terça-feira, 12 de outubro de 2010

Situação original (12/10)

No debate de domingo à noite a candidata do PT agiu como se precisasse estancar algum processo, e concentrou energias na missão. Se foi isso mesmo que lhe pediram, mostrou-se disciplinada

O pensamento convencional e o bom senso ajudam a enfrentar quase todos os problemas. Menos os mais importantes. Mas nem sempre é possível saber a priori quais as situações “mais importantes”. Que não recomendariam bom senso, mas algo diferente. Por isso o mundo dos observadores e analistas está povoado de engenheiros de obra feita.

Segundo o pensamento convencional, uma candidatura que ficou a apenas três pontos de vencer no primeiro turno e que abre o segundo com oito pontos de dianteira nos votos válidos deve, em primeiro lugar, tomar conta dessa vantagem.

Por que então a candidata do PT buscou criar um fato novo, uma nova dinâmica, um novo eixo de polarização com o candidato do PSDB? Só age assim quem não está confortável na corrida. E aqui as coisas são bem objetivas. Não se trata de desconforto com algo que eventualmente tenha sido dito e produzido mágoa.

Os números numa eleição sempre falam mais alto que as suscetibilidades.

No debate de domingo à noite a candidata do PT agiu como se precisasse estancar algum processo, e concentrou energias na missão. Se foi isso mesmo que lhe pediram, mostrou-se disciplinada. Dilma Rousseff é combativa, e foi combativa no debate. Certamente agradou aos fiéis dela. E os demais, acharam o quê?

Ontem foi um dia intenso no spinning job, a atividade frenética de assessores para convencer os jornalistas de que tudo saiu maravilhosamente bem para o candidato do spin doctor.

Há dois paradigmas já clássicos em situações como esta.

Um foi a virada de Mário Covas sobre Paulo Maluf na eleição para governador de São Paulo em 1998. O tucano passara ao segundo turno raspando, e corria atrás. No debate Covas partiu para cima de Maluf, explorando a duvidosa imagem do adversário no terreno dos valores.

Covas virou a eleição, reelegeu-se a consolidou a ponte para a atual hegemonia do PSDB em São Paulo.

O caso oposto foi a goleada que Luiz Inácio Lula da Silva aplicou em Geraldo Alckmin no segundo turno de 2006, depois de um primeiro turno apertado. Como Covas em 1998, o tucano passara ao segundo turno raspando e corria atrás. No debate Alckmin botou para quebrar sobre Lula, explorando as acusações de corrupção.

Mas Lula na sequência só ampliou a vantagem, e chegou a uma vitória confortável.

Não há portanto uma fórmula definitiva, uma receita de manual que cubra todas as situações. Mas os exemplos de 1998 e 2006 têm pelo menos um ponto em comum: quem tomou a iniciativa de atacar vinha em desvantagem. Não lhe interessava a simples administração do statu quo.

A operação política no campo do governismo neste segundo turno pode estar sendo preventiva ou curativa. Se Dilma finalmente levar a eleição, é possível que os observadores externos jamais cheguemos a um diagnóstico definitivo.

Aritmética

É bastante provável que no segundo turno o eleitor de quem passou repita o voto, com a decisão ficando para os eleitores de quem não passou.

Mas há variáveis algo sutis, que inoculam alguma instabilidade nessa aritmética. Uma é a variação nas abstenções, brancos e nulos. Institutos de pesquisa não projetam abstenção, muito menos a segmentada.

Outro elemento são as alianças políticas. A oposição tem dito que espera agora maior engajamento de líderes regionais, ausentes no primeiro turno. A observar se vai mesmo acontecer.

Dependerá da delicada relação de forças entre as esferas federal e estadual. Como tomar posição de modo a não desagradar o governador eleito nem o futuro ocupante do Palácio do Planalto.

Será um jogo e tanto de adivinhação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (12) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

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6 Comentários:

Anonymous zuleica jorgensen disse...

Alon,
Não creio que um debate com média de 3/4% de audiência tenha efetivoi poder sobre o rumo da eleição.
Há quem avalie que Dilma falou paras a militância. Se foi isso, conseguiu seu intento. A tropa está mais animada.
Esses oito ponto de diferença a favor da candidata não podem ser considerados uma frente de fato. A curva era descendente e não há razões para achar que não continua assim. O bombardeio continua, na internet e na rua, com Dilma sendo tratada de terrorista para baixo. Hoje até o Josias de Souza veiculou notícia sobre possível lesbianismo.
Baixaria pura? É verdade. Às vezes voto não é tudo, é preciso revigorar a auto-estima e mostrar coragem. Para aguentar esse tranco "na calma" é preciso ter sangue de barata.
A campanha vai mudar, certamente partir para uma posição mais afirmativa, sem colar tanto em Lula, e mostrando perspectivas de futuro. Quem sabe mostrar para o eleitor, especialmente o marinista, que é possível sim melhorar o futuro, do país e do planeta, sem precisar apelar para R$600,00 de salário mínimo, a própria "bica dagua" rediviva.
Um abraço.

terça-feira, 12 de outubro de 2010 00:24:00 BRT  
Anonymous Marc disse...

Simplificando: Dilma é como o flamengo, jogo e melhor e ganha titulos quando joga no ataque.

terça-feira, 12 de outubro de 2010 08:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Deixando de lado o futebol de várzea (chutes e caneladas) que foi o debate na Band, as análises sobre subidas e descidas dos dois candidatos e as erenices também dos dois lados, estranho que ninguém, inclusive vc, mencione ou sequer se preocupe em apontar a ausência de temas tão importantes quanto o modelo de desenvolvimento do país, a dívida interna, o lucro dos bancos, a crise cambial internacional e a massiva transferência de renda via mecanismo de compra de dólares pelo Banco Central, que já comprou mais de 10 bilhões de dólares para segurar a valorização do real. Para esta compra o BC emite títulos remunerados pela Selic (hoje mais de 10% aa) e aplica estes mesmos dólares em títulos dos países desenvolvidos a 0,5% aa. E nós, cidadãos-eleitores-contribuintes pagamos a diferença.
O debate passa a falsa impressão de que há duas propostas quando, na verdade, há uma disputa dentro da mesma proposta. É apenas questão de grau. Por acordo tácito, discute-se temas como o aborto para não discutir os temas de real interesse da população.
Acredito que aqueles que, como vc são “formadores de opinião”, poderiam contribuir um pouco mais incluindo nas suas análises o que pensam destes temas.

Carlos Freitas

terça-feira, 12 de outubro de 2010 11:56:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Suponho que o estrago provocado pelos números oficiais nos instrumentos usuais de aferição das campanhas - pesquisas -, tenha conduzido a movimentos baseados apenas no velho "faro político".
E nem poderá ser diferente. As margens reais de erro - inclusive a do Datafolha - impedem afirmar sequer a proximidade ou não dentre as intenções de votos nos dois candidatos.
De outro lado, no caso da Dilma, o nível máximo da influência do apoio do Lula, principal força da campanha, já está estabelecido. É altíssimo porém insuficiente.
Ou seja, não há como não correr o risco de atacar ao Serra e impedir que cresça, além de tentar alterar a temática negativa que envolveu a campanha.
Se vai dar certo ou não, a certeza só haverá no dia 31.

terça-feira, 12 de outubro de 2010 14:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Para uma candidatura que era já considerada vencedora com tanta antecipação e com a estrondosa votação propalada, os ataques que fez no debate seriam previstos. Afinal, foi derrotada no primeiro turno. Assim, uma explicação viável, é que tenha tentado mostrar músculos para a militância. Tentar encurralar o adversário e desconstruí-lo, logo no primeiro debate do segundo, parecia alternativa viável. Contudo, ao que parece, pode ter contentado a militância, mas não não conseguiu o intento de encurralar o adversário. Tanto que, a aparição da candidata depois do debate, foi em ato religioso. O programa eleitoral voltou às propostas de sempre. As comparações entre o governo atual, com o que foi realizado há oito anos, não surte os efeitos esperados. Afinal, se não consertasse nada, real ou imaginado, depois de oito anos no poder, teria de pegar as tamancas e cair fora. Muito ainda pode acontecer até 31 de outubro. Mas a primeira derrota está consolidada. Mesmo quando vaticinam que, no Brasil, até o passado é incerto.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 13 de outubro de 2010 12:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

E o Lula, hein, alguém tem notícias?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010 20:14:00 BRT  

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