quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Trincheira estadual (21/10)

As teorias não se confirmaram, e deveria haver uma reavaliação do conceito de “lulismo”, que na modesta opinião deste colunista não existe. Há a força política de Lula, decorrente dos êxitos econômicos e sociais do governo dele. Só

Luiz Inácio Lula da Silva está nas alturas, a candidata dele levou um solavanco no primeiro turno mas lidera no segundo, enquanto os partidos hoje governistas alcançaram inédita musculatura no Congresso Nacional.

Esse é um lado da moeda. O outro é que PSDB e DEM já conquistaram no primeiro turno seis estados e, se as pesquisas forem confirmadas, têm boas chances em mais três. Fincaram bandeira nos dois maiores estoques de voto do Sudeste e disputam bem nos principais polos do Centro-Oeste e Norte.

Fazer a conta aritmética de estados é jornalístico, mas politicamente a agregação de São Paulo, Minas, Paraná, Santa Catarina, Tocantins, Rio Grande do Norte e, eventualmente, Goiás, Pará e Alagoas dá ao condomínio PSDB-DEM massa crítica até para enfrentar uma hipotética travessia do deserto.

O cenário contrasta com projeções anteriores à eleição, de que a popularidade de Lula, aliada à amplitude da frente política governista, impulsionaria uma onda vermelha, ou “lulista”, que varreria a atual oposição e abriria espaço à “mexicanização”.

É sempre uma referência ao domínio por décadas do PRI (Partido Revolucionário Institucional) naquele país.

As teorias não se confirmaram, e deveria haver uma reavaliação do conceito de “lulismo”, que na modesta opinião deste colunista não existe. Há a força política de Lula, decorrente dos êxitos econômicos e sociais do governo dele. Só.

Lula tem carisma, mas sua relação com o povo/eleitorado é essencialmente pragmática. Aliás o pragmatismo será a marca de Lula para a História. Ele deixará uma obra social e será respeitado por ela. Só. Estará mais para Bill Clinton do que para Abraham Lincoln.

Os resultados estaduais falam por si. Mesmo com o risco de a força do governo conseguir, especialmente em Goiás e no Pará, o que não alcançou no primeiro turno, já é possível reafirmar o peso da política regional nas disputas estaduais. O eleitor não “raciocina em bloco”, como se dizia brincando na época do Pasquim.

O PT, apesar de todo o momentum, continua incapaz de transformar sua hegemonia na máquina federal em hegemonia nos estados.

É dos estados que nasce a oposição real aos governos federais, como alternativa de poder. A oposição congressual é retórica e investigativa, pois as administrações nunca encontram dificuldade para reunir maiorias acachapantes. Coisa necessária entre nós para evitar a paralisia.

O criadouro de opções está é nas unidades da federação. Brasília tem como tentar sufocar os estados economicamente, para enfraquecer eventuais concorrentes eleitorais, mas é sempre arriscado. Os presidentes, inclusive Lula, tem preferido outro caminho, da cooperação e do ganha-ganha.

Antifederativo

Ainda sobre estados, um detalhe curioso. A estratégia eleitoral do PT neste segundo turno inclui um “segundo turno” que não aconteceu em São Paulo. Apesar de todo o esforço do partido nas terras paulistas.

Bem ou mal o eleitor de São Paulo manifestou-se, o que teoricamente deveria ser objeto de algum respeito da parte dos derrotados.

Deve haver alguma lógica eleitoral no “segundo turno paulista” patrocinado pela campanha oficial, mas politicamente é curioso. Parece embutir uma visão unitarista do país. Uma certa aversão à federação.

Cada um tem seu estilo.

Não tem preço

Vou pedir licença àquele pessoal do cartão de crédito. Assistir a programas especializados em economia e constatar que agora até alguns insuspeitos pedem o controle da entrada de "capitais especulativos", isso realmente não tem preço.

O problema é saber se funcionaria. Ou se o fluxo restante já seria suficiente para manter a apreciação da moeda nacional. Que já mostra efeitos perversos na atividade econômica, especialmente na indústria.

Já o preço de não ter baixado os juros radicalmente no fim de 2008 será altíssimo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (21) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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12 Comentários:

Anonymous Milanta disse...

Mercado critica o governo por não elevar continuamente a taxa de juros,como inibidor de demanda e da inflação;especialistas postados nas trincheiras da oposição rotulam como a taxa de juros mais alta do planeta.Darcy Ribeiro,abespinhava-se quando tratava com economistas:"reuna três deles numa sala e não haverá consenso,cada um tem a sua verdade".
Por essa razão ,ficou demonstrado no governo Lula que o melhor ministro nessa área era médico e sanitarista.Essa especialidade fez a diferença. Lulo-petismo, faz parte do arsenal semãntico da oposição,nesta,que será lembrada como a mais suja campanha , "nunca antes",testemunhada.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 12:22:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O "franciscanismo" é a sólida base estrutural do sistema político brasileiro, e desde muito antes do surgimento dessa novidade "conceitual" importada do México. O conceito de fato foi magistralmente sintetizado por Roberto Cardoso Alves: "É dando que se recebe".

O "franciscanismo" está entranhado profundamente na nossa formação social e política ao ponto de tomarmos, pelos mais diversos motivos, o que foi uma construção histórica como um fato natural. Para que um PRI? Seria tolice trocar o que é quase perfeito por um simulacro.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 15:36:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Uma lembrança um tanto rude para os hagiógrafos do pós-2010

Arqueologia do Egocrata em escavação pré-89

Trechos de entrevista de Luís Inácio da Silva publicada em 29 de dezembro de 1985 no jornal Folha de São Paulo.

A liberdade individual

“Acho que a liberdade individual está subordinada à liberdade coletiva. Na medida em que você cria parâmetros aceitos pela coletividade, o individualismo desaparece. Ou seja, não há razão para a defesa da liberdade individual. O que você precisa é criar mecanismos para que a grande maioria da comunidade possa participar das decisões”.

O fim da luta de classes

“Sou daqueles que não admitem a existência das classes sociais. Acho que nós poderíamos tranqüilamente termos [sic] uma única classe no Brasil. Na medida em que existem as classes sociais, você está permitindo a existência de lutas como as que acontececeram em outros países”.

A democracia burguesa representativa

“Não achamos que Parlamento é um fim, ele é um meio. E vamos tentar utilizá-lo até onde for possível. Na medida em que a gente perceber que pela via parlamentar, pela via puramente eleitoral, você não conseguirá o poder, eu assumo a responsabilidade de dizer à classe trabalhadora que ela tem que procurar outra via”.

A luta política e a lógica do amigo-inimigo e o verdadeiro petista.

[O partido é] “capaz de conviver com a adversidade [parece que Lula queria dizer “diversidade”] com companheiros em disputa política interna, mas que se consiga definir seus INIMIGOS EXTERNOS. Isso é ser um verdadeiro petista”.

Confissões

“Eu não quero ser o dono da verdade, o senhor da razão. [Mas] eu tenho uma verdade que está subordinada à verdade coletiva”.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 15:42:00 BRST  
Blogger Marcelo disse...

O fato grave é que imprensa impõe sua versão dos fatos e tenta transformá-la em realidade. Nunca é demais lembrar que uma das questões centrais da democratização de nosso país é retirar do controle de apenas 9 famílias estes meios de comunicação. A tão propalada ameaça à liberdade de imprensa nada mais é que a defesa deste oligopólio, que por sua vez representa o conservadorismo, agora mais radical neste fim de campanha eleitoral.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 16:40:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Na passagem

“Eu não quero ser o dono da verdade, o senhor da razão. [Mas] eu tenho uma verdade que está subordinada à verdade coletiva”

Se fosse eu o entrevistador, perguntaria ao Lula:

O que é ou no que consiste a verdade coletiva? Quem é o grande Eu capaz de recolhe-la em um suposto Nós e depois enunciá-la como a Verdade?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 18:10:00 BRST  
Blogger Cherokee Jr disse...

Alon, primeiro corta o gasto público, depois baixa os juros e depois se necessário aumenta o controle sobre capitais especulativos. Nesta ordem.
Abs

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 18:10:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Comparação infeliz: Bil Clinton, Lincoln. Você já foi PCB, não foi? Então, que tal pensar no Etapismo. Primeiro cria-se uma burguesia nacional progressista, depois desenvolve-se um bom nacionalismo, enquanto isso a classe operária se alia a essa burguesia progressista, e daí, os meios estão dados para uma revolução. Certo? Não houve uma inflexão aí, nos anos 1990 o neoliberalismo expressão do capitalismo mundial integrado foi levado a cabo justamente pela turma que estudou marxismo a vida inteira, e na hora que chegou lá, entendeu que tinham que aceder e pronto, - tivemos um retrocesso. Então veio Lula e o bonde da história Etapista voltou aos trilhos. Acho que é isso...
Ismar Curi

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 23:31:00 BRST  
Blogger João Paulo Rodrigues disse...

Ué, mas o Lulismo É a aliança pragmática (e também emocional, coisas que não são antagônicas necessariamente) entre Lula e os estratos mais pobres. Isso não foi desconfirmado pela eleição e é obviamente decorrente da situação econômica e social. Não faz muito sentido o que foi dito na coluna.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010 10:02:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Mas está claro que as oposições não foram extirpadas, conforme sugerido em Santa Catarina. Nem o eleitor paulista topou acabar com o PSDB. Ao contrário, foram duas claras mensagens, somadas ao resultado de Minas Gerais. Além de, muito ao contrário, não estar fora do páreo no plano nacional. Conforme falam no interior: está tudo um rolo só. A ver em 31 de outubro.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 22 de outubro de 2010 16:45:00 BRST  
Anonymous valtinho disse...

Continuo chateado. Não porque seja ingênuo. Mas é porque me dá tristeza que pessoas que eu gosto e respeito possam realmente acreditar que representam o bem e o adversário o mal. Uns ressucitam fantasmas e outros, velhas ideologias. A vida já derrotou ambos quando o país cresceu e melhorou sob o governo Lula com uma política econômica que nada tem a ver com ideologia. A economia gerou empregos e oportunidades, mais recursos para o Estado fazer políticas sociais e a esperança de um futuro melhor. É por isso que a Dilma está na frente nas pesquisas e não porque o brasileiro seja "ignorante" ou "vermelho".

sexta-feira, 22 de outubro de 2010 23:38:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

No primeiro turno Valtinho, o eleitor brasileiro já demonstrou que de tonto não tem nada. Tanto que, como o estorvo que é, levou a decisão para mais um turno. Ele fez exatamente o contrário do que as milhares de casas, cascos de navios, riquezas profundas de óleo, milhares de tudo o que nunca antes ninguém tinha feito no universo conhecido, pediam. Parece que ele quer ver se a coisa é para valer mesmo. Por isso, até agora, ninguém sabe quem ganha. Só o estorvo ao teclar números em 31 de outubro.
Swamoro Songhay

sábado, 23 de outubro de 2010 10:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Você afirma que o eleitor não vota em bloco. Tese correta e mais do que provada pelas últimas eleições.
No entanto, você diz que o negócio do lulismo não existe. Utiliza para isso, em certo sentido, a relativa autonomia das realidades regionais.
Achei contraditório.
Se o eleitor não vota em bloco, logo para existir o lulismo... não é necessário que ele abocanhe todas as áreas políticas da sociedade.
O lulismo ganha realismo numa parte da cabeça do eleitor. Na outra ele perde consistência.

abs.

daniel menezes - NAtal/RN

sábado, 23 de outubro de 2010 21:42:00 BRST  

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