quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Reciprocidade (20/10)

Se o presidente pede crédito, é razoável que ele conceda outro: vai dar para acreditar melhor nas restrições de Lula ao denuncismo jornalístico se ele as reafirmar quando voltar à oposição

O presidente da República voltou a tratar da imprensa. Foi a pauta de Luiz Inácio Lula da Silva num certo momento do primeiro turno, com o ápice no já histórico comício de Campinas (SP).

Depois sua excelência recuou algo, no comício de Porto Alegre (RS), talvez por vislumbrar a vitória no fim do túnel do primeiro turno. Elogiou a imprensa e prometeu que caso eleita Dilma faria um governo de unidade, com o olhar para adiante e não para trás.

Mas o PT não ganhou em 3 de outubro, e eis Lula de volta ao discurso de Campinas. E fica a dúvida. O que vai exatamente pela cabeça do presidente? Qual é o “verdadeiro” Lula? O de Campinas ou o de Porto Alegre?

Lula lamenta que a imprensa acuse sem provas. É verdade, o jornalista não pode esperar o julgamento definitivo, em última instância, pelo Judiciário. Tem que publicar antes. E isso embute risco brutal de cometer injustiça.

É do que se trata quando a liberdade de imprensa entra na agenda do debate doutrinário. Qual o equilíbrio ótimo entre o direito de falar, ou escrever, e o direito à imagem, à privacidade, à honra? O Supremo Tribunal Federal tem decidido que o primeiro prevalece sobre o segundo, e que os eventualmente atingidos busquem reparação judicial.

Já o governo ensaia de tempos em tempos estimular algum tipo de controle social sobre a atividade jornalística, fora os controles judiciais já existentes a posteriori. O governo tem o direito de propor esse debate, mas também aqui a dúvida mora nos detalhes. Especialmente num: quem exatamente vai controlar a imprensa em nome da sociedade?

Nada há de ilegítimo em Lula pedir uma imprensa cautelosa, e pelo menos num aspecto sua excelência tem razão. Os jornais dos países mais desenvolvidos não têm a nossa obsessão por escândalos.

Uns dizem que é por haver ali menos matéria-prima para escândalos. Outros, que se trata da diferença entre o bom e o mau jornalismo.

Mas a fala presidencial embute um detalhe complicado, quando visto de um ângulo histórico: Lula e o PT construíram toda uma carreira na oposição explorando eficazmente a tendência de o jornalismo operar, digamos, no limite da irresponsabilidade.

Nunca se incomodaram, desde que fosse contra os adversários.

Claro que todo mundo pode mudar de ideia. Mas fatos são fatos. Quando estava na oposição, Lula não via problema em reportagens que criavam embaraços aos inimigos, não saía a exigir provas e pedir prudência a cada acusação contra os governos Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar ou Fernando Henrique.

O presidente pode dizer — e não há como duvidar — que só no governo entendeu melhor o prejuízo causado ao país por uma imprensa irresponsável. Mas se sua excelência pede esse crédito, é razoável que conceda outro, por reciprocidade.

Vai dar para acreditar mais e melhor nas restrições de Lula ao denuncismo jornalístico se ele as reafirmar a partir do dia em que, não se sabe quando, estiver de volta à oposição.

Mais e menos

As pesquisas eleitorais continuam despertando paixões enlouquecidas. Um caso de amor doentio. Mesmo quando traem são aceitas de volta, apenas para serem acusadas de traição mais adiante.

Nossa fúria por encontrar regras que resolvam todos os problemas impele-nos instintivamente a imaginar então mais e mais mecanismos de controle de qualidade das pesquisas.

Queremos pesquisas imunes. O que é tão improvável quanto uma pesquisa sem margem de erro.

Talvez o caminho seja outro, já seguido em países mais velhos do que nós nessa coisa de democracia e eleições.

Talvez seja o caso de dar às pesquisas, apenas, mais liberdade e menos importância.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (20) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

"Vai dar para acreditar mais e melhor nas restrições de Lula ao denuncismo jornalístico se ele as reafirmar a partir do dia em que, não se sabe quando, estiver de volta à oposição."

Não precisa de tanto tempo, Alon. Mesmo na situação, Lula e o PT continua a operar do mesmo jeito: "explorando eficazmente a tendência de o jornalismo operar, digamos, no limite da irresponsabilidade".

Só que antes eram só pedras. E hoje também viraram vidraças. Segundo o governo, o denuncismo só parte de quem o critica. Já o furor denuncista contra os adversários faz parte do bom jornalismo.

Kbção

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010 10:28:00 BRST  
OpenID namemoriatantasvagas disse...

Perfeita análise. É a velha política de "dois pesos, duas medidas".

Pô, sejamos francos, mesmo aqueles que são petistas: o Lula adora se complicar em suas afirmações!

Um abraço

quarta-feira, 20 de outubro de 2010 11:28:00 BRST  
Anonymous Túlio Villaça disse...

Alon, sobe as pesquisas, o Demétrio Magnoli deixou um pouco de lado ideologias e fez uma avaliação em que afirma que o método de amostragem é que atrapalha muito, com estas margens de erro que sao chutadas até com decimais. Diz que amostras aleatórias são mais caras até para serem implantadas, mas são mais eficazes, e ninguém as faz por aqui. Bem, o geógrafo é ele.


Sobre a Imprensa, sou a favor de controle. Como, por quem, tudo a discutir. Mas já ajudava mito se a concentração absurda que há hoje fosse diluida, que fosse proibido ter TVs e jornais na mesma cidade, extensível a parentes. O mesmo valendo para cargos eletivos. Se a Imprensa é o quarto poder, dve ser proibido exercer dois poderes ao mesmo tempo, não? Mas que Congresso que vai aprovar leis como essas? Teríamos que importar um...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010 12:42:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

muito bom o texto. Concordo contigo completamente, principalmente com relação as pesquisas eleitorais.
Infelizmente somos herdeiros de um imaginário forjado pela ditadura que invalidou a relevância das pesquisas. As pesquisas denunciaram fraudes eleitorais e o enfraquecimento dos candidatos dos militares. Eles trataram de queimá-las.
Acho que a questão fundamental não é controlar, controlar e controlar, mas permitir que mais institutos surjam e possam publicar os seus números. Com poucos institutos as suas porcentagens adquirem conotação divina.

abs.

Daniel Menezes - NAtal/RN

quarta-feira, 20 de outubro de 2010 20:19:00 BRST  
Blogger Cherokee Jr disse...

Epa, políticos e homens públicos não tem direito à privacidade como o cidadão comum. Ao se candidatarem à administrar o dinheiro do cidadão se expõem voluntariamente muito mais. E jornalista só serve para mostrar a todos aquilo que alguns políticos querem esconder. O resto é coluna social.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010 21:37:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, não é “culpa” da imprensa, tampouco do presidente. Esses argumentos que se queixam de as coisas não serem como deveriam ser, ou que o político altera suas convicções e seu discurso de acordo com as conveniências do momento, não acrescentam nada, terminam onde deveriam começar. Os seres humanos são assim mesmo, que coisa não é? Por isso ficamos sem poder fazer nada? Desculpe Alon, esses são bons argumentos para quem busca afastar a explicação do próprio fracasso para longe do que poderia ser sua responsabilidade, bons para o PSDB. Em toda essa discussão há um enorme ponto cego que parece não interessar nem a quem acusa nem a quem é acusado: a inoperância das instituições públicas que deveriam investigar, apurar e atribuir responsabilidades: polícia, ministério público e judiciário. Enquanto isso não for enfrentado ficaremos rodando em falso: os “escândalos” farão cada vez menos efeito porque o eleitor sabe que ao final não saberemos o quanto do que se disse era verdade. Também a imprensa, que aproveita ao limite a situação de irresponsabilidade em que age, multiplicará os escândalos que lhe interessam, se não se sustentarem quem irá cobrar? E porque a oposição vai se preocupar com projetos alternativos ou mesmo com o resgate da dignidade do congresso (quem estaria mais interessado? Que outro fórum de atuação tem a oposição?) se pode plantar impunemente escândalos? Respondam: quem pagará pelo crime de calúnia contra Fernando Collor de Mello? Não houve calúnia? Então o que faz esse senhor livre, leve e solto? Os crimes prescreveram? Ou foram deixados prescrever? Seria necessário uma oposição que estivesse disposta a fazer o dever de casa, desde o começo, sem buscar atalhos para o poder, mas para isso seria necessário aparecer um partido conservador que tirasse o PSDB do meio do cainho.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010 12:27:00 BRST  

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