quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O controle subjetivo (09/12)

Nunca se viu político elogiar reportagem ou opinião que o prejudique, nem criticar opinião ou reportagem que o beneficie

Volta o tema do controle social/estatal sobre o conteúdo distribuído pelas empresas e pessoas que trabalham em comunicação. Parece que o atual governo tem um projeto para isso. Caberá ao próximo conduzir -ou não.

O debate é legítimo, não há por que deixar de discutir os assuntos de interesse do país, ou de parte dele. E as intenções apresentam-se como boas. Em teoria, o controle seria útil para proteger a sociedade dos abusos na comunicação.

Como de boas intenções o inferno está lotado, talvez seja melhor passar à discussão do mérito. Um ponto é que nas concessões públicas seria razoável o público exercer algum controle sobra a atividade dos concessionários.

De novo parece fazer sentido. Os problemas aparecem quando se desce um degrau no nível de detalhe. Se vai haver controle, quem o exercerá, e com base em que normas?

Há iniciativas recentes nas esferas do poder para instituir conselhos de comunicação. Como a imprensa tem por vocação investigar e fiscalizar os poderes, estamos diante de um antagonismo.

Dependendo de quem estiver no governo, a tendência será considerar abusivo tudo que incomode o governo. E razoável tudo que incomode a oposição. Preto no branco, os conselhos tenderão a defender o interesse de uma parte, partidário portanto.

É instrutivo observar o comportamento dos políticos diante do chamado jornalismo investigativo.

Nunca se viu político elogiar reportagem ou opinião que o prejudique, nem criticar opinião ou reportagem que o beneficie.

E os parâmetros? Há ramos de atividade em que a resposta é mais fácil. Na medicina existe um sistema de normatização que permite, com margem razoável, discutir se determinado procedimento foi correto ou não. É possível portanto reduzir bastante as taxas de subjetivismo.

Mas como decidir se determinada reportagem deveria ou não ter sido publicada, com os elementos à disposição do jornalista ou do jornal na hora de decidir? O grau de subjetivismo é imenso.

Na última campanha presidencial o PT odiou as reportagens que incomodaram o PT e adorou as que incomodaram o PSDB. E o PSDB vice-versa.

Quantas das reportagens criticadas por petistas ou tucanos estavam formalmente erradas? Não sei se alguém contabilizou. Quando houve erro formal a Justiça deu imediato direito de resposta, mas foram exceções.

Outra preocupação é com o suposto “baixo nível” da programação. Já existe o sistema de classificação, que parece bom. E como definir o limite entre o “baixo nível” e o “alto”? Voltamos à situação anterior, em que os ocupantes do poder ficarão em situação privilegiada para sufocar a crítica, a sátira ou o esculacho, tudo em nome do “interesse social”.

Há também a questão do preconceito. De novo, quem vai definir o que é preconceituoso e o que não é? Há o preconceito contra o pobre, o negro, a mulher, o índio, o trabalhador braçal. E há também o preconceito contra o rico, o branco, o homem, o empresário, o trabalhador intelectual.

Todo juízo de valor inclui alguma caricaturização e pode ser acusado de embutir preconceito. E aí, quem vai deter o poder de separar os preconceitos "aceitáveis" dos "inaceitáveis"?

Há uma resposta habitual para as indagações desta coluna. Em tese, o controle sociai da comunicação poderia ser feito por uma instância politicamente neutra, representativa de todo o espectro social.

Eu acredito na possibilidade real de algo assim tanto quanto acredito em duente, saci-pererê e mula-sem-cabeça. E peço, por favor, que esta minha manifestação não seja vista como exemplo de preconceito contra o folclore nacional.

De férias

A eleição passou e a nossa oposição voltou à clandestinidade. Ou decidiu antecipar as férias.

Vai aqui uma modesta sugestão, se é que já não foi feita. Entre uma conversa e outra sobre 2014, por que algum cacique da oposição não aproveita para dizer de quanto deveria ser o reajuste do salário mínimo?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (09) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

"Preto no branco, os conselhos tenderão a defender o interesse de uma parte, partidário portanto."

Bingo. Basta ver os grupos que participaram da tal CONFECOM, de onde brotou boa parte das propostas.Há um coro unanimista em torno do chamado "controle social da mídia", pois todos os grupos estão alinhados ideologicamente com o poder de turno, seja por convicção, seja por cooptação, via faz-me-rir oficial...

Kbção

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010 19:39:00 BRST  
Anonymous Antaxerxes disse...

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O problema para os políticos não deve ser a mídia escrita, porque está cada vez menos lida pelas atribulações do dia a dia. Também, não dá para abrir um jornal no serviço, que o chefe pega.
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Creio que preocupação seja a midia televisiva com alta audiência, tipo TVs abertas e agora, as "midias escritas de jornalistas na internet" e os blogs.
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O esperado, em nível internacional pelo menos, é que os jornalistas apresentem pelo menos os dois lados de cada questão, para propiciar ao leitor (jornal ou internet) uma visão completa do problema. Os blogs e revistas podem adotar uma abordagem mais de "opinião do autor", pois isto é o esperado deles.
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O problema da midia televisa, talvez pelo curto espaço de tempo disponível e/ou por "adotar uma posição, sem revelar diretamente isto", fragmenta as notícias e apresenta apenas a parte que interessa ao seu posicionamento.
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Por exemplo, apresenta os numeros da dívida publica sem referir-se ao PIB; o numero de homicídios por mil habitantes, sem falar se está aumentado ou diminuindo... Fala que a expectativa de inflação aumentou muito (subiu de 5,12 para 5,18) e/ou está se desgarrando da media de 4,5 +- 2,0 .. desprezando o esforço feito para manter aquecida a demanda durante a crise 2008-2010 que manteve o ambiente psicológico positivo E o +- 2,0 que a torna dentro do planejado... e por ai vai...
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Assista os jornais de globo (na tv aberta e fechada) e veja os malabarismos para apresentar uma coisa que está bem ou administrável como "caminho para o abismo"...
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Isto sem falar os comentaristas que falam que o fim está próximo... fica como posição do convidado, não da emissora.
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AI, FICA DIFICIL RECLAMAR DA IMPRENSA... ela não esta mentindo... está fragmentando ou a opinião é de outros...
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Mas, isto não é de hoje, mas só caiu a ficha durante as eleições...
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No mais, bemvindo...
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sábado, 11 de dezembro de 2010 17:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Para resolver essas questões de propriedade de empresas de comunicações, monopólios, oligopólios, oligopsônios, empresas estatais de comunicações, conteúdo e quaisquer outras figuras, só há uma receita: não pode haver censura de qualquer tipo e sob quaisquer justificativas. Sem censura, fica mais fácil discutir. E no Congresso, onde deve-se dar esse debate, sem instâncias paralelas ou que intentem se sobrepor ao Legislativo. Nunca é demais repetir: sem censura.

domingo, 12 de dezembro de 2010 17:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

As oposições deveriam vir e defender o que foi apresentado na campanha. Da mesma forma a futura presidente. Como serão construídos os milhões de casas, investimentos em infraestrutura, Educação, Saúde e Segurança? Ambos deveriam mostrar o que fazer, onde fazer e como fazer. O por quê? Oras, porque prometeram para quem paga a conta de campanhas políticas em horários que são pagos via isenção de impostos. E são chamados de horários gratuitos. Deveriam vir e mostrar o que cortar, onde cortar e como cortar. Ou o que não dará para fazer ou continuar por falta de dinheiro. Dinheiro, porque verba sempre há. Mesmo que gere inflação depois de gasta.
Swamoro Songhay

domingo, 12 de dezembro de 2010 17:49:00 BRST  

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