domingo, 31 de outubro de 2010

Um apartheid temático (31/10)

Como as mudanças maciças na esfera espiritual e cultural costumam vir com delay em relação à vida material, as campanhas eleitorais ainda são dirigidas a um Brasil repartido entre os “naturalmente” mais sabidos e os mais alienados

No último debate do segundo turno, sexta-feira à noite na TV Globo, as surpresas não apareceram. Sem tempo hábil para sedimentar novidades, ambos os candidatos preferiram consolidar o que se convencionou chamar de “propostas”.

É uma visão minimalista do conceito “proposta”, mas paciência. A sabedoria -ou burrice- geral exige que candidato a presidente da República se comporte como postulante a gerente do governo.

Se ele ou ela enveredam pela polarização em torno de valores, de visões, haverá o risco de gerar um ambiente de passionalismo. O que será imediatamente denunciado como “baixo nível”.

Trata-se de viés elitista, segundo a qual o presidente da República deveria abdicar do papel de líder. Luiz Inácio Lula da Silva cuidou espertamente de fugir do figurino, assim como havia feito Fernando Henrique Cardoso.

Justiça se faça, tanto Dilma Rousseff quanto José Serra também ensaiaram libertar-se das amarras, mas o fogo de artilharia que receberam parece ter acabado por demovê-los.

Então o formato do último debate, quando não há mais tempo para quase nada, acaba vindo a calhar. O evento já tradicionalmente organizado pela TV Globo vai adquirindo caráter quase institucional, ritual, sem maiores implicações.

Curioso é que nas democracias mais antigas os debates presidenciais são essencialmente políticos, em torno de visões. Há propostas sim, mas exatamente para concretizar as grandes abordagens.

Será que o povo dali é mais universalista? Possivelmente não. Nos Estados Unidos, todos os testes mostram a ignorância dos americanos sobre assuntos distantes e mesmo próximos.

Talvez a explicação esteja mesmo no caráter mais antigo e consolidado daquelas democracias. Lá é mais complicado dizer que determinados assuntos não devem ser abordados, pois não interessam ao homem simples da rua.

Impressiona que dois pontos, pelo menos, tenham estado completamente ausentes da disputa este ano: a política externa e o binômio juros-câmbio. Quanto ao segundo, é compreensível, pois a patrulha da “pátria financeira” não é bolinho. Ainda que o brasileiro seja esfolado diariamente. O mais esfolado do mundo, aliás.

Mas choca o contraste entre os volume de informações publicadas e veiculadas sobre a política externa brasileira nos últimos oito anos e a quase total ausência do tema nas intervenções dos homens e mulheres que ambicionaram a cadeira hoje de Lula.

A estabilidade econômica -herança principalmente de FHC- e a busca de mais justiça social -herança principalmente de Lula- vão entregar ao próximo chefe de governo um país menos materialmente dividido.

Como as mudanças maciças na esfera espiritual e cultural costumam vir com delay em relação à vida material, as campanhas eleitorais ainda são dirigidas a um Brasil repartido entre os “naturalmente” mais sabidos e os mais alienados.

Uma divisão que expressa muito mais a visão que a elite tem do povo do que a nova realidade do país.

Mas talvez essa seja uma tarefa para as próximas eleições, talvez seja missão para uma próxima etapa.

Façanha

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, carregará este ano uma façanha para o currículo.

A mais acirrada campanha eleitoral desde a redemocratização começou, transcorreu e terminou sem que ninguém, absolutamente ninguém mencionasse uma vez sequer ele, Shannon, a embaixada, o Departamento de Estado ou a Casa Branca.

Nem para o mal nem para o bem.

O sujeito merece uma condecoração em Washingnon.

Bento 16 e Chávez

Para contrastar, personagens como Hugo Chávez e o Papa Bento 16 andaram dando pitaco por aqui. O presidente da Venezuela manifestou publicamente apoio a Dilma e o Sumo Pontífice teve que intervir em defesa dos nossos bispos e padres que pedem aos eleitores não votar em quem defende a legalização do aborto.

Em ambos os casos, como não há sensibilidades coloniais, a coisa foi vista com certa normalidade. É saudável que tenha sido assim.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (31) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Como sempre, teu artigo é de um pragmatismo à toda prova.Embora tenha decidido votar na Dilma não gostei nem da posição do Chavez nem da do Papa. Em minha opinião são indevidas e desnecessárias. A do Chavez, por considerar que suas atitudes e ações são antidemocráticas e autoritárias. A do Papa, por considerar que a Igreja Católica representa o atraso científico e cultural, a institucionalização da superstição. Não nego que pessoas da mais elevada estirpe moral integraram (e integram) os quadros da Igreja mas entendo que isto ocorre apesar da Igreja e não devido a ela, visto que muitos deles (como Meister Eckhart, por exemplo) sofreram perseguições dentro dela. Nem a Igreja Católica nem a maioria das Igrejas Evangélicas se colocam à altura de transmitir de forma viva os ensinamentos de Jesus, o Cristo. Em minha opinião, propagam exatamente o contrário: o ódio e a discriminação, com uma total ausência de compaixão.

sábado, 30 de outubro de 2010 20:10:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

1)O debate da Globo serviu para que os candidatos marcassem bem mais as diferença entre si. Um, Serra, perseguiu o objetivo de falar para um público mais amplo: os indecisos e os voláteis. Outro, Dilma, fez discurso militante, sem esquecer Lula, único trunfo que têm realmente. Em termos de visão e objetivo, Serra mostrou ser muito melhor. 2) Pelo jeito, os EUA como o grande inimigo externo, foi substituído pelo tal "golpe midiático". Ou seja, se a candidata governista perder, não foi feito dos méritos do candidato das oposições e/ou por rejeição dos eleitores, que não têm nada de tontos. Talvez logo logo, possa ser ouvido algum estadunidense "tea party" falar das influências brasileiras "nos assuntos internos" de lá. 3) Nenhum terremoto nas falas de Chávez e do Papa. Digamos que cada um tem seu rebanho por aqui. Seria pior dizer-se gado. Porém, gado fica bem em letra de música, mas não em termos político-religiosos. Nem rebanho, que fica parecendo que todo mundo aceita o "socialismo do século XXI". De todo modo, além dos eleitores, quem decidirá mesmo as eleições serão os candidatos. Por óbvio.
Swamoro Songhay

domingo, 31 de outubro de 2010 10:58:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Permanecendo no mote da comparação entre o antes e o depois.

Gostaria muito de ler uma análise de sua autoria sobre o crescimento da oposição em relação a 2006.

O dado político mais importante (há outros, mas este é o principal) nesta eleição em relação à passada:

Em números absolutos, a oposição cresceu mais ou menos 10 milhões de votos em relação aos resultados de 2006. Esse é um fato político muito relevante para a análise. Na comparação com 2006, a oposição cresceu. Isso está provado pelos números.

Na política, a incógnita é se a oposição no âmbito político-partidário vai criar vergonha na cara e se comportar de verdade como oposição. A ver.

Quantos às incógnitas na gestão da economia, eu fico me perguntando principalmente a respeito do fôlego da farra fiscal dos últimos tempos. A ver.

Não sou versado nessa matéria, mas arrisco uma previsão:

A continuar do jeito que está, vai dar merda.

domingo, 31 de outubro de 2010 21:25:00 BRST  

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