quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Teocracia antiteocrática (14/10)

Talvez seja melhor nos habituarmos à democracia. Estado laico não significa que as igrejas (tomadas aqui como sinônimo de religiões) estejam impedidas de opinar. Estado laico não é estado ateu

Está certo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando diz que a opinião pública tem cada vez menos donos. É possível que aqui o chefe de governo esteja a empregar “opinião pública” como sinônimo de “opinião da sociedade”.

Prefiro usar a expressão com outro significado. “Opinião pública” nesta coluna tem servido tanto para designar os profissionais de comunicação que buscam influenciar o ambiente político quanto o pedaço do ambiente político que se influencia por eles.

Opinião pública e sociedade não são sinônimos. A disseminação dos meios para distribuir informação digitalizada as torna coisas diferentes cada vez mais. Tenho até dúvida se algum dia foram a mesma coisa. Ou se é um passado mitificado para ajudar a explicar o presente.

No obrigatório “Minha Razão de Viver”, Samuel Wainer (com texto final de Augusto Nunes) conta como a imprensa da época “escondia” a campanha de Getúlio Vargas à Presidência em 1950, e mesmo assim o então ex-ditador acabou eleito. E bem eleito.

Wainer era aliado de Getúlio e eventualmente sua descrição daqueles momentos históricos possa ser contestada, um dia. O fato é que até hoje ninguém o contestou.

O eleitor não tem dono. Quando está mais vulnerável a ter, é por razões de ordem econômica, não por falta de informação.

O debate sobre o aborto é um bom exemplo. A opinião pública é esmagadoramente adepta de que o tema não deve ser debatido na campanha eleitoral. Só que está sendo.

Os candidatos a donos da opinião alheia são como o sujeito que olha pela janela num dia de agosto aqui em Brasília e descobre que chove intensamente. Mas não deveria estar chovendo nessa época, e por isso ele sai de casa a pé e sem guarda-chuva.

Só que está chovendo sim, e o “formador de opinião” chega ao destino todo encharcado.

E chega protestando contra o absurdo de chover numa época naturalmente programada para a seca.

É bom que nos habituemos. O Brasil é uma democracia e ninguém possui o monopólio da agenda eleitoral. Como os principais contendores tem cada um sua mídia reservada em rede nacional, cada um tenta emplacar os temas que mais convêm.

Mais democrático é discutir os assuntos e ponto final. Responder às acusações esclarecendo, sem achar que fugir delas fará o milagre de levá-las ao desaparecimento “natural”.

Talvez o Brasil esteja assistindo à melhor corrida presidencial desde a redemocratização. Ou pelo menos desde que Lula e Fernando Collor se enfrentaram no segundo turno de 1989. Há uma disputa real, com possibilidades ainda algo abertas.

De 1994 para cá, todas as vezes, a reta final do turno decisivo já apontava um vitorioso muitíssimo provável, e a natural agregação em torno dele tirava o oxigênio do debate.

O favorito já se comportava como presidente eleito, e o marcado para a derrota só se preocupava em tocar o barco dignamente até o dia da má notícia definitiva.

Agora não. Há algum espaço para a dúvida. Então, em vez de resmungar sobre a “agenda errada” seria mais proveitoso surfar nas ondas antes que acalmem.

É a hora em que o eleitor pode arrancar compromissos dos candidatos. Por que não aproveitar? E por que tentar discriminar certos assuntos?

Estado laico não significa que as igrejas (tomadas aqui como sinônimo de religiões) estejam impedidas de opinar. Estado laico não é estado ateu.

Como reagiriam os ateus se as igrejas procurassem interditar o debate dos temas mais críticos aos adeptos do ateísmo? Achariam bom? Duvido. Aliás já aconteceu e não acharam bom.

Não faz sentido invocar a ameaça teocrática para, de contrabando, tentar impor a teocracia antiteocrática.

Aborto, privatizações, corrupção, analfabetismo. Que se discuta tudo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (14) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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25 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Em 10 de Fevereiro de 1980 estiveram reunidos no católico Colégio Sion lideranças de movimentos sindicais, religiosos e militantes comunistas ateus. Todos nessa data assinaram a ata de fundação do PT.

Vamos reafirmar o que deveria ser uma obviedade. A efetividade histórica do PT em 1980 só foi possível porque a sua fundação recebeu a benção de grande parte da Igreja Católica. E vamos relembrar que os católicos socialistas (hegelianos) são convictos na crença de que o socialismo integra a evolução cósmica e de que eles são a garantia da face humana da utopia contra a degeneração da utopia em totalitarismo ateu.

Agora, a fundamental aliada da primeira hora é tratada como uma estranha no ninho e espezinhada como se nada fosse além do que um ajuntamento de imbecis instrumentos da causa. Pois bem, tomaram um “pra traz” que ao que tudo indica vai custar bem caro ao PT. Os valentões de antes do primeiro turno, que empunharam contra os cristãos no partido e fora dele o PNDH3, baixaram o facho e agora correm atrás do prejuízo. Mas os surtos de religiosidade tem a sinceridade de uma nota de três reais. Ao contrário do que imaginam o vaidoso Chalita e os marqueteiros de Dilma, católicos não são idiotas. Como você bem lembrou, são mais de 2000 anos de janela nessas paradas. E convenhamos, neste embate os prognósticos com base em retrospectivas são esmagadoramente favoráveis aos católicos.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 02:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É isso ai. Há um post no blog de Luis Nassif intitulado "Obama sobre a religião na política" de segunda-feira, 11/10/2010 às 20:48 consistindo em apresentação em vídeo de discurso de Barack Obama sobre o uso da religião nas eleições presidenciais americanas.
O link para o post é
http://advivo.com.br/blog/luisnassif/obama-sobre-a-religiao-na-politica
Não fiz comentário, mas pensei em dizer mais ou menos o que você diz neste post. Enfim, Barack Obama pode ser crítico, mas ele não pode impedir que se faça uso da religião na política.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/10/2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 07:46:00 BRT  
Anonymous Uriel disse...

Corrida de obstáculos,melhor dizendo.Com direito a toda espécie de trapaças.A mídia, uniu-se como nunca,tal qual "mineiros no câncer".
Claro que derivar para o desimportante porém polêmico,interessa a quem está em desvantagem.Temas como "aborto&gays" galvanizam com emoções baratas de novela os eleitores , despolitizando-os, impedindo-os de descobrirem em que subtexto se oculta seu candidato.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 10:18:00 BRT  
Anonymous Túlio Villaça disse...

Tenho a impressão de que você está sendo excessivamente otimista, Alon - e olha que eu sou bastante. Concordo integralmente com a interpretação da frase do Lula. Só não sei se ela (já) é verdadeira. Dizer que a Imprensa em geral é esmagadoramente contra a discussão do aborto não me soa condizente com as manchetes dos dias anteriores ao primeiro turno, como a capa da Veja logo depois. Tem gente botando mesmo lenha na fogueira, e os "formadores de opinião" atuaram firmemente com interesse político. E realmente seria ótimo que houvesse discussão sobre tudo. Só que o que há são declarações do tipo "sou pela vida" dos candidatos e pregações fundamentalistas nos púlpitos. Isso lá é discussão? Nesse ponto, concordo com o Dines: a Imprensa, está apostando perigosamente num ovo de serpente, e o Serra está dando alimento para um monstrinho que já tem muito poder, inclusive rádios, TVs e uma bancada no Congresso enorme e que ainda cresceu. Não creio em revoltas teocráticas e que tais, e me recuso a desmerecer o voto do quem discorda de mim à lá Maria Rita Kehl. Mas ela não foi defenestrada à toa. Está havendo, sim, manipulação da Opinião Pública. Escolha qual das duas. A frase do Lula, infelizmente, não é verdade ainda. Tomara que se torne um dia.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 11:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bom o post. E acrescentaria na lista de temas a serem discutidos, a estatização ou a reestatização do Estado, de seus órgãos e suas empresas. Assim, quem for privatista que se apresente. Idem aos estatistas. O que não dá é ficar nesse chove não molha de fazer e acusar alguém de tê-lo feito. Poder-se-ia exorcizar vários e velhos fantasmas com uma paulada só. As catacumbas os receberiam de braços abertos. E os eleitores ficariam eternamente agradecidos. E vivos.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 11:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tem algo que cheira mal aí. Primeiro porque, se os religiosos têm direito de choramingar suas crendices pra cima do coletivo, também têm os que são contra o que eles defendem (veja bem, não é só não acreditar na mesma coisa e ficar indiferente. é ser contra uma visão de mundo que promove barbáries e ignorância, impede avanços científicos importantes, oprime grupos sociais cuja igualdade de direitos ainda nem está perto de ser alcançada, como as mulheres e homossexuais, e tudo o mais que vem no pacote.) E é exatamente isso que alguns grupos começaram a fazer, sem a capacidade de fazer estardalhaço dos religiosos, mas começaram. Ainda: o estado ser laico significa eliminar das suas decisões e dos seus critérios posições embasadas em uma ou mais religiões. significa decidir racionalmente, baseado em um princípio de justiça e igualdade. Quando um grupo reinvindica que o estado haja de acordo com seus interesses, cabe ao estado decidir se aquilo é justo ou não. Quando a justificativa desse grupo é apenas baseada no dogma que sua religião impõe, cabe ao estado mostrar que é laico e esse não é um critério aceitável. O ponto a discutir: quanto dessas reinvindicações são sustentadas apenas pelo dogma. Na minha opinião de ateu: 100%, então sim, o estado laico é um argumento para dizer que religiosos estão errados nas suas posições, porque elas não tem sustentação em qualquer princípio de justiça e igualdade compartilhado pelo estado.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 13:32:00 BRT  
Blogger João Paulo Rodrigues disse...

"Como reagiriam os ateus se as igrejas procurassem interditar o debate dos temas mais críticos aos adeptos do ateísmo?"

E quais seriam esses temas? Eu me adianto, não existem.

Na realidade, que têm feito bispos de todos os matizes a não ser pressionar candidatos para que se comprometam com o não debate? Isto é: não devem enviar propostas de plebiscito ou legislação (que serão, no nosso rito constitucional, debatidos antes de aprovados ou reprovados), e devem se comprometer com elas, igrejas, e não com o debate público.

O Alon esquece de simplesmente ver o que ocorre: não se trata de discutir o aborto, mas de uma candidatura surfar na maré, sem explicitar, com o fim de demonizar a adversária, isto é, não se limitando a dizer que ela tem uma posição contrária à sua, mas que isso faz dela uma assassina e alguém que não possui princípios ou amor à vida. Ora, isso é trazer a religião como legitimador político, ferindo, assim, o Estado laico. A se lamentar que a Dilma esteja caindo na armadilha.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 14:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Jotapê, me parece um pouco hipérbolico o seu comentário. Primeiramente, não foi o comando da campanha oposicionista que resolveu de uma hora pra outra criar a tal onda conservadora. Pra mim, foi algo espontâneo, que, no entanto, despertou o alerta entre os marqueteiros, dado o estado letárgico em que se encontrava a oposição, fruto do sucesso macroeconômico do governo, ainda mais sabendo que tais resultados tinha sido conseguidos, basicamente, seguindo a cfartilha do antecessor.Como disse o Alon (em 13/01), esse flanco foi aberto pelo próprio governo, lá atrás, quando do lançamento do PNDH III, mas a oposição só veio descobrir a trincheira agora. Voltando à questão do tom,ele se revela ainda mais exagerado quando se sabe que a campanha serrista tem se aproveitado mais da dubiedade da candidata opositora do que tentado demonizá-la.

Abraço

Kbção

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 16:02:00 BRT  
Anonymous Guilherme Scalzilli disse...

Dilma e a pauta conservadora

Além do evidente apelo demagógico, a defesa da espúria criminalização do aborto faz parte de uma estratégia para neutralizar os avanços prometidos por uma eventual eleição de Dilma Rousseff. A direita reacionária quer empurrar a candidata às cordas do debate sucessório, forçando recuos programáticos e ditando agendas futuras. Os compromissos assumidos no calor do constrangimento serão depois transformados em novos “estelionatos eleitorais”.
Dezenas de outros temas participam desse jogo mistificador, e certamente ressurgirão para demonizar a petista. Mas o pior que ela pode fazer no momento é engolir essa pauta indigesta, legitimando sua simplificação rasteira e admitindo a contaminação moral de questões técnicas alheias a humores maniqueístas.
A motivação fundamental do jogo sujo praticado por José Serra é forçar Dilma a se envergonhar das próprias qualidades. Renegando-as, escorregando para a vala comum do conservadorismo obscurantista, ela perderia sua identidade e colheria a desconfiança da esquerda militante. E, pior, aceitaria participar do único embate que Serra é capaz de vencer, no terreno que ele comanda, com as regras que ele ditou.

http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 16:08:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Para que não pairem dúvidas.

Publiquei no blog Torre de Marfim, e antes de você liberar os comentários aqui, um mesmo comentário porém acrescido de outros. Cometi um erro. Eu citei a origem do comentário que você não publicou. Me desculpe e não foi de propósito.

Nunca reclamei fora daqui sobre algo que escrevi e você não publicou. Por mim vale o combinado e eu respeito os seus critérios.

Veja lá como ficou

http://atorredemarfim.apostos.com/2010/10/14/frankenstein-saiu-do-controle/comment-page-1/#comment-84009

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 16:33:00 BRT  
Anonymous JB Costa disse...

Há de se destacar que, de início, há uma grande equívoco em se misturar a inserção do discurso religioso em campanhas eleitorais,e a necessária e bem vinda participação de religiosos de todas as matizes para o debate democrático.
O discurso religioso é em todos os sentidos anti-democrático porque fechado, finalizador, completo. Não há meias verdades ou princípios a serem contestados ou aprimorados.
Entretanto, os religiosos, aqui entendido tanto os praticantes de determinadas religiões como,e principalmente, seus hierarcas, pastores, líderes, são também cidadãos, e nessa condiçao tem o dever e o direito de participarem das discussões de quaisquer temas,desde que o façam sem apelar para o terrorismo e a chantagem religiosa e sem a utilização de meios torpes para prejudicar determinada candidatura.
A política foi "inventada" não para dirimir os conflitos humanos e, sim, para administrá-los, reduzindo-os pela busca de um mínimo de senso comum.
Nesse sentido ela é imperfeita, falha, incompleta. Antípoda, portanto, da Religião.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 18:18:00 BRT  
Anonymous Carlos Latorre disse...

Caro Alon.
Parabéns pelo artigo. Mesmo olhando o mundo pelo lado oposto do seu -enquanto você olha pelo lado esquerdo, eu o vejo pelo direito-admito, com felicidade, a irretocabilidade e lucidez do seu artigo. Uma interpretação correta dos acontecimentos.Parabéns.
Abraços

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 20:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Brilhante, perfeito seu texto.
Emanuel

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 22:01:00 BRT  
Blogger chico disse...

Alon, sei q vc nao vai publicar esse comentário e de fato essa não é a minha intenção. Esse recado dirige-se a vc e peço q vc o leia até o final.

Acho q vc defender a imparcialidade do processo em curso na sociedade e a validade da utilização suja e udenista da religião um absurdo q na minha concepção descaracteriza o seu discurso de ser um jornalista de esquerda. Basta olhar a colocação da midia e dos setores de direita da sociedade(de TODOS os grandes jornais, sem contar a revista veja q dispensa comentarios...), não existe essa suposta imparcialidade q vc tenta manter a todo post nesse blog e essa legitimidade do processo q ocorre na sociedade no momento (nao me refiro a legitimidade institucional).

Não existe meio termo no contexto em q a situação se encontra, é uma classica campanha direita X esquerda. A minha avaliação é q vc manter o status quo, uma equidistancia do PT e do PSDB e nao colocar uma visao critica e um posicionamente politico contrario ao movimento da direita q ressurge no país um absurdo para quem se diz de esquerda. E, acredite, isso vem de alguem q acompanha religiosamente suas analises e seus posicionamentos nesse blog e q o tem como um intelectual de referencia.

Continuando nesse curso logo vc vai ser chamado para integrar o editorial da Folha...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 23:02:00 BRT  
Anonymous mdv disse...

Fiquei satisfeito de constatar que um post meu escrito ontem fala praticamente da mesma coisa! Se tiver um tempo dá uma lida, abraço M

http://oluziada.blogspot.com/2010/10/tudo-e-politica-em-epoca-eleitoral.html

quinta-feira, 14 de outubro de 2010 23:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

" uma candidatura surfar na maré, sem explicitar" - Jotapê, passei despercebido por este trecho, então acho que concordo contigo aqui. A candidatura oposicionista tá aproveitando a onda de fato. Mas continuo a discordar da suposta campanha de demonização, reafirmando que ela, ao que me parece, tem centrado fogo dubiedade, na coisa das "duas caras".

Kbção

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 07:35:00 BRT  
Blogger João Paulo Rodrigues disse...

Kbção,

E os "duas caras" se refere ao quê, quando logo após há rios de mensagens sobre "vida", "maternidade", nascimento", "crianças" e "fé"? Se tivésemos pelo menos dois assuntos levantados a respeito das tais "duas caras", seu argumento teria alguma validade, mas como a acusação se refere somente a um assunto, é meio óbvio que o "duas caras" é entrelinhas para "Dilma escamoteia sua posição abortista"...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 10:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

E ela não escamoteia? Ou a descriminação do aborto não é uma bandeira histórica do partido da candidata? Então quer dizer que confrotá-la com suas opiniões recentes, até pra provar que ela teria outras intenções, seria demonizá-la? Jotapê, e os remendos ao PNDH III? Não teria o condão de camuflar o real programa petista? Por que não defender a agenda de forma clara? Medo do conservadorismo da patuléia e da dissonância entre este e os propósitos do PT?

Abraço

Kbção

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 14:10:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, excelente texto. Deixa claro quão pequena é a disposição democrática de nossa zelite (acho que é a “opinião pública”, no sentido que você usa), muito parecida com a oposição na Venezuela; ou da maior parte de nossas esquerdas mais a esquerda, parentes próximas do chavismo (que um dos lados da disputa não seja democrático, não leva a que o outro o seja, ainda que qualquer um dos dois esperneie democracia quando está por baixo). Resumindo: todo assunto em que eu não mobilizo a maioria não é um bom assunto para as eleições. Isso não impede, claro, que os órgãos favoráveis a José Serra explorem eleitoralmente o assunto, mesmo aproveitando para, simultaneamente, zombar o voto religioso, exemplo: a capa de Época nas bancas, com a imagem do dedo do Deus de Miguelangelo aproximando-se da urna eletrônica, e o título “Deus entra nas eleições”. O mais significativo, porém, é a luz que o caso joga em nossa organização partidária eleitoral: o assunto mais quente dessas eleições não surge do confronto entre os candidatos, mas do tropeço de um deles nas disputas intestinas de seu próprio partido. As ambigüidades do PT não começaram com o governo Lula, fazem parte de sua história e devem ser entendidas como parte daquelas virtudes que permitiram ao PT crescer e chegar aonde chegou. O PT desde o início aproximou tribos bastante diversas que de alguma forma não encontravam canal de participação no jogo político e garantia-lhes um ambiente democrático, muitas são as lideranças que dificilmente emergiriam não fosse o PT, sendo a mais famosa hoje a senadora Marina Silva. O PT aproveitou ao máximo nossa tradição de inconsistência ideológica, de relevar diferenças que, assim, deixam de se confrontar no jogo político, para conviver na mesma “família” partidária. E o que há de mal nisso? Se alguém agrada a gregos e troianos não caberia governar? Apenas que dessa vez forçou a mão, ao colocar na rua uma candidatura comprometida com um de seus “extremos” ideológicos, o tal do decreto programático sobre direitos humanos e tudo mais. Tem mais, o fato de as eleições poderem ser decididas em função de um dos candidatos tropeçar em suas próprias pernas revela a inapetência política de nossa zelite: a candidata do governo possuía um extenso telhado de vidro, do ponto de vista do eleitor médio, que em momento algum foi explorado pela oposição; mais do que isso, não fosse a candidatura de Marina Silva, sequer haveria segundo turno. A nova UDN (que não precisamos fazer coincidir apenas com o PSDB) é tão convicta de estar predestinada ao poder que não vê razão para mover um dedo com essa finalidade. Aliás, o vicio conspícuo da zelite não é a apropriação indébita, ou mesmo a cupidez, mas a incúria, a recusa em fazer o dever de casa, a indolência (não apenas na política, claro). Acabo de ver que José Serra, talvez condoído de ver a candidata do governo sangrar junto a uma clientela tradicional dela, os movimentos feminista e gay, resolveu também defender a “união civil” de pessoas do mesmo sexo, com sofisma de não se tratar de casamento, que é coisa de igreja. Bem, os evangélicos ou católicos são bastante discretos para não passarem recibo por serem tratados como imbecis, mas o movimento gay já o fez. É a capacidade de desagradar a gregos e troianos sem necessidade, de graça! Parece que a posição da candidata do governo a questão do casamento gay tem sido a mesma, mas ela está sob fogo cruzado de seus próprios eleitores. Se porventura José Serra ganhar poderá sustentar que não tem nada a ver com isso, que não é culpa dele. Não espanta que Lula e o PT pareçam monopolizar o espaço político.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 14:49:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alberto099

O PT reuniu na sua fundação grupos ideológicos laicos e religiosos com visões políticas estratégicas díspares e, no limite, antagônicas. O PT é uma frente que abriga tendências políticas autônomas, não nos esqueçamos. Agora, é pura ilusão acreditar que os setores cristãos de dentro e de fora do partido fossem fazer a genuflexão ao "centralismo democrático" imposto pela executiva nacional. Amarga ilusão. O deputado punido pela executiva saiu do partido. Marina saiu do Partido. Trotskistas saíram do partido. Frei Betto, apesar de estar no partido, afastou-se dele. Isto é, o que se observa no PT é o movimento de dispersão em ato. O PT tende a se tornar o partido do "campo majoritário". Normal que os que não se enquadram abandonem o partido.

Alon e os mais antigos, até por vivência militante, estão carecas de saber que as frentes políticas são impossíveis de serem mantidas íntegras para o todo sempre. E isso nem mesmo é uma dialética. É uma simples constatação empírica: na natureza os seres tendem à individualização e não à coletivização. Isto é, o movimento dos seres na natureza é de diferenciação e dispersão. Por quê? Sei lá.

Na política pós-64, vimos que foi assim com o velho MDB, com velho Jornal Opinião, com o velho Jornal Movimento. Por que com o PT seria diferente?

Para além das capas de revistas e das colunas anunciando o armagedon da direita reacionária, me estão as evidências de um racha entre setores que disputam hegemonia política no PT. A quebra não foi provocada por fatores exógenos, mas sim endógenos ao PT. Tudo indica que há uma debandada ou um grande incômodo dos setores cristãos do PT. Obviamente os adversários vão aproveitar-se. E os petistas queriam o quê? "Ética na política?".

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 16:36:00 BRT  
Blogger João Paulo Rodrigues disse...

Kbção,

Não, não é, tanto que apenas recentemente virou decisão. A ala católica sempre foi forte.

Sim, ela parece ter mudado. Mas a questão não é essa. A questão do aborto não é um assunto que divida PSDB e PT, nem é uma pauta importante do debate político. Mais: a questão não é pedir esclarecimentos ou apontar um furo no adversário, é demonizá-lo para além de toda confrontação política.
Então, o uso do tema é cinismo serrista. Ainda mais quando se distribuem panfletos em que Serra usa frases do Evangelho.

Agora, é claro que houve recuo da Dilma, por um medo que eu acho infundado. Paciência. Agora já foi.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 18:36:00 BRT  
Anonymous Brandão disse...

Dilma termina de desmontar Dilma ao renegar o direito ao aborto.
Curva a espinha para pagar o preço de ganhar eleições e ter o direito de dobrar-se ainda mais.
Dilma mais uma desmente a si própria.
Leva de roldão o partido que representa, o governo que participa, o próprio programa que deveria defender e afoga as esperanças de quem ainda esperava alguma coerência ideológica e as mudanças necessárias.
Infelizmente Dilma, tão nova eleitoralmente e já tão envelhecida politicamente.
Nem assumiu e já sumiu como protagonista político.
Se ganhar as eleições corre o risco de administrar o mais longo final de governo da história. Terá vencido, novamente, o valor dos meios e não os dos fins.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010 19:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Todos sabem que o tema aborto não é "exploração serrista" do tema. Foi a "insegurança dilmista" sobre o assunto que colocou o tema no centro da campanha. As posições da candidata sobre o assunto importam menos do que a segurança dela em abordá-lo quando perguntada. Como não o fez, em meio a uma dura campanha, foi colocada contra a parede. O próprio PT está em posições de dubiedade, talvez por tentar blindar a candidata na reta final. Nenhum cidadão interessado no assunto deixaria de avaliar o posicionamento de candidatos. Bem como, nenhum contendor, ou partido adversário, deixaria passar tal tema sem dar-lhe cobro. Inclusive o PT, como demonstra o início da contraofensiva. Pelos indícios, não será nada edificante. Na realidade, porém, não fosse esse jogo de cerca lourenço, o tema, a rigor, não é nem da esfera do Executivo. Entendido este como o presidente da República. É de ministérios sociais, incluídos ai o da Saúde. Mas, o seu debate profundo é mais afeito ao Legislativo. E em tal debate, seria de bom alvitre que os parlamentares fossem liberados de fechamento de questão ou de quaisquer outros constrangimentos partidários, pela posição que venham a adotar. Isso pelo fato do assunto conter alta octanagem de foro íntimo, de voto de consciência. Já candidatos, devem saber que os cidadãos preferem dubiedade nula em assuntos que lhes sejam de interesse. E são cobradores eficazes.
Swamoro Songhay

sábado, 16 de outubro de 2010 13:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Continuo a achar a palavra demonização, no mínimo, exagerada. Claro que a pose de fiel devoto do Serra na campanha é pra inglês ver, coisa de marqueteiro, feita nas coxas, para surfar a onda conservadora gerada, muito provavelmente, pelos motivos que o Paulo Araújo vem martelando aí. Lembro também que, no já distante 13 de janeiro, aqui nesta casa tive o prazer de ler uma profecia das boas, dizendo que a publicação do PNDH III abriria um flanco na solidez do discurso governista dando uma brecha para moribunda oposição. A prova é tanta que o programa hoje parece uma colcha de retalhos, ou melhor, uma massinha, pronta a ser modelada para agradar gregos e troianos, acabando por desagradar a todos. Acho que, dado o amálgama tucano-petista no campo macroeconômico, esta histeria toda contra uma suposta baixaria na campanha é uma manobra desesperada para desviar a atenção de quem foi pego com as calças na mão, tentando empurrar goela abaixo da patuléia uma agenda claramente dissonante com os anseios desta e, que parece, de certos setores da própria legenda.

Kbção

sábado, 16 de outubro de 2010 13:51:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Paulo Araújo, demorei a perceber onde você se contrapunha ao meu comentário, mas a culpa é minha: meio de contrabando entrou no meu texto um elogio á trajetória do PT. Elogio honesto, fui simpatizante do partido desde seu nascimento (também sou “di maior”, sabe?), ainda que nunca tenha me filiado, mas isso não quer dizer que gostaria de ver as tribos do PT permanecerem juntas... ao contrário do que você diz, não apenas não me incomoda que os adversários do PT se aproveitem das dificuldades internas do PT, como torci o tempo todo para que o fizessem de fato. Votei Lula em 2002 e 2006 e entendo perfeitamente que o PT busque uma posição de hegemonia de longo prazo na sociedade, mas não a quero, tanto porque no limite aponta para uma organização não democrática da sociedade, como porque insiste em uma presença maciça do Estado na economia que está fadada ao fracasso. Mas o que eu queria enfatizar em meu comentário é que fiquei sem escolha, porque não há oposição. No discurso, Serra e Dilma são indistinguíveis. Dilma, para mim, era uma anticandidata do Lula, alguém que marcaria a posição do governo, à esquerda, preparando o retorno de Lula como oposição daqui a quatro anos. Por que anticandidata? Porque o passado na oposição armada aos governos militares a condenariam aos olhos do eleitor médio. O custo para a oposição seria assumir uma posição mais a direita, claro, o que garantiria a aura da esquerda para o presidente na oposição. Por isso falo em inapetência política, para além do que ocorre dentro do partido e/ou da coligação no governo o que ocorre de relevante nestas eleições? A candidatura Marina Silva, uma dissidência do PT. A democracia não me parece ser um regime trivial, creio que a ela só se chega como resultado de uma experiência histórica, mas o principal responsável por não avançarmos nessa experiência não é o governo quando ameaça avançar sobre as instituições, seja no tal decreto programa que não decoro a sigla, seja ao desafiar repetidamente a lei eleitoral – se as instituições não resistem aos desafios de um grupo, no poder ou não, é porque não servem como instituições e não porque esse grupo não preste. Quem impede a democracia de avançar é a oposição, ao não avançar uma alternativa, ao não usar dos argumentos que pode lançar mão para desconstruir o adversário no governo. A incompetência ou falta de vontade do PSDB é assustadora, só vão perder estas eleições porque assim o querem. Mas vamos raciocinar por absurdo: se não existe oposição, se todos acham que o que está sendo feito está sendo bem feito, de que serve a democracia?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010 12:38:00 BRST  

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