quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Gargalos na mentalidade (29/12)

Infelizmente, não há entre os movimentos sociais nenhuma APCFVEPTDSTAN (Associação de Pais Cujos Filhos Voltam da Escola Pública Todo Dia Sem Ter Aprendido Nada)

A história da humanidade não é redutível a equações, e é complicado enxergá-la como ciência. Fosse uma, seria relativamente simples prever. Há entretanto certas regras. E prestar atenção nelas ajuda um bocado.

Uma regra é a inexistência de nexo absoluto entre os recursos naturais de um país e seu progresso. Uma parte da explicação pode ser debitada na conta do colonialismo, do imperialismo, mas enxergar a coisa só por aí seria miopia. 

Há bom exemplo de país fortemente subsidiado (o contrário de “explorado”) mas incapaz de dar o salto adiante.

Assim como existem ótimos casos de nações cujo praticamente único recurso natural é a população e apesar disso, ou por causa disso, seguem adiante aos pulos.

Já nós permanecemos mentalmente acorrentados a um pensamento pré-moderno, segundo o qual a natureza  é a fonte de toda riqueza.

Foi o que se viu na campanha presidencial deste ano, no debate sobre o petróleo do pré-sal. Polemizou-se sobre o modelo do negócio (concessão ou partilha), mas não sobre o que fazer com o dinheiro.

O modelo pode ser importante, mas em última instância a diferença entre as propostas é contábil. Quanto da receita fica com o governo e quanto com o parceiro privado.

O verdadeiro nó, se o foco estiver na soberania do país, é como converter a receita do pré-sal em alavanca para a inovação científica e tecnológica. Não apenas na esfera da indústria do petróleo, mas na economia nacional como um todo.

Pois se há uma regra bem estabelecida na História é a vantagem competitiva dos povos capazes de inovar e estar adiante de seu tempo, no esforço para controlar os elementos da natureza, na arte de fazê-los trabalhar para nós.

Qual é o maior desafio brasileiro? A forte desigualdade social é fenômeno algo recente. E vai sendo enfrentada. Imbatível mesmo é nossa resistência a transitar de uma sociedade recostada no extrativismo para uma fincada na indústria, no conhecimento, na agregação de valor-trabalho.

Tudo nos empurra para trás. O agrarismo está no nosso DNA. O único lugar em que o capital proveniente da agricultura serviu para catapultar a industrialização --São Paulo-- acabou ocupando o nicho de “opressor” no imaginário modelado pelas demais elites brasileiras.

Na era das delícias consumistas do real forte, nosso processo de “libertação nacional” vem se resumindo a uma substituição: sai o “Made in USA” e entre o “Made in China” (em inglês mesmo; em mandariam ficaria initeligível). 

Confira você mesmo. Dos presentes que deu nestas festas de fim de ano, quantos portavam a marca “Indústria Brasileira” (ainda é assim”)?

O imenso saldo comercial externo produzido pela agricultura é consumido em importações. E muitas vezes quando importamos maquinário é para alimentar indústrias apenas montadoras.

O Brasil orgulha-se da Embraer. Mas o que aconteceria à empresa se de repente ficasse proibida de importar tecnologia e componentes? 

Quando queremos vender aviões para alguém precisamos antes pedir licença a terceiros.

Ouve-se por aí que o grande desafio de Dilma Rousseff será consertar os gargalos na infraestrutura. É algo relativamente simples de fazer numa época de prosperidade continuada.

Difícil mesmo será consertar os gargalos na nossa mentalidade. A educação pública, por exemplo, é tratada como uma joint-venture entre os políticos grávidos de promessas nas eleições e os sindicatos das categorias profissionais diretamente envolvidas. 

A expressão “movimentos sociais” é um rótulo bonito para mascarar o corporativismo.

Sim, pois não se conhece entre os movimentos sociais nenhuma APCFVEPTDSTAN (Associação de Pais Cujos Filhos Voltam da Escola Pública Todo Dia Sem Ter Aprendido Nada).

Nosso grande desafio não está nas profundezas do pré-sal, nem nos buracos das estradas, ou na falta delas. Está em transformar a escola pública brasileira, de baixo até em cima, em um dínamo do saber, da ciência, da inovação, da competição, do progresso. 

Uma escola completamente voltada para a ascensão profissional e social do aluno e da família dele. Simples assim.

Infelizmente, não se nota no governo que entra um desejo de promover essa ruptura tão necessária. Parece ainda acorrentado ao continuísmo, ao corporativismo. 

Mas tomara que eu esteja errado, e não seria justo fazer pré-julgamento. 

Melhor torcer para que desta vez aconteça um milagre.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (29) no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A questão sobre tecnologia e componentes pela indústria aeronáutica brasileira, é pertinente.
A Embraer correria sérios riscos caso não pudesse importar tecnologia. Ou se não pudesse utilizar plataformas fora do Brasil para produzir alguns dos componentes de seus aviões, ou simplesmente importá-los. Isso pelo fato de ser a Embraer, uma empresa mundializada e atuar num setor intensivo em tecnologia de ponta. Na remota hipótese de restrições às importações, simplesmente não teria condições de competir no mercado, caso tivesse de desenvolver internamente tecnologia e componentes. Lógico que devem existir programas da empresa e do próprio governo visando dotar o País de parque tecnológico de tal nível, para elevar o índice de nacionalização. Contudo, numa atividade como a aeronáutica, os custos de desenvolvimento próprio, pode significar exponencial aplicação de recursos, encarecimento do produto, atraso de encomendas etc. aspectos fatais num setor de acirrada competição.
Dawran Numida

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010 17:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Os desafios da nova presidente, serão da puericultura até a infraestrutura suas demandas. Aliás, é ótimo que seja assim. O cidadão eleitor vota não para preocupar-se e sim para delegar preocupações a outrem. Às vezes, nem está lá muito interessado em eleições. Mas liga a TV e estão lá promessas de zilhões de casas, boas, baratas, até com jardim de grama verde na frente. Se cair na rua, zilhões de clínicas e vans equipadas para socorrê-lo. Seja por uma unha encravada apertada pela botina, até de lumbago e bico de papagaio. De torcicolo a hérnia de disco. Bebês, então, esses estarão quase prontos. É só o candidato vencer que o bebê será entregue com guarda-roupa completo e tudo. Não precisa nem de mãe. E tudo de graça: presente do maior gestor de recursos públicos que já surgiu na face da Terra. Assim fica fácil. O cidadão vai lá na urna, tecla o número do candidato, vai para casa e espera. Fica só na moita, como dizem lá no interior. Assim, não é pré-julgamento. É cobrança pura: o cidadão votou para ver seus problemas resolvidos. Tanto os que sabia como os que não sabia que existiam. Resta ao candidato eleito não dormir, não comer, não andar de esteira, não ir a festas, batizados, não dar entrevistas. Nada. Só ralar o couro. Vai ter de trabalhar durante quatro anos para colocar tudo com o que se comprometeu e venceu. E o cidadão:só na moita. Afinal, ele está pagando.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010 17:38:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Quem vai comprar da Embraer que não pode? Chaves?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010 22:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Depende. Se o comprador estiver na lista de restrições do fabricante de componentes de alta tecnologia e de armas, se for avião de caça, sim. Se for avião comercial, idem. Os fabricantes de aviões são verdadeiras montadoras, horizontalizadas e não têm autonomia para repassar tecnologia sensível a ninguém.
Não precisa ser, necessariamente Chávez. Poderia ser até o Obama.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010 12:35:00 BRST  
Blogger pait disse...

Alon, são 2 questões diferentes. Uma é a baixa qualidade da educação no Brasil - fruto de desinteresse, de ideologias anti-intelectuais, de burocracias reacionárias, mas principalmente do número relativamente pequeno de gente qualificada e estudada para passar o conhecimento para a próxima geração. Temos que melhorar a educação com investimentos e com melhor organização.

Outra é essa busca da autarquia, da independência econômica, uma ideia que faz sucesso nos departamentos de ciências sociais da universidades com gente que admira mais o modelo norte koerano do que o sul koreano. Nenhuma economia moderna é independente. Nem Boeing, nem Airbus, nem Canadair fazem aviões com componentes nacionais, porque a Embraer faria? Foi essa ideologia que atrasou o Brasil uns 20 anos na informática, com a tal reserva de mercado. Quanto mais cedo nos livrarmos dela, melhor.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010 15:31:00 BRST  

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