quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

As melancias e os solavancos (30/12)

Arrumar confusão para o governo na medida certa, sem fechar as portas para futuras composições, eis uma arte da vida parlamentar. O problema é quando se erra na medida. E não há receitas 100% garantidas

O noticiário anda pontilhado de informações e boatos sobre uma
eventual instabilidade na base governista, especialmente na Câmara dos Deputados. As razões dos aliados do PT são especialmente duas: perda de substância na máquina e previsões de aperto orçamentário.

Aguarda-se agora a distribuição dos espaços nos escalões inferiores, preciosos para efeito de execução orçamentária e programática. Os otimistas dizem que no fim tudo se acomodará, mas os nem tanto anteveem um surto protecionista: cada subgrupo já contemplado fechará na sua área o caminho para os demais. E coitado de quem sobrar na chuva.

Já no governo o cenário é visto com naturalidade e certo otimismo cauteloso. Se estar espremido numa administração amplamente dominada pelo PT é desconfortável, pior ainda para o aliado seria de repente enxergar-se empurrado à oposição.

Assim, imagina o governo, uma hora a turma se ajeita dentro do barco para a viagem, sem compaixão pelos que ficaram a ver navios.

O então deputado Pedro Corrêa (hoje ex) tinha um discurso pronto quando lhe perguntavam se por causa de insatisfações parte da base poderia caminhar para a oposição. "Óculos escuros à noite, sapato branco e oposição são três coisas que ficam bem nos outros." É a síntese da política brasileira desde sempre.

Corrêa era presidente do PP e foi vitimado na crise de 2005, mas seu pensamento anda mais vivo que nunca. Basta recordar a manifestação dos governadores do PSDB dias atrás, com o anfitrião alagoano Teotônio Vilela Filho à frente -e explicitamente.

Pode haver variações no enredo? Sim, desde que preenchidos certos requisitos. É preciso em primeiro lugar uma oposição disposta a atravessar o deserto para criar dificuldades ao governo. É necessário também um núcleo parlamentar de dissidência, com expectativa de poder futuro- expectativa que pode inclusive ser realizada com a adesão ao poder presente.

Sim, a política tem dessas coisas. Quem ainda lembra que um dos
senadores mais ferrenhamente oposicionistas entre 2003 e 2006 era o então representante do PMDB do Rio Sérgio Cabral?

E quem ainda lembra que o então núcleo oposicionista do PMDB da Câmara dos Deputados, Michel Temer e Geddel Vieira Lima à frente, teve papel decisivo na vitória de Severino Cavalcanti em 2005?

Arrumar confusão para o governo na medida certa, sem fechar as portas para futuras composições, eis uma arte da vida parlamentar. O problema é quando se erra na medida. E não há receitas 100% garantidas.

O sujeito pode enganar-se acreditando que sempre haverá uma brecha para se aproximar do poder. Costuma ser um engano quase tão perigoso quando imaginar que o governo é devedor por serviços prestados.

Fora algums grupos e personalidades de destaque, o Congresso Nacional foi algo escanteado na composição ministerial de largada de Dilma Rousseff.  O núcleo da futura administração confia que eventuais insatisfações serão resolvidas do segundo escalão para baixo e por meio da execução orçamentária.

É habitual um freio nos gastos em começo de caminhada, então o governo acredita que terá pelo menos seis meses de fôlego. Nos quais suas excelências do outro lado da Praça dos Três Poderes, pela teoria, esforçar-se-ão para mostrar utilidade e serviço na nova era.

"As melancias vão se acomodando na carroceria do caminhão conforme os solavancos da estrada", resume um articulador político do Palácio do Planalto no Congresso Nacional.

Já na turma que se movimenta para provocar uma disputa nesta eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados a expectativa é diferente. Segundo eles, não se trata de um novo governo, mas da continuação de um estilo.

"Os deputados já sabem o que podem ou não esperar de um governo completamente dominado pelo PT, promessas de um maravilhoso futuro novo vão cair em ouvidos treinados", resume o parlamentar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (30) no Correio Braziliense.

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