domingo, 19 de dezembro de 2010

Faca quente na manteiga (19/12)

Na eleição deste ano, o progressismo pátrio reagiu com virulência ao protagonismo eleitoral das igrejas, a Católica e as evangélicas. Mas pelo menos uma crença escapou e vem escapando ilesa de qualquer crítica

Na edição de sexta-feira, o Valor Econômico publicou um especial do governo que sai, com um recurso visual esclarecedor. Perfilou na capa do caderno gráficos com os principais indicadores destes oito anos. Foi autoexplicativo. Também esta semana, a Economist traz conteúdo editorial sobre o deslocamento da esperança do eixo Europa-Estados Unidos para os emergentes.

Os bons resultados e as boas expectativas do Brasil e dos emergentes repousam numa curiosidade histórica e também na aritmética.

Os emergentes no conjunto (ou quase) beneficiam-se de ter colocado a casa em ordem, depois de sucessivas crises de raiz fiscal. Foi a receita recomendada pelos desenvolvidos, que entretanto fizeram o contrário. E hoje o assim chamado Primeiro Mundo patina para escapar da desconfiança e da falta de vontade de consumir.

Essa é a curiosidade. E a aritmética? Ela é simples. Quem tem mais pobres, mais gente fora do mercado, tem também mais potencial de formação de novos consumidores e mais potencial de crescimento incomprimível do consumo.

Uma coisa é o sujeito abrir mão de trocar o carro todo ano porque tem medo de perder o emprego. Outra coisa, bem diferente, é renunciar a comer carne todo dia.

Os emergentes, Brasil incluído, aceleram o passo para tentar chegar onde americanos e europeus já estão. E quem vem depois colhe vantagens e desvantagens.

Pode haver críticas à moldura social da revolução industrial chinesa, mas ela não se compara ao ambiente de horrores, por exemplo, da Revolução Industrial inglesa. Nas esferas social e ambiental, a industrialização da periferia corre bem mais civilizadamente que a do centro.

A desvantagem óbvia é a concorrência. O mundo emergente chega num palco já congestionado. As polêmicas ambientais têm sido termômetro. Diz a cartilha ambientalista que o planeta não suportaria chineses, indianos, brasileiros e africanos emitindo carbono nos níveis da média do europeu e do norte-americano. Eis um problema.

A China, no seu estilo habitual, vai cozinhando o galo e esperando a inércia carregar o gigante asiático para o lugar merecido na produção e no consumo globais. O modo de ser chinês, nesse ponto, é um ativo da humanidade. Se o compartilhamento de riqueza e poder entre as superpotências puder ser alcançado de modo pacífico, vai ser melhor para todo mundo.

Já nós, pelos menos nos últimos dezesseis anos, parecemos conformados com a reafirmação do nosso papel subalterno na divisão internacional do trabalho. Social-democratas e socialistas chegaram ao poder e apenas aprofundaram a subalternidade. Falamos grosso para os microfones e câmeras, mas ainda somos na essência extratores e vendedores de matérias primas.

No nosso “outro mundo possível”, por enquanto, deixamos relativamente de exportar grãos, minério e carne para o “Norte” e agora fazemo-lo para o “Sul”. Que avanço monumental! Na última grande crise, entre um e outro discurso sobre a necessária reforma multilateral das finanças planetárias, nossos governantes cruzavam os dedos na torcida pela recuperação rápida do ritmo chinês.

Na eleição deste ano, o progressismo pátrio reagiu com virulência ao protagonismo eleitoral das igrejas, a Católica e as evangélicas. Mas pelo menos uma religião escapou e vem escapando ilesa de qualquer crítica. A Assembleia dos Protetores do Real Forte, os Adoradores das Importações, os teólogos do juro exorbitante.

A cena era - e é- repetitiva. O sujeito vai entrevistar o governante, nos diversos niveis, para tratar das exportações em baixa, da degeneração da balança comercial, do buraco crescente nas contas correntes, da incapacidade de elevar os investimentos públicos, da extorsão financeira. Mas a única angústia do perguntador é arrancar garantias de que tudo permanecerá exatamente como está, de que nada vai mudar.

Duvida? Procure nos arquivos do Senado pela tramitação nos dias recentes do novo presidente do Banco Central. Faca na manteiga, confraternização geral. Uma festa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (19) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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10 Comentários:

Blogger pait disse...

Alon, a crise nos países ricos não é de origem fiscal. A origem foram excessos de setores privados, e a crise atingiu países com contas governamentais equilibradas.

domingo, 19 de dezembro de 2010 22:16:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Dê um exemplo, Pait

domingo, 19 de dezembro de 2010 22:44:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O Brasil estava, na eclosão da crise, com as contas relativamente "organizadas" e sofreu com a crise, a despeito do que diz a "tese da marolinha", o PIB involuiu em 2009.
Seria isso, Pait?
Contudo, deve ser ressaltado que o Brasil entrou na crise já com saldo externo negativo.
Dawran Numida

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 10:06:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O crescimento dos outrora pobres ou subdesenvolvidos, agora emergentes, deixa mais claro um amplo mercado consumidor, com grande demanda não satisfeita. Talvez por isso, sejam tão paparicados e não pelo protagonismo intentado de já terem poder suficiente para ditar regras aos países desenvolvidos. Caso a China já detenha tal poder, não o utiliza da forma que poderia ser esperada. Ou temida. Para os emergentes, pelo menos, a China é o esteio e o concorrente mais sagaz. Para os desenvolvidos, ora é o fornecedor de bens (de consumo e matérias-primas) mais baratos ou é mercado importador pujante. Na questão geopolítica, é uma potência nuclear e agora anuncia que vai construir o primeiro porta-aviões, arma agressiva. Deve ser por isso que a "China, no seu estilo...vai cozinhando o galo...".
Swamoro Songhay

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 10:19:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Na realidade, cumprindo a regra, o novo presidente do BC depôs no Senado e foi aprovado, ao que parece, por unanimidade. Como o fora Meirelles e como seria qualquer outro.
No caso da trajetória da política monetária, mostra sinais de que ainda continuará a ser defensiva. Ou seja, manterá a estabilidade da moeda, procurando conter a expansão da Fazenda. Assim, o BC deve permanecer com a autonomia operacional já exercitada.
Também não aparece nada no horizonte de alguma ação espetacular da futura presidente, que venha a alterar os rumos da economia.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 10:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

ridiculo comparar as condicoes da gra bretanha no seculo XIX com as da china no seculo XXI. Voce joga no lixo toda a historia do movimento sindical e a conquista de direitos trabalhistas basicos para provar sua tese ideologica.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 11:51:00 BRST  
Blogger pait disse...

O melhor exemplo é a Espanha. As contas públicas estavam em ordem até a crise explodir. A causa da crise foi o excesso de investimento privado, particularmente em imóveis. Quando a bolha estourou, os investimentos pararam, o desemprego explodiu, e daí as contas do governo se deterioraram.

Mesmo nos Estados Unidos ou na Irlanda a história é parecida. Na Grécia as contas públicas estavam péssimas antes da crise, mas é exceção mais do que a regra.

Quem explica isso bem é o Paul Krugman. Há um blog post sobre a Espanha:

http://krugman.blogs.nytimes.com/2010/02/09/anatomy-of-a-euromess/

entre outros.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 12:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Um dos melhores e mais lúcidos textos que já li no ciberespaço!

Claro que não caberia entrar no detalhe de quais países europeus fizeram direitinho o dever de casa e cortaram despesas na década de 90 nem lembrar que a Argentina, que seguiu muito à risca as recomendações do FMI, foi à bancarrota.

Vc resumiu a situação com maestria!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 16:14:00 BRST  
Blogger pait disse...

Dawran Numida, o Brasil não teve bolha de investimentos mal dirigidos. Por isso não teve crise interna, mas sofreu os efeitos da crise financeira internacional. Se as contas internas estivessem em situação pior, o efeito poderia ter sido mais doloroso do que foi. Se elas tivessem sido melhor administradas, poderia ter sido ainda menor.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 16:30:00 BRST  
Blogger pait disse...

Voltando ao assunto de dezembro, um outro exemplo de que a crise nos países ricos não é de origem fiscal é a Irlanda, conforme o Mendonça explica hoje na Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1401201129.htm

Não por coincidência, o colunista brasileiro é um bom keynesiano, como o Krugman, com a diferença que nos Estados Unidos de hoje os bons economistas são considerados "de esquerda" enquanto que seus correspondentes no Brasil são às vezes chamados "de direita". Uma diferença cultural entre os hemisférios, sem dúvida.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011 13:28:00 BRST  

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