terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Liderança construtiva (14/12)

Liderança construtiva

A decisão brasileira de reconhecer a existência de um Estado Palestino nas áreas não controladas por Israel entre 1949 e 1967 é essencialmente positiva e ajuda na busca de uma solução pacífica para o problema

As negociações diretas entre Israel e Autoridade Palestina estão interrompidas mais uma vez. O motivo formal é a recusa israelense de congelar as construções na Cisjordândia e Jerusalém Leste. Tecnicamente são duas regiões com situações diferentes, a primeira é território ocupado e a segunda, anexado. Mas para os palestinos são ambas áreas alimentadoras do futuro estado nacional.

O impasse reforça uma tendência recente em Ramallah: caminhar para a declaração unilateral de soberania. Aqui aparecem de cara dois problemas.

De que modo reagiriam ao unilateralismo países como China e Rússia, eles próprios às voltas com movimentos de afirmação nacional de grupos dentro de suas fronteiras? E sobre que território a Palestina proclamará soberania? As areas entre o Jordão e o Mediterrâneo conquistadas por Israel em 1967? Ou reivindicará também autoridade sobre o resto, afirmando o objetivo de eliminar o estado judeu?

Claro que pode haver soluções intermediárias: manter as fronteiras propositalmente indefinidas ou mesmo a fundação de um país “provisório”, tudo com o objetivo de não renunciar à meta de apagar o vizinho do mapa.

O Hamas acena aceitar a tática da “Hudna” (trégua) com o inimigo, mas a explicitação desse caminho deixaria a Palestina isolada e vulnerável, ao ponto de colocar em risco -aí sim estrategicamente- o projeto nacional.

Pois há nos bastidores outras soluções, como a criação de uma autonomia, mas dentro da vizinha Jordânia. Um desdobramento da situação vivida entre 1949 e 1967, sob a forma de uma federação, ou confederação. Ninguém diz desejar, mas a incapacidade de superar impasses pode avivar certas ambições.

A viabilidade do Estado Palestino repousa na disposição de luta dos palestinos, na sua capacidade de construir instituições estatais unificadoras e na condição de a liderança nacional reconhecer a realidade no terreno, conduzindo os liderados a soluções viáveis. Este aspecto é o mais delicado.

Um acordo 100% ao gosto dos palestinos levaria hoje à guerra civil em Israel, e um acordo 100% ao gosto de Israel apenas transferiria a conflagração para o outro lado. A proposta de um estado binacional falha na premissa, como ensinou a crise iugoslava: quando dois povos não querem viver sob o mesmo teto, dão um jeito de separar-se. Melhor que seja na paz.

Todo esse preâmbulo é para dizer que a decisão brasileira de reconhecer a existência de fato de um Estado Palestino nas áreas não controladas por Israel entre 1949 e 1967 é essencialmente positiva e ajuda na busca de uma solução pacífica para o problema.

É improvável que as fronteiras do eventual futuro estado sejam essas que o Brasil diz apoiar. Se houver acordo será obrigatória alguma permuta de terras, por motivos demográficos. Também é impossível um acordo sem antes a Palestina renunciar à proclamada missão de varrer Israel para o mar, na bala ou na demografia.

Mas o Brasil não é nem será decisivo para os detalhes. Importante foi o maior país da América do Sul reafirmar a convicção de que a paz ali só será conquistada quando cada lado reconhecer o direito do outro à afirmação nacional na região. Esse é o principal, talvez único, obstáculo real para um acordo.

E a referência às fronteiras de 1949-67 embute um recado interessante. O Brasil defende, na prática, que a afirmação nacional de cada um só poderá ser construída admitindo-se as realidades demográficas.

Com o Irã isolado e regionalmente questionado -tema esclarecido nos vazamentos do Wikileaks- há um espaço real para avançar por esse caminho. Diferentemente de quando errou em Teerã, desta vez a diplomacia brasileira deu um passo no sentido certo. Foi um exercício de liderança construtiva.

Recebeu críticas, mas paciência. Não se faz omelete sem quebrar ovos. Não seria inteligente o Brasil chancelar previamente as exigências de uma ou outra parte. Seria fugir do nosso papel.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (14) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O Hamas não revogou a carta de fundação que tem como alvo estratégico do movimento de resistência a destruição do Estado de Israrel.

O que é “trégua” para o Hamas é inseparável de dois conceitos islâmicos muito importantes e que o distingue do conceito ocidental de “trégua”. São os conceitos de Waqf e Hudna.

O conceito islâmico Waqf

Há um fundamento religioso que vigora na carta programática de fundação do Hamas para justificar a destruição de Israel. Trata-se do Waqf. De acordo com a carta do Hamas , a Palestina é um waqf islâmico consagrado às futuras gerações mulçumanas até o Dia do Juízo. Essa é a lei que vigora na terra palestina e na sharia islâmica (cf. artigo 11 da carta do Hamas). Ou seja, o Hamas não reconhece nem a partilha aprovada pela ONU em 1947. Portanto, a resolução 242 da ONU (desocupação dos territórios conquistados em 1967) é irrelevante, já que para o Hamas os territórios ocupados são todo Israel.

Quando em 1937 os britânicos sugeriram a partilha da Palestina, com 80% para os palestinos e 20% para os judeus, o então líder palestino antissemita Mufti Hajj Amin Al-Husseini rechaçou a proposta. Ele argumentou que a Palestina era um Waqf. Ou seja, uma Waqf pode ser usufruída, mas nunca desmembrada e, sobretudo, ser outorgada com plenos direitos de posse e propriedade (o que envolve a soberania do Estado de Israel) aos infiéis. A carta programática do Hamas repete as negativas dos líderes mulçumanos em 1937 e em 1947.

O Hamas não dá a mínima pelota para a ONU, como fica bastante claro no artigo 13 da carta doprográmática: “Não há solução para a questão palestina se não for através da Jihad. [...] As iniciativas, e as chamadas soluções pacíficas e conferêcias internacionais estão em contradição com os princípios do Movimento de Resistência Islâmica.

O Hamas não combate a ocupação israelense pós-67. Combate o Estado de Israel e a sua existência. Até prova em contrário, seu objetivo é a destruição do Estado de Israel e sua política é continuar a Jihad até o Dia do Juízo Final.

A íntegra da carta do Hamas

http://www.mideastweb.org/Hamas.htm

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 23:50:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

(continuação)

O conceito islâmico Hudna

É um acordo temporário que pode ser rompido em qualquer momento, sobretudo quando se trata de vencer o inimigo.

Há um interessante artigo sobre a Hudna do escritor, docente e analista internacional de origem libanesa George Chaya, com o sugestivo título “Comprender el lenguaje es imprescindible para hablar de paz”

Nas palavras de Chaya:

[Em inglês trégua ou] "alto el fuego" significa "fin total por una parte de cualquier actividad que una segunda pueda interpretar como agresiva".

Em hebreo, o termo é traduzido como Hafsakat esh. Assim, [trégua ou ] “alto el fuego” significa: "los palestinos tienen que detener todos los atentados contra ellos, pero si Israel tiene conocimiento de un atentado terrorista inminente puede y deben actuar para evitarlo".

Em árabe o termo com significado próprio para trégua é Hudna, o que quer dizer "cese temporal de las hostilidades y/o escalada de hostilidades contra un enemigo real hasta poder vencerlo en el futuro.

Estas diferencias son suficientes para dar al traste con cualquier acuerdo suscrito."

A Hudna mais famosa teve lugar no ano de 628 d.C, quando Maomé firmou paz com Medina. Quase dez anos depois, Maomé violou o pacto e atacou os líderes tribais. Esta história do Corão ensina aos seguidores do Islã duas coisas:

“I) Que un musulmán puede firmar un acuerdo con no musulmanes cuando esté en desventaja y ese acuerdo revierta en su interes.

II) Que después de haberse revitalizado y fortalecido, puede romper el acuerdo.

En Septiembre de 1993, los líderes Bill Clinton, Yasser Arafat y Yitzhak Rabin firmaron los Acuerdos de Oslo en la Casa Blanca. Esto se presentó como un paso importante hacia la paz. Un mes más tarde, en Ciudad del Cabo, Yasser Arafat denominaba a los Acuerdos de Oslo como pacto Huday Biyyah.

Todos los que oyeron y comprendieron el árabe de estas palabras supieron de la importancia de las expresiones de Arafat: eran una Hudna, un acuerdo hecho para ser roto en el momento adecuado.

http://www.georgechaya.org/comprender.htm

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 23:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo (segunda-feira, 13/12/2010 às 23h50min00s BRST e às 23h53min00s BRST),
Grande aula. Pressentia isso e penso mesmo que já dissera algo parecido aqui no blog de Alon Feuerwerker. No meu entendimento, Israel teria que conviver para sempre com a estigma de ser destruído.
E, pelo menos no tocante ao Twitter, em 14/12/2010, apareceu uma chamada do lado no Twitter indicando a reportagem “Hamas leader in Gaza vows group will never recognize Israel” no endereço a seguir:
http://bccth.is/aTY
Que confirma exatamente o que você disse.
Qual a solução? Não a conheço.
A esperança seria verificar se pessoas com nível superior de ensino têm na média a mesma visão religiosa expressa pela maioria da população sem formação superior. Se for a mesma, na média, não vejo solução. Se não, a alternativa seria dar formação superior para todos e eles acabariam se aceitando mutuamente.
De todo modo, foi problema criado pelo Ocidente. Vejamos o que o Ocidente será capaz de fazer para resolver o problema. E ai talvez o reconhecimento seja a solução, pois depois de reconhecido, os palestinos jamais teriam como fazer uma guerra contra Israel sem que o mundo todo ficasse contra eles. Sob esse aspecto é mais do próprio interesse de Israel que o mundo reconheça o estado palestino, ainda que seja com as fronteiras de 1947 1967. Ai, as palavras árabes “Waqf” e “Hudna” não prestariam a nada.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 15/12/2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010 08:20:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Atualizando

GAZA

Hamas completa 23 anos com ato anti-Israel

O movimento palestino Hamas, que controla a faixa de Gaza, comemorou ontem seus 23 anos rejeitando uma reconciliação com Israel. "Dissemos isso há cinco anos e repetimos agora: nunca, nunca, nunca reconheceremos Israel", disse , líder do grupo, perante uma multidão.

(FSP, 15/12/2010)

Estranhamente a Folha omitiu o nome do líder citado na nota e autor do pronunciamento que está entre aspas. Trata-se de Ismail Haniyeh, que foi destituído do cargo de primeiro-ministro por Abbas em 2007 [após os massacres de militantes da OLP em Gaza] e substituído por Salam Fayad. Haniyeh não aceitou a destituição e atualmente exerce de fato sua autoridade ministerial em Gaza. O Conselho Legislativo Palestino (espécie de Parlamento) também continua a reconhecer a autoridade de Haniyeh.

As comemorações de ontem dos 23 anos do Hamas foram uma clara demonstração de força e de reafirmação dos princípios programáticos da sua Carta de Fundação. Haniyeh esclareceu que o Hamas não cogita retirar da Carta aquele que é o seu principal objetivo estratégico: varrer Israel do mapa.

Sobre o possível “referendo de paz” que vem sendo noticiado pela imprensa ocidental, Haniyeh esclareceu sem meias palavras que este, no máximo, seria um “referendo de hudna”:

“Nosso fundador Sheikh (Ahmad) Yassin disse: Libertem o que for possível na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém, e onde não se puder liberar [pela Jihad] declarem uma trégua [hudna]".

"Nós dizemos hoje que não haverá ocupação das terras da Palestina, e então podemos dizer que não haverá futuro para a ocupação de nossa terra. Quero dizer, desde o mar [Mediterrâneo] até o rio [Jordão] e de Rafah até Naqoora".

Fontes: AFP e Haaretz

Bom. Há quem acredite que tudo em política é somente retórica (bravata) e que de fato as palavras e os compromissos políticos são como as nuvens que mudam conforme os ventos. Resta saber se os militantes e líderes do Hamas partilham essa "verdade universal".

:)

Abs.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010 11:19:00 BRST  

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