quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Recorrer ao velho PT (23/12)

A pauta desta vez não é um problema no âmbito dos fardados. É entre os civis mesmo. Alguém tem, afinal, uma boa explicação de por que mesmo antes da ameaça de greve os aeroportos já iam mal?

Vamos combinar. Estivéssemos num governo do PSDB, haveria agora em Brasília um plantão de parlamentares petistas. Cuja missão seria entupir a imprensa com aspas culpando a administração pelas desventuras dos infelizes que resolveram viajar de avião neste feriado.

Talvez haja algum exagero no “infelizes”, pois os viajantes vão turistar, enquanto muitos ficam na ativa. Mas vamos em frente.

E que o governo tucano não se atrevesse a colocar pressão sobre os sindicalistas em ponto de greve. Teria imediatamente contra ele um discurso arrumadinho, de como a incompetência das autoridades acabou empurrando os pobres coitados dos aeroviários e aeronautas ao último recurso, desesperado, da paralisação.

Tudo pela absoluta falta de sensibilidade social de quem deveria ter se preparado com antecedência e negociado um bom acordo antes de deixar as coisas chegarem ao ponto que chegaram.

Ah, e teria mais. As dificuldades da Infraero se explicariam por uma política deliberada de sucateamento, cujo objetivo oculto seria a malfadada privatização, sob o bonito nome de “abertura do capital”.

Mas o governo é do PT, e não do PSDB. Para começar, é preciso fazer justiça. Os principais aeroportos do país, com raras exceções, estão melhor do que há oito anos. Há alguns relegados, e talvez o mais emblemático seja o de Vitória, capital do Espírito Santo. Mas no geral a coisa andou.

Só que não no ritmo do crescimento da demanda. Ficou longe. O governo -bom de comunicação que só ele- explora o aspecto positivo, de que o poder de compra avançou e hoje muito mais gente voa em vez de pegar uma estrada. Mas, e o tal planejamento?

A explicação fácil seria um déficit de capacidade de gestão, mas eu peço vênia para desconfiar toda vez que alguém fala em “problemas de gestão”.

Prefiro acreditar no velho PT, crer que tem gente fazendo há muito tempo corpo mole neste assunto, de olho num filé.

Foi assim no primeiro “caos aéreo”, depois que a irresponsabilidade de dois pilotos americanos causou o acidente da Gol em 2006. Em meio à politicagem, uma parceria entre o sindicalismo e o governo procurou vender à opinião pública a necessidade da “desmilitarização” do controle do espaço aéreo nacional.

Com o tempo, comprovou-se não haver a propagandeada “falência” do sistema de controle, mas aí os americanos (e com a ajuda do nosso altivo Itamaraty, segundo o WikiLeaks), já estavam no país deles, fora do alcance da Justiça verde-amarela.

Como o gato já tinha posto o rabo de fora, o apêndice do bichano pôde ser medido em muitos e muitos dólares, a serem desembolsados para construir o tal sistema paralelo civil de controle do espaço aéreo nacional.

E a ideia acabou indo na época ao arquivo, pois as pessoas notaram que se a Força Aérea Brasileira deixasse a função haveria o risco de o controle ficar à mercê do sindicalismo. Como agora na ameaça de greve dos aeroviários e aeronautas. Conseguem imaginar o que seria?

Mas a pauta desta vez não é um problema no âmbito dos fardados. É entre os civis mesmo. Alguém tem, afinal, uma boa explicação de por que os aeroportos já iam mal mesmo antes do ensaio de greve?

Só não vale dizer que não tem dinheiro. Afinal, este governo, quando quis, deu um jeito de capitalizar a Petrobras como parte das operações político-empresariais do pré-sal. Achou que deveria fazer e fez. Passou por cima de todo tipo de dificuldade e reticência. Hoje as ações da empresa sofrem, talvez momentaneamente. Mas o governo chegou onde quis.

Por que nunca houve a mesma vontade política no tema dos aeroportos? Deveríamos recorrer ao velho PT e desconfiar de que há mais gente interessada na privatização da Infraero do que supõe a vã filosofia?

Alistamento de todos

Não há razão para as Forças Armadas brasileiras deixarem de observar com atenção a correta medida adotada pelos Estados Unidos, de banir o veto ao aliastamento de homens e mulheres assumidamente homossexuais.

Patriotismo, orgulho nacional e vontade de servir fardado à pátria nada têm a ver com orientação sexual. Mesmo no aspecto operacional, todas as pesquisas realizadas nas FFAA americanas revelaram uma maioria favorável à revogação do “Don’t ask, don’t tell”, o “Não pergunte, não diga".

Considerando que os americanos estão o tempo todo em guerra, é um resultado ainda mais significativo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (23) no Correio Braziliense.

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