo medo.

Em qual das três trilhas é possível encontrar a melhor explicação para a estratégia hoje do governo islâmico de Teerã?

Tudo bem que Mahmoud Ahmadinejad possa recolher força política da retórica antiamericana e antissionista, mas o exemplo de Saddam Hussein não encoraja esticar a corda além de um certo ponto.

Uma variável nova é os Estados Unidos estarem ocupados demais no Iraque e no Afeganistão, sem fôlego momentâneo para a terceira frente. Raciocínio arriscado, pois a esta altura o Pentágono já deve ter as equações para Barack Obama decidir caso necessário. Se não as tem, prepara aceleradamente. Já ronda até o noticiário.

O segundo cenário é menos provável, pois ao contrário do que diz a propaganda dos aiatolás o Irã não está ameaçado territorialmente por nenhum país vizinho ou dos arredores. Desde que, naturalmente, ele próprio não deseje varrer ninguém do mapa ou interferir militarmente na vida alheia.

Sobra o terceiro. O sonho de um Irã dotado de armas nucleares transformou-se em vetor de poder interno. E aí mora a complicação maior. Como recuar em ordem, sem assinar o recibo da derrota humilhante? Sem abrir um flanco político talvez fatal?

A aposta brasileira é ser o avalista desse recuo. Se acontecer da maneira como quer Lula, ele terá nas mãos um troféu para exibir nas nossas eleições. Dirá como enfrentou os Estados Unidos, como se opôs às sanções, e também como isso permitiu chegar a uma solução pacífica para a crise.

Importará menos, para efeito de retórica, que o Brasil tenha contribuído para os americanos alcançarem o objetivo principal deles: fazer o Irã recuar do projeto de potência nuclear. Se acontecer, Lula arrastará as cartas no palco interno.

E se não acontecer? Lula poderá dizer que pelo menos tentou. Que não se dobrou ao império. E, afinal, as eventuais sanções não serão contra nós, nem as possíveis bombas cairão aqui.

Custo zero. Não faltarão tampouco as habituais lágrimas de crocodilo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

domingo, 25 de abril de 2010

O amigo dos inimigos (25/04)

Ciro não percebeu os sinais de que o segundo mandato marcaria uma flexão importante na política de alianças de Lula: o lugar à direita de sua excelência estaria reservado não para animar os dispostos a lhe fazer o bem, mas para demover quem ameaçasse fazer-lhe o mal

Ciro Gomes é a enésima vítima de um sistema eleitoral cuidadosamente concebido para transformar a política brasileira nesta confederação de cartórios esclerosados. Oferecido pelo PSB na mesa de câmbio das negociações paroquiais, das pequenas ambições e do apetite exacerbado pelas miudezas, o razoável seria Ciro concorrer à Presidência por outro partido, ou como independente.

Não vai acontecer, porque o monopólio da política por legendas desobrigadas de praticar qualquer democracia interna foi no Brasil transformado em virtude.

Prazos de desincompatibilização, prazos de filiação, fidelidade partidária, proibição de propaganda paga nos veículos de comunicação, proibição de arrecadar recursos se você não for dono de partido (antes do “início oficial” da campanha), exigência de filiação partidária para concorrer. Todos remédios certificados para curar, mas que vão levando à morte do paciente na mão do neocoronelismo.

Houvesse uma Anvisa para o setor, os alquimistas da politicagem nacional estariam em péssimos lençóis.

Mas esta coluna não é sobre reforma política, é sobre Ciro Gomes e suas circunstâncias. Até 1994 ele teve uma carreira política brilhante. Em pouco mais de uma década já percorrera as posições de deputado estadual, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro da Fazenda. Rompeu com o PSDB no início do governo Fernando Henrique e foi para o PPS. Conseguiu 10% dos votos na eleição presidencial de 1998, garantindo fôlego para disputar quatro anos depois com chances no primeiro turno — e participando decisivamente da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno.

Ciro entrou no governo Lula e esteve na linha de frente da batalha da reeleição. Ali cometeu o primeiro erro realmente grave. Não percebeu os sinais de que o segundo mandato marcaria uma flexão importante na política de alianças do presidente: o lugar à direita de sua excelência estaria agora reservado não para animar os dispostos a lhe fazer o bem, mas para demover quem ameaçasse fazer-lhe o mal. O velho ditado de manter os inimigos mais por perto ainda.

Se a flexão era mesmo necessária, Lula operou-a de maneira tosca e amadora, detalhe surpreendente num profissional da política. O presidente vem deixando um a um os aliados históricos (uso aqui o termo com alguma flexibilidade) sucumbirem em batalhas desiguais e desmoralizantes contra os neoamigos, refregas sempre temperadas por convenientes vazamentos palacianos sobre as “preferências pessoais” e a “torcida” do presidente. E sobre a “tristeza” após cada infeliz desfecho.

São as únicas batalhas que Lula “perde”. Nas demais ele sempre tenta a vitória com a faca nos dentes.

Descartada a candidatura, o quase ex-presidenciável Ciro Gomes tem hoje dois problemas.

O PT ameaça colocar em marcha o projeto de demolir o grupo dele no Ceará, caso Ciro não se junte à operação para liquidar a carreira política de Tasso Jereissati. É uma das muitas metas de Lula nesta eleição. Como Tasso e Ciro são — aí sim — aliados históricos, ao ponto de o tucano Tasso ter largado a candidatura presidencial de José Serra em 2002 para apoiar o parceiro, é coisa que Ciro não fará.

O segundo problema de Ciro é ter dinamitado as pontes com o outro lado. Num sistema linear de pensamento, isso deveria ter engordado seu cacife com o presidente. Mas diminuiu. Ao menos por enquanto, Ciro só tem bala para fazer mal a Lula em discursos. Coisa que pode ser facilmente neutralizada com os vazamentos de sempre, difundindo-se como Lula está “triste”, “chateado” ou “irritado”.

Um belo cardápio de supostos estados de espírito.

Alienação

De todo modo, Ciro presta pelo menos um serviço ao país nesta saída, ao advertir para os riscos da situação cambial.

O Banco Central dá sinais de que vai subir para valer o juro básico nos próximos meses. A medida irá acelerar a deterioração das contas externas e agravar nossa dependência dos investimentos diretos do exterior. Ou seja, da alienação de ativos para o exterior.

Enquanto isso, Lula discursa sobre o patriotismo do seu governo e o chanceler cuida de produzir factoides para preencher o noticiário.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (25) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O voto do Fredo (23/04)

Em vez de discutir o apoio a tal ou qual candidato, a UNE deveria numa próxima reunião homenagear o Fredo Ebling, cujo voto 30 anos atrás permitiu ao “U” da sigla estar até hoje em vigor, para valer

Corria o ano da graça de 1980 e a diretoria da União Nacional dos Estudantes estava reunida no DCE da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória, para tomar posição diante da reforma partidária imposta — ou segundo outras versões permitida — pelo governo João Figueiredo. A UNE fora reconstruída um ano antes e compunhamos a primeira direção, eleita pelo voto direto. Já eram os ventos da abertura a soprar.

A diretoria de 15 integrantes era complicada que só. Todos militantes ou simpatizantes de grupos e partidos que uma década antes tinham aderido à luta armada. Um assunto superado pela vida, mas as diferenças políticas persistiam. Parte pendia para o nascente PT, que outros acusavam de ser subproduto da manobra de Figueiredo para dividir o MDB (Movimento Democrático Brasileiro, única oposição partidária permitida pelo regime até então).

Mas havia duas tendências entre os “peemedebistas”, que defendiam a necessidade de a oposição continuar unida no PMDB, sucessor do MDB. Uma argumentava que o PDT, o PTB e o PT, nascidos da reforma figueiredista, eram iniciativas legítimas, e que portanto a UNE não deveria se alinhar a nenhuma sigla. Outros exigiam que a entidade apoiasse explicitamente o PMDB, segundo eles “o único partido da oposição”, pois os demais haviam aceitado a divisão patrocinada pelo regime e tirado vantagem dela.

Ano passado, a UNE comemorou 30 anos da reconstrução e um punhado daqueles diretores reunimo-nos em Porto Alegre, numa homenagem bacana organizada pelo deputado estadual Adão Villaverde (PT). E lembramos entre boas risadas daquela reunião no DCE da UFES. Por que as risadas? Por causa das manobras heterodoxas de obstrução colocadas em prática pela parte da diretoria que, em certo momento, viu-se minoria. A tática era arrastar a pauta sem decidir nada, até que chegassem os diretores ainda ausentes. E que fariam a maioria pender para o nosso lado.

No fim deu certo. Depois de três dias inteiros de sumiços convenientes para derrubar o quorum, de infinitas questões de ordem e de encaminhamento intervaladas por discursos irados e intermináveis sobre todos os assuntos possíveis, o Fredo Ebling finalmente desembarcou vindo de Porto Alegre e nos garantiu a maioria de um voto. E pela diferença de um mísero voto decidimos não decidir nada. E a UNE não se alinhou a nenhum partido.

Olhando retrospectivamente, talvez tenha sido a decisão mais importante e correta da UNE desde sua reconstrução, naquele bonito e bem brigado 1979. Porque, diferente do movimento sindical, a entidade nacional dos estudantes não se fragmentou. Não há uma UNE do PT, uma do PCdoB, uma do PSDB ou uma do Democratas. É quase inacreditável, mas todas essas forças políticas continuam aglutinadas até hoje numa única “central sindical” estudantil. Deve ser o único lugar no Brasil em que todos convivem em relativa paz.

Vejo agora no noticiário que a UNE deve discutir por estes dias uma proposta de apoio à candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff. Eu duvido que a própria candidata tenha algo a ver com isso. Deve ser coisa das disputas político-partidárias que fazem a alma do movimento estudantil, aqui e em qualquer outro lugar do planeta. Mas há essa proposta.

A UNE tem lá seus problemas, como todo mundo. Nos últimos anos vem apoiando a administração de Luiz Inácio Lula da Silva. Alguns dizem que é por causa das verbas recebidas, mas, pelo que eu conheço, a acusação é injusta. A explicação é outra: as correntes político-partidárias que comandam majoritariamente a UNE estão com Lula, e estão no governo Lula. Como ocorre, por exemplo, com a maioria das entidades sindicais empresariais. E que não são criticadas.

Mas esse detalhe tem menos importância histórica. O governo Lula vai passar e a UNE continuará. Fundamental é ela persistir ao menos com a ambição de representar todos os estudantes, detalhe indispensável para manter abertos os canais de diálogo com o conjunto do universo estudantil.

Por isso, em vez de discutir o apoio a tal ou qual candidato, a UNE deveria numa próxima reunião homenagear o Fredo Ebling, cujo voto 30 anos atrás permitiu ao “U” da sigla estar até hoje em vigor, para valer.

É fácil encontrá-lo. Se quiserem, posso fornecer os contatos.

Seria mais inteligente. Além de inteiramente justo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (23) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Exemplo a seguir (22/04)

É sempre o melhor caminho: em vez de esconder-se, esclarecer. Pacientemente. Democraticamente. Responder a todas as dúvidas. A sabatina de Gilmar Mendes no YouTube é sinal de sanidade da democracia brasileira

O ministro Gilmar Mendes fez um gol, quando dias atrás compareceu ao YouTube para responder a todo tipo de pergunta, incluídas as incômodas. O presidente do Supremo Tribunal Federal veio ao palco virtual sem a blindagem do cargo. Talvez o STF deva incluir sabatinas assim nas obrigações regimentais de seus presidentes. Por que não?

Num país em que o Estado e a função pública infelizmente ainda são tratados como “coisa nossa” — o “nossa” aqui não é referência ao coletivo cidadão —, o STF daria um passo adiante no aperfeiçoamento da cidadania. O tribunal tem avançado bastante, com a transmissão dos julgamentos em rede nacional de televisão e, mais recentemente, ao deixar disponíveis no YouTube os vídeos de sessões e programas da TV Justiça. E pode ir além.

Justiça boa exige, entre outros, dois elementos-chave: ritmo e visibilidade. Ritmo para não dizer velocidade, pois o julgamento justo precisa garantir o direito de defesa do acusado. Na prática, e não apenas formal. Mas sobre a visibilidade não pode haver dúvida, especialmente num tribunal como o STF, a Corte constitucional. Ali, além de decidir, cada juiz deve estar exposto a explicar direitinho por que decidiu. E de um jeito não totalmente hermético.

Mendes e sua assessoria deram também um exemplo aos outros poderes de como enfrentar a situação complicada no relacionamento com a opinião pública. Ao responder a todo tipo de pergunta no YouTube, ele deixou também registradas para a História respostas a seus críticos.

É sempre o melhor caminho: em vez de esconder-se, esclarecer. Pacientemente. Democraticamente. Responder a todas as dúvidas.

Por um motivo simples: nunca a dúvida é exclusiva de quem a expõe, sempre há mais gente — muita gente — com a mesma interrogação. E a autoridade se fortalece à medida que neutraliza argumentos, soluciona pendências, num processo progressivo de esvaziamento da força moral e intelectual dos adversários.

O poder costuma cair na tentação de enxergar-se acima do bem e do mal. Talvez os ministros do Supremo estejam até mais vulneráveis a ilusões assim, pois o mandato só acaba na aposentadoria. E afinal as decisões deles são irrecorríveis. Mas mesmo os de mandato relativamente curto, no Executivo e Legislativo, tendem a agir como se o poder fosse eterno, como se viesse de dádiva e colocasse o detentor acima dos demais cidadãos.

É raro o poderoso ao menos esforçar-se para transmitir a impressão de ser simples funcionário do povo — que é o que é. Uma vez sentado na confortável cadeira e segurando a caneta cheia de tinta, forças poderosíssimas (terríveis, nos termos do então presidente Jânio Quadros) empurram-no para a onipotência, a soberba, a tentação de impor só pela autoridade. Ou empurram para o precipício. Ou para ambas as situações.

Daí que a democracia exija um sistema azeitado de freios e contrapesos. O problema é não haver fórmula pronta e acabada desse sistema. Cada sociedade constrói o seu, a partir da experiência acumulada, das vitórias e fracassos. Mas uma regra é universal. Quanto mais democrático o arcabouço, mais o detentor de poder responde pelos seus atos a outros sujeitos institucionais. Ou ao público em geral.

A sabatina de Gilmar Mendes no YouTube é sinal de sanidade da democracia brasileira.

Dois trens

Almoçava na praça de alimentação do shopping nesta Brasília cinquentenária quando um leitor me abordou:

— Li sua coluna sobre a maneira de identificar pesquisas fajutas. Entendi que o fajutador se revela quando o humor dele piora depois de uma pesquisa boa. Só não entendi por que alguém investe numa pesquisa em que nem ele pode acreditar.

Pesquisas têm pouco ou nenhum efeito sobre o eleitor. Mas ajudam a quebrar a inércia dos políticos recalcitantes. Os que não querem embarcar no trem errado, mas tampouco podem se dar ao luxo de perder o trem certo.

Doendo

A luz que era amarela virou vermelha no painel do Planalto (agora do CCBB) que monitora as votações do Congresso.

O governo tem procurado monopolizar as bondades e terceirizar as maldades para suas excelências os parlamentares. Normal. Mas uma hora a pata chamuscada do gato encarregado de tirar as castanhas do fogo começa a doer.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (22) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Jogo do Poder com João Almeida (21/04)



O líder do PSDB na Câmara dos Deputados, João Almeida (BA), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Sérgio Fadul, de O Globo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

Campanha sem interdições (21/04)

O PT propõe interditar a reflexão sobre o porvir. Como se o país devesse simplesmente outorgar a Lula a indicação do próximo presidente. E o PSDB não conseguirá fugir dos questionamentos sobre o que fez no poder

O Brasil deve ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a antecipação da campanha eleitoral. É obrigatório reconhecer pelo menos um saldo extremamente positivo da longuíssima movimentação de sua excelência para alavancar a candidata do governo. Positivo para o país.

O motivo de Lula para abrir prematuramente a disputa foi —e é— bem conhecido: reunir condições de impor um nome ao PT e aos aliados, e gorar no ovo qualquer tentativa de movimentação independente no situacionismo. E quem errou na análise, ou no timing, deu-se mal. Os favoritos a sobrar com o mico na mão são Ciro Gomes e seu PSB.

Mas até aqui estamos no terreno da política por ela mesma. É preciso olhar a coisa do ângulo do eleitor. E este, insisto, colheu um prêmio. Pelo menos quatro meses (se contar a Copa do Mundo, são três) para conhecer os candidatos como são de verdade, antes de a fantasia tomar o lugar dos fatos nos programas de rádio e televisão.

Graças à largada prematura do governismo, a oposição chegou quente em abril, após as desincompatibilizações. Não havia mais tempo a perder. Agora, diferente das outras vezes, os litigantes estão à toda.

Serão meses preciosos, quando também o jornalismo se moverá com liberdade maior. O conceito surreal de “pré-candidaturas” traz o aspecto positivo: como não há propriamente candidaturas, fica difícil cercear a movimentação geral, na política e no jornalismo.

E o que temos visto? Há ainda alguma retórica —afinal, estamos no Brasil—, mas a vida prática pelo menos tenta infiltrar-se nos discursos. O PT insistirá na tecla da comparar as administrações Lula e Fernando Henrique Cardoso, sua estratégia desde sempre? Sim. O PSDB continuará concentrado em debater o futuro? Também. Como é provável que ambos alcancem só parcialmente o objetivo, o resultado pode ser interessante.

Pois talvez tudo seja afinal discutido. Não seria bom? Passado e futuro. O PT propõe uma espécie de interdição envergonhada da reflexão sobre o porvir. Como se o país devesse simplesmente outorgar a Lula a indicação do próximo presidente, por Lula ter resultados melhores que FHC. E o PSDB não conseguirá fugir dos questionamentos sobre a passagem pelo poder, para o eleitor medir a probabilidade de os tucanos realizarem o que propõem.

É possível um cenário bizarro, com cada um a falar só de seu assunto preferido? Restando como ponto de fricção as pegadinhas, as aspinhas para preencher o cotidiano do noticiário preguiçoso? Possível é, mas improvável. Mesmo que deseje, ninguém está só, ninguém joga solto numa campanha eleitoral. Ou, melhor, numa “pré-campanha”.

Que bela chance de mitigar momentaneamente a tara cartorial da nacionalidade! Os debates, por exemplo, este ano devem acontecer todos. Ou pelo menos os principais. E já no primeiro turno. Não haverá como correr, pois não há favorito disparado. E não há ambiente para aliviar a vida de fujões.

Verdade sem dono

A política externa de Lula é no geral boa. Mas tem, a exemplo de tudo na vida, seus problemas. Pena que o presidente recorra amiúde à desqualificação da crítica. Como fez ontem. Quem discorda dele não necessariamente está movido pelo propósito de diminuir o Brasil no plano internacional.

É possível o sujeito ser patriota e divergir de Lula na política externa, total ou parcialmente? Óbvio que sim. Mas essa possibilidade não se manifesta no discurso presidencial, Lula não abre a porta para um verdadeiro diálogo.

Ou se está 100% com Lula, ou se está contra o Brasil. Uma linha que encontra dificuldade para manter a consistência. Fragilidade que vem sendo habilmente explorada pela oposição.

Aliás, nos últimos tempos publicações estrangeiras que vinham elogiando Lula e o Brasil começaram a colocar um pé atrás. Significa que estão certas agora, quando criticam? Não. Assim como não estavam necessariamente certas quando elogiavam —e isso era apresentado pelos operadores do poder como supertrunfo de Lula diante do mundo.

Ninguém é dono da verdade. Nem na imprensa nem na política. E num planeta hiperinformado — porque hiperinformatizado — quem percebe antes ganha boa vantagem competitiva.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (21) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

terça-feira, 20 de abril de 2010

Perguntas eleitorais (21/04)

Que tal perguntar aos candidatos sobre coisas palpáveis, sobre soluções possíveis para os grandes problemas nacionais? Se depender deles, é provável que o país seja mais uma vez tomado por frases de efeito

O momento positivo na economia projeta um belo futuro imediato. Os sinais são de que as vendas vão bombar. Bom para as empresas e os empregados. Mais emprego, mais dinheiro no bolso.

O freio dos juros, que vem aí, vai demorar um tantinho para fazer efeito. Alta do juro no Brasil de vez em quando sincroniza com o calendário eleitoral. Nem tão longe da eleição que traga más estatísticas antes das urnas, nem tão atrasado que deixe a inflação escapar.

Por falar em juros, é incrível como a inflação brasileira não aguenta um crescimentozinho acima de 5%. Eis uma pergunta para os presidenciáveis. “O que o senhor (ou senhora) vai fazer para o país poder crescer mais, sem correr o risco de uma derrapagem inflacionária?”

Pois, noves fora os discursos, as lágrimas, as veias jugulares repletas e os rostos congestionados, este governo cultivou e preservou a principal herança do anterior que merece ser catalogada de “maldita”. O teto (baixo) para o crescimento, acima do qual as variáveis macroeconômicas entram em desarranjo.

Vamos esperar para ouvir a palavra dos candidatos. Há saídas supostamente criativas, como de gente perto de Marina Silva que não vê no crescimento acelerado necessariamente um objetivo. Pois ele traria a indesejável perturbação dos ecossistemas.

Quando a crise econômica eclodiu, em setembro de 2008, desencadeou junto a fabricação de teorias sobre o caráter benéfico de colocar um freio no avanço do consumo, e portanto da produção. Acacianismo matemático: o determinante de uma matriz nula é zero, com certeza absoluta.

É a piada velha da experiência de fazer um cachorro sobreviver sem alimentação. Estava quase dando certo, mas o cachorro morreu.

Se a economia andar mais devagar, em tese a natureza vai sofrer menos, pois haverá menos demanda por matérias-primas. Mas a vida humana não segue certos modelos matemáticos, e a piada do cachorro é só uma piada. A escassez de oportunidades econômicas têm o efeito de impelir para o extrativismo populações sem outro meio para subsistência.

Pobreza e defesa da natureza são vetores opostos.

Até agora, esses debates vêm sendo conduzidos no plano das generalidades ou da fé. É possível desenhar formas ambientalmente corretas de exploração da Amazônia? Sim, desde que a floresta em pé valha mais do que a derrubada. E onde isso foi conseguido, onde funciona?

É possível o Brasil crescer mais do que 5% ao ano para baixar de verdade as taxas de desemprego, e sem pressionar insuportavelmente a inflação? Evidente. Mas como fazer? E, se é possível, por que não foi feito até agora?

Talvez seja uma boa trilha nesta eleição. Ou pelo menos original. Insisto nisso. Perguntar aos candidatos sobre coisas palpáveis, sobre soluções possíveis para os grandes problemas nacionais.

Porque se depender deles é provável que o país seja mais uma vez tomado por frases de efeito, por aspas que garantem os lides de repórteres e editores aflitos, mas estão longe de alcançar os desafios reais de quem vai governar o Brasil pelos próximos quatro anos.

Um plano

Há algo a festejar sobre a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol? A decisão do Supremo Tribunal Federal que regulamentou aquele processo de maneira equilibrada, dentro do possível, e também estabeleceu jurisprudência para futuras demarcações.

Isso do ângulo do interesse nacional, porque pelo lado propagandístico a medida rendeu a Luiz Inácio Lula da Silva aplausos em públicos seletos, o que não deixa de ser motivo para festejo presidencial.

Mas em Roraima a coisa não vai tão bem. Falta uma perspectiva realista e integrada de progresso, de prosperidade, de produção do bem-estar. Que não seja o empreguismo no setor público.

Na Raposa, Lula recolheu capital político no nicho gordo do “progressismo a custo zero”, pois praticado à custa do alheio. Poderia agora usar parte desse capital para fabricar um plano de desenvolvimento para Roraima, que está precisando.

Seria patriótico. E ainda dá tempo. Não é o próprio presidente quem insiste, corretamente, na ideia de governar até a meia-noite de 31 de dezembro?

O governo já fez sua média, nacional e internacional, na Raposa Serra do Sol. Falta agora fazer o resto.

Aliás, essa pode ser também uma pergunta para os candidatos. “Como desenvolver e fazer habitar as fronteiras do Brasil preservando o meio ambiente, garantindo ao mesmo tempo a defesa nacional e os direitos dos índios?”

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (20) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

sábado, 17 de abril de 2010

Carville em xeque (18/04)

As pessoas votam de olho na economia quando ela vai mal. Mas por que votariam focadas na economia quando ela vai bem? Só para evitar um retrocesso, para impedir que desande

O marqueteiro James Carville prestou um belo serviço a William Jefferson Clinton quando mandou o então candidato democrata enfatizar as questões econômicas na campanha presidencial de 1992. “É a economia, estúpido!” Carville não tinha pirado, a palavra rude não era dirigida ao possível futuro presidente: no alvo estavam os membros do estafe que ainda resistiam a compreender a centralidade do tema.

Os americanos viviam a recessão, e as pessoas votaram para retomar o crescimento. Bill Clinton elegeu-se 42o. Presidente dos Estados Unidos, derrotando George H. W. Bush, o pai. Um ano antes a popularidade de Bush explodira na fácil vitória da Guerra do Golfo, que também acabara de fechar as feridas do Vietnã, removendo os medos americanos nascidos no pântano da Indochina. Mas Bush pai não conseguiu outros quatro anos.

Quando a economia vai mal, é razoável supor que as pessoas votem em quem julgam mais capaz de melhorá-la. E a frase de Carville ficou famosa, um lugar comum. Há porém certo detalhe menos célebre da estratégia democrata em 92. Além de mandar bater na tecla econômica, Carville sugeria a Clinton jamais esquecer de falar na reforma da saúde.

A História costuma sofrer de esquematismo, visto ser obra de historiadores, que carregam viés. Desde Clinton/Carville a centralidade da economia virou dogma, com algo de determinista. Ano e meio atrás a tese pareceu ser reforçada quando Barack Obama bateu John McCain, no auge da maior crise econômica americana e mundial desde 1929.

O massacre noticioso na eleição do primeiro negro presidente dos Estados Unidos e o efeito “landslide” (avalanche) no colégio eleitoral (365 votos eleitorais contra 173) deixaram um fato em segundo plano: Obama colocou apenas 10 milhões de votos sobre McCain num eleitorado de 130 milhões, algo como 7,5 pontos percentuais. Pouco. Isso com a economia afundando e a Guerra do Iraque batendo recordes de impopularidade.

A política existe. A oposição brasileira tem uma chance de eleger o presidente da República, mesmo lutando contra um governo bem avaliado. Luiz Inácio Lula da Silva quase levou a eleição presidencial de 1998 para o segundo turno, no qual teria grande possibilidade de vitória pois certamente receberia o apoio de Ciro Gomes e Enéas Carneiro. E ali as pessoas achavam que a economia estava bem. Só cairiam na real (e do real) no começo do ano seguinte.

Mesmo a questão econômica precisa ser observada com mais sutileza e sofisticação. As gentes votam de olho na economia quando ela vai mal. Mas por que votariam focadas na economia quando ela vai bem? Só para evitar um retrocesso, para impedir que desande. Por isso o PT desce a lenha em Fernando Henrique Cardoso, tentando construir o medo de que, no poder, o PSDB fará desandar os avanços econômicos dos últimos anos.

Vai funcionar? Até agora não tem funcionado, por algumas razões. Uma delas é o PT anunciar essa tática desde sempre, dando tempo suficiente aos adversários se adaptarem. Outro elemento é mais subjetivo. Nem José Serra nem Aécio Neves (quando era pré-candidato) conduziram administrações regressistas, ruinosas ou mal avaliadas. E tem o debate sobre quanto há de continuidade e ruptura na política econômica do governo do PT.

Um erro político é tomar o desejo pela realidade, a nuvem por Juno. Acreditar na própria propaganda. Tucanos acharem que Lula faz um mau governo não torna ruim a administração do PT. Do mesmo jeito, petistas falarem mal de Serra e Aécio não tem o efeito mágico de piorar as realizações políticas e administrativas de ambos.

Claro que tudo pode mudar quando Lula for à televisão para apelar ao eleitor. Resta esperar para ver como o eleitor reagirá. O incômodo, para o PT, é depender dessa única bala. E saber que a oposição sabe que um dia ela será atirada.

Tira-teima

Qual um bom método para verificar se determinada pesquisa é fajuta? Ora, só quem pode ter certeza disso é quem a fez, ou encomendou.

Se uma pesquisa favorece fulano e ele acredita nela, continua sua campanha na mesma linha. Se ela o beneficia mas ele não confia nela, muda a orientação.

As pesquisas recentes trouxeram cada uma bons números para cada um dos dois principais candidatos. E números ruins para o outro.

Vamos agora observar.

Infelizmente

É pena que o PDT do senador Cristovam Buarque (DF) esteja fora da disputa presidencial justo na eleição em que a reforma da Educação leva jeito de virar ponto de pauta nos grandes debates.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (18) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O bonzinho e o mauzinho (16/04)

Enquanto o “lunatic fringe” viaja na maionese, Lula opera na prática pela capitulação de Mahmoud Ahmadinejad. Mas honrosa. Tomara que desta vez o presidente acerte nos cálculos

Se Luiz Inácio Lula da Silva conseguir evitar as sanções do Conselho de Segurança (CS) da ONU ao Irã, o Brasil terá obtido uma linda vitória diplomática. Mas o CS só deixará de sancionar o Irã caso receba garantias definitivas de Teerã sobre o caráter pacífico do programa nuclear persa. E aí Barack Obama terá alcançado um belo triunfo estratégico, também pela via da diplomacia.

Parece paradoxal. Quanto mais o Brasil delimita o campo de ação, demarcando claras diferenças com os Estados Unidos, mais vincula seu destino ao do — teoricamente — adversário americano. Está em outra posição, jogando no mesmo time. Um ameaça morder, o outro assopra. Tipo os dois policiais na delegacia: o mauzinho e o bonzinho. Um assusta, o outro aconselha. E chegam até a desentender-se.

O quadro é só aparentemente paradoxal, pois faz sentido à luz do papel que o Brasil busca de tempos para cá. Esticar a corda, pero no mucho.

Minha descrição do cenário pode ser contestada? Sim. Há outras possibilidades, mais extremas.

Numa, o Conselho de Segurança prolonga o impasse até Israel e Estados Unidos penderem para a saída militar, com a simpatia velada (e a antipatia pública, naturalmente) dos demais aliados americanos no Oriente Próximo.

É impensável que a chancelaria brasileira esteja colocando suas fichas nesse desfecho, até pelas preocupações humanitárias externadas pelo ministro Celso Amorim.

Se sanções causariam grande sofrimento ao povo iraniano, mais ainda uma guerra. E que guerra!

No outro cenário irrealista, o Brasil avalia ser capaz de levar a Casa Branca a aceitar um Irã nuclear, contando que os americanos impedirão Israel de lançar o ataque preventivo contra os iranianos.

Há aqui uma contradição nas palavras das nossas autoridades.

Segundo Lula, o Brasil não deseja a nuclearização do Irã. Mas o vice-presidente da República defende que a bomba nas mãos do regime dos aiatolás seria algo positivo para eles e para o mundo, pelo suposto efeito de dissuasão.

É possível que José Alencar esteja dizendo o que outros gostariam de dizer, e não podem. Mas também é provável que a influência do vice sobre a pauta específica seja residual, como acontece por exemplo na política monetária. Quem sabe?

Lula tem certa característica bem conhecida: gosta de entreter e alimentar os portadores de soluções mirabolantes, num cultivar incessante da liderança, mas prefere saídas centristas.

Às vezes o público fica algo confuso, por causa da veemência verbal do presidente e de seu talento sindical para o teatro na mesa de negociações. Até que, plim!, o acordo aparece. Pelas mãos de Lula. De vez em quando o presidente escorrega, como em Honduras, mas não é a regra.

No caso iraniano Lula segue o script. Dá gás para a turma que sonha com a nossa bomba atômica, o pessoal que vê num Irã nuclear o ponto de inflexão para baixo da influência americana no Oriente Médio — e portanto no mundo.

Enquanto o “lunatic fringe” viaja na maionese, Lula opera na prática pela capitulação de Mahmoud Ahmadinejad. Mas honrosa.

Tomara que desta vez o presidente acerte nos cálculos.

Diagnóstico e prognóstico

Cadê a turma que apostou em Obama transformar-se rapidamente num morto-vivo, num pato manco da política interna e num joguete da política internacional?

Irã contra a parede, reforma da Saúde aprovada no Congresso, acordo de redução de mísseis com a Rússia fechado, permeabilidade chinesa para discutir a valorização da moeda, adesão dos emergentes à proposta americana de combate ao aquecimento global, economia em recuperação.

Tem gente que adora fazer diagnóstico quando deveria fazer prognóstico. Depois fingem que não é com eles.

Atenção. Esta nota é um diagnóstico, não um prognóstico.

Será?

Pareceria improvável, mas os movimentos dos pré-candidatos mantêm acesa a esperança de uma campanha eleitoral essencialmente programática.

“Pré-candidatos”? Decidi aderir à terminologia. É minha modesta contribuição ao cinismo nacional.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (16) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Basta a observação (15/04)

Os sujeitos que entre 1964 e 1985 alcançaram o adjetivo de “históricos”, e que ainda estão por aqui, dividem-se em duas categorias: os pacificados com a própria biografia e os demais

Conduzir o debate a partir de juízos sobre os adversários é o caminho mais seguro para o desastre na política. Um bumerangue infalível, pois permite ao oponente vitimizar-se. De vez em quando desavisados enveredam pela trilha, pois ela leva jeito de ser bonita e fácil. Só impressão.

Dia desses vi um documentário sobre Nelson Mandela, onde a explicação para o longuíssimo período dele atrás das grades era “a luta contra o apartheid”. Uma falsificação histórica, comum nos processos de glorificação e criação de mitos.

Teve um monte de gente que lutou contra o apartheid e não foi presa. Mandela ficou um tempão encarcerado porque adotou o caminho da luta armada contra a segregação dos negros.

E daí? E daí nada. Uma vez no poder, Mandela seguiu pela trilha difícil e frutífera da conciliação. Está em Invictus, o filme bacana de Clint Eastwood. Um pouco glamourizado, mas paciência. O cinema seria muito chato se fosse só reprodução da vida real.

Concluiremos, então, que o epílogo da carreira de Mandela representou a negação do que propunha no começo da caminhada? Ou, ao contrário, a ratificação da tática adotada nos anos 1960? De novo, nenhuma das anteriores. Aqui, o método do juízo a posteriori conduziria a um desastre historiográfico.

Gandhi preferiu a não violência e alcançou a independência da Índia, mesmo amputada do que viria a ser o Paquistão. Pode-se então afirmar que Gandhi é superior moral ou politicamente a Mandela? Quem seria irresponsável de dizer isso?

A história não funciona assim. Na abordagem dela, mais útil é analisar os fatos e sua influência sobre os outros fatos. E como são influenciados por estes. Uma polêmica, por exemplo, é quanto a luta armada no Brasil na segunda metade dos anos 1960 foi causa ou consequência do endurecimento do regime militar. Um trabalho duro para os historiadores. Nunca chegarão ao consenso.

Vejam que eu disse “quanto”, e não “se”. Faz toda a diferença. O “quanto” permite uma avaliação histórica, escapando do juízo quase moral a que somos empurrados se optamos pelo “se”.

Suponha que a Palestina e Israel cheguem a um acordo de paz com o mútuo reconhecimento e o compromisso bilateral de plena segurança, além da anistia de quem praticou atos de violência. Razoável. Por acaso esse desfecho seria um diploma de honra ao mérito para quem explodiu crianças em ônibus ou atirou deliberadamente em civis? Claro que não.

A função de juiz moral ou político da história embute uma taxa letal de pretensão. Como julgar o preso político que sob tortura passa aos algozes informações que depois serão usadas para prender e eventualmente seviciar outras pessoas? Impossível, além de — aí sim — imoral. E repugnante, quando o carrasco se autonomeia para sentenciar sobre o comportamento da vítima.

Na ditadura brasileira houve quem lutou armado e quem preferiu fazê-lo só com as armas da mobilização e da palavra. Houve quem conseguiu ficar no Brasil e quem precisou sair. Houve quem se arrependeu e trocou de lado. Houve quem mudou de ideia sobre o melhor caminho para alcançar o objetivo, e ajustou-se no meio do caminho. E houve quem não viveu para refletir sobre a própria experiência.

São todas classificações que pegam gente de ambos os lados. E os critérios se referem a fatos já encerrados. Uma contabilidade factual fechada.

Vindo para o presente, os sujeitos que entre 1964 e 1985 alcançaram o adjetivo de “históricos”, e que ainda estão por aqui, dividem-se basicamente em duas categorias: os pacificados com a própria biografia e os demais.

Não é tão difícil identificar os integrantes de cada clube. Não é necessário método muito sofisticado. Basta a simples observação.

Bom sinal

Vai chegando ao fim o biênio do ministro Gilmar Mendes na Presidência do Supremo Tribunal Federal. Houve nesse período decisões do STF para todos os gostos, e para todos os desgostos.

Quem se der ao trabalho de listar, não conseguirá encontrar um fio condutor ideológico, ou político, nas sentenças da Corte.

O que é bom. Mostra que o Supremo está cumprindo sua função, julgando caso a caso de acordo com a consciência dos juízes.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (15) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Jogo do Poder com Cândido Vaccarezza (14/04)



O líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccarezza (PT-SP), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Flávia Foreque, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

O que ele diz. E o que faz (15/04)

Brasil e Estados Unidos voltam a estreitar relações militares. Lula busca novos espaços para afirmar a identidade brasileira no plano internacional, mas não coloca em dúvida nosso campo de alianças — especialmente bélicas — no hemisfério

O aquecimento progressivo da campanha eleitoral deixa meio escondida, relativizada, a assinatura do acordo de cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos. O fato ganha importância analisado à luz das relações históricas entre os países.

Estados Unidos e Brasil tinham desde o pós-guerra laços militares formais, que foram sendo abalados ao longo da década de 1970. Por duas razões: os movimentos brasileiros para desenvolver tecnologia nuclear e as fortes pressões da administração Jimmy Carter (1977-1981) pelo respeito aqui aos direitos humanos.

O regime militar da época enxergava tais ações da Casa Branca, contra as torturas e a perseguição política de oposicionistas, como ingerência indevida nos assuntos internos do Brasil. Era ingerência, mas não indevida. E foi muito estimulada pela forte militância dos nossos exilados, na denúncia sistemática dos maus-tratos aos presos políticos brasileiros.

As pressões do governo Carter ajudaram na época a acelerar a abertura política e a atenuar o sofrimento de quem combatia o regime. É uma dívida que a democracia brasileira e os militantes da esquerda brasileira têm com o ex-presidente americano. Talvez não seja confortável para a biografia de alguns, mas é um fato.

Aliás, um problema enfrentado pela Boeing na concorrência agora para a venda dos caças à FAB vem dali: a dúvida entre os nossos militares sobre a confiabilidade dos parceiros americanos, dado o contencioso político e humanitário daquela época. Não deixa de ser curioso, ou ao menos paradoxal —visto que a atual administração brasileira inclui gente cujo sofrimento foi amenizado pela política de Carter.

Mas assim é a vida. De prático, interessa que agora Brasil e Estados Unidos voltam a estreitar relações militares. É a resultante de dois movimentos simultâneos do governo Luiz Inácio Lula da Silva: buscar novos espaços para afirmar a identidade brasileira no plano internacional, mas sem colocar em dúvida nosso campo de alianças — especialmente bélicas — no hemisfério.

Na concorrência dos caças, por exemplo, o Brasil exerce sua soberania, mas dentro de limites rigorosamente definidos. Dos três finalistas, um é americano e os demais são empresas de países aliados dos Estados Unidos. O assunto foi delimitado. Tirada a retórica, sobra a disputa comercial. E só.

A estratégia é parecida com a adotada por correntes da esquerda social-democrata na Europa Ocidental do pós-guerra. Aderiram ao “atlantismo” (referência à Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar comandada por Washington), e assim deixaram de ser ameaça à hegemonia dos Estados Unidos, na época envolvidos com a Guerra Fria.

Uma troca razoável, que ajudou a garantir aos principais países europeus meio século seguido de estabilidade democrática e paz. Coisa inédita na vida recente do continente. Quem olha a Europa ocidental próspera e pacífica de hoje e vê ali uma dádiva da natureza deveria debruçar-se sobre o século e meio que vai das guerras napoleônicas ao fim da Segunda Guerra Mundial. Terá uma surpresa.

Talvez a Europa do pós-1945 seja um modelo a estudar. Uma região do mundo rapidamente recuperada do maior conflito bélico de todos os tempos, porque teve paz, estabilidade e investimentos maciços, inclusive em capital humano.

Foi um exemplo de recuperação não alicerçada em corridas armamentistas, ao contrário do entreguerras, o cenário do caldo de cultura para nazistas e fascistas.

Alguém duvida do efeito que terá na América do Sul meio século de democracia, ausência de conflitos militares e aceleração dos investimentos? Adaptado o mote de Juscelino Kubitschek, seriam 500 anos em 50.

E o Brasil emergirá maior e mais forte. Num cenário sem conflagrações regionais e sem ingerências externas, nossa liderança regional é automática. Ninguém aqui perto tem território, economia ou população para competir conosco.

É inclusive nosso principal cacife para ambicionar as cadeiras mais importantes da diplomacia mundial.

O presidente da República fala com frequência, e torna quase “natural” o analista usar os discursos dele como matéria prima.

Mais eficaz, entretanto, é prestar atenção ao que Lula faz. Em vez de só enxergar — ou ouvir — o que ele diz.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

terça-feira, 13 de abril de 2010

A armadilha do cronômetro (13/04)

Está na hora de mobilizar toda a inteligência do Itamaraty e toda a perspicácia político-sindical de Lula. Até para não comprometer o projeto de o Brasil alcançar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva talvez precise usar as conhecidas habilidades sindicais para encontrar uma saída diplomática que, ao mesmo tempo, preserve a soberania brasileira na definição das relações bilaterais com o Irã e impeça o Brasil de escorregar para o isolamento político planetário.

A má notícia aqui é o assunto ser extremamente complexo e delicado. A boa notícia é Lula possuir (pelo menos) sete vidas. Ele tem como achar um jeito de sair bem. Aliás, o discurso brasileiro sofre um ajuste fino desde que Hillary Clinton passou por Brasília.

A partir de lá, no começo discretamente, a diplomacia brasileira e o presidente começaram a deixar claro que vão com Teerã só até certo ponto. Se forem removidas as camadas de retórica, percebe-se o esforço de Lula no assegurar a Washington que não vai dar um cheque em branco para Mahmoud Ahmadinejad.

Escrevi aqui outro dia sobre a necessidade de um upgrade na posição brasileira. E o ambiente no Itamaraty é exatamente este: os diplomatas quebram a cabeça em busca de uma solução boa o suficiente para não nos deixar mal nem com uns nem com outros. Há inclusive certa tensão entre o gabinete presidencial e a chancelaria. Mas nada que uma bela saída final não resolva.

Lula precisa do troféu para exibir, como prova de que "não se dobrou aos americanos". Mas tampouco pode embarcar numa aventura de braços dados com Ahmadinejad. A solução ótima será o Irã aceitar o monitoramento internacional e as medidas já propostas por franceses e russos, para garantir ao mundo o caráter pacífico do programa nuclear persa. Seria uma vitória maiúscula de Lula.

Mas ela parece por enquanto distante.

Há outro componente, mais obscuro, no imbróglio. A teimosia iraniana é útil ao governo brasileiro quando nos dá uma plataforma para denunciar o militarismo dos grandes, um biombo discursivo a encobrir nossas próprias ambições nucleares.

Uma coisa é debater se o Brasil precisa ou não da bomba. Penoso. Mais fácil é defender o direito de o Brasil desenvolver energia nuclear da maneira que melhor lhe convier. Essa segunda linha é propagandisticamente boa, pois evita o debate no mérito.

Lula domina bem a técnica de radicalizar em público e buscar um meio-termo em privado. Tipicamente sindical. É disso que se trata agora.

Na busca do troféu, o presidente precisará escapar ainda da armadilha do cronômetro. O ritmo do ajuste da posição brasileira deve estar sincronizado com russos e chineses. É visível que os Estados Unidos nos consideram ator secundário da peça. Mas estão empenhados full time em atrair Moscou e Pequim para um acordo que coloque limites ao programa nuclear dos aiatolás.

O risco é ficarmos pendurados no pincel. E se chineses e russos chegam a um acerto com os americanos? O que faremos? Vamos aderir na 25ª hora? Ou vamos "marcar posição", num repeteco do constrangimento hondurenho? Parece óbvio que nem russos nem chineses vão deixar de fechar um pacto com os Estados Unidos só para serem solidários a nós.

Está na hora de mobilizar toda a inteligência do Itamaraty e toda a perspicácia político-sindical de Lula. Até para não comprometer o projeto de o Brasil alcançar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Falta uma peça

Há forte resistência no governo a assinar o protocolo adicional do tratado de não proliferação (TNP) de armas nucleares. O argumento para não assinar é a defesa da soberania tecnológica do país, pois o texto prevê poderes totais de inspeção à Agência Internacional de Energia Atômica.

Argumentam ainda que a Constituição brasileira já proíbe fabricar a bomba.

Mas será que essa recusa também não compromete nosso projeto de integrar permanentemente o Conselho de Segurança da ONU?

Especialmente porque, segundo nossos líderes, não queremos mesmo ter armas nucleares. Ou seja, vamos brigar com os principais países do mundo porque não aceitamos que uma agência multilateral verifique como estamos cumprindo os compromissos por nós assumidos. Apesar de estarmos cumprindo.

Qual é a lógica nisso? Falta alguma peça para completar o quebra-cabeças.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (13) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

domingo, 11 de abril de 2010

Um julgamento político (11/04)

No julgamento da Anistia, o Supremo Tribunal Federal vai decidir se o pacto democrático costurado na transição do regime militar para o civil está valendo ou não

Na pauta do Supremo Tribunal Federal (STF) aparece a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 153, que contesta a Lei nº 6.683/1979, a Lei da Anistia. O assunto deve ser debatido e decidido pelos juízes na quarta-feira (14). A ação é de autoria da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

A anistia brasileira foi conquistada no epílogo do período ditatorial, no governo João Figueiredo. A palavra “conquistada” é central na análise, pois há uma deformação perversa em certa historiografia recente — e excessivamente enviesada.

Vende-se a vitória como se tivesse sido concessão, ou manobra. A anistia foi arrancada do governo de então num amplo movimento que combinou mobilizações democráticas de massa e grandes avanços eleitorais da oposição.

Um fato, de vez em quando escondido, é que o ápice das mobilizações sindicais que incubaram o PT na passagem dos anos 70 para os 80 do século passado veio depois de revogado o Ato Institucional número 5. Ali destampou-se a panela de pressão. E de onde veio a pressão que obrigou a destampar a panela?

Não foi geração espontânea, mas resultado de luta. Principalmente dos estudantes e dos políticos do Movimento Democrático Brasileiro (MDB, o único partido de oposição na época), as duas frentes em que as correntes políticas antiditatoriais conseguiram resistir melhor ao endurecimento do arbítrio em 1969-70.

Mas mesmo no interior das forças democráticas de então havia dúvidas e divergências sobre a conveniência de apoiar o projeto de anistia vindo do regime. Uns diziam que deveria ser recebido como vitória parcial, que se deveria usá-la como trampolim para buscar a anistia ampla. Outros, que deveria ser rejeitado em nome de continuar a marcha pela ampliação da anistia.

Havia também quem contestasse a ideia em si de uma anistia, pois entendiam-na como sinônimo de “perdão”, o que em tese poderia diminuir a estatura da luta travada contra o regime.

Essas diferenças foram solucionadas pela vida, pelo processo político. O Congresso aprovou o projeto de Figueiredo. Alguns anos depois, o regime de exceção acabou.

Tanto o projeto de 1979 quanto os avanços do pós-ditadura aconteceram num ambiente de transição progressiva, sem rupturas reais. Ou com microrrupturas. Por isso beneficiaram os dois lados.

E o Brasil aparentemente tem convivido bem com o produto daquela transição. Todas as posições políticas estão contempladas no espectro. Há eleições periódicas, em liberdade. O acordo democrático permanece intocado, e o país está melhor em todos os terrenos.

O STF é um tribunal. E portanto decide sobre a lei fria. Mas o STF é também o mais político dos tribunais. Como disse o ministro Marco Aurélio em julgamento recente, a Constituição é o que o Supremo decide que ela é.

Em resumo, o que a Corte vai decidir é se o pacto democrático costurado na transição do regime militar para o civil-democrático está valendo ou não.

Há outras variáveis? Claro. Juridicamente, o debate é denso e tem argumentos de todos os lados, como aliás costuma acontecer nas discussões jurídicas.

Mas o que estará em discussão, na última instância, é a validade daquele pacto.

Sem tapetão

A Câmara Legislativa vai eleger um governador para completar este mandato. A eleição acontecerá à sombra da possível intervenção, pela qual batalha incansavelmente a Procuradoria-Geral da República. Com a participação intensa do procurador-geral da República.

Assim, se a Câmara tiver juízo, procurará conduzir o processo eleitoral sem truques ou casuísmos. Um deles, ensaiado e executado nos últimos dias, propõe exigir um ano de filiação partidária dos candidatos.

É casuísmo porque um ano atrás ninguém poderia imaginar que haveria esta eleição-tampão. Trata-se portanto de um expediente bizarro para garantir reserva de mercado aos supostamente espertos.

Não dá para forçar numa eleição extraordinária a aplicação mecânica de todas as regras da eleição ordinária. Especialmente daquelas que discriminam arbitrariamente eventuais concorrentes.

Quem quiser ganhar a eleição, que busque o triunfo no voto. E não no tapetão.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Alca cambial de Lula (09/04)

Nosso neodesenvolvimentismo “neoliberal” renega a substituição de importações. Por que produzir aqui dentro algo que pode ser comprado mais barato lá fora?

O presidente da República criticou ontem os países que praticam protecionismo enquanto fazem discursos pelo livre comércio. No alvo, os Estados Unidos e a Europa. Luiz Inácio Lula da Silva tem razão no mérito —e também motivo para reclamar.

A continuada proteção dos mercados nacionais pelos países desenvolvidos está na raiz das duas maiores derrotas sofridas por este governo nas relações comerciais planetárias: a não conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a não criação de um mercado mundial do etanol.

Sem falar na frustração com o G20, que na eclosão da crise em setembro de 2008 apresentou-se para reorganizar o mundo, mas acabou empurrado para a irrelevância.

É tarefa complexa tentar identificar o fio condutor da política de Lula para o comércio internacional. A ideologia segue por uma pista da autoestrada, enquanto a vida real volta pela outra.

O PT travou durante anos sua luta feroz contra a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta pelos Estados Unidos nos anos 80 do século passado. Quando chegou ao governo em 2003, o PT ajudou na prática a enterrá-la.

Os argumentos foram em teoria consistentes. Numa área de livre comércio com os americanos o rumo histórico estaria traçado —e contra os nossos interesses.

Seríamos para sempre produtores e exportadores de matéria-prima, de commodities. Nossa indústria seria moída pela concorrência, a não ser nos ramos intensivos em mão de obra barata. Ou nos mais poluidores e menos socialmente responsáveis.

Onde reside a dificuldade do analista? Onde está a contradição? Quase oito anos depois, Lula vai entregar ao sucessor (ou sucessora) um país constrangido pela “Alca cambial”, pela política de valorização da moeda que nos empurra para a desindustrialização e para a dependência das exportações de commodities.

O real forte, sustentado lá em cima pelo juro estratosférico, faz a alegria momentânea do pobre (pelo preço da comida), da classe média (pelas viagens internacionais e compras lá fora) e de quem precisa, ou prefere, importar. Mas o real forte ajuda também a desenhar um futuro medíocre para o Brasil.

A linha-mestra do argumento é conhecida. Que substituição de importações, que nada! Por que produzir aqui dentro algo que pode ser comprado mais barato lá fora?

Fascinante, esse neodesenvolvimentismo “neoliberal”. Um neo-neo do país da jabuticaba.

E o comportamento do Brasil nas batalhas internacionais reforça o viés manco. Agora mesmo, como reagimos à histórica vitória com o algodão na OMC? Ameaçando retaliar produtos industrializados americanos. Ou seja, se eles forem bonzinhos com as commodities, nós topamos abrir (ou manter aberto) nosso mercado interno de produtos com maior valor agregado.

Quantos discursos Lula já fez em defesa do livre comércio? E quantos ele pronunciou para trazer a legitimidade da palavra de líder à necessária proteção da nossa indústria, dos nossos empregos? Quem fizer a conta vai ter uma surpresa.

É bonito que o Brasil se ofereça para comandar o mundo pobre contra as barreiras protecionistas do mundo rico aos produtos agrícolas. Além de bonito, é justo. É uma forma de combater, por exemplo, a pobreza na África.

Mas certamente a próxima presidenta (ou o próximo presidente) da República vai ter que ajustar a orientação. Se conseguir, claro, superar as imensas barreiras ideológicas e intelectuais erguidas em séculos de colonização política, econômica e mental.

Talvez não seja questão de “se”, mas de “quando”.

Pequeno

— Eu acho pobre neste país é que as pessoas esperam acontecer uma desgraça dessa magnitude para ficar tentando fazer joguinho político pequeno.

A frase é de Lula, ontem, no contexto da tragédia causada pelas chuvas no Rio.

Segundo Lula, é hora de pensar grande. Governos gostam de pensar grande, enquanto a oposição normalmente prefere pensar pequeno.

É bom haver sempre, além do governo, uma oposição.

Para evitar que todo mundo resolva pensar grande a toda hora.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (09) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Maus atores na tragédia (08/04)

A precariedade dos atores e do enredo fica mais visível quanto mais crítica é a situação. O governante se acha esperto quando tenta repassar aos antecessores tudo que há de ruim ou problemático. Mas agora no Rio está um pouco mais difícil

Qual é o curso mais adequado para quem deseja seguir a carreira política? Administração pública? Direito? Ciências sociais com pós-graduação em ciência política? Economia? Jornalismo? Talvez Engenharia civil?

Pensando bem, certo seria tascar “nenhuma das anteriores”. A formação mais útil para o político é artes cênicas ou dramáticas. A política é antes de tudo um teatro.

O Rio de Janeiro foi arrebentado pelas chuvas nos últimos dias. O jornalismo moderno proíbe a expressão, mas aqui ela cabe: chuvas torrenciais.

Quando calamidade parecida atingiu com força o município fluminense de Angra dos Reis, em janeiro, notei que o PT ficou quietinho, ao contrário do que acontecera em São Paulo dias antes. Pois no Rio o partido navegava nas águas do governo Sérgio Cabral (PMDB), enquanto em SP era oposição ao então governador José Serra.

Há alguma injustiça em o PT atacar ferozmente o PSDB pelas enchentes em SP? Nenhuma. Atacou foi pouco. Governantes precisam ser criticados com a contundência necessária para tomarem as providências exigidas pela situação. Importa menos se as críticas são justas ou injustas: elas devem ser suficientes para romper a inércia do poder, cuja primeira reação é invariavelmente achar que “tudo está bem”. Ou eximir-se de responsabilidade, quando não dá para fingir que está tudo bem.

Existe algo mais patético do que o pseudolíder choramingar, na hora do aperto, um meloso “a culpa não é minha”? Ou um revoltante “a culpa é do povo”?

O eventual melindre do presidente, governador ou prefeito não tem nenhuma relevância quando comparado ao sofrimento do sujeito que vê o resultado de uma existência de sacrifícios ser levado pela água. Isso quando a água não leva a vida do ente querido.

A precariedade dos atores e do enredo fica mais visível quanto mais crítica é a situação. O governante se acha esperto quando tenta repassar aos antecessores tudo que há de ruim ou problemático. Mas agora no Rio está um pouco mais difícil.

A responsabilidade não é do governador Sérgio Cabral, pois ele é aliado do governo federal. Uma alternativa seria colocar a culpa em Anthony e Rosinha Garotinho, que vieram antes de Cabral e administraram cada um durante quatro anos. Mas os Garotinho estão no PR e apoiam a candidata do PT, Dilma Rousseff.

Bem, ufa!, teve o tucano Marcello Alencar entre 1995 e 1998. E antes de Alencar? Entre 1991 e 1994 o governador foi Leonel Brizola, que já governara o Rio de 1983 a 1987. Só que não dá para falar mal de Brizola quando um herdeiro político dele, Carlos Roberto Lupi, comanda o PDT e está de armas e bagagens na candidatura governista.

Sobrou alguém? O peemedebista Moreira Franco, que governou entre 1987 e 1991. Mas ele também integra hoje a base de Lula, tem um cargo bacana no governo federal e compõe o núcleo duro do PMDB que manda.

Eis o rol dos governos no Rio desde a redemocratização.

Se não dá para culpar ninguém terreno, presente ou pretérito, vai acabar sobrando para Deus. Ele que se vire. A regra é simples e de fácil aplicação. A inundação é no governo do adversário? A culpa é dele. A inundação é no nosso, ou no de um amigo nosso? A culpa é d'Ele.

E o dinheiro?

Ainda sobre teatro, o Brasil tem visto nas últimas semanas a emocionante e emocionada mobilização dos políticos e da “sociedade civil” no Rio de Janeiro para os royalties do Pré-Sal seguirem o curso normal e acabarem forrando os cofres dali.

Depois de enterrados os mortos e socorridas as famílias que perderam suas casas, talvez vá ser o caso de convocar esses mesmos personagens lacrimosos para explicar ao país o que vem sendo feito com a montanha de dinheiro que há anos o petróleo injeta no Rio.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (08) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Jogo do Poder com Paulo Bornhausen (07/04)



O líder do Democratas na Câmara dos Deputados, Paulo Bornhausen (SC), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Diego Escosteguy, da revista Veja. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo