sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mistificações (17/12)

Parte da esquerda considerou que o golpe de 1964 contra Jango Goulart havia comprovado o esgotamento da chamada "democracia burguesa", e portanto da possibilidade de transformações progressistas por meios pacíficos. Era descrito na época como o  "colapso do populismo"

É razoável que a participação de Dilma Rousseff na luta armada contra a ditadura tenha sido objeto de atenção na campanha eleitoral, e é democrático que ela, como presidente eleita para governar o Brasil, sofra a iluminação dos holofotes sobre a biografia.

Quem se candidata a dirigir o país tem certas regalias mas abre mão de outras. Ou deveria abrir.

Um subproduto indesejado, porém, é a luta política contaminar excessivamente a observação histórica. É inevitável, mas as taxas andam acima do recomendado pela razoabilidade. 

O que não é razoável? A insistência em caracterizar as ações da oposição armada de quatro décadas atrás como "terrorismo".

Se terrorismo houve no Brasil naquelas épocas, foi esporádico e praticado durante a abertura dos anos 70 e 80, exatamente por quem se opunha à redemocratização. O Riocentro ficou como símbolo dos espasmos.

A esquerda armada fez aqui foi guerrilha, urbana e rural. Pode-se definir guerrilha e terrorismo como mais convém. Mas se as palavras são distintas é por significarem coisas diferentes.

Guerrilha é uma guerra com certas características, irregulares. Travada portanto entre contingentes militares. Terrorismo é o uso de violência maciça contra a população civil, ainda que com propósitos políticos.

Se a mitologia da direita alimenta o espectro do "terrorismo" supostamente praticado por organizações políticas da esquerda, esta última adquiriu a mania de responder à mistificação com outra: de que a luta armada foi o único recurso restante a quem desejava combater a ditadura.

Seria, então, ou a guerrilha ou a passividade.

Bonito, mas completamente furado. A luta armada foi integralmente derrotada no início dos anos 70. Seu último suspiro foi o Araguaia. Mesmo assim dez anos depois a ditadura caiu, culminando uma longa agonia, iniciada na eleição de 1974.

Se o único meio de luta possível era o militar, e se as atividades militares da oposição haviam cessado mais de uma década antes, quem e o que derrubaram o regime? Seria um mistério e tanto.

A escapatória mítica da "ausência de opção" exibe esse buraco lógico.

A luta armada naquela época não foi resultado da ausência de alternativas, mas uma opção política.

Parte da esquerda considerou que o golpe de 1964 contra Jango Goulart havia comprovado o esgotamento da chamada "democracia burguesa", e portanto da possibilidade de transformações progressistas por meios pacíficos. Era descrito na época como o "colapso do populismo".

Juntaram a isso o entusiasmo com as revoluções chinesa e cubana e arremataram a receita.

Deu errado, como se sabe. O que deu certo foi outro caminho, de participação nos espaços políticos remanescentes para a oposição, de engajamento firme no processo eleitoral, de reorganização da resistência social, a começar do movimento estudantil. A luta pela redemocratização como é bem conhecida dos historiadores.

Deu tão certo que relativamente pouco tempo depois o regime foi obrigado a revogar o discricionário Ato Institucional número 5, abrindo ainda mais espaço para a ação política pacífica. Não foi coincidência o movimento operário do ABC ter emergido depois da revogação do AI-5. E não antes.

As grandes mobilizações que desfecharam os golpes finais no autoritarismo foram principalmente consequência dos espaços arrancados pela resistência democrática, não causa.

Outra mistificação é dizer que quem enfrentou o regime de armas na mão fê-lo por ter mais coragem. Coragem é atributo difícil de medir, ou de comparar, mas enfrentar uma ditadura desarmado costuma ser ato de enorme coragem.

Coragem

Por falar em coragem, oportuna e corajosa a manifestação do ministro da Defesa,  reafirmando a Anistia brasileira.

A lei de anistia de 1979 foi uma grande conquista da luta democrática do povo brasileiro, e fechou de maneira inteligente e generosa toda uma etapa complicada da História do Brasil. Merece ser defendida.

O país tem o direito a conhecer sua memória. As famílias dos combatentes caídos na luta contra o regime militar têm total direito de saber o que se passou com os entes queridos.

A Anistia não é impedimento para nenhuma das duas coisas. É apenas, como sempre foi na trajetória nacional, um instrumento para impedir que o passado seja oportunisticamente tranformado em obstáculo à construção do futuro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (17) no Correio Braziliense.

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4 Comentários:

Anonymous Claudio disse...

Olá Alon. Quero dizer que tenho me surpreendido em encontrar em vc um esquerdista que não é um babaca autoritário que se acha a ultima bolachinha do pacote, e isso ótimo pra um debate político. Digo isso pq eu sou de centro direita. Sobre seu texto, realmente, não se pode dizer que todos os que pegaram em armas eram revolucionários que queriam seguir a cartilha de Moscou, mas eles existiram. Vc como bom jornalista sabe disso. No caso específico de Dilma, se entendi direito, você quis meio que dar uma aliviada pra ela. Ora, ela disse com todas as letras no programa do Datena, por livre e espontânea vontade, sem a coação de nenhum militar, que ela e seu grupo QUERIAM IMPLANTAR O SOCIALISMO REAL NO BRASIL. Alon, vc é um cara inteligente e nasceu em um país da antiga Cortina de Ferro: O que é o socialismo real? Vc deve ter conhecido muito bem o que é isso e não deve ter boas lembranças. Dilma não pode ser enquadrada entre aqueles que lutaram pela redemocratização do Brasil - a não ser que você considere a ditadura do proletariado uma democracia.
Os petistas costumam chamar de covardes os que fugiram para o exílio, mas queria ver os valentes enfrentando o Médici. Hahahahaha!!!

sábado, 18 de dezembro de 2010 07:19:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

este é o impasse dos historiadores. Entre a luta armada e a resistência democrática, ambas no combate à ditadura, há alguns cortes a fazer. Você começa por 1964, o golpe. Marca o ato simbólico: o AI-5. Houve resistência e combate. Aqueles que combateram e sobreviveram tiveram ao seu lado companheiros que criaram as condições de uma vida clandestina sob segurança para a reorganização do movimento sindical e social. Uns e outros corriam risco de vida. Alguns morreram em combate, outros morreram anônimos, outros sobreviveram. Aos últimos coube a pior tarefa, admitir erros e conviver com a memória da dor daqueles que morreram barbaramente: o testemunho e o relato. Primo Levi escreveu dois grandes clássicos: "Os afogados e os sobreviventes" e "A trégua". O anjo da história é um anjo terrível, de asas abertas e de boca escancarada, de costas para o futuro ( sobre a frase de Benjamin, W.). No princípio são os poetas que anunciam, depois são as imagens-pensamento, depois vem o ato e todas as conseqüências que violentam a democracia e amordaçam um povo. Há vítimas, há atrocidades, há desespero, há cicatrizes. Ao final, há teorias, duas décadas depois são os historiadores que assumem a obrigação de contar a história. Como é difícil contá-la, sem correr o risco de reviver a memória e todas as suas dores que estavam recalcadas!

sábado, 18 de dezembro de 2010 08:26:00 BRST  
Blogger Rafael Kafka disse...

Sequestrar e matar civis, a sangue frio, explodir aeroportos, como o de Guararapes, é terrorismo, Alon.

Metralhar o desarmado estudante Charles Chandler, deixando 3 criacinhas orfãs, foi terrorismo. Não há outra definição.

Estudantes, caixas de banco, vigias, motoristas de táxi, dezenas de civis foram mortos pela extrema-esquerda em atos tão terroristas como o terrorismo de estado da estatista, populista e desumana Ditadura Militar.

Se forem punir, que todos sejam punidos, porque não há diferença alguma entre o terrorismo praticado por um lado e pelo outro.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 17:41:00 BRST  
Blogger André Henrique disse...

Tanto a ditadura estatista quanto os regimes armados de esquerda cometeram atos de violência contra civis para atingirem fins políticos, portanto, coloquemos as coisas nos seus devidos lugares, todos foram terroristas. Os governos militares que enterraram civis em valas comuns. E os movimentos guerrilheiros, urbanos e rurais, dos quais Dilma participou, assaltaram bancos, supermercados e atacaram hospitais. TERRORISTAS!
E parabéns pela visão, com a qual concordo, de que os políticos que optaram pela luta institucional foram os grandes arautos das conquistas democráticas em tempos de regime militar.
Punto e basta!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 17:54:00 BRST  

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