quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Palavras e expressões (27/10)

O penúltimo debate entre os candidatos a presidente neste segundo turno, segunda-feira à noite na TV Record, foi útil. Nunca antes cada candidato havia exposto com tanta clareza o que pensa sobre o adversário. Em palavras e expressões corporais e faciais

Se já há derrotados nesta duríssima temporada política, são os candidatos a censor de agenda eleitoral. Contra a voltade de alguns, não tem havido agora temas interditados, exerce-se amplamente o direito de discutir tudo. É um salto adiante na nossa democracia.

A Igreja Católica Apostólica Romana ou um pedaço dela desejam recomendar o voto em quem combate mudanças na legislação sobre o aborto? Pois que recomendem.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra entende ser necessário evitar a vitória da candidatura oposta às diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (terceira versão) sobre a mediação dos conflitos rurais? Que fique à vontade para fazê-lo.

É um tema recorrente aqui, mas talvez seja o caso de repisá-lo ainda a quente. A democracia emergente nunca será “limpinha”, se for para valer. E talvez seja melhor amputar o “emergente”. Duvida? Acompanhe uma eleição qualquer nos Estados Unidos.

Ali a radicalização política é a regra, por um detalhe: todas as disputas, ou quase, são polarizadas entre dois candidatos, um democrata em um republicano. O sistema distrital puro em turno único mais a legislação que praticamente impõe o bipartidarismo produzem o desenho.

De vez em quando aparecem nanicos ou independentes que supreendem. São exceções.

Talvez devesse ser objeto de estudo acadêmico específico (se já tiver sido, peço desculpas pela ignorância), mas alguém com tempo e recursos faria um favor se analisasse “taxas de radicalização” nas eleições brasileiras, procurando alguma métrica distintiva entre primeiros e segundos turnos.

Nesse ponto, o que falta para nos equipararmos às democracias mais antigas? Talvez a sedimentação de uma cultura política em que a agressividade seja olhada como natural. Desde que, também naturalmente, as campanhas não enveredem pelos crimes contra a honra.

E, claro, desde que não se tolerem agressões físicas ou tentativas de intimidação política no braço, ou de assassinatos morais.

O penúltimo debate entre os candidatos a presidente neste segundo turno, segunda-feira à noite na TV Record, foi útil. Nunca antes cada candidato havia exposto com tanta clareza o que pensa sobre o adversário. Em palavras e expressões corporais e faciais.

Uma campanha é também o ensaio geral do possível governo. Como governos nunca são flores de estufa, as campanhas são ótimas para aferir como os eventuais governantes se comportam sob pressão.

Por isso, todo debate é um serviço prestado ao eleitor. Mesmo quando os entendidos o consideram chato, ou de baixo nível.

E o que falta então para a coisa ficar ainda melhor? Talvez os candidatos evoluírem para uma agressividade serena. Cada vez que um candidato ou candidata dá sinais de odiar o adversário, ou repelir gastricamente a possibilidade de o adversário ganhar a corrida, acaba perdendo pontos preciosos.

Seria bom se evoluíssemos para uma civilidade sem não me toques. Um sistema sem interdições, mas absolutamente intolerante às tentativas de calar quem quer que seja.

Rapidez

Por falar nisso, pipocam as iniciativas para criar instâncias oficiais de acompanhamento da atividade jornalística. Em tese há uma contradição com decisões recentes do Supremo Tribunal Federal.

Mas quem vai analisar se há ou não conflito com a Constituição Federal é o próprio STF, e até lá o resto será palpite. Como em outros assuntos de imensa relevância para o estado de direito, seria fundamental que a corte se manifestasse com agilidade, claro que com todos os cuidados para produzir uma solução consistente, mesmo por enquanto provisória.

Será péssimo se o próximo mandato presidencial amanhecer acompanhado mais esse vetor de conflagração.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (27) no Correio Braziliense.

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3 Comentários:

Blogger chico disse...

Não acho q o modelo político americano seja referência para se seguir, principalmente em termos de processo eleitoral...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 23:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Só há um nome para esses conselhos de acompanhamento, ou sei lá o que de controle social, da tal mídia: excrescências. Depois pretenderão acompanhar o quê? As editoras, os livros, as poesias, os DVDs, jogos de futebol, piadas, o almoço de domingo, as peladas de quarta? Ora. Alguém haverá de lembrar que os controles devem incorporar as eleições. Excrescências. São o que são.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 29 de outubro de 2010 11:20:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Na outra parte do post, nada deve ser interditado. Já basta e deve ser banido, o péssimo hábito de falar não falando, negando afirmando, desmentindo mentindo e colocando a culpa nos outros. Orwell ficaria abismado: sua criação da novilíngua foi aprimorada ao máximo.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 29 de outubro de 2010 11:24:00 BRST  

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