sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um partido patrulhado (24/12)

O PSDB tem vergonha de defender os valores de certa classe média. Prefere ter com esse eleitor, conservador, uma relação de concubinato. Aceita bem o patrulhamento dos adversários

Diante das condições objetivas, o PSDB saiu-se bastante bem no processo eleitoral. Elegeu oito governadores, fincados inclusive em estados fortes em economia e população, e manteve bancadas relevantes no Congresso Nacional.

Na eleição presidencial fez 44% dos votos válidos no segundo turno, quando a aprovação do governo adversário beira a unanimidade. Claro que ganhar é sempre infinitamente melhor do que perder, mas ter o apoio de quarenta e quatro em cada cem eleitores que saíram de casa para votar não foi pouco.

Ainda mais quando um presidente como o que sai se joga e joga o governo na campanha do jeito que fez.

Mas derrota é sempre derrota, e abre-se uma temporada de disputa algo renhida por espaços, por liderança. O ensaio preliminar para a luta de mais adiante (2014) parece ser a troca (ou não) de guarda na presidência do partido, agendada para a primeira metade do ano que vem.

O país sairia ganhando se a disputa no PSDB, chamada por alguns de “refundação”, acontecesse com algumas pitadas de petismo, ainda que hoje o próprio PT tenha abandonado certos rituais.

Refiro-me à obsessão por teses, documentos, divergências colocadas por escrito, resoluções formais. Falta um pouco disso ao PSDB. Colocar no papel, preto no branco, o que propõe para o Brasil de diferente em relação ao governo que aí está.

Vem sendo um problema tucano nesta década de hegemonia federal petista. Sabe-se o nome dos candidatos a conduzir a sigla de volta ao poder, mas não se tem ideia definida sobre o que propõem. Ou no que diferem entre si.

Sem falar na pergunta sem cuja resposta dificilmente a legenda chegará ao porto seguro.

“No que exatamente um Brasil governado pelo PSDB seria melhor do que é hoje?”

Os tucanos comportam-se como se tivessem algum direito de origem divina ao poder. Um destino glorioso inevitável, explicável por  expressões dogmáticas, como “superioridade na gestão”. Que pode significar tudo, ou nada.

Mas talvez essa fuga para o nebuloso seja menos fruto da vontade que da necessidade. Como diria Guimarães Rosa, mais precisão que boniteza.

O espaço da centro-esquerda, da social-democracia, está no Brasil ocupado pelo PT. Que, como todo partido reformista, busca operar melhorias no capitalismo mas sem contestá-lo. Oito anos de PT em Brasília não mexeram na estrutura fundiária, nem no domínio dos bancos, nem na arquitetura da propriedade.

Há portanto espaço para uma “oposição de esquerda”, mas essa possibilidade está amortecida pela participação dos embriões dessa esquerda no bloco de poder reformista.

Se o PSDB não tem vocação para tal, há também espaço para uma oposição à direita do PT. Poderia ser do Democratas, não estivesse o partido tão empenhado na autodestruição.

Se o maior ativo do petismo após estes oito anos é ter acelerado o ingresso dos pobres na classe média, com a formalização do trabalho e a ampliação do crédito, é verdade também que essa classe média robustecida não necessariamente vota no PT ou gosta do PT.

Os resultados eleitorais de outubro foram esclarecedores a esse respeito.

Nota-se porém no PSDB certa ojeriza, certo horror a caminhar por aí. Do que muitos tucanos gostariam mesmo seria receberem do PT um tratamento de “iguais no progressismo”. Um certificado de que -ufa!- não são “de direita”. O problema é que para receber tal certificado será preciso aderir, abrir mão do projeto de poder.

O PSDB lida mal com os valores e desejos de certa classe média emergente, que não se sente tão bem representada pelo PT. Tem vergonha de defendê-los. Prefere estabelecer com esse eleitor, conservador, uma relação de concubinato. Aceita bem o patrulhamento dos adversários.

Quer o voto conservador, mas não quer ser visto como conservador.

Da redução de impostos à proibição do aborto, da redução da maioridade penal à proibição do consumo de drogas, nada dessas coisas mobiliza verdadeiramente o PSDB.

Se bobear, até o PT é capaz de chegar antes nesse nicho de mercado.

Natal

Volto semana que vem. Então boas festas, muita felicidade e muita paz para todos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (24) no Correio Braziliense

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6 Comentários:

Anonymous Henrique Montenegro disse...

O que falta no Brasil é um partido liberal de verdade. O verdadeiro liberal nao é "conservador" (palavrão aqui no Brasil), ele defende causas libertárias como a liberação das drogas, a liberdade de expressão nos moldes norte-americanos, a liberdade para os gays serem tratados como todo o resto da população, e por aí vai.

Mas isso nao existe no Brasil, infelizmente.

sábado, 25 de dezembro de 2010 12:21:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Pô Alon, você falou que não mais publicaria até o final do ano...perdi.

domingo, 26 de dezembro de 2010 10:18:00 BRST  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon, não sei se você conhece a história do Reino de Tebas, que passou por uma reviravolta com a presença de Dionisios, quando este se apresentou a Penteu, o rei. Em toda a narrativa, há dois personagens que aparentemente não fazem história: Cadmo, fundador de Tebas e pai de Penteu e Tirésias, o cego profeta. Suas presenças em cena acontecem quando um se encosta no outro para se ampararem. Ao final, o reino de Tebas é destruído e Cadmo e Harmonia partem para o exílio. Essa tragédia de Eurípides se tornou na época um enigma para muitos analistas, tal a ironia.
É uma possível alegoria sobre o velho PT e o PSDB patrulhado (como você intitulou as duas últimas notas). Tirésias, o cego adivinho, é o único a sair ileso.

domingo, 26 de dezembro de 2010 16:33:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O PT já até deve ter ultrapassado o nicho liberticida, inclusive na questão dos costumes e questões de foro mais íntimo ou de consciência. Só que de uma maneira que se amolda a quaisquer circunstâncias. No caso do aborto, por exemplo, passou de um lado a outro sem deixar claro o que pretenderia. Agora, neste caso, reafirma algo sobre a descriminação e coloca, adequadamante, na esfera do Legislativo o aprofundamento de discussões e apresentação de soluções. Ou na questão religiosa, onde após afirmar-se religioso, aparece errando na persignação. Sem falar na imprensa, produção digital, rádio e TV, terreno onde roda e transita de censura pura e controles, culminando em negaças. Fora as incursões pelo cinema onde, até agora, ao menos e sorte de todos que gostam de filmes, sem muito sucesso com personagens seus. Era só o que faltava, vencer a indicação de melhor filme estrangeiro. Assim, daria para dizer que o PT inventou um centro político mutante. Ou, seria melhor qualificado, um centro político camaleão. Mas, onde enxerga-se um camaleão, veja-se, em todas as horas, um tamanduá querendo dar um abraço. O assunto é sério, mas piada não perde-se.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010 11:32:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Na análise do PSDB é necessário considerar alguns pontos distintivos do partido. Primeiro, na origem, o partido é de acadêmicos de esquerda (Salvo Franco Montoro, José Richa e Mário Covas) que deu certo antes do PT, com muito mais tempo de luta.
Segundo, para dar certo precisou do Plano Real e elegeu um presidente às custas do Plano Real e um presidente que não fora na juventude sequer um líder de um grêmio recreativo. Terceiro, para ter certeza que elegeria o presidente às custas do plano foi necessário garantir que São Paulo não se dispersasse em várias forças políticas e para isso era importante que o PSDB se apresentasse forte em São Paulo tanto com o candidato à presidente da República como com o candidato a governador do Estado.
Quarto, é preciso lembrar que o PSDB se opôs ao PT, um partido que tinha facções que iam da extrema esquerda até a centro esquerda incluindo nessa última uma esquerda religiosa. Tivesse se oposto ao PDT de Leonel Brizola, por exemplo, e o PSDB estaria hoje mais à esquerda, pois em muitos lugares haveria coligações do PSDB e do PT.
Quinto, para garantir que o poder não fosse passageiro; o PSDB teve que apoiar a reeleição e usar todas as forças que o partido tinha disponível para aprovar a emenda, incluindo garantir, da crise Mexicana em fins de 1994 até a crise dos Tigres Asiáticos em 1997, o Plano Real pelo uso de todas as reservas de que o país dispunha e garantir o Plano Real de novo na crise Russa em 1998 (Garantir o Plano Real também foi exigência para se ter um presidente sem o preparo de chefe de executivo que normalmente os candidatos a presidência tem). E ainda dentro desse quinto item de garantir o Plano Real, é preciso entender que o instrumento principal do domínio do PSDB, isto é, o Plano Real, representado pela baixa inflação, requeria altas taxas de juros e receitas elevadas. Taxa de juros alta é fácil. Já receitas elevadas são obtidas via aumento do tributo que não é fácil e via venda de ativos que é mais fácil e ficou muito visível até por interesses eleitoreiros o que acabou incorporando ao "ativo" e ao "passivo" do partido, segundo o que a propaganda tenta induzir (Na época do PSDB, vender estatais era moderno, ou seja, gera "ativo" e na época do PT vender estatais é atraso, isto é, gera "passivo).
Desses aspectos, tem-se como resultado um partido com o eleitorado cativo de São Paulo que só tem força nacionalmente com um candidato de São Paulo e em oposição ao PT.
As duas principais conseqüências dessa história do PSDB: o vínculo extremado com São Paulo e oposição ao PT é que levou o PSDB a ficar cada vez mais à direita, sem ser um partido de direita.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/12/2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010 14:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Querer o voto dos conservadores não é nenhuma pecha, pois o PT também o quer. Aliás, não só o PT, mas qualquer partido de esquerda não pede que os conservadores não votem nele. O problema é ter de convencer ao eleitores de direita que o partido representa a direita.
O problema do PSDB com o vínculo com São Paulo é de duas ordens. Primeiro que por se tratar do estado mais rico da federação, São Paulo é visto pelo restante do país como um estado mais representante da direita do que da esquerda. Depois porque em São Paulo ao se opor ao PT, o partido tem necessariamente que assumir uma postura de direita.
O vínculo em si com São Paulo, o PT também o tem, mas soube desamarrar com a candidatura do nordestino Lula e da mineira do Rio Grande do Sul - terra de Getúlio Vargas que estudou em Minas Gerais e fez a Revolução de 30 com a ajuda de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e do Nordeste contra lideranças políticas de São Paulo. Ao PT faz bem que a disputa se dê entre o PT e o PSDB. Para o PSDB, à medida que ele ganhe em São Paulo, a disputa não é ruim. Ela é ruim pelo fato de que a disputa ocorrendo entre o PT e o PSDB leve o partido cada vez mais para a direita. Hoje, aqui em Minas Gerais, os deputados do partido que quando da fundação eram todos oriundos do antigo PMDB e alguns do PT (João Batista dos Mares Guia, por exemplo) são basicamente filhos de ex-deputados do PDS e PFL.
E o Brasil o que ganha com isso? Saber que o país é cada vez menos administrado por forças conservadoras que são maioria no país, eu, que não sou conservador, considero muito bom. Ver o PSDB caminhando para a direita, eu acho ruim. Ver o PT triunfar sobre o PSDB, eu acho bom também porque acho que o PSDB privilegia a eficiência e a eficiência só pode ser privilegiada pelos que são privilegiados o que não é o caso do Brasil.
Aliás, o discurso da eficiência é um discurso que os políticos paulistas também gostam de professar. E é bom para eles. É muito mais eficiente (sob o aspecto de retorno econômico) para o país construir uma refinaria em São Paulo do que a construir no Nordeste ou em uma outra região mais deserta e pobre. O Brasil, entretanto não será um país justo, não será um Brasil se existirem regiões pobres ao lado de regiões ricas. E os brasileiros não serão um só povo se existirem as desigualdades sociais como existem aqui. E o discurso da eficiência não é um bom caminho para combater a desigualdade que só se combate aceitando a ineficiência.
A eficiência na maioria das vezes está em oposição à justiça. É só lembrar que depois de se alcançar o máximo da produção em escala, todo aumento de produção com a contratação de um novo empregado será menos eficiente do que contratação para a substituição de um empregado menos eficiente por esse novo que se tenha mostrado mais eficiente. Enfim, o aumento da ineficiência gera o pleno emprego que é o principal instrumento de reivindicação dos assalariados.
Resta, entretanto, ao PSDB uma esperança. Que a atração que o eleitorado conservador, provavelmente majoritário, exerce nos dois partidos leve o PT também para a direita e em um determinado momento possa ocorrer aqui o que ocorreu nos Estados Unidos em que o partido Republicano menos conservador tenha se transformado no partido da direita enquanto os democratas tenham-se transformados em um partido mais a esquerda.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/12/2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010 14:26:00 BRST  

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