quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Assembleia de cotistas (16/12)

Vimos transitando de um ambiente de histerias automáticas para um de acomodações automáticas. Tão ruim quanto, ou até pior. Do exagero na crítica sempre se recolhe algo útil. Da paz dos cemitérios, nada

O Congresso Nacional consumou ontem no vapt-vupt um ato para o qual não tivera coragem, ou força, ou ambas, na passagem de 2006 para 2007: equiparou o salário dos parlamentares ao dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

E fez isso sem ao menos precisar conceder em outra alternativa, de reajustar sim os vencimentos de suas excelências mas cortando na verba indenizatória. Aquela usada pelos parlamentares para despesas relativas ao mandato.

Tive a curiosidade de fazer uma busca no noticiário daquela época, quando a proposta gerou reações e enfrentou resistência, ao ponto de inviabilizar-se. Autoridades econômicas apressaram-se a negar a possibilidade financeira do aumento. Hoje, os mesmos personagens, nos mesmos postos, recolhem-se ao silêncio.

Houve quatro anos atrás também alguma reação dos movimentos sociais, com destaque para a União Nacional dos Estudantes (UNE). Hoje, nada.

Os personagens não mudaram. Mudou foi o ambiente. Na política, a situação era algo paralela, com Luiz Inácio Lula da Silva tendo conquistado a reeleição. Talvez a diferença hoje esteja na relativa fraqueza dos equipamentos à disposição da sociedade para resistir ao poder. Uns foram absorvidos. Outros, derrotados na recente eleição.

Veremos qual a reação. Se vier, virá de canais insuspeitados. A política insititucional encontra-se acomodada e, digamos, encaixada, na arquitetura do exercício do poder. Sua aparência é de uma sociedade por ações. Mais que um desenho clássico de situação e oposição, parece uma assembleia de cotistas.

O Executivo não reagirá à proposta de aumento porque nela está contemplado. E o Judiciário ficará agora mais confortável, menos saliente, na companhia das outras duas hastes do tripé.

Os parlamentares antes do aumento ganhavam abaixo do razoável? Sim. O salário de quase R$ 27 mil reais é adequado para deputados, senadores, presidente, vice e ministros de Estado? Sim. O problema não é esse.

Preocupante é a coisa ter acontecido sem debate, sem resistência, sem indignação. Vimos transitando de um ambiente de histerias automáticas para um de acomodações automáticas. Tão ruim quanto, ou até pior.

Do exagero na crítica sempre se recolhe algo útil. Da paz dos cemitérios, nada.

Frente ampla

O deputado Cândido Vaccarezza caiu vítima da frente de descontentamentos que se organiza em torno do governo Dilma Rousseff. Saiu do favoritismo à presidência da Câmara dos Deputados para a renúncia à indicação na bancada do PT.

Não conheço caso de administração que ao se formar tenha deixado contentes todos os apoiadores. Mas esta parece caminhar por uma lógica toda sua, peculiar: a cada decisão, gera um lote fornido de insatisfações.

Nada que preocupe no curto prazo, pois governos nascentes têm força para neutralizar arestas. Mas convém observar o desenvolvimento da trama.

Pelo que se desenha, será na essência um governo do PT acrescido de penduricalhos. A primeira etapa de Lula começou assim, e depois teve que se render à realidade da política.

Não é automático que o mesmo se dê com Dilma, cuja base é mais ampla.

No fritar dos ovos, vai depender do andamento das coisas práticas, especialmente da aprovação popular à presidente. Se continuar nos patamares do antecessor, ou mesmo um pouquinho abaixo, as insatisfações tenderão a ser engolidas a seco.

Inclusive as do PT. Que tem uma miríade de posições preenchidas, mas mesmo assim vê serem deixados ao relento líderes importantes do partido.

Adeus

O presidente da República que sai protagonizou ontem no Palácio do Planalto um ato festivo de balanço da gestão.

Festivo com razão. Lula ficará para a História como governante de um período próspero, marcado também pela redução das desigualdades sociais.

Sem contar a vitória política de ter eleito a sucessora.

Além de competência, Lula teve também sorte. Reuniu força suficiente para promover acertos expressivos, mas não a necessária para errar em grande escala.

Como na profissão de goleiro, sem sorte a competência pouco vale na política.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (16) no Correio Braziliense.

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1 Comentários:

Anonymous Robson Santos disse...

Ainda há muita resistência para se efetivar o piso de R$ 800 para os professores, temos um salário mínimo dos mais baixos do sub-continente, ou seja, o ganho desses senhores será 33 vezes maior que o piso ainda não implementado para os professores, e 50 vezes o que ganha um trabalhador com SM... Independentemente dos gastos necessários à função, das pressões para se corromper etc., em que país dito "mais sério" há essa relação tão injusta, imoral, entre o maior e o menor salário, e pago por um mesmo ente, no caso, o Estado? A cidadania sangra...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010 18:54:00 BRST  

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