quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Jogo do Poder com Murillo de Aragão (27/01)



O cientista político e consultor Murillo de Aragão é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Tiago Pariz, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Pausa (24/01)

Viajo amanhã por razões profissionais. As colunas voltam a ser publicadas na outra terça (2).

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O futuro esmurra a porta (24/01)

É passadismo tentar restringir o fluxo de informação na rede a partir de formas orgânicas de “controle”. A tendência é outra. É a disponibilidade “universal” de canais, banda e conexões

A transmissão pelo YouTube do Teleton “Hope for Haiti Now”, sexta à noite, foi uma antevisão do futuro, em meio à tragédia do presente. Talvez o terremoto tenha convertido o destroçado Haiti num ícone das dificuldades para universalizar o progresso e o bem-estar. No outro polo, a tecnologia permite a transmissão de um show daqueles pela internet, em alta definição, com qualidade excepcional.

Assim como é apenas questão de tempo as novidades de um Fórmula 1 chegarem ao carro zero que você vai comprar na concessionária, também tem data para chegar o mundo dominado pela convergência digital, que, batida, virou chavão. O que embute um risco: de tanto ouvir falar e nunca ver, você começa a achar que ela não virá mais. Pois ela chegou aos nossos computadores e celulares na sexta. Se você não viu, perdeu.

Toda inovação tende a universalizar-se, ainda que o processo não seja linear e sem buracos na estrada. Quais os principais obstáculos à convergência: a oferta de “banda”, o canal que conduz a informação distribuída em pequenos pacotes na rede, e a disponibilidade de conexões simultâneas ao servidor. No Teleton do Haiti, a conta de ambos foi para os veículos digitais e as empresas de tecnologia, que arcaram com os custos de oferecer uma infraestrutura “ilimitada” para que tudo corresse bem.

Foi um pool gigantesco, que virou conceitualmente a rede pelo avesso. Internet é pulverização, mas na sexta o “pool” inverteu a equação. Precisou apenas de massa crítica, atingida com a mobilização em torno do Haiti.

O que isso tem a ver conosco, com a política? Tudo. Se já éramos um país com milhões de técnicos de futebol, agora, além de milhões de cientistas políticos (Lula vai transferir os votos para Dilma ou não?), nos últimos tempos universalizamos também o debate sobre a democracia na comunicação.

Aqui há um problema: nossas discussões parecem focadas no passadismo, enquanto o futuro esmurra a porta pedindo desesperadamente para entrar. O que é o passadismo? Alguém imaginar que vai restringir o fluxo de informação na rede a partir de formas orgânicas de “controle social”, de restrições. O cenário do futuro é outro. É a disponibilidade “universal” de canais, banda e conexões. É a universalização da capacidade de dizer as coisas e ser ouvido.

A polícia e a Justiça irão adaptar-se para combater o crime na nova esfera, mas fora isso —e a não ser que se esteja a falar em censura— o controle será necessariamente distribuído, pulverizado. Não vai ser refém da esfera estatal, ou paraestatal, como acontecia na época em que predominava o broadcast, a radiodifusão. Ou em que era necessário um capital volumoso para bancar os custos fixos do impresso.

Talvez uma parte, a maior parte, da energia nacional investida no tema devesse então ser canalizada para encontrar meios de prover abundância tecnológica, para baixar radicalmente os custos de distribuição digital. Quem sabe não é um bom tema para a campanha eleitoral?

Brasileiro

Escrevi no passado que a fúria legiferante produziu entre nós algumas bizarrices, entre elas o estabelecimento de data oficial para o início das campanhas eleitorais. O Resultado prático? Violência contra os pequenos, impunidade para os grandes. Bem brasileiro.

Um candidatozinho a deputado pode ser punido pelo juiz se postar no Twitter que vai concorrer. Já os detentores das máquinas estatais usam-nas à vontade para buscar o voto.

Como escreveu ontem Fernando Rodrigues na Folha de S.Paulo, melhor acabar de vez com essa cláusula. Seria uma providência para a justiça social.

Rotina

Os arrufos entre brasileiros e americanos no Haiti só surpreendem quem não conhece a tradição de relações complicadas entre aliados nas guerras. Especialmente no campo de batalha.

O caso mais famoso envolveu o general americano Dwight Eisenhower e seu colega britânico Bernard Montgomery, parceiro no desembarque na Normandia e ao longo de toda a campanha subsequente contra a Alemanha nazista na Europa Ocidental. Como acabou a história? Ambos ganharam a guerra. Que é o que interessa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (24) no Correio Braziliense,

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sábado, 23 de janeiro de 2010

Vísceras expostas (23/01)

Se o jogo da política é selvagem, por que sonegar o espetáculo ao eleitor? Não seria mais democrático a coisa correr à luz do dia?

Qual a melhor definição para "baixaria" na campanha eleitoral? Eu vou sugerir uma. Baixaria é toda afirmação para a qual o candidato não tem resposta convincente. Em situações assim, a saída normal é fazer-se de ofendido e evocar a necessidade imperiosa de voltar ao "alto nível". Ou seja, retornar aos assuntos mais confortáveis.

Se você aceitar que eu use a definição, também concordará que "baixaria" é um aspecto fundamental nas disputas políticas. É uma maneira de revelar algo que o poder (ou o candidato a tê-lo) não quer ver revelado. Daí que, para o meu gosto, campanha paradigmática seja a americana. Ali não há assuntos proibidos, pode mais quem chora menos.

Melhor assim. Há um preço a pagar, em injustiças e brutalidades morais, mas a relação custo-benefício é boa. Vale mais uma campanha eleitoral de embrulhar o estômago do que o país descobrir, depois, ter eleito um desconhecido, um farsante, um mistificador. E a coisa tem mão dupla. É bom ver o líder dissecado, mas tão importante quanto é conhecer a alma de quem acusa, de quem ataca.

Se o sujeito não tem limites antes da eleição, se recorre a qualquer coisa para tentar vencer nas urnas, como será quando chegar ao poder? Eis uma informação relevante.

Entre nós, no país do não me toques, nesta simbiose política que casa etiqueta com selvageria, valem os bons modos na superfície, o formalismo na Casa Grande. Mas só na superfície. Aí é o caso de perguntar: se o jogo da política é selvagem, por que sonegar o espetáculo ao eleitor? Ao da Senzala. Não seria mais democrático a coisa correr à luz do dia? Para que o cidadão, bem informado, possa fazer o próprio juízo?

Nos últimos dias, tucanos e petistas andaram engalfinhando-se. Sérgio Guerra escorregou na casca de banana do "vamos acabar com o PAC" e abriu espaço para a candidata do PT agitar o espantalho do retrocesso. Ao que o presidente do PSDB respondeu acusando Dilma Rousseff de não ter apreço pela verdade. Ao que o presidente da República reagiu chamando o senador pernambucano de um nome feio, por ele não reconhecer méritos no governo do PT.

As questiúnculas não importam. Que batam boca à vontade. Em meio ao mafuá, o que interessa? Saber o que o PSDB faria com as obras do Programa de Aceleração do Crescimento. E conhecer como está o PAC na vida real. Deve habitar algum ponto intermediário entre a ficção, conforme a oposição, e a maravilha desenvolvimentista, segundo o governo. Qual é esse ponto? A ministra Dilma diz a verdade sobre o PAC ou mistifica? Ou é a oposição que exagera? Independentemente disso, o que fazer para alavancar os investimentos no Brasil? Quem sabe? Se sabe, por que não se fez até agora?

O investimento público é essencial para impulsionar o crescimento sustentado da economia? Em tese, sim. Na prática, o volume de recursos orçamentários para inversão parece estar hoje no mesmo nível (baixo) em que vegetava na administração Fernando Henrique Cardoso, apesar de todas as declarações de amor do PT ao papel do Estado na economia. E daí? O que fazer?

Se o debate puder ser feito de maneira educadinha, ótimo. Mas se precisarem recorrer à baixaria para desentocá-lo, paciência. O que não dá é o presidente do PSDB deitar falação sobre o PAC num dia, para no dia seguinte engavetar o assunto a pretexto de retomar o "alto nível" da disputa.

Vale para questões programáticas, e vale também para as demais. Eleição é escolha de um líder, e o processo eleitoral é rito de passagem. Um ensaio das pressões e constrangimentos que o vencedor vai enfrentar no cargo. Quanto antes e mais duramente ele for exposto à fogueira, melhor.

Eleição não é chá das cinco. Quem se sentir ofendido, recorra à Justiça. Mas não soneguem ao eleitor a possibilidade de ver expostas as vísceras dos políticos. Conhecer esse ângulo da anatomia deles é fundamental para a democracia. E eleição é uma chance quase única de o cidadão e a cidadã terem acesso à privilegiada paisagem intestina de suas excelências.

Indiretas já

O governo de Angola aboliu a eleição direta para presidente. A medida foi votada pelo Congresso e só depende da aprovação da Corte Constitucional, uma formalidade.

O Itamaraty tem posição a respeito?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste sábado (23) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A esperteza do momento (22/01)

Em qualquer item será possível encontrar um país que vai adiante do Brasil. Bem como algum que vai lá atrás. É errado então comparar? Não

As previsões otimistas sobre a economia da China confirmaram-se: o gigante do Oriente cresceu 8,7% em 2009, recuo suave em relação aos índices de dois dígitos nos anos anteriores à crise planetária. A China toma oficialmente o lugar que o Brasil desejava e dizia guardado para si: o de primeiro país a deixar para trás a turbulência. E a locomotiva puxa os vagões, entre eles o nosso. De dedos cruzados, a humanidade torce para a máquina chinesa não soluçar.

Há entre nós um mecanismo curioso, estimulado pelas autoridades e docemente propagado pela elite. “Comparar o Brasil com a China não vale”, dadas as diferenças entre os dois países. Seria razoável, se fosse uma regra fixa. Mas quando o governo quer falar bem de si mesmo no enfrentamento da crise compara-nos, por exemplo, à Rússia, que amargou recessão brava em 2009. E também à Europa, aos Estados Unidos e ao Japão, que não sofreram tanto quanto os russos, mas vêm de um ano bem ruim.

Não deixaria de ser válido se o governo do PT aceitasse então comparações com europeus, americanos e japoneses em temas como educação, saúde, outros serviços públicos e infraestrutura. Ou com os russos em desenvolvimento científico. Mas aí não vale. Como fazer paralelos nessas questões entre o Brasil, uma nação apenas emergente, e as áreas mais desenvolvidas do globo? Seria injusto.

Eis um método. Como transformar o Brasil no melhor país do mundo, ao menos na esfera das percepções? Como criar aqui um caudal de autoestima? É fácil. Crescemos bem mais do que os russos em 2009, nossos direitos trabalhistas dão de dez nos dos chineses, nosso dinamismo econômico deixa o Japão na poeira e os estrangeiros, inclusive vindos dos países mais pobres, são muito mais bem tratados aqui do que na Europa. E apesar de a segurança pública não ir bem, esse é um problema de todos os países com graves desigualdades sociais.

Neste ponto você já percebeu que o método serve também para dizer que o Brasil é uma droga, quando for politicamente adequado. Relativamente a outros, há comparações disponíveis para atestar que nossa saúde pública é tosca, nossa educação pública idem, nosso crescimento é medíocre, nossos índices de violência urbana são de espantar, a produtividade das nossas universidades é baixa e não temos capacidade militar real de dissuasão.

Em qualquer item será possível encontrar um país que vai adiante do Brasil. Bem como algum que vai lá atrás. É errado então comparar? Não. As comparações são boas, valem como parâmetro para ver se estamos fazendo o melhor possível. Deveriam servir para estimular a superação dos limites, ajudar a avançar, para cultivar a insatisfação com nossas fraquezas, debilidades.

Deveriam. Infelizmente, o papel reservado a elas é outro. São, alternadamente, apenas pretexto para condescendência ou autoflagelação. Uma ou outra, sempre a que convier à esperteza do momento. Só depende se o esperto está no governo ou na oposição.

Nicho

O ministro Guido Mantega prevê que a economia vai crescer mais de 5% este ano. É possível que cresça mesmo. Tomara que 2010 não repita 2009, quando Mantega —já em plena crise— previu um crescimento de 4% e a economia acabou flopando.

Mas não deve haver grandes preocupações. A previsão deste ano do ministro é para valer, enquanto a do ano passado era só para distrair a plateia.

Eis um nicho de mercado a ser bem explorado pelas empresas de consultoria: dizer aos seus clientes quando o ministro da Fazenda do Brasil faz previsões em que acredita e quando ele coloca para circular informações em que sabidamente não acredita.

Vai ter gente ganhando um bom dinheiro.

A meio caminho

As recentes eleições avulsas nos estados americanos não têm sido boas para Barack Obama. A última derrota, na disputa da vaga do falecido Ted Kennedy no Senado, fez o presidente perder a maioria de três quintos na Casa.

A popularidade de Obama anda “normal” para um presidente americano a esta altura, mas ele enfrenta o desafio clássico: como manter unida e mobilizada uma base política cultivada antes na utopia e agora confrontada com a realidade do poder.

Nestes meados de primeiro mandato, Obama está um pouco como Luiz Inácio Lula da Silva à mesma altura.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (22) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O futebol da política (21/01)

A vantagem do PT é a confiança transmitida pelo técnico. Já no outro vestiário, diferente das temporadas anteriores, a ordem é ganhar ou ganhar

O ano começou quente, com as primeiras escaramuças entre PT e PSDB. O forte do petismo nesta largada eleitoral é a disciplina tática. O roteiro está bem assimilado e o time toca de ouvido. O meia nem precisa olhar para lançar: ele sabe que o atacante estará, como dizia o Capitão Coutinho, no ponto futuro. Entre os tucanos, assoma a disposição de luta, uma novidade em relação às últimas duas campanhas presidenciais.

É quase inacreditável, mas desta vez o grupo da oposição parece estar mesmo unido, fechado em torno do objetivo.

Equipe bem-treinada, comandada pelo melhor técnico do país, o PT vem sendo mais eficiente nos primeiros minutos de jogo. O PSDB deu o pontapé inicial e foi para o ataque, em entrevista do presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE). Ele disse que o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) é em boa medida ficção, e deve acabar. Disse ainda que, se for eleito, o candidato tucano vai corrigir o câmbio, para dar competitividade às exportações brasileiras e gerar mais empregos.

Fechadinho lá atrás, o PT retomou a bola e contra-atacou. A candidata Dilma Rousseff ganhou de graça o discurso “eles querem acabar com o PAC” e não desperdiçou a deixa. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, pediu aos tucanos que esclareçam como e quanto mexeriam no câmbio — um assunto sempre delicado, especialmente por causa da inflação. E o presidente da sigla, deputado federal Ricardo Berzoini (SP), acusou os adversários de “descontrolados”, antes de desafiar para o “debate programático”. Na prancheta do petismo, isso significa emparedar o PSDB na defesa do governo de Fernando Henrique Cardoso. Uma situação de jogo muito temida no vestiário da oposição.

Mas o placar continua zero a zero, com as torcidas ainda sob o impacto do resultado de outra partida, no Chile, onde o time favorito, que tinha tudo para ganhar, perdeu. Futebol é mesmo 11 contra 11, e quando menos se espera confirma a velha imagem da caixinha de surpresas.

A vantagem do PT é a confiança transmitida pelo técnico. Ele sempre foi um profissional respeitado, mas carregava alguma fama de pé-frio. Como acontecia com outro sujeito só aparentemente simplório, o Telê Santana. Depois que o professor Luiz Inácio Lula da Silva colocou duas vezes a mão na taça, as gozações, muito comuns nesse esporte, ficaram para trás. Agora o problema é outro, diametralmente oposto: o “já ganhou”. Nas entrevistas, até que os jogadores petistas dizem respeitar o adversário, mas quem conhece futebol, e frequenta o ambiente da concentração, anda com a pulga atrás da orelha.

Até porque no outro vestiário a ordem é ganhar ou ganhar. Nas temporadas anteriores houve muito estrelismo, aquela coisa de um time ter craques mas não render dentro de campo. Muita gente jogando só com o nome, com as glórias passadas. Embaixadinha em treino. Uma estrela recusando passar a bola para a outra. Fofocas e cornetagens à vontade. Jogador procurando jornalista para falar mal do companheiro. Coisa feia.

Agora mudou. Por quê? Se o desafiante amargar mais um fracasso, o terceiro consecutivo, os patrocinadores ameaçam cair fora, antecipando a aposentadoria de uma parte dos jogadores do PSDB e do Democratas, e obrigando outros a buscar um lugarzinho no banco de reservas do adversário. Ou então recomeçar do zero, talvez indo para um time pequeno. Ou mesmo para a segunda divisão. Situação chata para ex-campeões.

Falta só definir o plano de jogo, a tática. Na oposição existe quem defenda que o ataque agora é a melhor defesa, porque o adversário não é lá essas coisas. As vitórias recentes do PT? Sorte, facilitada pelas desavenças no outro vestiário. Mas há também os gatos escaldados, que preferem a estratégia da segurança, pois a partida está só no começo, ela dura 90 minutos, fora os acréscimos, e vai acabar apenas no apito final do juiz.

Será um jogo legal de ver, com audiência recorde garantida. Quem gosta de futebol certamente vai apreciar o espetáculo. Já quem é torcedor muito fanático vai ter que cuidar do estômago e, principalmente, do coração.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (21) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Jogo do Poder com Paulo Bernardo (20/01)



O ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Paulo Bernardo (PT), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Sérgio Fadul, de O Globo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Os amigos e os interesses (20/01)

No plano da solidariedade real, material, o governo do PT anda tímido. Não há sinal de que o software do poder esteja efetivamente mobilizado para levantar recursos para o Haiti

O ativismo planetário do presidente da República colocou o Brasil alguns degraus acima no jogo mundial da política. Tem um aspecto bom. Corrige a assimetria entre, de um lado, a nossa dimensão territorial, populacional e econômica e, do outro, nosso déficit de imagem e protagonismo — resultado talvez das dificuldades para superar a herança colonial. E tem uma faceta complicada, nas situações em que falta base material para sustentar a ansiedade por ser chamado para o baile.

A presença do Brasil no contingente e no comando das forças da ONU no Haiti permite agora, depois do trágico terremoto, um balanço inicial. Claro que ninguém poderia ter previsto a tragédia, só que as circunstâncias acabaram, a posteriori, por eliminar qualquer dúvida sobre a decisão de irmos para lá. Debater politicamente é sempre bom, mas inexistem hoje argumentos consistentes a sustentar que os haitianos estariam melhor sem nossas tropas.

A missão militar no Haiti vinha cumprindo bem a missão, conseguiu controlar a violência e neutralizou as gangues que detinham o poder nas comunidades mais miseráveis. Havia também movimentos iniciais para alavancar algum tipo de desenvolvimento econômico, sem o que — e o governo foi informado pelos militares — qualquer pacificação seria provisória. E desenhavam-se ainda avanços institucionais.

Este último aspecto talvez seja o mais importante. O Haiti teve uma bela luta pela independência, mas fracassou historicamente na tarefa de construir um Estado, se não democrático, pelo menos operacional. E sem poder público organizado e legítimo não há como fazer valer o interesse coletivo. O resultado desse fracasso eram, mesmo antes do terremoto, uma elite corrupta e egoísta, que produziu o maior cenário de pobreza e miséria das Américas, e um povo sem futuro.

E veio o desastre geológico. Aqui, infelizmente, fez-se notar de novo um certo descompasso entre nossa capacidade política, ou autoridade moral abstrata, e nossa eficiência operacional. Não na esfera militar, mas na civil.

O governo movimenta-se bem para defender a posição no tabuleiro. O ministro de Relações Exteriores reclamou quando sentiu que os Estados Unidos estavam tratando o Brasil de um jeito inadequado, dada a importância dos brasileiros no teatro de operações. E a autoridade e o prestígio de Luiz Inácio Lula da Silva mostram-se necessários para dar cobertura à presença de tropas americanas no Haiti. Somos um certificador de “não imperialismo”.

Mas no plano que mais importa neste curtíssimo prazo, o da solidariedade real, material, o governo do PT anda tímido. Não há sinal de que o software governamental esteja efetivamente mobilizado para levantar recursos. Os montantes divulgados correspondem a um punhadinho de emendas individuais de parlamentares. Coisinha pouca.

Quanto doaram até agora os empresários do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que de tempos em tempos vêm a Brasília bater continência para o poder? E as centrais sindicais? E as grandes empresas que fazem negócios com o governo? Não seria bacana se fossem instadas a soltar recursos para o Haiti?

Nem seria preciso muita imaginação. Bastaria usar os argumentos que as levam a desembolsar um dinheiro digno desse nome nos períodos eleitorais.

Ainda aprendiz na cena mundial, o Brasil ameaça copiar um velho defeito (ou qualidade, conforme o ângulo) dos americanos. Os Estados Unidos criaram a reputação de não terem amigos ou inimigos, apenas interesses.

O governo do Brasil opera bem para defender nossos objetivos no Haiti. Mas não mostra a mesma eficiência para defender os interesses dos nossos amigos, hoje irmãos, haitianos.

Competentes

Erra quem acusa a oposição de desleixo na missão de preparar um discurso para a campanha eleitoral. O PSDB dá tanta importância à tarefa que decidiu produzir não um, mas dois discursos. Um para ele e outro para a adversária.

E foram tão camaradas com o PT que antes mesmo de providenciar o deles próprios já finalizaram o de Dilma Rousseff, ao dizerem que se eleitos vão acabar com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Deve ser a tal “competência gerencial”, aqui aplicada na situação concreta de uma campanha política.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (20) no Correio Braziliense.


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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Proprietários e funcionários (19/01)

Quer saber o erro que não se pode cometer numa eleição? É o mesmo que se deve evitar numa entrevista de emprego

A eleição chilena serve para tirar conclusões a respeito da eleição brasileira que vem aí? Se as pitonisas do Oráculo de Delfos estivessem operacionais, seria uma pergunta a fazer. Ou então alguém ansioso além da conta pode colocar a coisa mais diretamente: a vitória da oposição no Chile é a demonstração definitiva de que voto não se transfere?

Dizem que o oráculo famoso reinou por um tempão na Grécia Antiga, e tinha muita credibilidade. Segundo consta, seu cacife resultava também de certa metodologia, sábia. Depois de aspirar uns gases (provavelmente alucinógenos) vindos das pedras, as pitonisas davam respostas indiretas, oblíquas, que exigiam interpretação. Não era preto no branco, era mais sofisticado.

Talvez o jornalismo político deva aprender com as pitonisas gregas. Da minha parte, estou pronto a colaborar com o método. Esta vai ser uma campanha longa, passional e verbalmente selvagem. A cada momento vocês exigirão previsões definitivas, diagnósticos irreversíveis. Por que o sujeito quer isso, mesmo quando cheira a charlatanismo? Para conforto próprio, para se agasalhar na “certeza” alheia e não sentir o frio incômodo da própria dúvida.

O resultado no Chile permite alguma conclusão definitiva sobre a eleição no Brasil? Não. A única verdade reafirmada ali é que voto não tem outro dono além do próprio. O que não chega a ser uma novidade. Tratei do tema duas semanas atrás em “Lula na praia”. Não existe o “lulismo”. A expressão é uma peça do populoso universo ficcional da política, é uma bengala que ajuda a manter intelectualmente de pé quem previu um governo do PT catastrófico, e naturalmente quebrou a cara.

A maioria dos brasileiros enxergam o presidente como um ativo seu, e o protegem. Se há relação de pertinência, é mais razoável dizer que Luiz Inácio Lula da Silva é do eleitor, e não o contrário. O cidadão quando vota está contratando um funcionário, não um proprietário. Daí por que o candidato quebra a cara quando se comporta de maneira senhorial, arrogante, autossuficiente fora da medida. Ou quando dá a impressão de estar mentindo. Quer saber o erro que não se pode cometer numa eleição? É o mesmo que se deve evitar numa entrevista de emprego.

O eleitor está atrás de soluções e eleição é sempre uma oportunidade de escolher alguém que pode providenciá-las. Na escolha de um empregado, as referências são importantes. Assim como o currículo. Mas a decisão final é sempre algo subjetiva, vem de um detalhe, de uma impressão, da segurança que o candidato transmitiu ao lidar com assuntos que o contratador julga importantes.

Por que a aliança entre democrata-cristãos e socialistas perdeu no Chile? Por causa da pasmaceira econômica e do cansaço popular com a politicagem. E porque o eleitor comum, não engajado, de vez em quando gosta de promover alternância no poder. Para evitar a “síndrome da panelinha”. Isso fez um punhado de votos migrar de um lado para o outro, invertendo a maioria.

Como vai ser aqui em outubro? Qual será a principal preocupação de sua excelência, o portador de título eleitoral, quando começar a dar tratos à bola sobre a necessidade de trocar o presidente da República?

Eu confesso que ainda não tenho a mínima ideia, e portanto não vou colocar meu modesto carro na frente dos boizinhos. O PT aposta que o eleitor sairá de casa no dia da eleição para “evitar a volta da turma do Fernando Henrique, que vai acabar com as coisas boas que o Lula fez pelos pobres e pelo Brasil”. É uma tese a verificar, até para descartar a possibilidade de o petismo estar colocando o desejo no lugar reservado à realidade. E os tucanos, apostam no quê? Pelo jeito, nem eles descobriram ainda.

Sem alternativa

Sempre se aproveita algo de qualquer debate político, desde que bem peneirado. Mas mesmo essa regra admite exceção. Nos últimos dias surgem críticas relacionadas aos possíveis aspectos negativos da intervenção estrangeira no Haiti depois do terremoto. Queriam o quê? Deixar o povo à própria sorte, a pretexto de evitar a ingerência externa?

A hora não é própria ao blá-blá-blá. É momento de colocar 100% do foco na ação. O paralelo é com o paciente que chega acidentado à UTI. Primeiro é preciso fazê-lo viver. Depois se cuidará do resto, inclusive dos efeitos colaterais do tratamento, que podem durar pelo resto da vida. Mas, se a alternativa é morrer, não há de fato uma alternativa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta treça (19) no Correio Braziliense.

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domingo, 17 de janeiro de 2010

O papel e a vida real (17/01)

O governo Lula poderia produzir políticas práticas que atenuassem a contradição entre a propriedade e a justiça social. Prefere fabricar discursos e documentos para excitar a plateia. E também confusões desnecessárias

Um capítulo polêmico do Programa Nacional de Direitos Humanos é o relativo ao direito de propriedade. O PNDH propõe criar instâncias de arbitragem antes de a Justiça poder dar liminares para reintegração de posse. Valeria em imóveis rurais e urbanos. A proposta provocou reações duras, como era previsível.

Em benefício dos redatores do PNDH, recorde-se que a Constituição trata a função social da propriedade no capítulo dos direitos individuais e coletivos. É o inciso 23 do artigo 5º: “A propriedade atenderá a sua função social”. Entretanto, como em outras passagens da Carta, aqui vai uma no cravo e outra na ferradura. O inciso anterior também é cristalino: “É garantido o direito de propriedade”.

A Constituição joga uma boia para cada lado. As entidades de proprietários rurais e seus apoiadores agarram-se no inciso 22, enquanto os movimentos sociais e seus simpatizantes se escoram no 23. E há corolários. Um lado diz que subordinar decisões judiciais a mecanismos preliminares obrigatórios de mediação feriria o direito essencial de recorrer à Justiça. O outro defende que não se trata de tolher um direito, mas regulamentá-lo.

E segue o debate. Vai ser bom se vier à superfície na campanha eleitoral. O eleitor que decida, resguardando sempre a palavra definitiva do Supremo Tribunal Federal (STF). Maiorias políticas eventuais, de um lado ou de outro, não têm força para desconstruir a Constituição. Ela não lhes dá tal poder. Quem quer uma mudança radical no ordenamento jurídico precisa seguir outro caminho: lutar por uma Assembleia Constituinte com amplas atribuições, algo só possível com ruptura institucional.

Por enquanto, o confronto é essencialmente doutrinário, abstrato. Até porque, ao descer para a vida real, para as ações de governo, nota-se o contraste entre o que é implícito no PNDH e as diretrizes da administração Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto o papel cultua a luta pela reforma agrária e o combate ao latifúndio capitalista, a realidade do governo do PT ruma no sentido contrário.

Converse com nove entre 10 petistas do poder e eles dirão que a reforma agrária deixou de fazer sentido econômico, diante da nova realidade no campo. Defenderão que a modernização do velho latifúndio tornou obsoleta a proposta de dividi-lo em áreas menores e entregá-las a novos proprietários; que isso hoje não seria sinônimo de progresso econômico e social, mas de regressão. Como, porém, a coisa não pode ser dita assim, a seco, dados os custos políticos decorrentes da narrativa pregressa, tudo fica “em off”.

Quantas vezes você ouviu dos atuais governantes, a começar pelo presidente da República, que o esforço principal deve ser melhorar os assentamentos, em vez de ampliar o número deles? E o discurso tem ido além: os usineiros do açúcar e do álcool tiveram o prazer de receber de Lula a medalha verbal de “heróis”. Aliás, a principal iniciativa deste governo no campo é a parceria com a monocultura canavieira, base do prussiano e utópico projeto de transformar o etanol num biocombustível planetário.

Na reforma agrária, a coragem do governo Lula só aparece no papel. Antes de assinar o decreto do PNDH, Lula poderia ter atualizado os índices mínimos de produtividade para um empreendimento agrário ver cumprida a função social. Os números estão defasados em três décadas. Não fez. Poderia ainda ter acelerado as desapropriações, já que segundo sua excelência existe muita terra improdutiva sobrando no Brasil, e por isso a ampliação da área plantada com cana não vai ameaçar a produção de alimentos. Mas os “pastos degradados” continuam intocados.

Sobre o direito de propriedade propriamente dito, a experiência histórica mostra ser essencial algum grau de segurança jurídica para que o agricultor invista e busque progredir na atividade. O desafio é como combinar a desejada justiça social. O governo Lula poderia produzir políticas práticas que atenuassem a contradição. Prefere fabricar discursos e documentos para excitar a plateia. E também confusões desnecessárias.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (17) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A vez do Brasil (15/01)

Há um imenso espaço a ocupar nas Américas, dado que os Estados Unidos estão mobilizados por outros vetores, como a guerra contra o terrorismo

Ninguém poderia ter previsto com precisão o terrível terremoto no Haiti, ainda que especialistas tenham advertido para a possibilidade. E seria também intelectualmente tortuoso tentar usar fatos pouco previsíveis de agora para justificar uma decisão tomada lá atrás. Mas algo é inegável: é ótimo que o Brasil e suas Forças Armadas estejam hoje bem instalados em terras haitianas. É a partir da posição brasileira ali que a comunidade internacional poderá intervir para evitar o caos absoluto.

Houve algumas resistências internas quando o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com mandato da Organização das Nações Unidas, decidiu mandar tropas para a nação mais miserável das Américas, na esteira de uma conturbação política. Uns acusaram o Brasil de oferecer braços para manter a dominação colonial. Outros recorreram a uma crítica mais habitual. Por que gastar lá fora um dinheiro que poderia ser bem empregado aqui dentro, para coisas supostamente mais importantes?

O destino, com seus critérios obscuros, e neste caso trágicos, acabou transformando a empreitada haitiana num dos mais importantes investimentos desta administração no campo das relações internacionais. O Brasil é agora o jogador-chave no cenário da tragédia. E não era automático que fosse assim. A América Central não é área de influência natural nossa. Se há hoje ali uma disputa, é mais entre os Estados Unidos e a Venezuela, ainda que esta tenha perdido impulso depois do revés hondurenho. Sem falar nas dificuldades econômicas que atravessa o país de Hugo Chávez.

O Haiti é um lugar onde o governo brasileiro vem fazendo tudo certo (outro, após tropeços iniciais, é a Bolívia). Metemo-nos ali depois de chamados, e com amplo respaldo internacional. Quando decidimos entrar, foi para valer, mas com jeito. Teve até jogo da seleção brasileira em Porto Príncipe. E nossas tropas têm executado a missão com profissionalismo, sem os incidentes comuns em situações como essa, de quase ocupação.

Há um imenso espaço a preencher nas Américas, desde que os Estados Unidos estão mobilizados por outros vetores, como a guerra contra o terrorismo. É a hora do Brasil. Claro que sempre haverá tensões e divergências na relação do dia a dia com a superpotência, o que é normal. Parceria não é submissão. Mas é uma oportunidade de ouro que a situação tenha conduzido a isto: a consolidação da liderança regional, e ampliada, do Brasil interessa também, e muito, à Casa Branca.

E com a vantagem de o presidente americano ser Barack Obama. Sempre será mais fácil defender a legitimidade de uma cooperação com ele do que seria com outro qualquer.

Homenagem e obrigação

O governo prepara uma bela homenagem aos militares brasileiros mortos em consequência do terremoto. Mais do que justo. É preciso também que as famílias deles tenham o apoio material necessário para seguir suas vidas de modo digno.

Uma lupa

O Banco Central conseguiu. No ano da crise, com o crédito estrangulado, risco inflacionário zero e o mundo desesperado para escapar da recessão, a política da autoridade monetária conduziu-nos a uma inflação abaixo do centro da meta. Com crescimento zero, juro básico real bombando e os spreads bancários na lua.

Ainda bem que não são médicos. O sujeito entra no hospital para extrair o rim doente e, por via das dúvidas (ou para encorpar a conta), o cirurgião tira os dois. Vai que a mesma doença acomete amanhã o rim hoje bom? Melhor prevenir. Quando o paciente protesta, o hospital procura acalmá-lo dizendo que não cobrará nada pela retirada do segundo órgão.

No nosso caso foi pior. Fizeram a barbeiragem e ainda nos apresentaram uma conta adicional, em recessão.

Por falar em números, o Ministério do Trabalho informou dias atrás que os pedidos de seguro-desemprego bateram recorde em 2009. O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) apresentou o primeiro déficit operacional em duas décadas.

Num ano que, segundo o mesmo Ministério do Trabalho, foi excelente na criação de empregos formais.

Não faz sentido. Eu insisto que o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) está a precisar de uma boa lupa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (15) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Uma proposta de homenagem (14/01)

Eis um risco de elevar posições políticas ao plano superior dos princípios, das “diretrizes”. A pretexto de incluir, passa-se a adotar um comportamento excludente

Zilda Arns morreu no terremoto do Haiti. Era um motor da luta pelos direitos humanos. Ela e seu irmão Dom Paulo Evaristo, o cardeal. Não a conhecia pessoalmente. Já ele, a primeira vez que o vi em carne e osso foi em 1975 no cemitério israelita do Butantã em São Paulo, no enterro de Vladimir Herzog. Com o cardeal ali eu me senti protegido. Uma sensação que desde aquele dia me acompanha quando penso nele, ou leio alguma coisa sobre ele.

Que Dona Zilda descanse em paz. Ela e Dom Paulo são personagens da parte bela da História do Brasil.

O sobrenome Arns está na minha percepção como um marcador de tempo político, especialmente dos anos 70 do século passado. Acredito que deva ser assim também para outras pessoas da minha geração. E está como sinônimo de bondade. Cada vez que ouço ou leio o “Arns” vem a ideia de coisa boa, de coisa humana, de paz. Daí talvez a sensação de proteção.

Não sei se alguém pode almejar mais na passagem por este mundo, digo com sinceridade. Ser visto consensualmente pelos semelhantes como paradigma do bem. E “consensualmente” deve ser lido do jeito que é, na prática. Não significa “unanimemente”. Houve, ainda deve haver, gente que odiou, ou odeia, Dom Paulo pela proteção que sempre deu aos perseguidos pela ditadura. É possível existir quem não gostava de Dona Zilda. Paciência.

Ela certamente será alvo de homenagens merecidas. Eu tenho uma pequena sugestão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como gesto de grandeza diante da Igreja Católica -e de todos os fiéis dessa crença que deram e dão o melhor de si pelos direitos dos semelhantes, mas nem por isso desejam romper com Roma- retire o seguinte trecho do decreto que instituiu a terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos:

“Apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos.”

Vejam que não estou pedindo para o governo ficar contra a legalização do aborto. É legítimo que o presidente Lula, se assim entender, envie ao Congresso Nacional um projeto para descriminalizar a interrupção da gravidez. Nenhum assunto deve ser proibido, nada deve estar interditado ao debate.

Mas o PNDH, pelo que entendi, lista as diretrizes indispensáveis para o Brasil perseguir um futuro mais compatível com o respeito aos direitos humanos. Se não for indispensável, o tema não estará ali. E não é razoável que alguém precise ficar a favor da descriminalização do aborto para entrar no clube dos defensores dos direitos humanos. Esse é o ponto. Neste assunto e em outros.

Tenho cá minhas diferenças com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Irrito-me quando religiosos querem impor padrões universais de comportamento, mas espero nunca cometer a insanidade de dizer que a CNBB atenta contra os direitos humanos ao seguir o Papa e pedir que o Brasil resista ao aborto legal.

Imagine se fosse o contrário. Um governo conservador -nos costumes- inclui na enésima versão no PNDH a cláusula da defesa irrestrita da vida, desde a concepção, como diretriz indispensável para alguém ser aceito na categoria de defensor dos direitos humanos. A CNBB certamente aplaudirá. Aqui entre nós, teria até mais lógica, mas não deixaria de representar outra aberração.

O debate em torno da legalização do aborto envolve diferentes concepções religiosas, mas se dá essencialmente no campo da política. Ninguém convictamente contra o aborto será obrigado a fazer um se a prática for descriminalizada. A coisa continuará na esfera da decisão pessoal. O Vaticano resiste a isso. De novo, paciência. Ele que dispute onde e com quem de direito, mas sempre na política.

Será ou não uma brutalidade se por causa dessa linha doutrinária a Igreja Católica for incluída num index de organizações que se opõem aos direitos humanos? Eis um risco de elevar posições políticas ao plano superior dos princípios, das “diretrizes”. A pretexto de incluir, passa-se a adotar um comportamento excludente. A disputa política vira a luta dos “bons” contra os “maus”.

O que até tem seu charme, desde que o sujeito se enxergue do lado “bom”. E desde que desconsidere a possibilidade de, no futuro, ser colocado na outra coluna.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (14) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Jogo do Poder com Geraldo Magela (13/01)



O deputado federal Geraldo Magela (PT-DF), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Denise Rothenburg, da Folha de S.Paulo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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A trilha da esperteza (13/01)

A principal diferença entre a democracia representativa e a democracia direta, ou participativa, é que desta última participa menos gente

Fica cada vez mais evidente que o governo cometeu uma bobagem política daquelas quando lançou esta terceira versão (a primeira dele) do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). A quem discorda, afirmando ser só um documento de (boas) intenções, sempre é adequado recordar que delas está cheio o inferno.

Os que fizeram o PNDH conseguiram uma façanha: qualquer um que procura encontra ali alguma coisa que incomoda muito. Daí que o programa tenha esta incrível capacidade catalítica de agregar resistências.

No mínimo, o governo abriu um caminho para a oposição fora do terreno no qual ela vinha encontrando mais dificuldades: a economia. Não que a maioria da população se mobilize por temas como os do PNDH, mas este oferece um ponto de aglutinação política para as forças oposicionistas. Estimulou pela enésima vez, no pedaço da sociedade que se interessa pelo assunto, a discussão sobre os reais propósitos democráticos do PT.

No atual estágio de autossuficiência e salto alto, o petismo irá argumentar que o povão não está nem aí, e que na hora “h” a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva dará um jeito. Aliás, o prestígio de Lula vai virando panaceia, remédio para todos os males, fonte para todas as curas, curativo para todas as incompetências. Não deixa de representar curiosa regressão intelectual num partido nascido do basismo e do desejo de protagonismo coletivo dos trabalhadores, mas tem a ver com os fatos.

O PT continua incapaz de entender, na essência, por que a maioria da sociedade brasileira está longe de apoiar o programa estratégico da legenda. Como portador da verdade e instrumento autonomeado de salvação coletiva, vê nessa resistência apenas um transtorno acidental a contornar. Daí que no discurso petista o líder tome o lugar do sistema político e a “sociedade organizada” dê um chega prá lá na representação eleitoral nascida das urnas.

Se não há maneira de convencer facilmente a maioria, que ela dê lugar a outra, idealizada e desenhada conforme as conveniências. Aí entra a democracia participativa. Não vou discutir o conceito, mas os fatos. Na prática, resume-se a isto: dar aos mobilizados em torno de certo tema o privilégio de definir a posição do conjunto da sociedade sobre esse tema.

Qual é a principal diferença, na prática, entre a democracia representativa e a democracia direta, ou participativa? É que desta última participa menos gente. Por isso, ela deveria ser só acessória, secundária, subordinada. Nunca a principal.

O governo diz que o PNDH nasceu de uma conferência nacional de direitos humanos. E daí? Quantas pessoas se envolveram nela? É a transposição para a grande política de certos (maus) métodos do movimento estudantil, ou sindical. Um punhado decide pelo todo. E decide qualquer coisa.

O leitor poderá argumentar que a discussão terá necessariamente que passar pelo Congresso Nacional, mas não é disso que se trata. Pela abrangência e profundidade, o PNDH é quase um programa de governo. O certo então seria apresentá-lo numa campanha presidencial, para abrir espaço efetivo de debate e confronto de ideias.

Mas como nem o petista mais fanático acredita que dá para ganhar a eleição carregando nas costas um fardo assim, a coisa segue a trilha da esperteza: a campanha presidencial é planejada para correr como exercício de mistificação e infantilização, como desfile de musiquinhas, sorrisos, advertências e generalidades. Para que, depois, liberados do constrangimento temporário de buscar o voto do eleitor, possam realizar o sonho de finalmente colocar a mão na massa e preparar o bolo.

Como diz o ditado, não tem o menor risco de dar certo.

Um argumento do PT em defesa do seu PNDH é que Fernando Henrique Cardoso também fez o dele. O do PSDB passou em branco e o do PT gera polêmica. Não é pela diferença no conteúdo. É porque as pessoas temem no PT certas coisas que no PSDB, todo mundo sabe, são só para inglês ver.

Mais incrível é o petismo precisar defender-se usando como escudo uma “herança bendita” de FHC. Sete anos depois, eis o PT pedindo clemência pois, afinal, “só estamos continuando o que o Fernando Henrique começou”.

Se não fosse trágico, seria cômico. Se não houvesse outros sinais de isolamento político, esse seria suficiente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (13) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Chamem o STF (12/01)

Adotar o ponto de vista da vítima de violência é a única opção moralmente aceitável. Mas na política isso não funciona. Não existe governo humanista. Se tentarem vender algo parecido, não compre. É falsificado

Por que a tortura é crime hediondo? Porque é ato de violência — física ou psíquica — deliberada contra a pessoa indefesa. Mas, infelizmente, “hediondo” não deve ser lido como inaceitável por todos. Em certos casos a tortura até consegue o aval de alguns. Há por exemplo a dúvida clássica: é tolerável a tortura para colher informações de um prisioneiro que sabe onde, quando e como vai ser cometido um atentado terrorista planejado para matar milhares de inocentes?

Se me fizerem tal pergunta, a resposta virá rapidamente e será clara. Não, a tortura não é justificável em nenhuma circunstância. Tenho a convicção. Mas não precisei de maior coragem para chegar a ela. Meu papel é só escrever colunas sobre assuntos da política. Não fui eleito, nem nomeado, para tomar decisões políticas. Daí minha resistência a emitir aqui certos juízos de valor. Eu prefiro analisar. Para julgar, já existem duas Justiças: a dos homens e a de Deus.

Situações de guerra envolvem alternativas moralmente complicadas. O grupo de guerrilheiros que você comanda está em retirada na selva, tentando escapar de um cerco. Aí, por azar (ou sorte), vocês capturam um combatente inimigo desgarrado. Vão fazer o quê? Levar o prisioneiro junto, arriscando ainda mais a segurança da operação de retirada? Vão deixá-lo para trás, com inteligência (informação) que talvez mais adiante vai ser usada contra vocês? Ou vão executá-lo?

Eu carregaria o prisioneiro comigo. Pois matar alguém indefeso é bem pior do que torturar. O torturado que sobrevive tem a chance de caçar quem o torturou. Caçar para pedir ou fazer justiça, dependendo das circunstâncias. Quem está morto, não tem. Mas, de novo, essa opinião não me custa nada. Já se eu fosse o oficial da historinha hipotética do parágrafo anterior, e se minha tropa viesse a ser dizimada por causa do que eventualmente decidi, teria que responder — caso sobrevivesse — pelo meu ato.

Qual é a saída? O relativismo? Não. A humanidade evolui, e a pressão pelo respeito aos direitos humanos é um vetor do processo civilizatório. Entretanto, a esfera política não é a mais indicada para operar o tema. Por definição. Vista a coisa pelo ângulo do poder, é fácil distinguir entre o crime hediondo aceitável e o inaceitável. A distinção será sempre política. Na primeira categoria estarão os atos dos nossos amigos. Na segunda, os dos nossos inimigos. O que isso tem a ver com “lutar pelos direitos humanos”? Nada. É só luta política.

Eis uma contradição (há outras) que alimenta o stress por causa do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), decretado pelo presidente da República. Na abordagem da violência, a única opção moralmente aceitável é endossar o ponto de vista da vítima. Mas na política não é assim que funciona. Não existe governo humanista (porque o humanismo ou é 100% ou é de mentirinha). Se tentarem vender algo parecido, não compre. É falsificado.

Daí que talvez seja preciso discutir melhor a Comissão da Verdade, proposta no PNDH. Do jeito que está no texto, ela corre o risco de virar um apêndice do governo, de se interessar seletivamente pela parte da verdade que é conveniente ao poder e degenerar para um instrumento de pressão e vingança políticas. E ainda que em alguns casos o desejo de vingança possa ser legítimo (de um ângulo moral), isso não faria bem à democracia brasileira.

É um debate para o Congresso Nacional, já que o Palácio do Planalto teve pelo menos a sabedoria de definir que a comissão será criada por lei.

Aliás, no estado de direito as coisas devem sempre andar conforme a lei. E felizmente a Ordem dos Advogados do Brasil provocou lá atrás o Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a Lei de Anistia. Inexistem óbices legais para que se abra toda a história do período ditatorial. A dúvida é se a legislação permite processar hoje quem cometeu na época crimes que agora a lei considera hediondos.

À primeira vista não tem muita lógica jurídica, mas a Constituição é o que o STF decide que ela é. Não sou eu que digo, foi o ministro Marco Aurélio quem disse. Eu estava lá e ouvi.

Então, se têm tanto poder, que os ministros da mais alta instância descasquem o abacaxi.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição desta terça (12) no Correio Braziliense.

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domingo, 10 de janeiro de 2010

Entre a força e a fraqueza (10/01)

O PNDH é uma demonstração de autoconfiança do PT? Ou é a admissão da dúvida sobre o futuro?

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva vai entrando, por vontade e iniciativa próprias, numa zona de turbulência política. Governos ingressarem em turbulências é comum, mas o momento politicamente instável da administração do PT tem originalidade: foi 100% autoconstruído.

Tudo vinha aparentemente sob controle. A popularidade do presidente anda lá em cima, desestimulando e mesmo intimidando a crítica. A economia não é uma brastemp, mas o otimismo em relação ao futuro é forte, assim como a confiança em sua excelência. Internacionalmente, Lula é sucesso de público e crítica. E nos círculos em que a corrida presidencial entrou no radar acredita-se que Dilma Rousseff vem fortíssima, com o presidente a tiracolo pedindo ao povo que dê um voto de confiança e aposte na continuidade.

Seria lógico que num quadro teoricamente tão favorável os estrategistas do Palácio do Planalto buscassem, na política, fixar-se no que ajuda a acumular musculatura no ano eleitoral, deixando por enquanto de lado o que pode criar problemas. Tempo de eleição é tempo de fazer contas. Especialmente as de somar e multiplicar. Quando você precisa buscar votos, desloque-se para o ponto mais próximo possível do centro - sempre tomando o cuidado de não descolar da base.

Isso não é teoria. Lula chegou à Presidência assim. E na economia Lula executa o centrismo de maneira até compulsiva.

Uma síntese curiosa sobre o PT é que, na política, o partido "fez tudo errado e acabou dando tudo certo". Não dou o crédito porque o autor não autorizou. Ele não é do PT. O que é "tudo errado"? Desde o nascimento, a legenda preferiu apostar sempre na disputa, mesmo quando a composição parecia ser o caminho politicamente mais sábio. E apesar disso "deu certo", chegou ao poder, eclipsando outras correntes de esquerda que propunham algo menos "radical".

O PT viciou-se em disputar. Mesmo havendo sinais suficientes de que essa obsessão pelo confronto e o exclusivismo acabam trazendo isolamento e fraqueza. Em dois estados importantes nos quais já foi muito forte, Rio Grande do Sul e São Paulo, a legenda tem dificuldade para sair do cercadinho. No estado mais expressivo que governa, a Bahia, abriu um grave contencioso com seu mais importante aliado, o PMDB, o que coloca algum risco ao projeto local de poder.

O PT chegou à Presidência da República, mas dos partidos que ancoraram no Planalto foi quem menos conseguiu aproveitar para estender sua capilaridade. Lula está nas nuvens, o PT deve vir com um bom desempenho este ano, mas será uma surpresa se avançar significativamente nos estados - com o óbvio efeito na composição do Congresso.

Daí que o "tudo certo" deva então ser observado com mais cuidado. O jogo não acabou. O PT chegou ao governo, mas sem força, na política ou na sociedade, para aplicar seu programa. Agora está colocado diante do enigma.

Para continuar de posse da caneta, a sigla precisa reproduzir de algum modo a coalizão social que elegeu Lula em 2002 e 2006. A estrutura da sociedade brasileira não mudou radicalmente de sete anos para cá.

Mas o PT também tem o desejo de, no poder, cumprir o que considera sua missão histórica. Fazer o Brasil transitar para um cenário em que o direito à propriedade se subordine à chamada função social desta e a democracia representativa divida espaço com a chamada "participativa". São ideias vagas, nunca detalhadas. Eufemismos. Até porque, convenhamos, desde que o PT é governo nunca mais discutiu internamente política, na acepção da palavra.

Há uma tensão entre desejo e realidade. E entre a vontade de se manter no poder - como premissa - e a obrigação de fundamentar moralmente o próprio desejo.

À luz da lógica, os movimentos do governo e do PT em torno do Programa Nacional de Direitos Humanos, instituído por decreto pelo presidente da República, fariam sentido em duas situações: 1) se o PT tivesse força para tirar do papel esse "programa da revolução brasileira" ou 2) se o PT estivesse tão fraco que, à beira de sair do poder, quisesse reafirmar seus princípios diante da História. Afinal, a luta continua. Sempre.

A primeira hipótese carece de materialidade. A segunda nada tem a ver com o otimista discurso oficial. E muita gente se envolveu, muita energia foi investida para que tudo possa ser resumido a uma trapalhada. Ainda que a possibilidade sempre deva, por cautela, ser vista com carinho quando se analisam governos.

Mas há uma última explicação, algo mais sofisticada. Talvez o PT acredite ser capaz de segurar votos à esquerda se puder dizer "pelo menos nós tentamos". E talvez acredite dispor dos instrumentos materiais e estatais para contornar possíveis sustos e evitar a corrosão ao centro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (10) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Coragem seletiva (08/01)

Em benefício de Cristina Kirchner, reconheça-se que ela enfrenta os desafios do presente com a mesma coragem que exibe diante dos problemas do passado. Aqui não é assim

A crise entre a presidente da Argentina e o presidente do Banco Central (BC) do país vizinho oferece aqui a oportunidade para um debate, em geral interditado, sobre o grau de autonomia ideal para o BC. Os mais ortodoxos defendem-na de modo absoluto. Os diretores da autoridade monetária deveriam ter mandato com prazo fixo e serem imexíveis. Na prática, Luiz Inácio Lula da Silva adota o figurino desde que tomou posse, em 2003.

E, justiça seja feita, não tivesse o BC combatido a inflação a ferro e fogo naquela época, provavelmente Lula veria abreviada a passagem dele pelo Palácio do Planalto. O problema, como costuma acontecer ao poder, é quando a tática se transforma em estratégia, quando a conveniência momentânea vira princípio programático. Desde que o BC e sua política restaram como pilar real de sustentação política do governo, Lula em algum grau ficou manietado, nos moldes de Fernando Henrique Cardoso no primeiro mandato.

Digo “nos moldes” porque, em razão principalmente de seus próprios méritos, Lula tem a força política e os instrumentos (que FHC não tinha) para, mesmo sem rupturas bruscas, ajustar a política monetária às novas condições da economia mundial. Infelizmente, porém, nesse campo específico parece que sua excelência reluta em agir.

O exemplo mais gritante foram os primeiros meses da crise mundial das finanças. Ali já era óbvio que não havia qualquer ameaça inflacionária no horizonte e que, portanto, o país tinha passado a dispor de uma belíssima rede de proteção para dar o salto rumo a uma economia de juros quase normais.

A comprovação veio recentemente, quando índices fechados da inflação de 2009 apontaram, como era esperado, deflação. Mas o estrago estava feito, ainda que ninguém esteja a cobrar dos espertalhões que na época nos venderam a “pressão do câmbio sobre a inflação”. O atraso e a timidez do BC na derrubada dos juros, especialmente sua inação no último trimestre de 2008, estão na origem do desempenho medíocre da economia ano passado. Nosso PIB não se mexeu. A indústria vem hoje 10% abaixo do pré-crise. Se tudo der certo, ela perderá dois anos. As nossas exportações perdem competitividade consistentemente, com o resultado óbvio na balança comercial.

E o pior é que no discurso oficial essa política ganhou o rótulo de “progressista”, já que vem sendo aplicada por Lula. Por tal critério, então, o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso talvez devesse ser lançado nos anais na historiografia oficial do petismo como “ultraprogressista”. E, à semelhança daquela época, as críticas são descartadas, marcadas com o carimbo de “atrasadas”. Ou então agita-se o fantasma da “volta da inflação”, que, mesmo desdentado e trôpego, ainda cumpre o propósito de defender o status quo.

Talvez por isso, não deixa de ser auspicioso que na vizinha Argentina a presidente Cristina Kirchner tenha decidido enfrentar o monstro. No mínimo, abriu-se uma brecha no pensamento único, uma pedrinha foi retirada do dique. Aliás, os Kirchner são bons em momentos assim. Quando declararam lá atrás a renegociação “manu militari” da dívida externa, impondo aos credores um belo deságio, a gritaria foi semelhante à que se verá agora. E o que aconteceu? Nada. A economia ali tem seus gargalos, mas nenhum decorrente dessa decisão.

O leitor conhece minhas observações e questionamentos (expostos aqui recentemente) quanto ao desejo do PT de fazer um ajuste de contas sobre acontecimentos de quatro décadas atrás, que confrontaram a oposição armada (e mesmo desarmada) e os aparelhos repressivos da ditadura. Na Argentina, Cristina Kirchner, enquanto briga com o presidente do BC, decidiu numa canetada que todos os arquivos da repressão devem ser escancarados.

Ao menos, ela mostra ter coragem não apenas para encarar problemas de trinta, quarenta anos atrás. Enfrenta também os atuais. Aliás, reconheça-se em benefício dela que estes últimos costumam ser bem mais espinhosos do que aqueles. Já aqui, as autoridades agem leoninamente quando se trata de temas do passado, mas falta-lhes o mesmo ímpeto para equacionar assuntos do presente. E que, infelizmente, terão impacto direto no futuro econômico e social do país.

Coluna (Nas entrelinhas) pubicada nesta sexta (08) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Nosso febeapá particular (07/01)

Qual é a maior dificuldade para implantar uma gestão supranacional da humanidade? Saber quem vai executá-la, quem vai tomar conta. O supranacionalismo é uma contradição em termos, pois precisaria ser imposto por alguém

Quando a crise mundial das finanças eclodiu, em setembro de 2008, alguns líderes políticos executaram a “fuga para a frente”. Viram uma bela oportunidade nas dificuldades econômicas trazidas pelo colapso do crédito. Ofereceram como soluções o aprofundamento do livre-comércio e uma regulação globalizada. Daí que Luiz Inácio Lula da Silva tenha sonhado com a reativação da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio e também com o G20 na função de agência reguladora planetária do mercado financeiro.

Os movimentos do presidente trouxeram prestígio internacional a ele e ao Brasil, e despertaram esperanças. Mas, como era previsível, deram em nada. E houve um repeteco na Conferência do Clima, recém-concluída em Copenhague. Desejou-se uma governança mundial que impusesse a cada nação o comportamento mais adequado para conter a emissão dos gases responsáveis pelo efeito estufa. Esse supranacionalismo também não colou na reunião da Dinamarca, frustrando quem projetava, quase cem anos depois, um novo “assalto ao Palácio de Inverno”. Agora com o verde a substituir o vermelho de praxe.

Por que os desejos multilateralistas acabam dando em frustração neste quase fim de década do novo século? Toda frustração surge de uma expectativa. Um dos corolários do “fim da História”, tese produzida nas ruínas do socialismo na Europa do Leste, era a obsolescência da questão nacional. Duas décadas depois, o mundo assiste ao fenômeno inverso: nunca desde a Segunda Guerra Mundial a política global foi tão explicitamente determinada pela soma vetorial dos interesses da cada país.

Até por não haver mais “sistemas organizadores”. Não há um “campo socialista”, muito menos um “movimento dos países não alinhados”. A última tentativa de criar algo veio de George W. Bush, com sua política de “expansão da liberdade”, comandada pelos Estados Unidos. Morreu quando os americanos decidiram que a brincadeira estava ficando muito cara e cobrando um excessivo custo em vidas. E eles voltaram à “guerra contra o terrorismo”.

Qual é a maior dificuldade para implantar uma gestão supranacional da humanidade? Saber quem vai executá-la, quem vai tomar conta. Os chineses disseram em Copenhague que não aceitam imposição externa de metas de emissão de carbono, nem monitoramento internacional nos assuntos ambientais deles. Defenderam ali também os interesses de outros, inclusive o nosso. Houve quem não gostasse. E daí? Vão fazer o quê? Deixar de exportar para a China? Promover um boicote aos produtos chineses? Improvável. Simplesmente falta quem coloque o guizo no pescoço do gato. O supranacionalismo é uma contradição em termos, pois precisaria ser imposto por alguém.

Agora é o câmbio. Cresce a pressão para que os chineses valorizem a moeda e abram mais seu mercado à competição. Tampouco é provável que role. Numa sociedade com muitas centenas de milhões ainda fora do mercado, não haveria como manter a estabilidade política sem crescer e gerar empregos aceleradamente. E isso só se consegue com indústria, muita indústria. E ela não combina com livre-comércio, como sabemos nós desde a Colônia.

Pode estar na hora de o resto do mundo aceitar essa realidade, ajustando-se a ela. Por que nós também não cuidamos do que é nosso, da nossa indústria que patina 10% abaixo do nível de antes da crise, dos empregos necessários para absorver os jovens saídos da escola? O que nos falta para deixarmos de ser um país que festeja um PIB de 0% no ano, porque “poderia ter sido pior”? Aliás, se um marciano descesse hoje no Brasil e assistisse ao festival forçado de otimismo na publicidade, oficial e não, acreditaria que a China é aqui.

Qual é o drama (ou a tragédia) dos Estados Unidos? Depender de poupança alheia para manter seu padrão de vida e seu poderio. Nós nos ufanamos de finalmente termos deixado de ser imitadores dos americanos, mas talvez estejamos insistindo em imitá-los no que têm de pior. E com um discurso livre-cambista e globalizante para dar cobertura. E tudo embalado num belo papel de presente “anti-imperialista”. Um febeapá de arrancar lágrimas de emoção do velho Stanislaw, que Deus o tenha.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (07) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Jogo do Poder com Roberto Requião (06/01)



O governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Letícia Sander, da Folha de S.Paulo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Lula na praia (06/01)

O cidadão até entende quando o político erra. Insuportável para o súdito-eleitor é quando o poderoso perde qualquer traço de humanidade, quando se escancara que o líder só se preocupa com ele próprio

Se você imagina que é novo isto de o governante ficar exposto a uma câmera de big brother, pode tirar o cavalinho da chuva. No Palácio de Versailles existe um aposento com uma mesa comprida no canto, separada do resto do quarto por uma corda. A não ser que o guia turístico tenha inventado (guias gostam de inventar), Luís 14 fazia ali refeições observado pelos súditos. A corda era para impedir que estes chegassem perto do rei-sol.

O que leva alguém a querer ver o rei arrancando com os dentes pedaços de um frango que a autoridade imperial manipula com os dedos? O mesmo fenômeno que faz Luiz Inácio Lula da Silva colecionar uns pontinhos sempre quando, como nestes dias na praia, aparece com características humanas. Mesmo que a ocasião não seja a mais conveniente, diante das tragédias do ano-novo. Mas Lula tem gordura de popularidade para queimar...

No fundo, talvez nós súditos — hoje eleitores — desejemos mesmo saber se o chefe da tribo está bem, em condições de cumprir seu papel de guardião da coletividade. E se o cacique ainda dá um jeito de expor traços de humanidade, melhor: sendo humano, talvez se compadeça de nós.

O que as gentes querem do líder não tem mudado ao longo da história. Força, proteção, justiça, compaixão. Boa parte —talvez a maior parte— da força política de Lula reside aí. Em termos objetivos, o governo dele é perfeitamente criticável. Mas o presidente consegue combinar o conjunto daqueles vetores subjetivos, não exibe deficiência fatal em nenhum. Ao longo de sua trajetória, e nestes dois mandatos, Lula convenceu a maioria das pessoas de que está preocupado com elas, ocupado em cuidar delas, em zelar para que tenham uma vida melhor.

Vejam que esta coluna não é sobre fatos, mas sobre percepções. Na política, a percepção costuma ser fundamental. Outro dia comentei sobre algumas evidências de que no governo Fernando Henrique Cardoso houve avanços sociais mensuráveis. Na reação ao que escrevi, nenhum leitor questionou os números (até porque eles são oficiais): questionaram as intenções de quem —imagine só!— pode ousar dizer que Lula não foi em cinco séculos o primeiro governante brasileiro a olhar pelo pobre, para arrancá-lo da pobreza.

E o fenômeno tem aspectos curiosos. Itamar Franco deixou a Presidência em 1995 muito bem avaliado. Tinha liquidado a inflação. De lá para cá, nada fez para perder prestígio. Mas num ranking de confiabilidade divulgado dias atrás ele está no pelotão da retaguarda, junto com ex-presidentes que saíram mal do cargo. Por quê? É o efeito-contraste. Dizer que Itamar, FHC e José Sarney tiveram seus méritos para trazer o Brasil a um presente bacana poderia, quem sabe?, soar como reprovação a Lula.

Não que haja um “lulismo”. Simplesmente, a maioria enxerga Lula como um ativo seu e o protege. É ocioso, de um ângulo político-eleitoral, discutir o quanto pode haver de saudável ou patológico nessa relação, ou quanto a esfera material sustenta a percepção. Em política, pode mais quem chora menos. Esse é um bem de Lula e ele o cultiva, sem vacilação. Na sua área de responsabilidade, não deixa facilmente brechas para que os adversários o acusem de alheamento, elitismo, insensibilidade, pouca preocupação com a maioria.

O cidadão até entende quando o político erra. E perdoa, desde que não ultrapasse certos limites. Insuportável para o súdito-eleitor é quando o poderoso perde qualquer traço de humanidade, quando se escancara que o líder só se preocupa com ele próprio, com os benefícios que o cargo pode lhe prover. Ninguém é idiota de achar que os políticos pensam em primeiro lugar nas outras pessoas e não neles, mas a fórmula vitoriosa é a de Lula: sempre decidir em benefício próprio, mas dando invariavelmente a impressão de que decide em função do interesse geral.

E deixando claro, sempre, que mantém intactos seus traços de humanidade.

Até explicarem

Segundo o Ministério do Trabalho, o Brasil criou em 2009 algo como 1,1 milhão a mais de empregos do que eliminou. Recorde-se que ano passado o crescimento do PIB foi em torno de zero. Em 2008, o PIB cresceu 5% e a criação líquida de empregos, segundo o ministério, foi de 1,5 milhão.

Ou seja, de acordo com o MT tanto faz o Brasil crescer ou não, a ordem de grandeza do número de empregos criados é a mesma. É óbvio que há alguma inconsistência nos dados. Não é a primeira vez que exponho isso aqui. Se eu insistir um pouco mais, talvez alguém se disponha a explicar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (06) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Os políticos e o feriado (05/01)

Se a presença dos políticos é dispensável quando o povo está sofrendo, tampouco deveria ser necessária quando o povo está celebrando

O governador Sérgio Cabral pôs em circulação uma teoria sobre por que o governante não precisa estar presente em situações nas quais sua participação direta é operacionalmente inútil: o contrário seria demagogia. Afinal, o governante ele próprio pouco ou nada pode fazer na hora, por exemplo, de tragédias como as deste ano-novo, em que as águas tiraram a vida de dezenas de pessoas no sudeste do país.

Segundo a teoria cabralina, o Estado tem funcionários capazes de lidar com o quadro, e nessas ocasiões os políticos só atrapalham.

Há dois problemas aí. Vamos ao primeiro. Nas mais de 24 horas em que nem o presidente da República conseguiu localizá-lo, o governador teve como enviar o vice a um dos locais afetados. Então, em lugar da suposta demagogia, viu-se no Rio o quê, a vice-demagogia? Agora o segundo. Se a presença dos políticos é dispensável quando o povo está sofrendo, tampouco deveria ser necessária quando o povo está celebrando.

Por que Cabral organiza e festeja inaugurações de escolas, de postos de saúde, de obras em geral?

Ficou pronto? Põe para funcionar. Para que fazer festa, chamar a imprensa, juntar as pessoas e discursar? Poderia ser interpretado como demagogia.

Políticos são seres comuns, com defeitos. Bom é quando o defeito gera benefício para o eleitor-cidadão. Por isso a demagogia não pode ser listada como o pior pecado de um político. Ela perde de longe para a omissão. O demagogo quer saber o que fazer para ser bem visto pela gente a quem governa. O omisso não está nem aí. Especialmente quando se sente protegido da crítica.

Mas não sejamos injustos com o governador do Rio de Janeiro. Ele está muito bem acompanhado. Pouco a pouco, implanta-se um modelo gerencial e de comunicação nas nossas administrações, em todos os níveis. Autoelogio maciço e sistemático, criminalização da crítica e achincalhamento dos críticos, difusão regular de teorias conspiratórias sobre a motivação de quem critica. O governante está sempre certo. Se você enxerga problemas, é porque tem alguma intenção oculta — e maligna.

Só que de vez em quando o sistema falha, com os custos políticos decorrentes. Infelizmente para as autoridades (e mais infelizmente ainda para as vítimas e seus familiares e amigos), aconteceu uma desgraça brutal bem no meio do feriadão da passagem do ano. E toda a cadeia hierárquica da política nacional estava de folga. Quem reagiu mais rapidamente (ou menos lentamente) foi a equipe de comunicação da Presidência da República, que defendeu o chefe e fez divulgar a conversa telefônica entre Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Geddel Vieira Lima, da Integração Nacional e responsável pelas verbas federais para a Defesa Civil.

Lula leva a vantagem de ter sensibilidade política alguns graus acima. Mas mesmo o presidente, que gosta de falar sobre tudo e está sempre a se comunicar, não julgou relevante dar, ele próprio, uma palavra solidária aos atingidos.

O governador de São Paulo, José Serra, que passava o feriado na Bahia, não teve a socorrê-lo um esquema de comunicação tão azeitado, que pelo menos fizesse circular a tese de que tinha tomado providências telefônicas. O governador foi aparecer na inundada São Luís do Paraitinga só no domingo, depois que o caos já havia alcançado proporções dantescas. E quando o feriado já estava no fim. Já o colega de Minas Gerais, Aécio Neves, preferiu atravessar os dias de chuva em completo silêncio.

E não é só. Além do “esqueçam de mim no feriado”, os políticos recorrem a outro expediente engenhoso. Conforme a conveniência, alternam entre o papel de governante e o de ombudsman. Tampouco nisso os concorrentes são páreo para Sérgio Cabral. Segundo ele, a tragédia do ano-novo era uma “crônica anunciada”. Mas, se estava anunciada, por que não tomaram as providências antes de acontecer?

Sem falar no “a culpa é das vítimas”. Em São Paulo, há bairros que ficam sob a água por longo tempo quando chove muito. A prefeitura diz que a área é inadequada para moradia, por estar na várzea do rio.

Mas não é exatamente a prefeitura quem deveria controlar isso? Só descobriram agora?

Governar no Brasil hoje em dia é uma grande moleza.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na ediçào desta terça (05) do Correio Braziliense.

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Getúlio vive (04/01)

Nem FHC nem Lula fizeram pelos direitos trabalhistas algo comparável a Getúlio Vargas. O aporte de ambos à industrialização nem chega perto do de Juscelino Kubitschek. Ninguém faz sombra à contribuição do marechal Castelo Branco para a reforma agrária

Elio Gaspari publicou ontem na coluna dele na Folha de S. Paulo os resultados de um estudo sobre a evolução de certos indicadores de políticas públicas voltadas para a inclusão social. Entre 1996 e 2008, os domicílios pobres com água encanada passaram de 48,5% para 68,3%. O acesso à rede de esgoto foi de 32,3% para 52,4%. Na luz elétrica, foi-se de 79,9% para 96,2%. Telefones fixos em domicílios pobres foram de 5,1% para 64,8%. Geladeiras, de 46,9% para 80,1%.

Se os números compilados pelo professor Claudio Salm a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios estiverem certos, são inquestionáveis. Foram anos de progresso social relevante. O Brasil está de parabéns, ainda que seja preciso avançar mais. Mas o pesquisador quis saber também quanto da evolução aconteceu sob Fernando Henrique Cardoso e quanto sob Luiz Inácio Lula da Silva. O resultado, relatado por Gaspari, foi o esperado: quantitativamente, houve avanços semelhantes nos dois. Um pouco mais para FHC em alguns quesitos, um pouco mais para Lula em outros. E só.

A coluna de Gaspari discorre a partir daí sobre o descolamento entre a realidade e o discurso de que, ao contrário de Lula, FHC governou “só para os ricos”. Eu vou pegar uma carona nos números e no trabalho do colega para entrar em outra seara: tão aborrecido quanto suportar petistas falando mal de tucanos e vice-versa é aguentar ambos falando mal dos demais. Os números estão aí: antes de FHC, metade das casas pobres já tinham água encanada e geladeira, um terço já possuíam esgoto, quatro em cada cinco tinham luz elétrica.

Claro que mais combativo é descrever quantos domicílios pobres estavam antes de 1996 desprovidos desses confortos básicos da civilização. Assim como é possível reclamar que mesmo depois de treze anos de poder tucano e petista ainda faltava água encanada em uma de cada quatro casas de pobre, faltava esgoto em metade delas, nem todas tinham luz elétrica, uma em cada cinco persistiam sem geladeira neste país tropical e quase quatro em cada dez viviam sem telefone fixo (aqui, é possível que o celular pré-pago tenha resolvido).

Uma coisa são os números, outra é a leitura política. Cada um faz a sua. Eu vou fazer a minha. Os dados da pesquisa são úteis porque comprovam que o Brasil moderno, mais civilizado, mais justo, não é obra exclusiva dos últimos sete anos, nem dos últimos quinze.

Nem FHC nem Lula fizeram pelos direitos trabalhistas algo comparável a Getúlio Vargas. O aporte de ambos à industrialização não chega perto do de Juscelino Kubitschek. Ninguém, nem antes nem depois, fez sombra à contribuição do marechal Castelo Branco para a reforma agrária. E devemos ao general Ernesto Geisel a sorte de não termos virado uma Argentina, onde o liberalismo extremado conduziu à desindustrialização.

O PT nasceu no começo dos anos 80 do século passado. O PSDB, no fim daquela década. Quem hoje vê o conflito permanente dos dois nem imagina como eram parecidos no nascedouro. Foram sócios no “antipopulismo”, na crítica do nacionalismo, na defesa de que era necessária uma ruptura radical com o varguismo. Inclusive com o maior legado social de Getúlio, a Consolidação das Leis do Trabalho (a CLT). Na cultura, eram cosmopolitas, irmanavam-se na rejeição do “nacional-popular”. Uns talvez por torcerem o nariz ao “nacional”, outros talvez por duvidarem de que na periferia do sistema uma coisa (o popular) não anda sem a outra (o nacional).

Mas são só divagações. Que tucanos e petistas continuem sua rixa, o que vai acontecer até aparecer alguém capaz de desafiar esse duopólio da política brasileira. Aí ambos voltarão à velha amizade. Para quem olha (até certo ponto) de fora vale mais notar, como mostram os números, que o Brasil está cada vez melhor e mais justo. E vale comemorar que uns e outros, petistas e tucanos, corram hoje para se apropriar das teses desenvolvimentistas, nacionalistas e populares a que torciam o nariz lá atrás.

É reconfortante notar como os candidatos favoritos à cadeira de Lula, enquanto afiam a faca para brigar entre si, preparam cada um o discurso de ser o mais capaz de alavancar o investimento público. É bom ver como fogem da simples hipótese de revogar direitos sociais e trabalhistas.

Maior homenagem ao velho Getúlio, impossível.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (04) no Correio Braziliense.

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