domingo, 12 de dezembro de 2010

Teorias da relatividade (12/12)

Se o tsunami de crescimento projetado para o segundo quadriênio do presidente que sai revelou-se uma marolinha, é preciso saber que coelho Dilma Rousseff vai tirar da cartola para fugir do déjà vu

Há uma maneira simples e engenhosa de fazer concluir que o Brasil vai bem em todas as áreas. Basta escolher adequadamente, em cada caso, com quem comparar. Uma “teoria da relatividade” que revoluciona não a Física, mas a arte da esperteza.

Nos indicadores sociais somos melhores que a média dos vizinhos. No crescimento vamos bem além dos países desenvolvidos. Na democracia somos um exemplo no universo dos emergentes.

E se compararmos nosso crescimento ao dos demais emergentes, nossos indicadores sociais aos dos países desenvolvidos, nossa democracia à dos nórdicos? Haverá talvez motivo para depressão.

Outro expediente sábio, para essa finalidade, é olhar de modo seletivo para o passado ou para o futuro, conforme a conveniência.

Quando a economia brasileira, especialmente a indústria, sofria o tranco forte da recente grande crise, o discurso das autoridades diante de cada índice ruim era repetitivo: o número preocupante refletia o passado, sendo mais eficaz olhar para as promessas de futuro, grávidas das tendências de superação.

Agora, ao contrário, festeja-se o crescimento do PIB de sete mais alguma coisa em 2010, sem que o discurso oficial procure atentar para dois detalhes: 1) na média do pós crise o crescimento tem sido modesto e, principalmente, 2) a taxa reflete um movimento passado de recuperação, que portanto já foi.

Uso a redundância porque são tempos em que ela se tornou fundamental, dada a intensa produção da fábrica de lides do oficialismo. Essa é aliás uma que não sente a crise. Nunca sentiu.

O presidente da República que sai não conseguiu, infelizmente, cumprir a principal promessa do segundo mandato, que pode ser desdobrada em duas: colocar o país em crescimento acelerado e também sustentado. Não confundir com sustentável. São coisas bem diferentes.

Os últimos números desenham a situação com certa clareza. A sensação de prosperidade, que tantos dividendos políticos trouxe ao situacionismo este ano, decorre de uma positiva expansão do crédito e do consumo, mas que infelizmente não vem sendo adequadamente acompanhados pela produção nacional.

As importações fecham o buraco, ao custo da deterioração da balança comercial e das contas externas consolidadas, que dependem como nunca antes na história deste país (ou como sempre) da entrada de investimentos diretos, o nome bonito da alienação de ativos, da desnacionalização.

Em miúdos, estamos como a família que vive bem (ou pelo menos melhor do que vivia antes), mas à custa da poupança e do sacrifício alheios. Há exemplos históricos às pencas a alertar para o desfecho comum nesse tipo de enredo. E nem é preciso escarafunchar muito. Basta prestar atencão ao que vai pelos Estados Unidos.

Mas sigamos a receita de 2008/09 e esqueçamos o que passou. Olhemos para adiante. Se o tsunami de crescimento projetado para o segundo quadriênio do presidente que sai revelou-se uma marolinha, é preciso saber que coelho Dilma Rousseff vai tirar da cartola para fugir do déjà vu.

O primeiro movimento, como sempre, é cortar à vista no custeio, com a esperança de abrir um fôlego ao investimento público. A dúvida é se Dilma no médio e longo prazos terá como resistir às pressões políticas e corporativas, dado que os políticos e as corporações são a espinha dorsal da base de sustentação e vêm habituados à generosidade do antecessor.

Outra indagação é se Dilma conseguirá finalmente elevar, para valer, as taxas de investimento público, ou se vai acabar concluindo que a única maneira de subir os índices de poupança e investimento é dar as costas ao paquiderme e confiar a coisa ao setor privado. Esta variável tem a ver com a anterior, do custeio.

O noticiário tem se debruçado sobre a composição da equipe, atendendo a uma curiosidade natural. Do meu lado, estou mais curioso para saber como -e se- a presidente que assume em janeiro vai desfazer o nó dos juros, do câmbio, do custeio, dos investimentos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (12) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Uma boa notícia de Cuba. Só há corrupção entre o povo. Essa é uma das maravilhas da esquerda. Por mais corrupta que seja a população em geral, os altos dirigentes são todas de pessoas da mais alta moralidade pública.


Cuba, ano 52: uma revolução na revolução no país da fábrica de campeões


“A corrupção é rara nos escalões superiores, mas comum nos pequenos negócios. Os milhares de gerentes de lojas, restaurantes, e prestadores de serviços, freqüentemente, encontram uma maneira de desviar parte dos recursos que administram para sua conta particular e se associar ao proprietário do estabelecimento, o estado”.

http://www.porfiriolivre.info/2010/12/cuba-ano-52-uma-revolucao-na-revolucao.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 11:04:00 BRST  
Anonymous Antaxerxes disse...

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As perguntas já estão embutindo o encaminhamento da resposta: parece que sim, mas PRECISA ESPERAR UM TEMPO.
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Se conseguirá resistir as pressões... pela história de vida dela, sim...
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Elevar as taxa de investimento público... O PAC é o Orçamento de Investimentos do OGU (Orçamento Geral da União), escrito para leigos. Nos anos de 1998 a 2001, quando participei de equipe de assessoramento a deputados e senadores do meu estado para acompanhar o OGU, os níveis de realização dos investimentos federais eram em torno de 10%... No PAC fala-se de 50, 60%... A taxa de investimento público vai subir...
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Você não está dando importância ao nosso desempenho frente a desaceleração do crescimento no mundo, devido a crise de 2007-2009... Os EUA estão no fundo do poço ainda... tenho parentes morando lá e estão apavorados... Um sobrinho que é sócio fundador de um fundo de hedge, tirou um período sabático e está viajando o mundo, esperando o que acontecerá... Na CNN e Bloomberg (na FoxNews não sei), o nosso desempenho é considerado admirável...
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O câmbio não tem jeito... os EUA está jogando contra a própria moeda... vão sobreviver os países que souberem trabalhar com (ou fugir do) dólar fraco. O preço das comodities vai continuar subindo em dólar porque os investidores estão investindo em ouro e alimentos, fugindo das moedas, principalmente o dólar... A nossa "disparada" da inflação é 50% devida a alimentos e é por motivos monetários, não por excesso ou escassez...
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Os juros, para baixar, precisará resolver a redução da divida e reestruturar os mecanismos de investimentos dos fundos brasileiros... Isto afeta fundos de renda fixa de banco, fundos de pensão e a nossa poupança.. Mais fácil de resolver porque depende só do Brasil...
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E, as importações estão ganhando terreno sobre a produção industrial interna, porque todo o mundo procura compradores e também, porque as industrias tiraram o pé acreditando que afundariamos com a crise ... vacilaram e perderam mercado... A industria que usa pouca importação de insumos e exporta muito é a mais atingida, talvez a única.
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Vamos esperar 2011 e suas notícias...
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 18:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Há mais tempo e também nos posts que seguem a este "Teorias da relatividade" de 12/12/2010 você tem batido mais forte no ex-presidente Lula. Há bons motivos para criticar o ex-presidente. Não creio, entretanto, que a esquerda democrática encontre-os a rodo como parece que você vem fazendo ultimamente. Você mesmo no seu Twitter indicou um bom artigo de análise do governo de Lula. Trata-se do artigo de Marco A Nogueira, intitulado "Nada será como antes" e cujo endereço na web conforme você indicou é:
http://j.mp/heT3iD
Talvez seja uma análise de alguém tão da esquerda como você ou mesmo mais do que você, provavelmente também tão democrático como você e provavelmente menos nacionalista do que você. E, no entanto, a crítica dele é bem mais leve do que a sua.
Há também a crítica dos que não gostam do Lula. Não vejo essa crítica, quando partindo da esquerda, possuindo uma boa fundamentação. À direita, não há como rebater a crítica, a menos que você faça o rebate do próprio argumento da direita.
Há a questão dos direitos humanos que hoje são menos hipocritamente defendidos à esquerda. Se tomarmos como referência um governo intelectual de esquerda como o de Fernando Henrique Cardoso ficaríamos abismado com a forma como o governo dele se relacionou com Alberto Fujimori. No final do governo, entretanto, ele se posicionou esplendidamente na Assembléia Nacional Francesa contra a barbárie americana no Iraque. Na minha avaliação, entretanto, FHC pensou mais no Brasil do que nele ao se relacionar com Alberto Fujimori e mais nele do que no Brasil ao criticar George Bush na Assembléia Nacional Francesa.
Para entender Lula nas relações internacionais é preciso percebê-lo como mascate e mascote do Brasil no exterior. E no Brasil deve-se compará-lo com outros governantes do Brasil e não com governantes de outros países.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/01/2011

sábado, 1 de janeiro de 2011 23:24:00 BRST  

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