terça-feira, 19 de outubro de 2010

Soltos pela língua (19/10)

O fato é que as igrejas (uso como sinônimo de religiões) mostraram força e obrigaram o PT a escrever uma nova “carta aos brasileiros”, desta vez não sobre economia

Dilma Rousseff e José Serra fizeram domingo à noite na RedeTV! o melhor debate desta campanha eleitoral. O formato ajudou, pois deu aos candidatos tempo para desenvolver o raciocínio, sem precisar compactar as ideias além do desejável.

Faltaram ainda alguns detalhes, como a deterioração das contas externas. O tema não é popular, e tampouco seria fácil editá-lo para ficar digerível no horário eleitoral.

Mas seria bacana poder perguntar aos candidatos se vão cortar radicalmente os juros, quanto e quando, se irão estabelecer novos e mais rigorosos controles sobre o fluxo de capitais, ou onde e quanto irão reduzir os gastos de custeio. Ou se é desnecessário fazer essas coisas todas. Ou mesmo alguma delas.

A economia e a necessidade de ajustes no Estado parecem não dar audiência nesta corrida, e o ingênuo que entrar por aí será crivado de balas retóricas. Por um adversário que provavelmente, uma vez na cadeira, implantaria as coisas chatas que ele próprio havia criticado na campanha. O clássico estelionato eleitoral. Não pegaria bem.

Como ambos, Serra e Dilma, imaginam que podem ganhar, não parecem querer ficar presos pela língua.

Mas o debate foi bom, e a campanha vem bastante democrática. O tema do aborto não voltou no domingo, nem teria por quê. Deixou de ter importância política desde que o PT e sua candidata assumiram, semana passada, o compromisso de não mexer na legislação.

Se Dilma for eleita e mudar de ideia, o tempo voltará a esquentar. Mas cada dia com sua agonia, bobagem querer controlar o futuro.

O fato é que as igrejas (uso como sinônimo de religiões) mostraram força e obrigaram o PT a escrever uma nova “carta aos brasileiros”, desta vez não sobre economia.

Assim é a vida democrática. Todos devem ter o direito de se manifestar, e o ator político calcula a cada instante a relação custo-benefício de fincar pé em propostas que criam novas e perigosas zonas de atrito.

Uma coisa é fazer média com grupos minoritários de pressão e assinar decretos para inglês ver. Outra coisa é perder uma eleição por causa disso.

A política externa também anda ausente. Mas, de novo, os candidatos e seus marqueteiros devem estar movidos pela constatação de que o tema não é popular. Paciência.

Muitas coisas ainda não foram discutidas, mas muitas vêm sendo. E as promessas sucedem-se. Aqui vou recorrer ao conceito imortalizado por Joãosinho Trinta. Quem gosta de candidato que ataca o “promessômetro” é intelectual. Pobre gosta, com razão, de saber o que o político vai fazer por ele, pobre, quando chegar lá.

Lembro que Luiz Inácio Lula da Silva ganhou em 2002 com duas propostas que acabaram não dando em nada, o Primeiro Emprego e o Fome Zero, e uma que mesmo implantada, o Farmácia Popular, não tomou relevância política. Mas era um tripé simbólico poderoso, eram promessas e compromissos que balizavam um alinhamento social diferente.

Novidades

O tempo vai dizer se Marina Silva fez bem ou mal ao ficar neutra neste segundo turno. Tem uma lógica. Lula impediu o PT de entrar em qualquer governo que não fosse o dele, Lula, e isso não chegou a ser problema no fim das contas.

Mas há outras lógicas. O PSDB apoiou Lula no segundo turno de 1989, depois quase entrou pelas mãos de Fernando Henrique Cardoso no governo Collor. Mesmo assim FHC ganhou a Presidência na eleição seguinte.

Marina foi a novidade agora, num cenário dominado pela falta delas. Como fará para continuar novidade na próxima? É um desafio e tanto.

Nada impede que no lado derrotado neste segundo turno se produza alguma coisa nova em quatro anos. E aí Marina precisaria buscar outro patamar, mais consistente, orgânica e programaticamente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (19) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous Fourrier disse...

Podia ser melhor.Agressividade combina com Dilma.Serra desvia-se e retruca ,ofendendo quando pressionado.Lembra um orador de platituides que desconhece o que devia dominar.
Marina decepciona com sua neutralidade.Uma aspirante a estadista arruina-se com uma posição pusilânime dessas.
"Muróloga" por excelência.

terça-feira, 19 de outubro de 2010 12:30:00 BRST  
Anonymous Guilherme Scalzilli disse...

Dilma e a pauta conservadora

Além do evidente apelo demagógico, a defesa da espúria criminalização do aborto faz parte de uma estratégia para neutralizar os avanços prometidos por uma eventual eleição de Dilma Rousseff. A direita reacionária quer empurrar a candidata às cordas do debate sucessório, forçando recuos programáticos e ditando agendas futuras. Os compromissos assumidos no calor do constrangimento serão depois transformados em novos “estelionatos eleitorais”.
Dezenas de outros temas participam desse jogo mistificador, e certamente ressurgirão para demonizar a petista. Mas o pior que ela pode fazer no momento é engolir essa pauta indigesta, legitimando sua simplificação rasteira e admitindo a contaminação moral de questões técnicas alheias a humores maniqueístas.
A motivação fundamental do jogo sujo praticado por José Serra é forçar Dilma a se envergonhar das próprias qualidades. Renegando-as, escorregando para a vala comum do conservadorismo obscurantista, ela perderia sua identidade e colheria a desconfiança da esquerda militante. E, pior, aceitaria participar do único embate que Serra é capaz de vencer, no terreno que ele comanda, com as regras que ele ditou.

http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/

terça-feira, 19 de outubro de 2010 12:43:00 BRST  
Blogger Briguilino disse...

A vantagem que Marina sempre terá...são as verdinhas que caiem na campanha dela com uma facilidadeeee, sabem por que? É que os verdes [internacionais] desejam é paralisar o governo, seja ele qual for afim de encher as arcas deles.

terça-feira, 19 de outubro de 2010 12:49:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Um reparo a essa nota. Não é justo dizer que o Fome Zero deu em nada. Foi e é um conjunto de ações que, isoladas, ganharam mais notoriedade. A mais famosa é o Bolsa-família, mas há outras coisas como as 340 mil cisternas de captação de água, feitas no semi-árido do Nordeste. A universalização do PRONAF. O Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar. A produção de biodiesel com selo social. A política de resíduos sólidos para catadores. São revoluções silenciosas, para gente invisível, que não são notícia, mas é o que aparece na redução de pobreza e ascenção à classe média nos censos dos anos seguintes.

O Farmácia Popular fez o que é certo fazer: muitos pontos de venda (cerca de 13 mil farmácias no Brasil inteiro), com verbas alocadas no subsídio aos remédios, e quase nenhuma verba com propaganda na TV.

O primeiro emprego em si não deu certo (era um programa ingênuo, pois empresários não estocam mão-de-obra supérflua só porque fica mais barata), mas as políticas industriais das estatais, da construção civil, infra estrutura do PAC, e a distribuição de renda fomentando o mercado interno, acabou por gerar o primeiro emprego para muita gente.

terça-feira, 19 de outubro de 2010 17:45:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, existem cartas e cartas, não é mesmo? Aquela de 2002, que deveria ser chamada “aos mercado”, era um compromisso de fato, e foi resgatada. Esta agora, na formulação da candidata, o compromisso de não enviar projeto de lei sobre os temas em discussão, afirma implicitamente – mas como necessidade lógica – que quando chegar à mesa da presidente um projeto, aprovado no Congresso, sobre tais temas, será sancionado incontinente, certo? Prefiro acreditar que a rejeição ao aborto não tinha tanta força quanto chegou a parecer, a acreditar que os evangélicos engoliram essa conversa. O fato de que José Serra não explore o tema não surpreende, depois que entendemos que ele joga contra a própria candidatura, né não?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 12:32:00 BRST  

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