sábado, 16 de outubro de 2010

A prova do líder (17/10)

Se a sucessão nacional tivesse sido liquidada na primeira rodada, o jogo estaria jogado. Só que não foi. E a vida impôs a três personagens da política nacional uma espécie de prova do líder neste segundo turno

A coluna não será sobre o Big Brother Brasil, apesar do título. Será sobre o duelo entre alguns políticos para saber quem possui garrafas para entregar.

Esta disputa eleitoral leva jeito de corrida de automóvel. Vai terminar onde começou.

Se a oposição conseguir produzir uma soma vetorial ótima de dois estados, Minas Gerais e São Paulo, tem chance razoável de levar. Se não, o troféu penderá para o PT.

O novo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, está bem na foto. Elegeu-se em primeiro turno e ainda alavancou a eleição do senador mais votado do país, o também tucano Aloysio Nunes Ferreira.

Luiz Inácio Lula da Silva fez de tudo para levar a disputa ao segundo turno em São Paulo. Montou em torno do PT uma aliança ampla, para os padrões locais. Incentivou a candidatura do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, pelo PSB e viu com bons olhos o pleito de Celso Russomano, do PP.

Skaf e Russomano ajudariam a dispersar uma base tradicionalmente antipetista, na polarizada política paulista. Com Dilma Rousseff eleita em primeiro turno, toda a força política do governo federal seria despejada no segundo na aldeia gaulesa do PSDB.

Como se sabe, deu errado.

Em Minas Gerais, a coisa andou um pouco mais sutil. A candidatura de Hélio Costa ao governo foi praticamente imposta pelo PMDB ao PT, como condição para o acordo nacional. É razoável supor que o pacto com os peemedebistas em torno de Dilma teria saído de qualquer jeito, mas o PT/governo topou pagar essa fatura. Não quis arriscar.

Ali o plano era derrotar politicamente já no primeiro turno o ex-governador Aécio Neves, candidato imbatível ao Senado e concorrente potencial em futuras sucessões presidenciais. A frente política para executar a missão era respeitável.

Além de Lula, tradicional campeão de votos em Minas, havia o vice-presidente, José Alencar, o próprio Costa e os ex-prefeitos petistas de Belo Horizonte, Patrus Ananias e Fernando Pimentel. Além de Dilma, novata mas sempre com o poder projetado da caneta a partir de 2011.

Como se sabe, deu mais errado ainda do que em São Paulo, onde pelo menos Marta Suplicy abocanhou uma cadeira de senadora. Em Minas o PSDB arrastou todas as fichas. Ali a invencível armada de Lula foi a pique, e sem estrondo. Os adversários elegeram o governador Antonio Anastasia em primeiro turno e os dois senadores, Aécio e Itamar Franco.

Se a sucessão nacional tivesse sido liquidada na primeira rodada, o jogo estaria jogado. Só que não foi. E a vida, pelas mãos de Marina Silva, impôs a três personagens da política nacional uma espécie de prova do líder neste segundo turno.

Nas urnas eletrônicas do próximo dia 31 estarão programados os nomes de José Serra e Dilma, com os respectivos vices. Mas a disputa mais feroz será entre outros jogadores.

Lula, com sua popularidade e seu apetite de poder, enfrentará um desafiante que pretendia ver liquidado, Alckmin, e outro que nunca conseguiu cooptar, Aécio.

É mesmo hora de ver quem tem garrafas para entregar.

Pensando bem, não deixa de ser um Big Brother.

Nuvens carregadas

O Brasil parece despertar e começa a levantar de seu berço esplêndido. Até os ortodoxos do câmbio flutuante já pedem que o real deixe de flutuar para cima, pelo efeito mortal nas exportações e, portanto, nos empregos.

Desenha-se um cenário comum em eleições brasileiras, nos períodos em que as coisas parecem caminhar bem. Louva-se a intocabilidade do arcabouço econômico-financeiro exatamente quando se sabe que precisará ser tocado.

O dólar ladeira abaixo, infelizmente, não quer nem saber se “no tempo do Fernando Henrique o juro real era maior”. Ou baixa-se o juro no Brasil, para valer, ou nossas exportações, especialmente das não commodities, vão definhar. Com todas as consequências.

Alguma coisa séria vem aí. Pena que ninguém queira tocar no assunto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (17) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Blogger Um Olhar Atento disse...

Com certeza, há muita preocupação com a situação da moeda brasileira e a supervalorização do real. Os economistas mais prudentes, de dentro e fora do Brasil, já alertaram em inúmeros artigos. O receio é de que as coisas estejam arranjadas de forma artificial até o resultado das eleições. E tome incentivo ao consumo e ao endividamento da população. E o BNDES é A mãe de todas as benesses!Atitudes temerárias. O que virá depois da decisão das urnas do dia 31?
P.S: Gosto de seus artigos, pela concisão e excelente argumentação. Abs.

sábado, 16 de outubro de 2010 20:10:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Os elementos

Na política

1.O PSDB mineiro (Aécio) fechou com Serra e não há indícios para sustentar a hipótese creio que tudo apenas não passe de um novo “jogo de cena” dos mineiros. Esse é um elemento novo que surge agora no segundo turno. Portanto, não por acaso a investida petista em BH. Sintomáticas do estado de ânimo do presidente Lula foram as manifestações explícitas de contrariedade durante a manifestção. Por exemplo: “Agora, é preconceito e medo de ver uma mulher ganhar as eleições e fazer pelo Brasil mais do que eles fizeram. O que é importante é que você viu a diferença da elite do povo” (Lula).

2.Aécio colocou suas fichas em aposta de um novo sucesso eleitoral (diminuir os votos mineiros favoráveis a Dilma). Ele precisa melhorar sua posição no partido frente ao ocorrido nos outros estados em que venceram governadores aliados de Serra. Ao que parece, Aécio não trabalhava com a hipótese do segundo turno e, principalmente, com os números proclamados pela “voz rouca das urnas” no primeiro turno.

3.Os rachas na CNBB e no grupo evangélico estão a público. No caso da CNBB, e conforme reportagem do Estadão, é briga de gente graúda na hierarquia católica.

4.Para mim não está claro o movimento de dispersão nas hostes pmdebistas, sobretudo as derrotadas no primeiro turno. Sabe de algo mais concreto além do “corpo mole”?

5.O PV dá sinais que vai de Serra, apesar da independência da Marina.

domingo, 17 de outubro de 2010 12:44:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

(continuação)

Na economia

Meu conhecimento da matéria é pequeno. O que sei é que vem aí um tsunami de dólares, como indica reportagem do Estadão. Com a estabilidade econômica e os juros do BC o Brasil é escoadouro natural para essa nova enxurrada. E não adianta o Mantega empurrar a encrenca para o colo do Meireles. É preciso que ambos apresentem soluções. Mas, ao que parece, até os “ortodoxos” não estão tão convictos de que a fórmula do controle fiscal (corte de gastos correntes → sobra de reais para comprar dólares e segurar as pressões inflacionárias que, por sua vez, → menor emissão de dívida pública para compra de dólares → condição favorável para o BC baixar juros).

Pergunta, se quiser comentar:

Como você analisa a reativação do mote “privatismo entreguista” de 2006 agora em 2010? Qual o efeito disso na campanha? Qual o objetivo? O que se espera ganhar com isso?

Eu vejo como uma tática um tanto errática e com pouca possibilidade de dano no campo adversário. Principalmente porque o adversário, que mostrou ter aprendido com os erros de 2006, melhorou a defesa e engatilhou um contra-ataque. Ambos, a meu ver, eficientes.

domingo, 17 de outubro de 2010 12:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A julgar pelos debates Folha/Rede TV!,de 17 de outubro e pelo da Band, o tema privatização não pareceu convencer. Aparenta estar a candidata do governo com o cardápio errado. No debate da Folha/Rede TV!, o tema foi abordado de forma confusa. Com duvidosa eficácia, exceto, talvez, para uma militância mais fiel. O apelo à ameaça de privatização do pré-sal, soou muito pueril. Ao longo do debate o tema foi perdendo espaço e não aparentou ter, minimamente, abalado o candidato das oposições. Nem a entrevista do presidente da Petrobras, na Folha de 18/10/2010, pg. A22, abordando, pela enésima vez, os riscos de retalhamento e privatização da Petrobras por FHC, aparenta ter condições de aquecer a temática. Aliás, uma nota anterior dele foi rebatida por FHC.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 18 de outubro de 2010 15:25:00 BRST  
Blogger REZENDE disse...

Veja como são as coisas.Estamos contornando a curva de chega e quase entrando na reta final.
Hj com novas pesquisas e a adesão do mundo intelectual e nas mídias socias,Dilma aparece à frente com os pontos com que venceu a eleição passada.
Hj ela o seu time encaixou. Tudo indica que saiu na frente.

terça-feira, 19 de outubro de 2010 03:00:00 BRST  

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