domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um poço de bom senso (28/02)

Autodefinido como partido da “esquerda democrática”, conceito que na lógica e na política só existe em oposição a uma “esquerda não democrática”, o PT certamente estará confortável no apoio à abertura política em Cuba

Luiz Inácio Lula da Silva está certo quando insinua, sem muita sutileza, que falta coragem a Barack Obama para levantar unilateral e incondicionalmente o bloqueio a Cuba. Lula estaria ainda mais coberto de razão se completasse o raciocínio. Pois tal coragem é a mesma que inexiste nos irmãos Raúl e Fidel Castro para convocar eleições livres e multipartidárias na brava ilha caribenha.

Mesmo em escalas muito diferentes, a modalidade de valentia que nosso presidente propõe ao colega americano é do tipo que ele, Lula, precisaria juntar para atualizar os índices de produtividade no campo, para impedir que os bancos cobrem 10% ao mês no cheque especial -quando remuneram o poupador a uma taxa dez vezes menor e quando a inflação está em 4% ao ano- e para dar um jeito no absurdo que pagamos ao falar no celular, recorde mundial.

Vejam que escrevi “do tipo”. As coisas para as quais, numa analogia, parece faltar coragem a Lula são menos complexas e difíceis do que o imbroglio entre Cuba e os Estados Unidos, e mesmo assim a administração do PT, rumo a oito anos na cadeira, não encontrou ainda força suficiente para completar a missão. É dura a vida de quem governa. Ninguém faz só, e sempre, o que quer.

As decisões governamentais são resultado da soma de vetores. O líder é expressão dessa resultante vetorial. É ele e suas circunstâncias. Quando sai da linha e ultrapassa as fronteiras do equilíbrio político, corre o risco de ser politicamente degolado. Governantes não devem ser necessariamente corajosos. Melhor serem sábios, e excesso de coragem nunca foi sinônimo de sabedoria.

Sobre isso, o congresso recente do PT e as entrevistas nos últimos dias de líderes do partido, do presidente da República e da candidata ao Planalto são arquetípicos. É um festival de panos quentes. Um poço de bom senso. Falta coragem para enfrentar o "mercado"? Talvez sobre inteligência.

A lamentar, apenas que Lula, o PT e o governo brasileiro contribuam pouco para o fim do impasse entre Havana e Washington. Cuba quer ser tratada como país normal. E os Estados Unidos pedem que Cuba se reorganize politicamente, para permitir a transição rumo a um estado de direito democrático.

A linha brasileira tradicional na abordagem do assunto era conhecida, desde pelo menos um quarto de século. A política interna de Cuba é tema dos cubanos, e não é razoável que os Estados Unidos se metam na vida dos ilhéus. Acontece que os americanos se comportam ali mais ou menos como nós e a Venezuela gostaríamos de agir em relação a Honduras. Com uma única diferença: eles têm força para ir além do discurso e praticar de fato a ingerência.

Já que nosso manual de não intervenção foi arquivado pelo Itamaraty na nova fase, talvez seja o caso de transformar também este limão numa limonada. É inexplicável que o Brasil se candidate a mediar um conflito no qual pouco ou nada pode influir, lá longe no Oriente Médio, e se omita na busca de uma solução negociada aqui perto, entre cubanos e americanos.

Até porque a saída possível, para atender a quem advoga mudanças estruturais em Cuba, é óbvia. Que tal um cronograma de transição? Poderia começar pelo fim do bloqueio e terminar em eleições livres, fiscalizadas pela ONU (quem sabe com tropas brasileiras, como no Haiti?), nas quais o Partido Comunista teria todas as condições de lutar nas urnas para continuar no poder.

O que poderia impedir o governo brasileiro e o PT de irem por aí? O medo de perder influência política e econômica junto aos atuais dirigentes cubanos? Não se faz omelete sem quebrar ovos. E se Cuba enveredar por um caminho de progresso e crescimento acelerados as oportunidades para o investimento brasileiro serão ainda maiores do que as já apetitosas de hoje. Desde que não repitamos o erro de Honduras, desde que apostemos no cavalo certo.

O PT tampouco enfrenta obstáculo ideológico intransponível para apoiar esse script. Em artigo que fizeram publicar na Folha de S.Paulo na passagem dos 30 anos da sigla, o novo presidente do PT e seu antecessor registraram o aniversário de “um partido democrático, popular e socialista que soube unir setores diferentes da esquerda democrática”.

Autodefinido como partido da “esquerda democrática”, conceito que na lógica e na política só existe em oposição a uma “esquerda não democrática” (ou o adjetivo seria redundante), o petismo certamente estará confortável no apoio à abertura política em Cuba.

Ou não?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (28) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Genericamente abstrato (26/02)

As circunstâncias podem empurrar o governante a não cumprir em detalhes o que prometeu. Ele às vezes é levado até a fazer o contrário do que dissera. Só não pode cometer a insanidade de transmitir ao eleitor que vai, sem um bom motivo, no caminho oposto ao combinado

É um hábito forçar políticos a assumir compromissos antes das eleições. Entre nós, o aspecto mais recente e bem particular é impor aos candidatos a apresentação de programas de governo razoavelmente detalhados. No extremo, para “registrar em cartório” as “propostas”.

Segundo os marqueteiros, o eleitor adora acreditar nelas e exige que o pleiteante se dê ao trabalho de elaborá-las. Daí que em algum momento apareçam nos blocos televisivos as indefectíveis letrinhas na tela dizendo o que sua excelência “vai fazer”, se eleito (ou eleita).

Há ainda a moda de distribuir calhamaços, estes demandados pelo jornalismo. O destino da papelada? O “caderno especial” e depois a gaveta. Até que lá na frente, num plantão modorrento ou num feriado desesperador, alguém pega o material e propõe ao editor a pauta originalíssima: “Vamos comparar o que o candidato prometeu com o que ele fez até agora?”.

A menos que sobrevenha um terremoto político para lá de haitiano daqui até dezembro, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva vai fechar os oito anos regulamentares como belo sucesso de público e crítica. E no entanto todas as principais “propostas” televisivas apresentadas pelo candidato Lula em 2002 deram com os burros n`água.

O Fome Zero, o dos comitês analisando notas fiscais apresentadas pelos beneficiários para comprovar que gastaram “direito” o dinheiro da ajuda, virou uma espécie de Eletronet dos programas sociais, sem a rede de fibra óptica. Está na memória como boa ideia (dar ao muito pobre dinheiro suficiente para as necessidades básicas, para não passar fome), mas conceitualmente foi aposentado. Hoje, o PT diz que em espírito ele sobrevive no Bolsa Família.

O Primeiro Emprego morreu de morte morrida, sem esse detalhe causar ao ministro do Trabalho responsável, Jaques Wagner, qualquer prejuízo político: elegeu-se até governador da Bahia. A maior utilidade do programa foi ter desaparecido, pois seu fracasso ajudou a engrossar a desconfiança na tese de que abolir direitos e conquistas trabalhistas levaria as empresas a contratar mais gente. Parecido com a história de que o fim da CPMF faria baixar o preço dos produtos. Lembram disso?

E o Farmácia Popular está aí por estar, talvez para certo dia alguém explicar por que o governo precisa ter um programa de remédio mais barato se o próprio governo tem a obrigação de dar o mesmo remédio de graça.

O Fome Zero, o Primeiro Emprego e o Farmácia Popular, na genial elaboração de Duda Mendonça, cumpriram a função em 2002: mostrar ao público que a marca de Lula seria a busca da justiça social. E Lula está bem, obrigado, porque na visão da maioria dos eleitores ele cumpriu esse contrato genérico e abstrato, foi fiel aos movimentos simbólicos que fez quase oito anos atrás para vencer aquela disputa.

O núcleo do segredo do sucesso no governo está aí: a lealdade à ideia geral e abstrata que levou o eleitor a apertar o botãozinho na urna eletrônica ou a depositar o voto convencional. As circunstâncias podem empurrar o governante a não cumprir em detalhes o que prometeu na campanha. Ele às vezes é levado até a fazer o contrário do que dissera. Receberá a pressão dos jornalistas se acontecer, mas isso não terá qualquer importância, desde que não cometa a insanidade de transmitir ao eleitor que vai, sem um bom motivo, no caminho oposto ao combinado.

Há aqui uma vantagem de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) sobre o provável candidato do PSDB, José Serra.

As duas têm a minuta já bem rascunhada. A ministra vai propor simplesmente a renovação do contrato de 2002, já prorrogado uma vez em 2006. Com novos detalhes? Claro, sempre é preciso pintar um quarto aqui, consertar uma persiana ali, acabar de vez a construção da piscina. Talvez até derrubar uma parede para ampliar a sala. A senadora também vai bem no quesito: dirá que hoje em dia lutar pela salvação do planeta é o único jeito de ser progressista e ficar a favor da justiça social.

Mas o discurso tucano ainda permanece em aberto, especialmente porque não tem sido arquitetado publicamente no pré-eleição, algo que pareceria essencial. No último fim de semana, Serra enveredou pelo campo propriamente político, com seu artigo sobre o quarto de século da Nova República.

O PSDB está atrasado? Sim e não. Comparado aos adversários, sim. Considerando que em 2002 o PT fez a Carta aos Brasileiros com a eleição já em curso, não. De todo jeito, há um efeito-expectativa: o PSDB está tão ensimesmado que quando apresentar seus trunfos para a guerra simbólica certamente atrairá atenção.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (26) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bomba de nêutrons (25/02)

O governador está preso, o vice renunciou, o noticiário vem impregnado da palavra “intervenção”. Diante do quadro, os outros políticos de Brasília dividem-se em duas categorias: os espectadores e os comentaristas

Um aspecto intrigante na atual crise do Distrito Federal é a parcimônia dos políticos ao ocupar o espaço aberto com o colapso das estruturas oficiais. Em situação normal, estariam todos a surfar na tragédia alheia — é da vocação. Disputariam a tapa o privilégio de serem vistos pelo eleitor do DF como a alternativa saneadora e salvadora. Entre cotoveladas e pontapés, lutariam bravamente pelo protagonismo diante das câmeras, pela pole position no grid eleitoral.

Mas não. A imagem espelhada da desgraça de uns não aparece como a ambição de outros, vem como prudência. Excessiva até. Ao menos para consumo externo. O governador está preso, o vice renunciou, o noticiário anda impregnado da palavra “intervenção”. Diante do quadro, os políticos restantes de Brasília dividem-se em duas categorias: os espectadores e os comentaristas. No frigir dos ovos, ninguém está dando a cara a tapa. Apertem os cintos, porque os candidatos a líder sumiram.

Além do caos produzido pelo situacionismo, esse é outro vetor que alimenta as especulações em torno da intervenção federal. A parte do sistema político brasiliense que ainda não necrosou está paralisada. Dá a impressão de temer algo. O que exatamente?

Desde o início da crise, ainda no ano passado, estava claro que as revelações tinham potencial para levar à morte boa parte do tecido político do “quadradinho”. Houve em seguida a época da calmaria, quando o jogo de perde-perde entre o Buriti e a Câmara Legislativa desenhava-se para ser um esperto ganha-ganha. Como estavam todos enrolados, todos sobreviveriam. Tratar-se-ia apenas de aproveitar as chicanas jurídicas para vencer a corrida contra o relógio neste último ano dos quatro regulamentares.

Era um equilíbrio em si instável, pois ninguém parecia ter boas ideias para atacar a questão-chave: a legitimidade. Nas sociedades democráticas, toda vez que se faz um cálculo político é preciso saber também o que pensa sua excelência, o eleitor. Até por haver entre nós mecanismos independentes de defesa da coletividade. Por exemplo, o Ministério Público.

As revelações mais recentes, que levaram à prisão do governador, vieram desequilibrar novamente o jogo, reabrindo as possibilidades políticas dos que ao longo dos anos costumavam perfilar-se como alternativa a tudo. Mas a montanha está a parir o rato. Parece que uma bomba de nêutrons, a que extermina os seres vivos e preserva os edifícios, estourou sobre a política da capital federal.

Esquerdos humanos

Quando governos se metem a patrocinadores de cruzadas morais, o risco de desmoralização é latente.

A administração Luiz Inácio Lula da Silva vem de criar um bafafá com o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), que pretende ditar regras sobre tudo e para todos, transformando os atuais ocupantes do Executivo em juízes da moralidade.

Mas Lula, sempre tão sortudo, desta vez deu azar.

Poucas semanas depois da polêmica aberta com o PNDH, eis que nosso presidente visita Cuba nos dias da morte, por greve de fome, de um assim chamado “preso de consciência” cubano. O termo designa o sujeito que está detido só pelo que pensa — e por tentar colocar em prática suas ideias sem recorrer à violência.

Claro que Lula não vai se meter nos negócios internos da ilha caribenha, afinal o Brasil respeita a soberania das demais nações e não tem a vocação de ditar regras.

A não ser quando interessa.

Como em Honduras, alvo de diretrizes imperiais emanadas do governo brasileiro sobre como, por que, em que ritmo e rumo a que objetivos os hondurenhos devem tocar seu processo político.

Talvez estejamos diante de uma releitura do célebre bordão malufista: direitos humanos sim, mas para os humanos direitos. No caso específico, para os humanos esquerdos. Categoria generosa que, em último caso, pode abrigar todos os amigos e companheiros de viagem.

Terá gás?

Era mesmo um exagero convocar Dilma Rousseff para falar do PNDH no Senado. Sobre o assunto e seus detalhes, qualquer jornalista pode fazer as perguntas necessárias, se julgar conveniente.

Mas é bom e democrático que o ministro da área explique a coisa toda na Câmara Alta. Resta saber se desta vez a oposição vai se preparar adequadamente para duelar no mérito. Um terreno em que ela costuma perder gás rapidinho.

Coluna (Nes entrelinhas) publicada nesta quinta (25) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Jogo do Poder com André Vargas (24/02)



O deputado federal André Vargas (PT-PR), novo secretário nacional de Comunicação do partido, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Daniel Pereira, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Um debate velho e inconcluso (24/02)

Para a esquerda brasileira, a democracia representativa, com liberdade partidária e alternância no poder, é uma premissa do progresso social? Ou é em última instância um obstáculo?

Num partido de esquerda, e que portanto adora discutir, chama atenção a dificuldade do PT quando vai debater certos temas. Um deles é a luta armada dos anos 60 no Brasil. Está evidente a esta altura que foi um grave erro político. Mas como restam laços, até afetivos e biográficos, e há também a justa obrigação de homenagear o heroísmo de muitos, ela é deslocada para o terreno da mitologia, onde a política tem dificuldade de trafegar.

Desse balanço inacabado decorre outro problema: o desconforto do PT ao abordar a essência do debate sobre a democracia. A questão esteve no centro das polêmicas que fizeram nascer as organizações guerrilheiras, movimentos derrotados no que se propunham: a conquista do poder por meio da revolução e a abolição do capitalismo.

Em consequência da derrota militar, ao longo dos anos 70 os remanescentes e sobreviventes da luta armada foram se incorporando à frente parlamentar-institucional. Até que a fundação do PT absorveu na “luta legal” os últimos céticos que resistiam ao “caminho burguês”.

A História é fascinante também por causa dos paradoxos. O PT é o herdeiro principal das vertentes políticas que aderiram ao projeto guerrilheiro (é furado chamar Dilma Rousseff de neopetista; ela já era petista muitos anos antes de o PT existir), mas acabou por comprovar que o melhor mesmo era se organizar para alcançar o governo por meio de eleições. Apoiado sim nos movimentos sociais, mas 100% voltado para a conquista progressiva de espaços de poder com a ajuda das urnas.

É impossível na prática, mas se alguém pudesse fazer hoje a contabilidade acumulada nestes 30 anos para medir quanto tempo o PT, em todos os níveis, gastou discutindo eleição ou outros assuntos a estatística seria autoexplicativa.

Só que a mudança na realidade material costuma vir antes da flexão nas ideias, gerando uma certa tensão, que se prolonga tanto mais no tempo quanto menos o sujeito histórico reflete sobre a própria experiência. Daí que o PT em seu congresso aprove plataformas para o partido, apenas para em seguida garantir que elas não serão aplicáveis no programa de governo. Em teoria, as justificativas são “táticas”, pela ausência de força própria e pela necessidade de alianças.

Mas esse “etapismo” também é bem descrito na literatura: as metas estratégicas ficam como objeto de culto e conforto espiritual, enquanto a tática ocupa todo o espaço reservado à política.

E, assim, no dia em que tiver força suficiente os objetivos partidários já terão mudado, pois ao transformar a realidade é inevitável que ela também opere uma metamorfose no agente da transformação. Desse jeito caminha a humanidade, inclusive na política.

O debate sobre o valor universal da democracia foi ensaiado no interior do Partido Comunista Brasileiro na passagem dos anos 70 para os 80, sob a dupla influência da história do próprio PCB e do assim chamado eurocomunismo, nascido remotamente das reflexões do PC italiano sobre o golpe contra Allende no Chile em 1973 e em seguida adotado pelos comunistas franceses e espanhóis.

A discussão acabou abortada quando o PCB conduziu a polêmica contra as posições de Luiz Carlos Prestes para a ruptura orgânica, à esquerda (contra o prestismo) e à direita (contra o eurocomunismo), e acabou inviabilizado como partido de massas. Deixando completamente aberta a estrada para a construção da hegemonia do PT, que veio a ocupar o vácuo com grande competência, conduzido por Lula.

Mas, como atual gerente do boteco socialista, agora é o PT quem se vê na contingência de lidar com assuntos inconclusos. A dúvida é essencialmente a mesma desde meio século atrás. Para a esquerda brasileira, a democracia representativa, com liberdade partidária e alternância no poder, é uma premissa do progresso social? Ou acaba sendo um obstáculo, dado que nela há sempre a possibilidade de o partido ser removido, pacificamente, do governo?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (24) No Correio Braziliense.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Limões, discursos e limonadas (23/02)

Qual foi mesmo a grande vitória — material, concreta — obtida pela diplomacia ou pelos canhões brasileiros neste período? Não valem os prêmios recebidos por Lula, nem as reportagens favoráveis, nem os salamaleques a ele dispensados

No âmbito da política exterior dos países, não é tão difícil distinguir os líderes empenhados realmente na construção de um projeto nacional daqueles preocupados apenas em açular o nacionalismo “de boca”, para nele cultivar musculatura política.

Na primeira categoria estão os governantes voltados para a conquista de vitórias nas relações com outros países e nos organismos internacionais. Na segunda, os obcecados pela soberania retórica.

Para que possam, então, classificar os opositores internos de “inimigos da pátria” e, a partir daí, convergir o destino soberano do país com a perpetuação do próprio poder.

Reparem que nações como China, Índia, Rússia e África do Sul têm políticas externas caracterizadas por contenção verbal e pela busca agressiva de vitórias, ou, pelo menos, de posições estratégicas favoráveis. Moscou, por exemplo, vem de conseguir recuos de Washington no projeto do escudo antimísseis na Europa do Leste. E os chineses apertaram tanto os americanos que estes se viram obrigados a fazer movimentos para equilibrar a balança, daí o encontro entre o Dalai Lama e Barack Obama.

Qual é o balanço da política externa brasileira nos anos recentes? É um bom debate. Na historiografia oficial, os últimos sete anos representaram a emergência de um Brasil altivo e internacionalmente forte, em suposto contraste com os séculos precedentes.

Mas qual foi mesmo a grande vitória — material, concreta — obtida pela diplomacia ou pelos canhões brasileiros nesse período? Alguém poderia informar? Não valem os prêmios recebidos por Lula, nem as reportagens favoráveis, nem os salamaleques a ele dispensados por interessados em bons negócios. Falo de coisas tangíveis.

O Brasil apostou todas as fichas na conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio e perdeu. Quando eclodiu a crise mundial das finanças, em setembro de 2008, saiu a advertir contra a emergência do protecionismo e a defender o livre comércio. Deu em nada.

O Brasil apostou todas as fichas na emergência do G20 como organismo vocacionado para reformar o sistema financeiro internacional e perdeu. O G8 vai sendo substituído é pelo G2, com americanos e chineses de protagonistas.

O Brasil inicialmente apostou em liderar os emergentes contra metas de redução das emissões de carbono. Quando Estados Unidos e China mandaram avisar que Copenhague não iria chegar a nenhum acordo vinculante, nossa diplomacia viu uma janela de oportunidade para Lula fazer a flexão tática. Ele agora seria “o líder da luta contra o aquecimento global” (a custo zero, pois não ia mesmo acontecer nada na Dinamarca). Para no fim poder dizer que “a culpa não foi minha”.

Acabamos na mesa com Obama, para referendar a proposta americana. De saldo, só os aplausos que o presidente colheu por mais um bonito discurso.

Sem falar nas situações em que não restou nem o discurso, como Honduras. Das grandes iniciativas que ainda podem dar algum dividendo há o Irã, onde talvez o Brasil fature algo, no papel de mestre de cerimônias das manobras para disfarçar uma eventual rendição iraniana. Isso se Teerã render-se. Se não, nossa “vitória” dependerá da capacidade de os aiatolás imporem ao mundo um status de potência nuclear, no qual talvez peguemos carona.

Quem planejou isso merece uma medalha.

E assim por diante. Mas nada está perdido. Sempre poderemos recorrer à habilidade do presidente para transformar limões em limonadas e demonstrar por que, apesar de tudo, o saldo da nossa participação foi “muito positivo”.

Positivo para quem?

Herdeiros da derrota

A Argentina inquieta-se e protesta contra o fato de o Reino Unido prospectar petróleo nas Malvinas, que o colonizador chama de Falklands. A Argentina tem, em tese, razão. Mas o Reino Unido tem, na vida real, a força.

Um problema da esquerda argentina, hoje no poder, é ser herdeira política da derrota na guerra de 1982. Cristina Kirchner vai lutar agora contra o paralelismo que os adversários farão entre a fraqueza política dela e a fraqueza política dos ditadores que três décadas atrás tentaram retomar na marra o arquipélago, e fracassaram.

O derrotismo e o flerte com a subserviência colonial sempre cobram um preço. Pode demorar, mas a conta vem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (23) no Correio Braziliense

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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os fatos e as versões (21/02)

É obrigação do jornalismo divulgar as versões. Mas é também obrigatório cuidar dos fatos e tentar enxergar o encadeamento entre os movimentos da comunicação oficial —e confrontá-los com a realidade

Levou um tempinho na última quinta-feira para o Planalto e o Buriti convergirem numa única versão do que houve na conversa entre o presidente da República e o governador interino do Distrito Federal. Ao final, divulgou-se unanimemente que Luiz Inácio Lula da Silva não chegou a pedir ao interlocutor para permanecer no cargo e aguardar a decisão da Justiça.

É obrigação do jornalismo divulgar as versões. Mas é também obrigatório cuidar dos fatos e tentar enxergar o encadeamento entre os movimentos da comunicação oficial —e confrontá-los com a realidade. Para poder interpretá-los.

Do que Lula e o governador interino verdadeiramente conversaram no Centro Cultural Banco do Brasil, só eles e os outros presentes sabem. Eis um fato. Daí que só os envolvidos possam emitir versões oficiais sobre a conversa.

Outro fato é que depois do encontro, em meio ao estica-e-puxa de versões, contraversões, pressões e contrapressões, o governador sentiu-se suficientemente forte para, ao contrário do que lhe propunham muitos (e muito próximos), não renunciar.

Pano rápido e a cena volta para alguns meses atrás. O presidente do Senado é José Sarney (PMDB-AP), eleito com apoio do partido dele e do Democratas, derrotando Tião Viana (PT-AC), apoiado pelo PSDB. Fustigado por todo tipo de acusação e evidência, Sarney recebe uma estocada que parece fatal: o DEM sai do barco e junta-se a petistas e tucanos na oposição.

Quem salvou Sarney? Lula, que estendeu o escudo protetor e garantiu a permanência do veterano político no comando da Casa, mesmo ao custo de avalizar os desmandos senatoriais. Lula calculou e concluiu que a relação entre o preço e o benefício era boa, pois Sarney e o PMDB ficariam devedores e a maioria do governo no Senado se consolidaria. Foi o que aconteceu. Sendo que agora o presidente repassa a posição credora à candidata Dilma Rousseff, sem ônus.

O roteiro volta ao DF deste começo de 2010. O PT está diante da mais bela possibilidade de voltar ao comando do “quadradinho” desde que perdeu a eleição de 1998 com o então governador Cristovam Buarque, hoje senador pelo PDT. Qual é a principal ameaça ao projeto de poder local do PT? A possibilidade de a antiga base de Joaquim Roriz convergir em peso para uma possível candidatura do ex-governador, hoje no PSC.

A neutralização definitiva do polo político comandado pelos atuais governantes do DF aceleraria essa convergência, e portanto não interessa ao PT. Aliás, se a situação for bem administrada até outubro não é improvável que uma parte das forças tradicionalmente antipetistas e hoje mergulhadas na desgraça política aceitem trabalhar, ainda que subterraneamente, para ajudar a derrotar Roriz.

Com a vantagem de dividir o potencial “palanque” local do candidato do PSDB à Presidência. Tudo pelo projeto nacional.

O que não podia, desta vez, era Lula ficar misturado na confusão, pelo grau de letalidade política dos fatos. Sempre os fatos. Mas esse detalhe foi bem resolvido ao longo daquela conturbada quinta-feira.

Quem pode atrapalhar agora a dança? Só o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal. Ou o descontrole na Câmara Legislativa.

A família

O presidente da República e os líderes do petismo dizem que uma coisa é o programa do partido e outra é o programa de governo.

Traduzindo, o PT no governo gostaria de aplicar seu programa, mas não irá fazê-lo porque não tem força para tal. Mas como no poder o PT certamente trabalhará para ganhar força, é razoável concluir que se o PT ganhar a eleição estará historicamente mais próximo de conseguir executar o que realmente deseja.

O que quer o PT, além de continuar no poder? Isso também tem mudado de acordo com as circunstâncias. As ideias originais perdem força quanto mais a hegemonia se aproxima.

De todas as transformações programáticas e ideológicas vividas pelo partido ao longo destes 30 anos, faltam as duas mais dolorosas: o reconhecimento da superioridade da democracia representativa sobre as demais e a essencialidade do capital privado para a geração de progresso, bem-estar e liberdade.

Elas virão. Aos trancos e barrancos, com idas e vindas, é para aí que caminha o PT. Só não contaram ainda para a família. O que de vez em quando cria alguns problemas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo no Correio Braziliense

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cuide de si ou seja tutelado (19/02)

A palavra-chave é “confiança”. A senha para a normalização política do GDF é a restauração desse quesito. Qualquer outro caminho tenderá a ser ilusório, temporário

Há uma maneira de evitar a intervenção federal na capital do país: é o sistema político local ser capaz de produzir uma solução institucional aceitável. E o que seria “aceitável"? Uma alternativa de poder que consiga a confiança das sociedades brasileira e brasiliense para bem gerir o orçamento do DF. É disso que se trata.

Está evidente que a saída política da crise não pode se limitar ao “mais do mesmo”. Como tem sido afirmado e reafirmado aqui desde a eclosão das revelações da Caixa de Pandora, não haverá solução sem remover do tecido político todo traço de suspeita. A Justiça e a política têm mesmo ritmos diferentes. Na primeira, a passagem do tempo ajuda a reduzir a influência das paixões. O que é bom. Na segunda, a velocidade do juízo é determinada unicamente pela força dos antagonistas, dada a regra do jogo. O que é um fato.

Há ainda certa diferença entre os julgamentos políticos no Executivo e no Legislativo. E, neste, entre situações que envolvam parlamentares com poder para ordenar grandes despesas, ou não. A mesma acusação contra um deputado qualquer e contra o presidente da Câmara ganha dinâmicas bastante diferentes, se se tratar de mau uso do dinheiro público. É razoável. Todos são inocentes até prova em contrário. Mas a remoção do ordenador de despesas funciona como uma “liminar” da comunidade para impedir danos irreversíveis ao interesse geral.

E quanto maior o poder de quem está no alvo mais rapidamente a sociedade procura livrar-se dele.

Alguns enxergam a possível intervenção federal no DF como inaceitável regressão política, a volta a um estágio de minoridade. E não deixaria de ser. Mas convenhamos que o argumento não é suficiente para sensibilizar. Quem não sabe cuidar de si mesmo acabará, um dia, sendo tutelado. É ótimo que haja eleições marcadas para outubro, que está logo aí. Será a oportunidade para uma renovação nascida das urnas, o único caminho democrático para soluções definitivas.

Mas, e até lá? Quem vai deter a caneta do milionário orçamento do GDF? Quem vai tocar as providências práticas para o sucesso desta sede da Copa do Mundo de 2014? Sem falar no aniversário de meio século da fundação, a esta altura já bastante comprometido.

A palavra-chave aqui, como está no primeiro parágrafo desta coluna, é “confiança”. A senha para a normalização política do GDF é a restauração desse quesito. Qualquer outro caminho tenderá a ser ilusório, temporário. Poderá oferecer alívio imediato, apenas para o problema reaparecer mais adiante. Multiplicado, potencializado.

Segundo turno

Defendi outro dia que o único número realmente importante nas pesquisas eleitorais a esta altura é o de um eventual segundo turno entre os candidatos do PT e do PSDB.

Claro que subestimar Marina Silva (PV) seria um erro, mas o realismo indica hoje a polarização entre tucanos e petistas no primeiro e no possível segundo turnos. Daí que as atenções voltem-se para a diferença entre os dois nesse cenário.

Em eleição majoritária não basta ter muito voto, é preciso ter mais do que o adversário. A ascensão de Dilma Rousseff vem sendo festejada no PT, mas, nas conversas sinceras, petistas manifestam algum desconforto com o fato de o nome do PSDB estar, até agora, e sempre segundo eles, administrando a vantagem na polarização.

O PT acompanhará as próximas pesquisas com lupa. O partido quer Dilma Rousseff como o Luiz Inácio Lula da Silva de 2002 e 2006, não como o das três tentativas anteriores. Duas providências práticas já se desenham no petismo: cuidar para que a candidatura não abandone o centro e zelar para que o PSDB resolva mal, ou não resolva, a tensão entre São Paulo e Minas Gerais.

Bolsa-esmola

A propósito da coluna de ontem, Eduardo Graeff, assessor do então presidente Fernando Henrique Cardoso, escreve para negar que o PSDB seja autor da expressão “bolsa-esmola”. E afirma que “o primeiro a falar em 'esmola' foi o PT, rimando com a bolsa-escola de FHC". Graeff manda um link para comprovar sua afirmação: http://www.eagora.org.br/arquivo/quem-inventou-bolsa-esmola/.

Está registrado.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (19) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O PT chega bem aos 30 (18/02)

O socialismo restará como objeto de desejo, cultuado ritualmente e deixado para um futuro intangível. Na vida real, o PT migra para o nacional-desenvolvimentismo

De qualquer ângulo que se olhe, a trajetória do PT nestes 30 anos é um sucesso. O partido está no ápice do seu poder. Mais significativo é que deixou na poeira seus concorrentes na esquerda, reduziu-os à irrelevância ou, quando não, tomou-lhes o protagonismo e impôs uma hegemonia política e ideológica. Se toda sociedade tem uma fatia “de esquerda”, no Brasil o espaço está ocupado pelo PT e ninguém se atreve a desafiá-lo.

Como o PT alcançou tal status após três décadas? Por uma razão essencial: firmou na percepção e no pensamento coletivos a marca de que veio ao mundo para defender os pobres, os assalariados, os historicamente marginalizados. O PT foi alterando ao longo da vida suas posições teóricas, ao ponto de não sobrar quase nada do estoque original de teses da fundação, mas não descuidou de estar ali, colado, quando a base social exigiu.

Um exemplo? O PSDB vive a reclamar de que o PT tomou algumas belas ideias dos tucanos e agora as exibe como genuinamente petistas. Um caso típico é o Bolsa Família. É verdade que o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) tinha boas ações sociais, só que Luiz Inácio Lula da Silva as ampliou bastante, e aqui quantidade é qualidade. Mas o pior, para o PSDB, é que enquanto Lula colocava mais dinheiro no programa criado por FHC os tucanos davam curso à estupidez do “bolsa-esmola” e centravam as críticas na “ausência de portas de saída”. Coisa de gênio.

Como resultado da abordagem, hoje o PSDB precisa gastar preciosos tempo e energia para negar que vá acabar com o Bolsa Família, ou restringi-lo. Já o PT, confortável na sua imagem solidamente construída de distribuidor de renda, dá-se ao luxo de dizer que a prioridade no próximo período será reduzir a importância dos programas sociais à medida que forem crescendo as oportunidades de trabalho. É lógico, mas o PSDB teria mais dificuldade para dizê-lo, considerada a duvidosa reputação que construiu para si nos últimos sete anos.

Daí que no seu 30o. aniversário o PT esteja a operar talvez a mais radical guinada estratégica, desde 1980, sem que isso implique risco real de perda de substância. Na prática, o PT irá trocar definitivamente o socialismo pelo capitalismo de estado, com todas as consequências. Na economia e na política. O socialismo restará como objeto de desejo, cultuado ritualmente e relegado a um futuro intangível. Na vida real, o PT migra para o nacional-desenvolvimentismo como etapa política bem demarcada -e sem data para acabar.

Mais por precisão do que por boniteza, diria Guimarães Rosa. Para manter-se no poder, agora e mais adiante, o PT sabe que precisa acenar com a ruptura de um modelo de baixos crescimento e investimento. Até porque nos próximos quatro anos não haverá Lula no Planalto a hipnotizar a galera com discursos diários e a fantástica habilidade de combinar, no mesmo recado, vitimização e liderança. Nem é possível expandir indefinidamente o custeio da máquina pública.

Agora, com Dilma Rousseff (o PT nem pensa em perder a eleição), a sigla de Lula vai precisar mais que nunca da voracidade do grande capital “amigo”-inclusive agrário- em sua busca de reprodução e acumulação. E oferecerá a ele a proteção e a sociedade estatais.

É uma operação política que não se dá sem tensões, sem algum choro e ranger de dentes. Quem ainda se lembra de algo chamado “orçamento participativo”? Também por isso, é preciso oferecer compensações para o conforto espiritual. E elas vêm na forma, por exemplo, de um Programa Nacional de Direitos Humanos. Que cumpre dupla função: exibe a renovação retórica do compromisso com certas transformações e, convenientemente, desloca-as para uma esfera quase “comportamental”, bem longe da polarização crua entre o capital e o trabalho. E serve também de instrumento de pressão. “Só nós podemos evitar o radicalismo. Então nos apoiem.”

Maria Antonieta

O Brasil propõe que o álcool de cana seja um combustível global, mas o governo Lula não consegue se organizar nem para atender o mercado interno.

Lá atrás, a escassez de demanda de etanol e o excesso de estoques levaram os empresários a migrar para o açúcar, de preços mais atrativos. Aí começou a faltar álcool e o preço subiu. Aí a turma começou a colocar mais gasolina e menos etanol no tanque. E agora o Brasil pode ter que importar gasolina.

Talvez nos falte uma Maria Antonieta. “Não tem álcool? Ora, por que não abastecem o tanque do carro com açúcar?”

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Jogo do Poder com Kátia Abreu (17/02)



A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), é a entrevistada desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Danielle Santos, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Teatro do absurdo (12/02)

Nesta crise do DF, o STJ e o Ministério Público vêm preencher o vácuo e corrigir uma grave disfunção dos mecanismos democráticos de controle a que todos os Poderes devem, em teoria, estar submetidos

Ao decretar ontem a prisão de José Roberto Arruda (ex-DEM), o STJ deu mais um passo para a definitiva remoção dele da chefia do Governo do Distrito Federal (GDF). É a lógica dos acontecimentos. Em dezembro, após a Polícia Federal desencadear a Operação Caixa de Pandora, opinei (“Brasília agradecerá”) que o mais razoável seria todos os envolvidos, sem exceção, deixarem os cargos. Para que Brasília retornasse à normalidade institucional dentro da lei.

Não aconteceu, e desde então o DF vive uma modalidade de teatro do absurdo. Formalmente há um governador que governa e uma Câmara Legislativa em funcionamento. Na prática, o poder local deixou de existir. Arruda está concentrado em sobreviver politicamente, em defender o que lhe resta, enquanto a maioria dos deputados distritais, aliados do governador, cuidam de evitar que prospere o processo no Legislativo. O resultado é um Distrito Federal acéfalo, bem na época em que deveria festejar com alegria e solenidade seu meio século de vida.

Por mais evidentes que sejam as evidências, e mesmo as provas, é justo que todos os acusados tenham a presunção da inocência até a última instância da Justiça. O problema é que a política e a administração não esperam por decisões judiciais definitivas, por sentenças transitadas em julgado. São ritmos completamente distintos. Mais ainda quando o governante perdeu todas as condições de continuar na função.

Quem escolheu a vida política não tem o direito de alegar que desconhecia esse detalhe. Ela é atividade de alto risco, e quando se entra no jogo aceita-se também correr os riscos.

Nesta crise do Distrito Federal, o STJ e o Ministério Público vêm preencher o vácuo e corrigir uma grave disfunção dos mecanismos democráticos de controle a que todos os poderes devem, em teoria, estar submetidos. A remoção do governador caberia à Câmara Legislativa, mas há ali uma maioria que, aliada ao situacionismo, não mostra as condições e a independência para dar o passo necessário. Sobram então os juízes e os procuradores.

É o que se chama de “judicialização”, mas para o bem. Pelo menos parece haver luz no fim do túnel. Já pelo ângulo das sombras, a crise no GDF é o ponto culminante de uma tendência recente, de completo descolamento entre a atividade política e os fins a que deveria estar voltada. Entre o que faz o eleito e a vontade expressa do eleitor. É como se a política tivesse se tornado uma dança autônoma, fora do controle da sociedade.

As garantias democráticas da Constituição e demais leis servindo de boia para políticos fugirem da inevitável prestação de contas ao cidadão. Situação perigosa para o Estado de Direito.

Inútil correr

O PSDB envereda pelo caminho de desqualificar Dilma Rousseff. Se persistir nele, é certo que quebrará a cara. Todos os principais candidatos a presidente são políticos qualificados. Têm experiências políticas e administrativas distintas, e só. Ninguém chega a uma candidatura presidencial por um grande partido, ou um grande movimento (caso de Marina Silva), sem antes passar por testes duríssimos.

Outro mito espalhado na praça é que Dilma foi imposta goela abaixo ao PT por Luiz Inácio Lula da Silva. É só uma parte da verdade. A explicação inteira deve incluir que o PT gosta de Dilma, por duas razões básicas: o partido a vê à esquerda de Lula e acredita que terá sobre ela uma ascendência maior do que tem hoje sobre ele.

Essa segunda hipótese precisará ser comprovada na prática, caso a ministra da Casa Civil vença a eleição. De todo jeito, PT e aliados estão confortáveis com Dilma na corrida presidencial. Não estariam se a vissem como alguém frágil, sem personalidade.

E uma última observação. Dilma já mostrou que se sai bem em situações marcadas por alta taxa de agressividade na disputa. Foi assim, por exemplo, no confronto verbal com o senador José Agripino (DEM-RN), quando teve que ir ao Congresso falar sobre o dossiê.

A oposição dá a impressão de tergiversar para fugir do debate programático. É inútil, porque alguma hora ela terá que dizer o que vai fazer se chegar ao governo do Brasil.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (12) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Elípticas nucleares (11/02)

O Brasil por acaso acredita que a nuclearização do Irã abriria espaço para o colapso do tratado de não proliferação, permitindo-nos avançar no domínio da tecnologia para fins militares?

Chegou a hora de o governo brasileiro esclarecer sua posição sobre se convém ao mundo o Irã possuir armas nucleares. Se a resposta é “não”, basta dizer. Se é “sim”, a coisa pode ser afirmada até com mais sutileza, só reforçando o direito de todas as nações à soberania nesse campo. Então, com tudo esclarecido, vai ser possível debater onde afinal entra o interesse brasileiro na história.

Até agora é um tema conduzido elipticamente pela nossa diplomacia e pelo presidente da República. O mais importante é omitido. E talvez não pudesse ser mesmo de outro jeito. Oficialmente, o Brasil rejeita que as pressões sobre o Irã cheguem ao limite das sanções. Defende o diálogo.

Ótimo. Mas diálogo com que objetivo? Isso não está claro.

Luiz Inácio Lula da Silva tem dito também, direta ou obliquamente, ele próprio ou pela palavra de outros, que países já atômicos não devem meter o bedelho na vida alheia, pois lhes faltaria moral para tanto. É uma defesa do “sim” como resposta à questão que abre esta coluna, e exatamente com o argumento da soberania.

Talvez o governo brasileiro acredite que um Irã nuclear é necessário para desbloquear a emergência do Estado palestino, sem pré-condições impostas por Israel ou pelos Estados Unidos. É a posição, entre outros, do Hamas e do Hezbollah. Mas enfrenta feroz resistência entre a ampla maioria dos árabes, pois daria a Teerã a vantagem estratégica capaz de desequilibrar o jogo na região. Possivelmente Israel teria como defender-se no novo contexto. Os outros vizinhos do Irã, não.

Talvez o Itamaraty considere que um arsenal nuclear iraniano poderia enfraquecer a posição relativa dos Estados Unidos no Oriente Médio, abrindo espaço ao Brasil como potência planetária emergente, ainda mais por sermos interlocutor privilegiado daquela república islâmica.

O governo Lula tem insistido para ser convidado à mesa nas discussões (hoje bloqueadas) entre israelenses e palestinos, mas nosso poder de fogo é relativo, menor ainda que o da Europa. Quem dá as cartas na barafunda levantina são os Estados Unidos, a Rússia e Israel. Possivelmente pela superioridade militar.

O Brasil por acaso acredita que a nuclearização do Irã abriria espaço para o colapso do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, de que somos signatários, permitindo-nos avançar no domínio da tecnologia para fins militares? A pergunta é um pouco longa mas necessária. É isso? Nós queremos ter a bomba? O governo está em busca de motivos, ou pretextos, para tomar as providências jurídicas e materiais para tal?

Para que nós precisaríamos mesmo da bomba? Para construir uma hegemonia hemisférica à margem da área de influência dos Estados Unidos? Pois para atacar a Argentina é que não vai ser. Não temos qualquer contencioso com ela ou outros vizinhos. Pelo menos não contenciosos que demandem solução militar. E, se um dia possuirmos artefatos nucleares, certamente os colegas da América do Sul correrão a neutralizar a vantagem brasileira. O que poderia se dar por dois caminhos. Eles próprios possuindo a bomba ou então permitindo aos Estados Unidos uma presença de dissuasão aqui ao lado.

A América do Sul é um continente privilegiado, livre do terrorismo e de todo tipo de arma de destruição em massa. É o cenário perfeito para a expansão de um “soft power” como o Brasil, baseado na pujança relativa da economia, na proximidade da língua, na nossa herança histórica desprovida de ímpetos coloniais.

Será o caso de mudar a abordagem? Se for, o governo poderia explicar por quê?

Solto

O Banco Central ajudou a colocar lenha na fogueira para o real perder um tanto de valor. Mas se houvesse ameaça inflacionária o BC não estaria fazendo isso, não deixaria o dólar correr solto.

É reconfortante a tranquilidade do BC em relação ao dólar. É o maior sintoma de que não há qualquer motivo razoável para subir os juros.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (11) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Jogo do Poder com Gilberto Carvalho (10/02)



O chefe de gabinete do presidente da República, Gilberto Carvalho, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Ilimar Franco, de O Globo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Demonização em excesso (10/02)

O político pode dar-se ao luxo inclusive de arrepender-se. Desde, é claro, que o arrependimento não implique abrir mão do que conquistou com os meios dos quais agora se arrepende

Um lance arriscado na política é pintar o adversário como algo mais defeituoso do que é. Não há artilharia de marketing que dispense, alguma hora, o uso da infantaria da informação, dos argumentos. Por isso, a longa e maciça campanha do PT para carimbar o governo Fernando Henrique Cardoso como um desastre deverá em certo momento voltar-se contra o criador.

FHC fez um governo com erros e acertos. Talvez mais acertos do que erros. Luiz Inácio Lula da Silva faz um governo melhor que o do antecessor, mas as comparações objetivas não são assim tão contrastantes, tão revolucionárias. O tucano fez privatizações bem criticáveis, como a da Vale, mas o PT no poder não reestatizou a empresa. Nem a candidata do PT diz que vai fazer isso.

A verdade é que o Brasil vem progredindo por etapas, mais rápido ou mais devagar, em especial desde a Revolução de 1930. A obra de cada presidente ergue-se sobre a herança dos anteriores. Depois de Getúlio Vargas é complicado dizer que algum tenha promovido rupturas. Talvez esse gradualismo tenha a ver com o desejo de não terem o destino do gaúcho.

Um americano, Seth Godin, relançou ano passado seu livro "All the Marketers are Liars" para reafirmar que, na opinião dele, todos os marqueteiros são mentirosos. E que o melhor marketing é a autenticidade. O exemplo recente seria Barack Obama (isso digo eu). É o político mais autêntico e transparente disponível, entre os planetariamente conhecidos.

Deu certo na campanha presidencial nos Estados Unidos, mas ainda está por dar certo no governo. A oposição republicana parece discordar radicalmente de Godin. Não propriamente no título do livro, mas na conclusão.

O PT também foi a seu tempo vítima do catastrofismo e da deturpação. Hoje recolhe os frutos de terem falhado os profetas do apocalipse. Diziam tantas barbaridades do que seria um eventual governo federal do PT que quando ele chegou ao poder a surpresa acabou sendo positiva. Aconteceu em 2003, mas teria acontecido antes, caso Lula tivesse subido antes a rampa do Planalto. A regra nos governos locais do PT pré-2002 sempre foi responsabilidade fiscal, gestão equilibrada da máquina pública e foco em benefícios estatais para os pobres. Como é agora em Brasília.

Em São Paulo, aliás, a administração Luiza Erundina (1989-92) acabou sendo tão austera que ela nunca mais conseguiu se eleger para um cargo executivo. Não foi só isso, mas teve a ver.

Prestar atenção excessiva ao que os políticos dizem em público uns dos outros é desperdício de tempo e energia. Nesse campo eles dão razão a Godin, pois mentem de modo compulsivo. O cálculo é simples: quanto mais o sujeito puder atrasar a consciência sobre a realidade dos fatos, melhor.

Se tiver sorte, na hora em que a ficha coletiva cair ele já estará sentado na ambicionada cadeira, e daí passará a administrar em posição de força o fato de ter mistificado no passado. Em geral não é tão difícil assim, pois o público quase tudo perdoa, se as coisas estiverem dando certo.

O político poderá dar-se ao luxo inclusive de arrepender-se . Desde, é claro, que o arrependimento não implique abrir mão do que conquistou com os meios dos quais agora se arrepende.

Por que FHC decidiu escrever o artigo do fim de semana em que se diz disponível para comparações entre o governo dele e o de Lula? Só ele poderá esclarecer. De qualquer modo, por mais desvantagem que o tucano leve, os números serão incapazes de chancelar a demonização promovida pelo PT e pelo governo ao longo destes sete anos. Assim, quando alguma racionalidade acabar introduzida no debate, é possível que FHC e o PSDB colham dividendos político-eleitorais.

A tática do PT é cartesiana. Como os números de Lula são melhores que os de FHC, não vale a pena promover uma volta ao passado. Simples de comunicar, mas não impossível de desconstruir. José Serra não é um fantoche de FHC, assim como Dilma está a anos-luz de ser um marionete de Lula.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (10) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Na hora e no lugar certos (09/02)

Com uma parte da elite desconfiada de que o PSDB vai enfiar os pés pelas mãos, as antenas começam a rastrear. Onde encontrar guarida para as demandas não propriamente petistas? Onde buscar proteção contra o jacobinismo? No PMDB, ora

Existe abundante material de análise sobre dois atributos do PMDB, pelo ângulo do desejo petista de continuar no poder. Nada a acrescentar sobre a importância do tempo de TV para a campanha, nem sobre o papel estabilizador na formação e manutenção da base parlamentar. Mas, da maneira como o quadro se desenha, talvez tão importante quanto venha a ser o PMDB no equilíbrio social e político (extraparlamentar) de um eventual governo Dilma Rousseff.

O desastrado — ainda que sincero — Programa Nacional de Direitos Humanos, por exemplo, reacendeu em segmentos da sociedade (Igreja, imprensa, Forças Armadas, agricultura) dúvidas sobre as convicções democráticas do PT. Vejam que não discuto aqui se o PT as tem. Discuto as percepções.

Com o PNDH, o PT marcou um ponto na turma fiel e espiritualmente radicalizada. Reendossou, no plano ritual, uma certa utopia basista. Foi como se o Copom, de pé, cantasse a “Internacional” antes de se reunir para, seguindo o hábito, proteger a rentabilidade dos bancos. O problema é que o PNDH abriu larga frente de contenciosos e desconfianças. Talvez na contabilidade eleitoral faça sentido, mas uma coisa é eleger-se, outra é governar. Quem elege é o povo, mas quem pode impedir de governar é a elite.

Daí por que o PMDB talvez esteja diante da maior oportunidade histórica desde quando elegeu Tancredo Neves, no colégio eleitoral em 1985. Vai a caminho de consolidar-se como força política decisiva, e não apenas no parlamento. Se o PT (o PT, não Luiz Inácio Lula da Silva) é incapaz de construir uma hegemonia político-ideológica que deixe confortável o conjunto da sociedade, e se o PSDB não consegue apresentar ao país um líder, um ideário ou um discurso, o nacionalismo diluído e a história antiditatorial do PMDB podem colocar-se como o seguro necessário para a democracia representativa, a economia de mercado e o estado de direito.

Uma certa opinião pública, nascida na segunda metade dos anos 1980 e cultivada nas campanhas “pela ética na política”, movimentos que viram a ascensão do PSDB e do PT como paradigmas de modernidade e pureza, acostumou-se a desprezar o PMDB, desde sempre apresentado como a personificação do atraso. Mas tucanos e petistas chegaram ao poder, os escândalos se espalharam por todo o espectro e o lacerdismo tardio deixou de ter força material. Ainda que, como toda construção ideológica, resista no plano imaginário ou no do simples entretenimento intelectual.

O jogo hoje em dia é outro. Com uma parte da elite desconfiada de que o PSDB vai mesmo enfiar os pés pelas mãos, as antenas começam a rastrear possíveis caminhos para a relação com o poder a partir de 2011. E onde encontrar guarida para as demandas não propriamente petistas? Onde, sem Luiz Inácio Lula da Silva em palácio, buscar proteção contra o jacobinismo? Obviamente que no PMDB, o fiel da balança.

Para os peemedebistas, é o “estar no lugar certo, na hora certa”.

Nunca antes na história deste país viu-se o PMDB tão unido. Não é sem motivo.

Claro que Dilma poderia embaralhar o script, sendo ela própria o pós-Lula. Mas esse é um capítulo ainda por escrever. E é preciso saber se o PT vai deixar.

Piada de francês

O agente secreto de certo país europeu (não digo qual é, para não ser politicamente incorreto) desembarca no Tom Jobim, recolhe a bagagem, entra no táxi. E fica em silêncio. Até que o profissional ao volante finalmente faz a pergunta de praxe:

— Para onde vamos, senhor?

A resposta vem na hora:

— Você não acha que está a fazer perguntas demais?

A piada é velha, eu não tenho talento para contar piadas, mas ela serve para ilustrar o comportamento dos governos brasileiro e francês quando questionados por que os negócios militares entre ambos são tão caros, tão mais caros do que o habitual.

A expressão da moda é “interesse estratégico”. Que pode significar qualquer coisa, até mesmo coisa nenhuma. Adequado seria se o país ficasse sabendo de quem é o interesse estratégico e qual o tamanho dele. Mas anda muito difícil hoje em dia em Brasília achar um político que esteja disposto a colocar a mão nessa cumbuca, a destampar o caldeirão.

Talvez o patriotismo esteja mesmo em alta na capital. Ou talvez haja muitos interesses estratégicos contemplados.

Coluna (nas entrelinhas) publicada nesta terça (09) no Correio Braziliense.

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

@AlonFe no Twitter (07/02)

Meu twitter mudou. Agora é @AlonFe.

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Cortina de fumaça (07/02)

Quando na política alguém se fixa demais em questões metodológicas, é invariavelmente sintoma de dificuldades políticas. A oposição diz que Dilma cresce por estar em campanha antes da hora. Será?

Já tratei aqui da inutilidade de debater a “campanha eleitoral antecipada”. Primeiro, não há como determinar precisamente o dia em que a corrida por um cargo eletivo vai começar. Até porque esse tipo de corrida é perene. Segundo, não há uma linha demarcatória definitiva entre o “administrativo” e o “político”.

Desafio qualquer jurista a redigir um texto que deixe resolvida, para todas as situações razoáveis, a diferença entre essas duas esferas da atividade pública.

A lei pode proibir liberação de verba a certo prazo da eleição. Pode proibir uso de recursos públicos em eventos eleitorais oficiais. Pode proibir alguém de se dizer candidato “antes da hora”. Mas não há regra que consiga anular a política. É fisicamente impossível. Algo como querer chegar ao zero absoluto, a completa dormência da matéria.

Aliás, no afã de regular (somos bons nisso, agradeçamos aos portugueses), produz-se uma contradição destrutiva. Se existe certo dia antes do qual a campanha eleitoral “ainda não começou”, não há como acusar o governo, qualquer governo, de fazer proselitismo eleitoral antes do dia. Tomados alguns cuidados formais, o governante poderá trafegar à vontade. E, assim, a lei acaba produzindo resultado contrário ao desejado. Bingo.

Quando na política alguém se fixa demais em questões metodológicas, é invariavelmente sintoma de dificuldades políticas. No discurso oficial do PSDB Dilma Rousseff está em ascensão porque subiu no palanque prematuramente. Na realidade crua, a diferença entre as duas situações, do PT e da oposição, não é essa.

Dilma tem estrada livre para trafegar porque os principais problemas políticos no campo dela estão solucionados, ou a caminho de uma solução razoável. E ela tem um discurso.

Já a coligação PSDB-DEM-PPS está enrolada por não ter resolvido a equação entre São Paulo e Minas Gerais. Se resolveu, ainda não achou o jeito de contar que resolveu. O que no final das contas dá na mesma. E, pior, ainda não encontrou o discurso para enfrentar o PT. Se encontrou, ainda não parece ter chegado o dia de revelá-lo aos mortais. O que no final das contas também dá na mesma.

O governo e sua candidata têm outro trunfo: o líder. Luiz Inácio Lula da Silva é um ponto de aglutinação, um ímã. Especialmente quando todas as projeções apostam que ele chegará forte em outubro. Já a oposição tem mais de um líder. Como a política não se confunde com a matemática, aqui um é sempre maior (melhor) que dois, ou três. Quem tem mais de um líder não tem nenhum.

Parece faltar na oposição alguém que os demais tenham receio de enfrentar. Enquanto não aparece, recorre-se à cortina de fumaça.

Marina

É bom ficar de olho em Marina Silva. Seu programa de televisão quinta-feira foi muito bom. Obedeceu a um mandamento vital: autenticidade. Políticos falando no horário eleitoral (ou partidário) dão sempre a ideia de estarem lendo um texto escrito por outros. Parecem fantoches. Marina não. Ela consegue evitar o incômodo (para o telespectador).

Na era da informação abundante e disseminada, a tendência é o marketing eleitoral ser substituído pelo jornalismo. Tem que ter a musiquinha, a lagriminha, mas o central é conhecer o candidato em situação verídica. Olho no olho. É por sinal um combustível de Lula. Você pode concordar ou discordar, mas ele dá a impressão de acreditar no que diz. Mesmo quando diz uma coisa hoje e outra diferente amanhã.

E tem a questão técnica. Se o público estivesse só atrás de apuro técnico, a TV aberta não estaria tendo que trazer o YouTube para a programação. O público quer menos burilação e mais conteúdo.

A conta do almoço

A crise na periferia da Europa é simples de explicar. Não existe almoço grátis. Os países endividaram-se para brecar o colapso depois de setembro de 2008 e uma hora a conta iria chegar.

Pior, para nós, é que junto vem uma nova rodada de queda nos preços da commodities. Assim, a fraqueza do comércio se soma vetorialmente à covardia do capital em momento de incerteza.

Qual é a nossa situação? Dependendo de dinheiro dos outros para fechar nossas contas externas e pendurados cada vez mais na exportação de commodities.

Se eu fosse Lula, estaria de dedos cruzados para a coisa só complicar mesmo em 2011.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (07)no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Uma conversa mais "americana" (04/02)

Thomas Shannon procurou apresentar-se como pragmático. Disse perseguir uma “diplomacia de resultados”. Na teoria, faz sentido. Na prática, é preciso saber o que os EUA têm para entregar

O novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, assume o cargo num cenário desafiador. O Brasil cresce em importância estratégica para os interesses americanos na esfera regional, e mesmo global, mas a tendência recente é acumularem-se contenciosos. De Honduras ao Irã, da Rodada Doha ao papel do G20 na reforma do sistema financeiro, a regra nos últimos tempos é a dissonância.

Especialmente porque nas últimas disputas a balança tem pendido para eles, e não para nós. Isso embute um custo político, quando evidencia a assimetria entre o papel que o Brasil julga reservado para si e a falta dos meios para fazer valer nossas posições. Um capital interno muito explorado por Luiz Inácio Lula da Silva é a altivez diante das outras nações, inclusive das potências. Mas, se a altivez não traz resultados práticos, o efeito político aqui pode ser contrário ao desejado.

Com Lula, o Brasil entrou para valer no jogo, e quem está em campo deve estar também preparado para qualquer placar. Não dá para colocar nos Estados Unidos a culpa pelos nossos tropeços. Até porque ou nos enxergamos como jogador pleno ou pedimos para voltar aos juniores, aos tempos em que lançávamos nos outros a responsabilidade pelas nossas derrotas. Não dá para querer ser, ao mesmo tempo, protagonista e coitadinho.

Em entrevista ontem após reunir-se com Lula, Shannon mostrou querer contornar as diferenças e disse apostar nos pontos em comum. Procurou circunscrever ao âmbito comercial a concorrência para a compra dos novos caças da FAB. Ressaltou mais de uma vez que Suécia e França (os outros dois concorrentes) são aliados e amigos dos Estados Unidos. Em relação ao Irã, lembrou que o Brasil, como país soberano, não precisa de autorização alheia para conversar com quem quer que seja.

Sobre Honduras, disse ter esperança que a eleição do novo presidente tenha representado um ponto nodal para a normalização das relações hemisféricas, sem criticar a resistência brasileira à transição institucional ali apoiada por Washington.

Sobre um tema mais delicado, a Venezuela, arriscou-se um pouco além. Sugeriu ao governo de Hugo Chávez que evite reprimir as manifestações da oposição, ao opinar que nas crises políticas os espaços de liberdade podem servir para encontrar as saídas menos traumáticas.

Na sua chegada ao Brasil, Shannon procurou apresentar-se como pragmático. Disse perseguir uma “diplomacia de resultados”, baseada em fatos e não em debates ideológicos. Na teoria, faz sentido. Na prática, já que se trata de medir eficácia, é preciso saber o que os Estados Unidos têm para entregar.

Os americanos vão aceitar, como quer o Brasil, uma influência decisiva do G20 no redesenho das regulações financeiras globais? Vão aliviar a pressão para que os maiores países emergentes definam metas draconianas na emissão dos gases do efeito-estufa? Vão investir na ressurreição da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio? Vão suspender o bloqueio a Cuba? E, finalmente, vão topar abrir de vez o mercado deles ao nosso etanol?

Neste ponto, Shannon foi mais do que cauteloso. O Senado americano vinha bloqueando sua confirmação exatamente pelo temor de que os Estados Unidos reduzissem as barreiras ao biocombustível de cana. Aqui, não parece haver luz no fim do túnel protecionista.

São todos assuntos para o embaixador quebrar a cabeça. Mas em pelo menos um caso as diferenças do Brasil com os Estados Unidos são insolúveis, incontornáveis. Entre os principais dirigentes mundiais, Barack Obama é o único que não precisa de uma foto sorridente ao lado de Lula para obter certificado de “progressista”. Na prática, Lula nada agrega politicamente a Obama. Diferente da situação de George W. Bush, que cultivava sua amizade com o presidente brasileiro como antídoto à imagem complicada que sabia ter em escala planetária.

Também por isso, digamos que as relações e as conversas entre os dois países e os dois presidentes tenham entrado numa fase mais igual, mais objetiva, mais “americana”. Não era isso, aliás, que o Brasil queria?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (05) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Uma bela sociedade (04/02)

O PT protestava nos anos 90 contra a interdição do debate econômico. Hoje quem interdita o debate é o PT, em aliança com os mesmos vendedores de ilusões do primeiro mandato de FHC. Uns lutam para manter as posições de poder. Outros, os lucros

Ciro Gomes e o PSB experimentam as vicissitudes de um projeto político que não se encaixa no do presidente da República. O script é velho e repetido. Vazam do palácio as manifestações de “carinho”, "apreço” e "consideração” de Luiz Inácio Lula da Silva pelo sonhador da vez. Pode haver até "gratidão” e, no limite, um “apoio”, que nunca se materializa. Enquanto isso, é colocada para rodar a máquina de moer outros sonhos que não os de sua excelência.

Resistirão Ciro e o PSB à blitzkrieg do Planalto? Um vetor da operação política palaciana nos últimos meses tem trabalhado para desidratar quaisquer possíveis alianças do eventual candidato socialista. A razão é sabida. O PT temia que Ciro, podendo apresentar-se como alguém do “campo lulista”, acabasse tomando o lugar de Dilma Rousseff na polarização.

Como me disse um deputado do PT-SP no fim do ano passado. "O problema do Ciro é encarnar melhor que Dilma o espírito do confronto com os tucanos. Num ambiente de disputa feroz, ele estaria mais à vontade do que ela."

Mas esses são assuntos de Ciro, do PSB, do PT e das relações mútuas. Que resolvam como acharem melhor.

E o distinto público, teria algo a ganhar com a entrada do deputado e ex-ministro na corrida? Teria sim. E muito. A começar pela desinterdição de certa agenda, a do não financismo. O PT ameaça agitar na campanha a ameaça de que o PSDB vai “mexer na economia”. Dado que os tucanos passarão os próximos meses lutando para escapar da excomunhão do mercado, por que não abrir espaço para alguém disposto a assumir o risco político de dizer que vai alterar o que precisa ser alterado?

O PT protestava nos anos 90 contra o que chamava de interdição do debate econômico. Criticou especialmente a cortina de fumaça erguida em 1998, com a colaboração da imprensa, para mascarar as fragilidades da economia na véspera da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Hoje quem interdita o debate é o PT, em aliança com os mesmos vendedores de ilusões do primeiro mandato de FHC. Uns lutam para manter as posições de poder. Outros, os lucros. Uma bela e rentável sociedade.

Com um agravante: FHC pelo menos tinha o argumento de que precisava da âncora cambial para quebrar a espinha da inflação inercial. Agora, nem isso.

Um sintoma do ambiente é a presença de Henrique Meirelles na lista de possíveis vices de Dilma. O presidente do BC, aliás, está em plena campanha, cuidando de produzir factoides para distrair, enquanto protege os juros altos. O alvo agora são os bônus dos executivos de bancos. Mas não deixa de fazer algum sentido. Em ambos os casos, ao propor conter os bônus e ao colocar lenha na fogueira dos juros, zela em primeiro lugar pelos dividendos dos acionistas das instituições financeiras.

A projeção realista do déficit nas transações com o exterior este ano corresponde a um quarto das nossas reservas internacionais. A conta vai fechar por causa dos investimentos diretos, que o governo espertamente chama de “produtivos”. Como se o dinheiro nas bolsas carregasse automaticamente esse rótulo. Como se não fosse um maravilhoso negócio captar dinheiro lá fora para gerar aqui dentro receitas não operacionais.

Esta semana, a produção industrial de 2009 confirmou-se desastrosa. Talvez no fim de 2010 a indústria volte ao nível de 2008. Mas há por acaso alguém estrategicamente preocupado com a indústria, com as exportações, com a geração acelerada de empregos? No establishment econômico e político, pelo jeito ninguém. Para que se ocupar disso se o dólar barato funciona como anestesia? Se coloca mais comida na mesa do pobre, garante as viagens e os gastos da classe média no exterior e alivia a vida de todo mundo que precisa importar?

Nesse ambiente, ideal para o petismo será enfrentar adversários manietados pela necessidade de defender a administração FHC. O PT poderá desfilar na campanha como o partido da "ruptura com a herança maldita”, enquanto cultiva a continuidade do que ela tem de pior.

Ciro Gomes, assim como Roberto Requião (PMDB), representaria pelo menos a possibilidade de discutir esses temas. Suas dificuldades políticas são um retrato da miséria do debate político e intelectual hoje em dia no Brasil.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (04) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Jogo do Poder com Reinhold Stephanes (03/02)



O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Bernardo Mello Franco, de O Globo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Otimismo nacional, angústia estadual (03/02)

O PT vai dividir Lula e Dilma com o PMDB e demais partidos da base, o PT não tem capilaridade compatível com o projeto de poder nacional e enfrenta fortes máquinas tucanas nos maiores estados

Ontem em Brasília, na reabertura do Legislativo, era de notar algum descompasso entre duas percepções no PT. Otimismo nacional e angústia nos estados. Otimismo explicável, dado o crescimento de Dilma Rousseff nas pesquisas. Angústia também, pelo vácuo de candidaturas competitivas próprias para governador.

Com a eleição de deputado federal e senador circunscrita a cada estado, uma cabeça regional fraca pode enfraquecer o corpo, afetando negativamente o resultado final na Câmara e no Senado.

Os petistas da planície querem muito eleger Dilma, mas desejam também — e muito — preservar os próprios mandatos. Resta pouca dúvida de que Luiz Inácio Lula da Silva conseguirá alavancar sua candidata para posição fortemente competitiva. Mas não existe a mesma certeza se a onda vai levar de arrasto a massa do partido.

Ao longo destas três décadas, o PT desenvolveu uma tecnologia bem própria para crescer a cada eleição. Postulações a cargos majoritários, mesmo sem chances iniciais de vitória, serviam para martelar o 13 na cabeça do eleitor. Daí que durante algum tempo a sigla tenha colhido votos de legenda em volume relativamente maior do que os concorrentes. E havia o monopólio de Lula.

Era o tempo do partido “diferente de tudo que está aí”. O PT beneficiava-se ainda do cidadão 100% alinhado, que entrava na cabine para votar nele de ponta a ponta, independentemente dos nomes.

Mas não existe mesmo almoço grátis, e com o poder veio a necessidade de adaptar-se a um novo ecossistema. A fúria militante diluiu-se no pragmatismo e as necessárias alianças acabaram impedindo o partido de abocanhar espaço político suficiente para compensar essa diluição. Até porque os novos aliados possuem mais expertise nas modalidades de operação político-eleitoral a partir da máquina.

Com a lista aberta e o voto uninominal, o candidato a deputado federal precisa de boas dobradas com candidatos a deputado estadual, precisa de prefeitos. Uma maneira de conseguir é adotando a política do “trem-pagador”, bancar as campanhas dos parceiros. Alternativa cada vez mais arriscada, pelos limites progressivamente restritivos da lei eleitoral e pela crescente eficácia da Justiça.

Outro jeito, mais institucional, é tecer uma rede de apoios a partir da execução orçamentária. O PT tem o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas ele é repartido com os aliados, especialmente com o PMDB. E a oposição também dispõe de orçamento nos estados, pois governa os maiores. É um jogo relativamente equilibrado.

Daí a necessidade de bons puxadores de voto, tanto dentro das chapas legislativas quanto nas disputas de governador e senador. Aqui levam vantagem os candidatos proporcionais do partido que encabeça a coligação, já que esta adota o número da legenda líder.

Nos estados em que o PT vai apoiar, por exemplo, o PMDB (15) para governador, não haverá como impedir que o eleitor tenda a repetir o 15 se desejar votar não em candidato mas em sigla para Assembleia Legislativa ou Câmara dos Deputados. É um fenômeno quase natural.

O PT vai dividir Lula e Dilma com o PMDB e demais partidos da base, o PT não tem capilaridade compatível com o projeto de poder nacional e ainda por cima enfrenta fortes máquinas tucanas nos maiores estados. Não é uma situação confortável.

Qual é a vantagem competitiva do petismo? Todas as pesquisas mostram o partido liderando na preferência popular. Os índices vão de 15% a 30%. Nenhum concorrente chega a dois dígitos. Eis por que o PT é ardoroso defensor da lista fechada, sistema em que o eleitor só vota na sigla, elegendo-se os primeiros nomes de uma relação elaborada pela direção partidária, até preencher as cadeiras conquistadas.

Seria sopa no mel para o partido de Lula. Hoje, entretanto, essa preferência teórica acaba muitas vezes neutralizada pelas circunstâncias políticas locais. É isso que teme o PT nos estados em outubro.

Menos Woodstock

Barack Obama opera um giro habitual em administrações de esquerda que irão dar certo, politicamente falando: marcha rumo ao centro. Foi assim com François Mitterand nos anos 1980 na França, entre outros.

Algo como produzir menos Woodstock e mais empregos, se é que se pode sintetizar assim.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (03) No Correio Braziliense.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Especialistas em casuísmos (02/02)

Lula está loucamente em campanha “informal” por Dilma, inaugurando qualquer rascunho de obra e falando bem de si próprio todo dia. E os líderes da oposição, estão fazendo o quê? A mesma coisa

É divertido assistir ao PSDB reclamar dia sim outro também contra a antecipação da campanha. A diversão fica por conta de um detalhe: no poder, o PT não cometeu casuísmos, não alterou uma vírgula das leis eleitorais para beneficiar-se. Nem precisou. Se o partido situacionista colhe os frutos de um arcabouço deformado e injusto, moldado para favorecer o continuísmo, deve gratidão especial ao PSDB, o verdadeiro pai da criança.

A começar da reeleição. Qual é a história dela entre nós? Depois do impeachment de Fernando Collor, a revisão constitucional acabou em fiasco. Um dos poucos temas aprovados foi reduzir o mandato presidencial de cinco para quatro anos. Quem era o favorito então para ganhar a corrida do ano seguinte? Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas vieram o Plano Real e a invencível candidatura de Fernando Henrique Cardoso. Instalados no Planalto, os tucanos trataram de continuar ali mais um quadriênio, com regras curiosas. O ocupante do Executivo pode pleitear um tempo extra na cadeira, sem precisar sair dela. Já quem o desafia é obrigado a desincompatibilizar-se.

O mesmo vale para vereadores, deputados e senadores, que podem lutar por mais um mandato sem renunciar. E têm o privilégio de concorrer com desafiantes que precisam obrigatoriamente estar desligados da máquina estatal. Não é uma beleza? Além disso, no poder os tucanos trataram de reduzir os dias reservados à campanha eleitoral no rádio e na TV.

Quando essas maravilhas foram incorporadas à legislação, o PSDB ocupava a Presidência da República e os governos dos principais estados, incluído o “Triângulo das Bermudas” da política brasileira: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Eis por que simplesmente não dá para levar a sério a choradeira.

O sistema eleitoral apresenta deformações? Sim. Há esperança de que o próximo governo tome a iniciativa de corrigi-las, para legar ao país uma moldura mais democrática? Esperança remota. Infelizmente, o aperfeiçoamento institucional não é uma preocupação dos nossos políticos. Talvez porque lhes falte tempo, ocupados que estão em espremer os miolos para encontrar o caminho da perpetuação.

“Casuísmo” é uma palavra nascida nos anos 70 do século passado, quando o regime militar alterou seguidamente as regras eleitorais para tentar evitar a chegada da oposição ao poder. No fim deu errado, porque o PMDB acabou derrotando o governo, mesmo com todos os truques. Na política, nada resiste à força da maioria. Pode levar um tempo, mas ela acaba prevalecendo.

Qual é o problema atual da oposição brasileira? É exatamente construir uma nova maioria. Ou então, por inércia, as urnas acabarão referendando a maioria que existe, e que sustenta o governo Lula. Como a oposição não parece ter a mínima ideia de por onde começar a tarefa, recorre ao formalismo. Sim, Lula está loucamente em campanha “informal” por Dilma Rousseff, inaugurando qualquer rascunho de obra e falando bem de si próprio todo dia. E os líderes da oposição, estão fazendo o quê? A mesma coisa.

Apenas, talvez, com menos competência.

Pesquisas

Em nenhum outro país as pesquisas eleitorais consomem o tanto de imprensa que lhes é dedicado no Brasil. Deve haver alguma explicação. Uma, conspiratória, é que enquanto se discutem as pesquisas não se discute o essencial: o que cada candidato quer fazer no governo.

O cenário eleitoral no Brasil é curioso. Para boa parte do eleitorado potencial da oposição (e da base social desta), o ideal a partir de 2011 seria um governo igualzinho ao de Lula, só que sem o PT. Nem é por resistência aos programas sociais, hoje consensuais por convicção ou conveniência. É mais por causa da dúvida sobre os reais compromissos estratégicos do partido com a democracia representativa e a economia de mercado. E não necessariamente nessa ordem.

Daí por que o nome de Henrique Meirelles pode agregar valor eleitoral a Dilma. Ele traria eventualmente também algum desgaste, caso a oposição decidisse colocar em debate o modelo econômico de escravidão financeira, farra cambial e baixo crescimento. Mas quem disse que a oposição está interessada em ir por aí? Ela parece mais empenhada é em vender-se como confiável à turma de sempre.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (02) no Correio Braziliense.

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