quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Um desejo e tanto (15/12)

O que lhe falta para, finalmente, ficar de bem com a vida? Talvez a certeza de que os adversários precisarão engolir no futuro uma narrativa história hegemônica ao gosto do presidente que sai

É fascinante observar o comportamento do presidente que sai, nestes últimos dias de mandato. É de todo não convencional.

A alegria por terminar bem o segundo e último quadriênio é merecida e compreensível. Mais enigmática é a ofensiva permanente contra os políticos batidos, especialmente contra os derrotados com a participação direta e intensa de sua excelência.

Ainda que o valor de tal participação possa ser discutido. O mapa eleitoral nos estados permite concluir que a coalizão do presidente ganhou onde ganharia mesmo sem a performance presencial dele, e perdeu em lugares-chave onde o chefe de governo empenhou-se pessoal e avassaladoramente pelos candidatos.

Quando o vetor presidencial foi mais decisivo? Talvez na costura das alianças para o Senado, onde pretendia montar uma maioria confortável para Dilma Rousseff. Conseguiu, mas isso não irradiou pelos estados, especialmente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Não que as derrotas locais tirem o sono dos sacrificados, metodicamente alojados em boas posições na máquina federal.

Enfim, o presidente colhe os frutos da vitória, mas, como já se notou, o triunfo não parece ter trazido paz de espírito a sua excelência.

É até compreensível que ele continue a fustigar a imprensa e a oposição, numa operação para enfraquecer as possíveis fontes de crítica e resistência ao poder de Dilma.

Mas espezinhar os políticos derrotados nos estados? Gente que visivelmente terá imensa dificuldade para retomar a trajetória? Para quê?

Há explicações de viés psíquico, mas eu confesso ter algum pé atrás com essas coisas. Políticos são especialistas em não dinamitar as últimas pontes que os ligam a adversários, que amanhã poderão ser necessários como aliados. Daí por que a perenidade de certos rituais protetores da honra.

O presidente que sai se dá ao trabalho de percorrer o país para tripudiar sobre -e tentar cobrir de ridículo- gente que não teve sorte nas urnas. Os gestos carregam tinturas supostamente relacionadas à política, quando entra em pauta a derrota na votação da CPMF no Senado. Mas Dilma tem teoricamente maioria no Congresso para retomar o imposto, se decidir pagar o preço.

Será que o quase ex-presidente tenta mostrar a possíveis resistentes o que poderá lhes passar se arrumarem problemas para a sucessora? Ou é só pessoal mesmo?

Toda vez que o tema das motivações presidenciais entra em pauta assomam duas tentações igualmente perigosas. A primeira é analisar o personagem exclusivamente pelo ângulo da racionalidade política. A segunda é acreditar piamente na prevalência dos aspectos emocionais.

A verdade científica deve estar em alguma combinação das duas coisas, em algum ponto intermediário, mas um detalhe é inescapável: o presidente da República que conseguiu dois mandatos para si e mais um para sua indicada não parece estar deixando o cargo de bem a vida. Falta alguma alguma coisa, que ele parece desejar e ainda não ter.

O que lhe falta para, finalmente, ficar de bem com a vida? Talvez a certeza de que os adversários precisarão engolir no futuro uma narrativa história hegemônica ao gosto do presidente que sai. Seria um desejo e tanto.

Essa certeza nem ele nem ninguém pode ter com margem razoável de segurança.

Narrativas também flutuam ao sabor da política, são funções com variáveis obscuras, e que podem surgir como do nada, depois de dormitar por longos períodos.

Sem noção

Um bom aumento para as autoridades federais de primeiro escalão pode encontrar justificativas, sei lá. A compra de um novo avião, com mais autonomia, para a presidente da República que assume em janeiro, também.

Mas defender ambas as coisas simultaneamente à defesa de um reajuste magro para o salário mínimo e para as aposentadorias, isso é coisa de quem está se lixando para os outros.

Especialmente no caso do avião. O governo diz que vai desembolsar um caminhão de dinheiro só para poupar a presidente de escalas em viagens muito longas.

Só pode ser coisa do MSN, o Movimento dos Sem Noção.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (15) no Correio Braziliense.

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2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Ah, o presidente está insatisfeito é com sua gestão mesmo. Por mais que ele diga e desdiga, ele sabe que sua gestão não tem nada de notório. O crescimento da economia não é mérito do governo, o bolsa-família é fruto do governo anterior (que ele praguejava contra em vídeo agora histórico), o Fome Zero virou uma piada, a saúde e educação não melhoraram, o investimento do governo, com PAC e tudo, ficou abaixo do FHC se excluir o investimento de estatais, enfim, não tem nada que ele possa se orgulhar e se envergonha na sua própria comparação com o FHC. E ele sabe que qualquer um com um mínimo de memória e conhecimento reconhece a vantagem do FHC, ele próprio a reconhece. Então ele quer fazer valer a sua versão, a versão que emplacou no povão, mas que no fundo não o satisfaz.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010 12:36:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Essa justificativa para a compra do avião, não é só sem noção. É puro deboche.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010 15:57:00 BRST  

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