domingo, 3 de outubro de 2010

Uma boa campanha (03/10)

Das coisas importantes, talvez tenha faltado discutir uma única: a precariedade das contas externas e a necessidade de enfrentar os altíssimos juros. Pelo menos constatou-se que as taxas precisam mesmo baixar, e muito

O primeiro turno da eleição presidencial de 2010 foi um salto adiante em qualidade. Antes de tudo, pelo número de debates. Cinco, contando só os entre candidatos à Presidência, um deles exclusivo para internet. Nenhum dos corredores sentiu-se suficientemente forte para desdenhar do eleitor. Bom sinal. Ficou para trás o tempo do líder fujão.

E os debates estiveram centrados em assuntos de alto interesse. Das coisas importantes, talvez tenha faltado discutir uma única: a precariedade das contas externas e a necessidade de enfrentar os altíssimos juros. Pelo menos constatou-se que as taxas precisam mesmo baixar, e muito. E foi só. Mas não é culpa dos candidatos. A interdição do tema é extra-eleitoral. Ninguém quer bater de frente com os donos do dinheiro no Brasil.

Num ambiente de bonança econômica, houve pouco espaço para advertências sobre os riscos potenciais na economia. Repetiram-se as circunstâncias da eleição de 1998, quando as pessoas preferiram acreditar que tudo estava bem. Não há riscos cambiais imediatos, como havia naquela época, mas a deterioração da balança comercial e das contas correntes deveria, num país menos interditado, despertar alguma emoção na corrida.

Como compensação, discorreu-se exaustivamente sobre drogas, saúde, educação e segurança. A oposição falou em criar um ministério para esse último problema e em policiar as fronteiras. A situação, em estender para o Brasil todo o modelo das UPPs do Rio.

A pauta incluiu na reta final outro assunto decisivo: a defesa da democracia. As pressões da oposição e da opinião pública empurraram o governo para certos compromissos verbais democráticos. Não é nada, não é nada, é sempre alguma coisa. Luiz Inácio Lula da Silva disse certo dia que ele e os seus eram a opinião pública. Depois do contra-ataque, partido de gente como Hélio Bicudo e Dom Paulo Evaristo Arns, Lula operou um ligeiro recuo.

Sentiu-se até obrigado a ir para a tevê anunciar que o governo dele se concluía com o país mais democrático do que oito anos atrás, e com mais liberdade religiosa. Este ponto ficou meio no ar. Ninguém questionou o governo e o PT no tema da liberdade de culto.

Mas o presidente enveredou por aí para tentar neutralizar os possíveis prejuízos à candidata oficial por causa das posições sobre o aborto.

No fim, cada postulante acabou tomando posição sobre. Marina Silva, que é contra legalizar o aborto, aceitou promover um plebiscito. José Serra não quer nem saber da legalização, nem apoia o plebiscito. Depois de pressionada por católicos e evangélicos, Dilma Rousseff encontrou uma saída formal: o assunto é do Congresso, e não do Executivo.

O tamanho do estrago que o tema aborto causou no estoque de votos de Dilma, veremos amanhã. Se liquidar a eleição no primeiro turno, deverá agradecer a Lula. Se não liquidar, aos formuladores do Programa Nacional de Direitos Humanos, na sua terceira versão (PNDH-3).

Que perambula por esta eleição como um órfão. Ninguém foi responsável por ele. Tratou-se de um engano, uma ligeireza, um equívoco.

Neste final de primeiro turno, solidão mesmo, só a do PNDH-3.

Gato e lebre

Dilma comportou-se no último debate como se o tempo jogasse a favor dela. Serra, como se jogasse a favor dele. Ou seja, o comando dilmista acha que já ganhou a eleição no primeiro turno e o serrista acha que já levou para o segundo turno.

Como ambas as campanhas monitoram isso a partir de tracking diário, pode-se conscluir que os trackings estão diferentes. Como é razoável supor que os fornecedores de pesquisas para ambos são tecnicamente capazes, não é demais concluir: alguém está vendendo gato por lebre.

Ou então existe gente que merece o Nobel da dissimulação.

Ou, melhor ainda, talvez todas essas hipóteses devam ser combinadas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (03) no Correio Braziliense.

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