terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dúvidas sobre a agenda (28/12)

O controle "social" da mídia tem paralelismos com a capacidade nuclear. A possibilidade de usar a arma é útil para efeito de dissuasão, mas uma vez disparado o primeiro míssil a coisa muda completamente de figura

Na reta final do presidente que vai para casa sobressai o desagrado dele com a imprensa. É verdade que nestes oito anos o chefe do governo foi alvo de artilharia. Era previsível. Mas mesmo assim reelegeu-se, elegeu a sucessora e sai otimamente bem avaliado.

Ou seja, ele venceu a guerra e a liberdade de imprensa foi preservada. Qual o motivo de tanto incômodo?

Talvez porque para sua excelência certas guerras ainda não tenham terminado.

O quase ex-presidente parece ter a pretensão de dominar a narrativa atual e vindoura sobre si próprio. Seria sem dúvida uma fonte de poder futuro, e estes dias assistem a uma notável exibição de músculos, a um esforço imenso para reger os elementos.

Que entretanto são mais fortes.

Há também a preocupação com os quatro anos até 2014. Na teoria, Dilma Rousseff não domina tão bem as artes de vitimizar-se e demonizar os críticos, e deverá enfrentar mais dificuldades.

Ela seria mais vulnerável a pressões, mais arrastável a vir combater na planície. Daí o bombardeio preventivo.

Mas a suposta fragilidade de Dilma na comunicação é por enquanto teoria. Ela aprendeu outras artes da política, pode muito bem aprender também aqui.

Ou talvez já tenha aprendido, com a expertise apenas encoberta pela ubiquidade do mestre.

Dilma ofereceu na Casa Civil demonstrações de apetite e frieza para lidar com o poder. Foi contemporânea da consagração da linha de que a melhor defesa contra qualquer crítica é o ataque, a desqualificação do crítico.

O governo que sai operou espertamente um elo imaginário entre o "controle social da mídia" e a "democratização da comunicação". Como esse "social" significa também "estatal", o elo fica algo prejudicado. Uma contradição insolúvel na vida prática.

O quase ex-presidente deixa para a sucessora pelo menos uma herança maldita.

Como Dilma administrará a ameaça de interferência estatal mais direta no conteúdo produzido pelas empresas e pessoas que vivem de se comunicar?

O bom senso recomendaria zerar o jogo e não trazer automaticamente para si os contenciosos do antecessor, até por ela própria não ter maiores contenciosos na área.

Mas isso exigiria um grau de independência que a presidente eleita ainda precisa exibir. E como o ex-presidente reagiria à inflexão? Bem ele, que já conclamou o PT a desencadear a guerra em 2011.

O controle "social" da mídia tem paralelismos com a capacidade nuclear. A possibilidade de usar a arma é útil para efeito de dissuasão, mas uma vez disparado o primeiro míssil a coisa muda completamente de figura

Uma curiosidade sobre esta largada de governo Dilma Rousseff é saber se virá dela o primeiro tiro, saber se interessa ao novo governo que o tema da guerra particular do PT contra a imprensa (e vice-versa) domine o primeiro ano de mandato.

O assunto tem tudo para empurrar a administração ao atoleiro, mas vai saber? Já o jornalismo teria matéria prima de primeira. Notícia não iria faltar.

Ainda mais se a coisa viesse junto com a reforma política dos sonhos do presidente que sai, que tentou mas não teve força para abolir a eleição direta dos representantes do povo na Câmara dos Deputados, nas assembleias estaduais e câmaras municipais.

Tentou impor o voto em lista fechada, a eleição indireta de deputados e vereadores em listas partidárias preordenadas (pelos caciques das legendas).

Claro que com o simpático chamariz do "financiamento exclusivamente público".

Se essa for mesmo a agenda de 2011, vai ter diversão garantida.

Lá como aqui

Como diria Mark Twain, parecem ter sido algo exageradas as notícias sobre a morte política de Barack Obama após a surra aplicada pelos republicanos nos democratas na eleição intermediária de novembro último.

A reta final deste Congresso americano, pato manco no jargão deles, foi ineditamente produtiva, aprovando a prorrogação do corte de impostos, ratificando o tratado militar com a Rússia e outras medidas de interesse do governo.

O detalhe é que em todas as votações ou houve acordo ou Obama rachou o campo adversário. Os republicanos parecem querer evitar que Obama os acuse de investir indefinidamente em impasses prejudiciais aos eleitores.

O desafio da oposição a Obama é ser destrutiva e construtiva na combinação certa.

Mais ou menos como aqui.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (28) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon,

um bom desafio a todos nós neste ano de 2011 que começa! Começa? São os calendários que decidem começos e fins. Não há outra forma que nos ajude a marcar o tempo. Em 2011, pela montagem do governo, haverá outros atores na política, o que é próprio de um jargão adotado nos últimos anos. Haverá mais PT no governo! A Mensagem ao Partido conquistou espaço no PT e no governo. Como o PT costumava ser muito combativo na defesa de princípios e programas, haverá a formação de um novo campo de debates e a proposição de uma nova agenda. Ao PSDB, já não mais patrulhado, caberá se contrapor dialeticamente. Cada vez mais se alarga a faixa da classe média que se guia pelo aumento dos bens de consumo, tese tipicamente capitalista. Para não cairmos nas vias trotskistas, será preciso construir essa agenda que poderá tirar alguns pensadores do limbo, onde foram parar desde a Divina Comédia de Dante Alighieri.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010 09:17:00 BRST  
Anonymous JV disse...

Aprovar prorrogação e corte de impostos foi vitória de Obama? Não era um de seus objetivos acabar com os cortes de impostos que Bush deu aos "ricos"?

terça-feira, 28 de dezembro de 2010 10:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

No velho assunto controle social da mídia, por mais que tentem colocar outras palavras, a tradução, em Português, do que dizem, é censura. Pois, basta ler e ver que a imprensa nunca esteve tão tranquila a um governo como nestes últimos oito anos. Dizer o contrário, seria querer mudar o já incerto passado do Brasil, conforme vários piadistas sérios insistem em dizer. A melhor maneira de discutir formas de democratizar os meios de comunicação, será com a perspectiva de dar-lhes mais liberdades. E não menos. E muito menos ameaças pouco sutis. Não serão tais ameaças que lograrão criar as condições de entrada de novos atores no mercado de comunicação. E por condições, entendam-se, zero de recursos públicos. E mais iniciativa privada. Esta é que mobilizaria seus próprios recursos e/ou criaria condições atrativas a investidores. Privados. O Estado é o ente concedente de parte do que seria ampliado. Na parte onde o Estado não é concedente, deveria ficar de fora, não interferir. Nem utilizando seu forte poder de compra de espaços para propaganda institucional, com um alentado orçamento de verbas para publicidade. Qualquer coisa fora disso, é censura.
Swamoro Songhay

terça-feira, 28 de dezembro de 2010 15:54:00 BRST  

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