terça-feira, 26 de outubro de 2010

A novidade está do outro lado (26/10)

Não tenho como certificar as razões íntimas de sua excelência. Posso é olhar as consequências. Nunca desde as campanhas vitoriosas de FHC viu-se uma oposição tão ajeitada como esta do segundo turno

Assim como em 2002 e 2006, o PT entra em vantagem na reta final do segundo turno. Uma vantagem menor que naqueles anos, mas vantagem.

No futebol, diz o ditado que 2 a 0 é um resultado perigoso, como meu Santos pôde comprovar mais uma vez no domingo. Mas há os piadistas, segundo os quais 2 a 0 é perigoso sim, para quem está perdendo.

Também na política é melhor estar adiante do que comer poeira. E o estado de espírito dos candidatos e estafes reflete isso.

A diferença este ano, na comparação com as duas disputas anteriores, é a oposição a Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT entrar mobilizada, coesa e disciplinada na semana decisiva. Uma situação incomum para quem vem na rabeira.

Talvez seja mais uma obra de Lula. Na sua onipresença, cuidou de organizar ambas as campanhas, a dele e a dos adversários.

Sobre a influência de Lula na campanha de Dilma Rousseff, desnecessário repisar. A novidade está mesmo é do outro lado.

Em 2002 e 2006 o recado de Lula ao campo oposto foi claro. Não se unam contra mim, pois dizimar todos vocês não faz parte do meu projeto e sempre haverá espaço para uma convivência pacífica de contrários.

Continuo intrigado por que raios Lula vai alinhavando esta campanha de Dilma com um compasso antagônico àquele discurso. O mesmo Lula que lá atrás sugeriu à oposição não conduzir a eleição com raiva, pois, dizia Lula, quando ele próprio fez isso perdeu.

Não tenho como certificar as razões íntimas de sua excelência. Posso é olhar as consequências. Nunca desde as campanhas vitoriosas de FHC viu-se uma oposição tão ajeitada como esta do segundo turno.

Talvez por algo já registrado aqui. Quando procurou jogar decisivamente o peso da máquina federal nas eleições estaduais, Lula emitiu o sinal de que algo tinha mudado na política brasileira habitual em tempos democráticos.

Mas o pior mesmo, para ele, foi não ter conseguido. O esforço do presidente para reduzir o peso do PSDB e do Democratas no Senado foi recompensado, mas as incursões nas eleições de governadores resultaram em fiasco.

Mesmo se não vencerem domingo, tucanos e democratas têm bunkers para atravessar confortavelmente o quadriênio e boas plataformas de lançamento de alternativas em 2014.

O resultado é agora Dilma enfrentar uma oposição que está no lucro, leve, depois de dada como morta de véspera pelas supostamente inevitáveis ondas vermelha e lulista, que não aconteceram.

No vermelho

O desenho político original das estratégias no dilmismo era vencer no primeiro turno, com uma linha quase magnânima, capitalizando tanto a nova presidenta quando o patrono da candidatura.

Lula ficaria por essa lógica abastecido para desempenhar um papel político na nova era. Seria em certa medida o avalista externo da administração.

Mas este segundo turno, da maneira como vem sendo conduzido, contribui para corroer esse capital político do futuro ex-presidente. Lula, Dilma e o PT amalgamaram-se num grau que os levou a ser a mesma coisa.

Neste segundo turno, Lula entrou no vermelho e está no limite do seu cheque especial.

Silêncio

Os candidatos têm mais um debate pela frente, e esta coluna foi fechada antes do de ontem à noite na TV Record.

Se não tiverem discutido o câmbio e os juros, restará apenas o encontro da TV Globo na quinta-feira.

Esta eleição tem um aspecto similar à de 1998. Um nó cambial grave mas que não é debatido no processo eleitoral.

O assunto é árido, não é fácil traduzi-lo no popular, mas seria útil que cada um dos corredores desse sinais do que pretende fazer.

Afinal, o tema tem tudo a ver com o crescimento sustentado da economia e com a geração de empregos, essa sim uma pauta bem popular.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (26) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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20 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
No Blog de Na Prática a Teoria é Outra junto ao post "Amiano e minha Serro-futurologia, ou: como o PSDB passou de Malan a Malafaia" de 14/10/2010 no endereço
http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=7397
Um jovem economista - 25 anos - de nome Bruno, e fazendo doutorado na Alemanha, comparou a situação atual do câmbio com a que o Brasil viveu em 1998. Nas palavras dele:
"Eu acredito que o Real se encontra neste momento sobrevalorizado (quando digo sobre, tenho que dizer em relação a que; e é o seguinte: a médio prazo, o câmbio não se sustenta, porque minará a capacidade de sustentar o fluxo de pagamentos atual); acho que, guardadas as devidíssimas proporções (já que o Brasil não vai quebrar por isso, como quebrou em 1999), o Lula tá fazendo algo parecido com o que o FHC fez para se reeleger".
Bem, não sou economista, mas lembrei ao Bruno que essa frase dele tem em meu entendimento um senão. Dizer como Bruno disse e como você disse que a situação de agora assemelha-se com a situação de 1988 não é errado, mas faz vistas grossas para o fato de que, com as minhas palavras no comentário que eu enviei para o Bruno,
"FHC fez isso três vezes: 1) para se eleger em 1994, 2) para aprovar a emenda da reeleição (Se se desvalorizasse o real ele não teria cacife para aprovar a emenda, por mais que os amigos dele comprassem os deputados) e 3) Para se reeleger"
Reproduzi toda a discussão porque ela reforça a sua opinião sobre o câmbio, mas é preciso que sua opinião traga a idéia da semelhança em toda a sua inteireza e não ficar restrita ao ano de 1998. É bem verdade que na eleição de 1994 FHC contou com a anestesia eleitoral da queda abrupta da inflação (Inflação que se esquece que FHC e Itamar Franco ajudaram bastante a aumentar), que Lula não pode mais utilizar.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/10/2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010 23:12:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Concernente com a ideia de que valor do dólar é preço, quais as variáveis formadoras desse preço que o governo pode afetar no sentido de alterar a relação R$/USS?

De acordo com os economistas e o Conselheiro Acácio, somente é possível influir nas variáveis internas, posto que sobre as externas nada pode ser feito.

O que temos até agora da parte do governo? As medidas inócuas da compra de dólares, de elevação do IOF e uma velada crença (ou aposta irresponsável) de que mais cedo ou mais tarde o Sr Mercado cuidará de "equilibrar" a relação R$/USS em nível ótimo. E assim, como um Titanic, la nave va.

No entanto, os assim denominados economistas ortodoxos não cansam de alertar para o imperioso ajuste fiscal, o que o governo por várias razões nem pensa em fazer, como disse com todas as letras a candidata Dilma em declaração recente:

“O papo de ajuste fiscal é a coisa mais atrasada que tem. Não se faz ajuste fiscal porque se acha bonito. Faz (sic) porque precisa. E eu quero saber: com a inflação sob controle, com a dívida caindo e com a economia crescendo, vou fazer ajuste fiscal para contentar a quem? Quem ganha com isso. O povo não ganha.” (O Globo, 11/9)

Contra esse pensamento governamental irresponsável, estão vários economistas que o mundo-das-classificações-simplificadoras-emburrecedoras situa no campo da "ortodoxia econômica”. Algumas ideias da “ortodoxia” a respeito do ajuste fiscal, a que possa interessar.

"Dólar caro não se compra"

O IOF é ineficaz para lidar com a apreciação da moeda; é preciso um ajuste fiscal para reduzir os juros (Alexandre Schwartsman, FSP, 27/10/2010). Disponível no blog A Mão Visível. Schwartsman vem mostrando em seus artigos que o aumento do IOF e a compra de dólares com emissão de dívida pública são medidas equivocadas para os fins almejados.

http://maovisivel.blogspot.com/2010/10/dolar-caro-nao-se-compra.html

Rogério L. Furquim Werneck

"O ajuste fiscal segundo Dilma Rousseff", O Estado de S.Paulo e O Globo, 17 de setembro de 2010.

Uma candidatura movida a gasto público", O Estado de S.Paulo e O Globo, 1o de outubro de 2010.

Disponíveis em sua página pessoal no site da PUC-RJ

http://www.econ.puc-rio.br/rwerneck/artigos.html

Mansueto Almeida

Debate Fiscal: Bombas Fiscais e Aumento do Investimento Público

“não há como aumentar o investimento público apenas via redução do custeio nos próximos anos. Assim, se continuarmos com a política de reajustes reais do salário mínimo teremos que aumentar a carga tributária, reduzir o superávit primário e/ou aumentar o endividamento.”

http://mansueto.wordpress.com/2010/10/02/debate-fiscal-bombas-fiscais-e-aumento-do-investimento-publico/

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 10:31:00 BRST  
Anonymous Túlio Villaça disse...

Alon, não tenho certeza de onde e quando começou esta radicalização raivosa que vemos agora. Mas nao sei bem se é o Lula o responsável. A Imprensa se jogou na campanha com muita força. Não sei avaliar se iso se deu antes ou depois do uso da máquina pública pelo governo, ou ao mesmo tempo - alguns dizem que "quem começou foi o Lula",como se fosse uma briga de crianças. De onde estou, tive a impressão contrária.
De qualquer forma, a reestruturação da direita, a meu ver, está mais ligada a um momento histórico (veja os EUA) que à ação individual de quem quer qu seja. E só havia o Serra para ela se agrupar em volta. O triste para mim é ele ter aceitado este papel.
Quanto ao crédito do Lula, a popularidade dele voltou a bater recorde. Pode ser que ele seja responsabilizado por problemas de um governo Dilma - e haverá, claro, como em qualquer outro. Não parece que ele esteja preocupado co isso. Se estivesse, talvez preferisse o Serra...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 13:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Eu não tenho dúvida que Lula usou os poderes do Estado para catapultar a candidatura de Dilma Rousseff. Fez isso de forma igual a Itamar Franco para eleger FHC em 1994. A moral correta é a do vencedor. FHC venceu em 1994, mas eu nunca aceitei que se fizesse um plano para acabar com a inflação em época de eleição e pior, para acabar com a inflação de uma vez, para eleger um presidente e um presidente que não fora presidente de um grêmio recreativo na juventude quando se formam as habilidades gerenciais que podem ser úteis a aqueles que ocupam cargos públicos (ou na iniciativa privada). De todo modo, a vitória na eleição do Real possibilitou que não se questionasse o plano econômico sob esse aspecto. O que se questionou na época foi FHC ter feito acordo com o PFL.
Agora tudo vai depender da vitória a Dilma Rousseff. Se ela ganhar não se analisará que o Brasil tinha condições de sair da crise de 2008 de forma diferente do que se saiu.
Em 27/01/2009, você publicou o post "No governo, o aperto; no Banco Central, a gastança". O endereço é
http://www.blogdoalon.com.br/2009/01/no-governo-aperto-no-banco-central.html
Você reclamava que o governo vinha com uma política de corte de gastos enquanto o Banco Central com os juros elevados aumentava os gastos com a rolagem da dívida. Em comentário que enviei quarta-feira, 28/01/2009 às 14h09min00s eu considerava que o governo agia corretamente. Com o câmbio a 2,3 minha perspectiva era que em um ano o Brasil voltaria a crescer puxado pelo mercado externo, o melhor modelo de crescimento para países ainda não totalmente desenvolvidos, pois evita que o país se sujeite a crises de estrangulamentos no Balanço de Pagamentos.
Ambos erramos. Quando mais à frente (a partir da informação do PIB do quarto trimestre de 2008) o governo percebeu que a crise era mais séria do que parecia, que a recuperação puxada pelo mercado externo seria mais lenta, pois o comércio mundial se deprimira, ele tratou de mudar o modelo e adotou um que seria eleitoralmente mais viável e em que a participação estatal é muito maior, mas que traz como conseqüência a sobrevalorização cambial.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/10/2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 14:01:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Eu não tenho dúvida que Lula usou os poderes do Estado para catapultar a candidatura de Dilma Rousseff. Fez isso de forma igual a Itamar Franco para eleger FHC em 1994. A moral correta é a do vencedor. FHC venceu em 1994, mas eu nunca aceitei que se fizesse um plano para acabar com a inflação em época de eleição e pior, para acabar com a inflação de uma vez, para eleger um presidente e um presidente que não fora presidente de um grêmio recreativo na juventude quando se formam as habilidades gerenciais que podem ser úteis a aqueles que ocupam cargos públicos (ou na iniciativa privada). De todo modo, a vitória na eleição do Real possibilitou que não se questionasse o plano econômico sob esse aspecto. O que se questionou na época foi FHC ter feito acordo com o PFL.
Agora tudo vai depender da vitória a Dilma Rousseff. Se ela ganhar não se analisará que o Brasil tinha condições de sair da crise de 2008 de forma diferente do que se saiu.
Em 27/01/2009, você publicou o post "No governo, o aperto; no Banco Central, a gastança". O endereço é
http://www.blogdoalon.com.br/2009/01/no-governo-aperto-no-banco-central.html
Você reclamava que o governo vinha com uma política de corte de gastos enquanto o Banco Central com os juros elevados aumentava os gastos com a rolagem da dívida. Em comentário que enviei quarta-feira, 28/01/2009 às 14h09min00s eu considerava que o governo agia corretamente. Com o câmbio a 2,3 minha perspectiva era que em um ano o Brasil voltaria a crescer puxado pelo mercado externo, o melhor modelo de crescimento para países ainda não totalmente desenvolvidos, pois evita que o país se sujeite a crises de estrangulamentos no Balanço de Pagamentos.
Ambos erramos. Quando mais à frente (a partir da informação do PIB do quarto trimestre de 2008) o governo percebeu que a crise era mais séria do que parecia, que a recuperação puxada pelo mercado externo seria mais lenta, pois o comércio mundial se deprimira, ele tratou de mudar o modelo e adotou um que seria eleitoralmente mais viável e em que a participação estatal é muito maior, mas que traz como conseqüência a sobrevalorização cambial.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/10/2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 14:02:00 BRST  
Blogger rcordani disse...

Excelente, Alon, mas cuidado: a patrulha vai te chamar de arenista e udenista para baixo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 15:03:00 BRST  
Anonymous Josiane Lourenço disse...

Excelente texto Alon...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 15:57:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Análises e comparações honestas e imparciais, é o que se quer num blog de análises. Mas..., quase final de eleição, Dilma Rousseff bem posicionada e com boas chances, vc vem dizer que "Lula entrou no vermelho"(!?, com 83% de aprovação?, não merece comentário) pq não venceu no 1o.turno ( não seria até melhor sair do 2o.turno com a situação unida e fortalecida em caso de vitória?) e a oposição ( esta que está aí?)tem ótimas "chances de melhora" ( essa oposição aí, que o Serra comanda, tem certeza do que diz?) durante um suposto governo Dilma. Em que planeta vc está, caro blogueiro? Se Dilma vencer, serão três mandatos com a oposição fora do poder, e sem que a mesma dê mostras de entender como o Brasil atual funciona, confiando em ataques diários reproduzidos por uma mídia favorável ( pois ainda não tem projeto algum) e vc diz que a oposição ( essa daí, mesmo?, vinda de São Paulo, o "centro do mundo"?) pode "crescer". Parece que o blogueiro ainda está em 2002, junto com a oposição. Em tempos de internet, sugiro humildemente que o blogueiro venha para o presente, já que, se Dilma vencer, em 2014 ( se o mundo não acabar) serão doze anos passados desde 2002 e, francamente, se a oposição ainda for essa de agora... É melhor o blogueiro e a oposição se atualizarem... [ A propósito, se no futuro a oposição tiver Aécio Neves - noutro partido, logicamente -, é bom lembrar que o governo terá ( supostamente) Dilma, e tb Eduardo Campos, Sérgio Cabral e o, na época, ex-presidente Lula. Exercícios de futurologia não são mesmo muito bons para o momento...]

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 16:56:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Reforço minha crítica a sua frase:
"Esta eleição tem um aspecto similar à de 1998. Um nó cambial grave mas que não é debatido no processo eleitoral".
Como eu disse em meu primeiro comentário, enviado terça-feira, 26/10/2010 às 23h12min00s BRST, não é errado fazer referência à semelhança do câmbio e ao fato de o nó cambial não ter sido discutido em 1998 e não o ser atualmente. Ao transcrever a frase do Bruno, doutorando em economia, que com a crítica dele dá mais autoridade à sua crítica eu deveria ter destacado a parte da frase em que ele diz, e que aqui faço o destaque em negrito:
"acho que, "guardadas as devidíssimas proporções" . . . . , o Lula tá fazendo algo parecido com o que o FHC fez para se reeleger".
A razão principal da diferença é que em 1998 praticamente não houve crescimento econômico e houve déficit na Balança Comercial de cerca de U$ 6,6 bilhões para exportações de U$ 51,1 bilhões. Este ano para um crescimento que pode até superar 8%, o saldo na Balança Comercial passará de U$13 bilhões para exportações de talvez mais de U$ 190 bilhões de dólares. E não tão importante, mas que não se pode desconsiderar, há a diferença no campo das reservas cambiais no tamanho e na natureza delas.
É claro que como a inflação fora praticamente zero em 1998 (tomando como parâmetro o IGP-DI) e um pouco mais nos índices de preços do IBGE guardando semelhança com este ano (Para as contas públicas a inflação mais alta no ano de 2010 conta favoravelmente), a comparação de 2010 com a eleição de 1998 parece ainda pertinente. De todo modo, um dos trunfos de FHC em 1998 foi não ter feito a desvalorização necessária já em 1995 uma vez que em 1994 para se eleger com base em um plano exitoso contra a inflação FHC teve que valorizar a moeda.
A desvalorização necessária teve que ser adiada. Primeiro para passar o período de validade da indexação que só terminaria em 1996 e em seguida para permitir força política a FHC para conseguir aprovar a reeleição. E depois de aprovada a reeleição não se podia fazer a desvalorização até que FHC fosse reeleito.
Fazer a comparação com 1994 é mais justo, pois se hoje pode-se dizer que o governo age irresponsavelmente para ganhar a eleição em 1994, o mesmo podia ser dito. E não se pode esquecer que desde 1997 Gustavo Franco praticava uma desvalorização do real de cerca de 9% ao ano. Como a inflação em 1998 foi praticamente nula, em 1998 houve desvalorização do real. Já em 1994, além de se escafeder com a inflação residual de cerca de 20%, houve uma desvalorização do dólar de cerca de 20% e uma inflação após o real de quase 20%. Enfim, como disse o Bruno, a situação de 1998 é similar a de 2010, mas, "guardadas as devidíssimas proporções".
PS. Não pareceu haver falha minha por conta do comentário repetido. Cliquei em "PUBLICAR COMENTÁRIO" e o comentário não deu sinal de ter sido enviado. Cliquei novamente e apareceu uma pergunta que dizia mais ou menos o seguinte: "se eu queria continuar para o que eu deveria clicar em "OK" ou clicar em "cancelar" se eu pretendesse ir para outra página". Cliquei em "cancelar" e a caixa de comentários apareceu com mensagem de erro. Fechei-a e voltei a abrir e nela vinha a informação que o meu comentário fora enviado. Só não sabia que fora duplamente enviado.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/10/2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 21:38:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo (quarta-feira, 27/10/2010 às 10h31min00s BRST)
Sempre que possível leio a "mão visível". Não sou economista e vou lá para aprender. Concordo muito com os economistas ortodoxos, mas penso que as vezes eles exageram. Há cerca de dois a três meses no "mão visível" saiu uma crítica à política argentina de tributar as exportações. À falta de argumentos utilizou-se de um autor americano. Na barafunda da argumentação contra a política argentina de tributar as exportações diz-se que os preços do trigo estavam mais elevados para os americanos em razão do erro argentino.
Li na época os dois artigos do Rogério L. Furquim Werneck que você mencionou. Lá a crítica era mais forte. Havia um viés anti-governo Lula. Menos mal, prefiro quem se põe de lado aos que se penduram no muro.
O problema com os nossos economistas ortodoxos ou com os não ortodoxos é que eles trabalham muito com um modelo estático. Dizem, por exemplo, que um país não tem poupança própria e independentemente de qualquer taxa de câmbio a cantilena é a mesma. Não percebem que quando a moeda nacional é desvalorizado aparece uma poupança interna, e quando a moeda nacional é valorizada se fica à cata da poupança externa.
Quando a candidata Dilma Rousseff fez a declaração que você transcreveu ainda se discutia minimamente a economia brasileira. Você considerou a declaração de Dilma Rousseff irresponsável e a julgar pelo que dizem os economistas que você mencionou você tem boas razões para a acusação. E você tem carradas de razão quando se recorda que aqui no Brasil tem-se o câmbio flutuante, essa herança maldita para um país em vias de desenvolvimento. Câmbio, entretanto, que não há como um governo com base parlamentar pequena possa alterar, diferentemente por exemplo do que fez Néstor Kirchner no passado e faz Cristina Kirchner hoje ancorados ambos no forte Partido Justicialista e enfrentando uma oposição desunida.
Bem, mas há que se ponderar também a frase de Dilma Rousseff. Primeiro ela lembra que não temos inflação elevada em que se precisa de um ajuste fiscal para concomitantemente com o aumento de juro tentar diminuí-la. E isso é fato. Segundo ela menciona o crescimento do PIB que produzirá também crescimento da receita. O que é fato. Terceiro, ela não menciona, mas não se pode deixar de considerar que não há inflação elevada, mas há inflação. Diferentemente do que ocorreu por exemplo em 1998. Se o governo agir com cautela não replicando a inflação nos gastos, estes podem não crescer na mesma proporção do aumento de receita que a inflação causa.
E finalmente há o IOF que os economistas ortodoxos dizem que não terá efeito no câmbio. Não sou economista, e talvez dai o fato de eu não ter essa certeza. Há, entretanto, um aspecto relevante sobre o IOF que os economistas ortodoxos não fazem referência. Com o aumento da alíquota haverá aumento da receita e, portanto, um pouco de ajuste fiscal virá disso. A respeito do aumento da receita veja esse site
http://blog.tributario.pro.br/2010/07/20/receita-do-iof-dispara-e-alivia-perda-da-cpmf-que-era-r-40-bi-ao-ano/
repercutindo a reportagem de Luciana Otoni no Valor Econômico de 16/07/2010 intitulada “Receita do IOF dispara e alivia perda da CPMF”. Há também o clipping no site do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão repercutindo a mesma noticia.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/10/2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 22:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Havia feito comentários no seu blog em algum post no passado mencionando o uso do câmbio com objetivo eleitoral (Para trazer proveito para o candidato do governo) e que mais do que eleitoral fora eleitoreiro (Pois no longo prazo é danoso para o país). Não o consegui encontrar, mas há outras referências não tão diretas como eu me lembrava ter dito, e que servem como indicação de que a situação problemática no câmbio já era perceptível há mais tempo. Serve como exemplo o post "A Alca cambial de Lula" de 09/04/2010 aqui no seu blog no endereço
http://www.blogdoalon.com.br/2010/04/alca-cambial-de-lula-0904.html
com menções minhas a esse uso eleitoreiro.
Agora, criticar a campanha por não trazer essa discussão para a primeira página, parece-me utópico. O assunto é árido, e o domínio sobre a matéria, mesmo quando exposto por economista, não tem revelado nenhuma sumidade que possa dar uma resposta definitiva.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/10/2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010 23:28:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo (quarta-feira, 27/10/2010 às 10h31min00s BRST),
Vi junto ao post "Caindo na real" de 16/09/2010 em comentário que você enviara sábado, 18/09/2010 às 13h31min00s BRT, uma indicação sua do artigo de Rogério L Furquim Werneck "Ajuste fiscal segundo Dilma Rousseff". publicado em O Estado de S. Paulo e em O Globo de sexta-feira, 17/09/2010.
Eu disse que o lera à época. Pode ser, mas o mais provável é que eu o tenha lido depois que você o indicou.
O endereço do post "Caindo na real" é:
http://www.blogdoalon.com.br/2010/09/caindo-na-real-1609.html
Faço essas referências não só para reforçar o agradecimento pelo fazer o link do artigo como também porque o assunto é pertinente a questão cambial que teima em não ser discutida na campanha.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/10/2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 00:01:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Clever

Não sei como Mansueto Almeida se posiciona. Se ortodoxo, heterodoxo, umbandista, kardecista ou seja lá o que mais inventarem.

Estão no governo brincando com o fogo das vaidades de uns e interesses poderosos de outros. Mas esteja certo que em algum momento a conta virá e, como sempre, nós a pagaremos de um jeito ou de outro. Quando a conta chegar, os que agora brincam com o nosso dinheiro estarão muito bem acomodados e, com certeza, o impacto lhes será diminuto, se não for nenhum.

O economista do IPEA, anunciou ontem um artigo que seria publicado hoje no jornal Valor:

O governo fez uma operação legal, mas imoral, e com isso enganou a sociedade de duas formas:

(1) utilizou a permissão para capitalizar a Petrobrás para gerar uma receita extra de R$ 31,9 bilhões, ao colocar o BNDES e o Fundo Soberano para “comprar parte da cessão onerosa” na prática; e (2) utilizou esse dinheiro, R$ 31,9 bilhões , que equivale a recursos que o governo teria direito da exploração do pré-sal para financiar gastos correntes.

Qual o resultado dessa história? O resultado é que terminou de fez no Brasil qualquer responsabilidade e transparência em relação ao calculo do superávit primário. Como mostro no meu artigo desta quinta-feira no jornal Valor Econômico, qualquer que seja a meta do primário ela pode ser “fabricada”. Segundo, o governo passou por cima da discussão de o que fazer com o uso dos recursos do pré-sal. Simplesmente começou utilizar os recursos e não foi nem para educação nem para saúde.

Não há meias palavras para isso. [...]

A propósito, a piada de hoje nos departamentos de economia é que o Brasil é o unico país do mundo que aumenta a dívida e, ainda assim, aumenta o superávit.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 08:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

No plano da economia, só há uma certeza: ajustes serão necessários. Não é possível, ainda, saber-se com que profundidade. Isso dependerá do presidente eleito, do que efetivamente encontrar e como e com quais armas tentará atuar. No momento, nenhum dos pretendentes anima-se a falar mais profundamente sobre a economia. Notadamente sobre a estruturação da dívida pública e sua rolagem. Menos ainda sobre o câmbio, juros e a defesa comercial. Serra já abordou em debates e entrevistas os temas citados, denotando preocupação. Dilma nem sequer tocou neles. Ou por não saber o que fazer ou para ela e o governo, aparentemente, está indo tudo muito bem. O governo vende as maravilhas do modelo, que pode estar fazendo água. E criticá-lo não é "golpismo da oposição", como faz entender o próprio governo e seus apoiadores na rede. Na imprensa, mesmo as afirmações mais firmes dadas por Serra sobre o tema, foram e são solenemente ignorados. Na entrevista dele à Rede RBS, em meados de outubro, ele abordou bastante o tema.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 09:24:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

PS: Não fui suficientemente claro quando escrevi em meu primeiro comentário “As medidas inócuas da compra de dólares”.

Não são inócuas. São, além de inúteis para o fim almejado de apreciar o câmbio relativamente ao dólar, maléficas.

O governo emite dívida pública ao custo da taxa selic (10,75%) para comprar dólares que são convertidos em títulos do Tesouro Americano, que pagam taxas de juros que tendem a se tornar negativas. Resumindo, estão usando a nossa grana para que garantir gordos retornos aos investidores internacionais que vem ao Brasil atrás das polpudas taxas praticadas no mercado de renda fixa, quando comparadas às dos EUA.

Sim. Fosse eu um investidor internacional com apetite de risco seria um trouxa se não fizesse o mesmo. Mas não é o meu caso e também o da maioria dos brasileiros.

Como dizem os americanos, nasce um otário a cada segundo.

No Estadão:

1. Reservas externas custam R$ 45 bi por ano ao Brasil.

A manutenção das reservas internacionais superiores a US$ 280 bilhões custa ao contribuinte brasileiro cerca de R$ 45 bilhões ao ano, o equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo estimativas de economistas como o ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore e o ex-diretor da instituição Alexandre Schwartsman. (16/10/2010)

2. O “tsunami” de dólares

"O Brasil é receptor de um tsunami de capitais. Nos últimos meses, foram US$ 90 bilhões", diz o ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore. "Isso produz enorme valorização do real."

Quanto ao “milagre da multiplicação dos pães” anunciado para o futuro (aumento da arrecadação futura cobrirá os gastos irresponsáveis no presente), aí é mesmo uma questão de fé ou de astrologia. Zora Yonara não faria melhor.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 09:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Há economistas e pensadores que advogam, como antídoto à sobrevalorização cambial, a abertura da economia às importações:

http://bdadolfo.blogspot.com/

"Quando o real fica caro, as importações ficam baratas, com as importações baratas as pessoas importam muito, com o aumento das importações ocorre um aumento na demanda por dólares, o aumento da demanda por dólares faz com que o preço do dólar suba, desvalorizando assim o real.
Resumindo: basta abrir a economia e o real irá se desvalorizar, simples assim".

Swamoro Songhay

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 09:37:00 BRST  
OpenID namemoriatantasvagas disse...

Alon,
ótima análise. Discordo apenas das futuras bases de tucanos e demos. Acredito que o fortalecimento de tucanos se deve em muito a não ida de Marina para o 2º.

Enquanto isso, como você disse, está em andamento um processo de exaustão do capital eleitoral petista, que dependerá enormemente do sucesso de seu eventual governo.
Abraço

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 12:05:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

O artigo de Mansueto Almeida

Superávit primário: descanse em paz. Valor Econômico - 28/10/2010

Esta última frase é uma conclusão fundamentada no que ele expôs de modo cristalino no artigo

“O superávit primário morreu e talvez fosse melhor passarmos a ter metas para a poupança pública, que é um conceito que exclui os gastos de investimento. Mas se você ainda acredita na relevância do conceito de superávit primário depois deste artigo, por favor, poderia me enviar o endereço do Papai Noel?”

http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2010/10/28/superavit-primario-descanse-em-paz-mansueto-almeida

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 12:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (quinta-feira, 28 de outubro de 2010 09h37min00s BRST),
O cerne do problema é o câmbio flutuante. O câmbio flutuante é o futuro (Daqui uns trinta anos), mas para um país em desenvolvimento ele é um tiro no pé. Em uma situação de sobra de dólares no exterior, os países de periferia valorizam a moeda e passam a gastar (importando e viajando) os dólares que chegam em quantidade muito acima das necessidades desses países (E são convencidos por economistas de alto coturno que se trata de poupança externa necessária em país que não sabe poupar). O consumo aumenta e as exportações diminuem não só para atender a demanda interna crescente como porque diminui a demanda externa pela falta de competitividade dos preços dos produtos nacionais exportados. A moeda continua a valorizar porque tem que aumentar o juro para combater a inflação em razão da pressão consumista e isso atrai mais dólares para o país. Foi isso que aconteceu com o Real em 1994 e é isso que ocorre agora. Lá em 1994, o problema era maior. No final de 1994 o país já havia acabado com o saldo mensal na Balança Comercial de U$1 bilhão de dólares mensais que acompanhou nossa economia desde a maxidesvalorização de março de 1983, salvo no desastre do Plano Cruzado em 1986 e no desastre do Plano Collor em 1990 (que foi revertido com a subida de Marcílio Marques Moreira que consertou a maioria dos erros da garotada de Collor).
A moeda só volta a desvalorizar quando se verifica que a situação do país já passou da taprobana e os especuladores saem em arribação.
Como o governo não tem cacife para acabar com o câmbio flutuante (O PT está longe do Partido Justicialista na Argentina) o certo é adotar esses mecanismos que resolvem pela metade como a taxação do IOF (A CPMF também poderia surtir efeito, pois inibe um pouco a vinda do recurso de curtíssimo prazo, mas tem o inconveniente de talvez elevar a taxa selic e na rolagem da dívida o governo perder antes tudo que vier a arrecadar com ela).
A idéia de utilizar o excesso de dólares na importação pode ser compreendida como inepta se se considerarmos que se só existisse Brasil e Estados Unidos e todo o dólar que os Estados Unidos emitissem eles emprestassem para o Brasil que com esses dólares compraria produtos nos Estados Unidos. Em pouco tempo saberíamos que o precipício é logo ali em frente.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/10/2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010 23:38:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira, BH, 28/10/2010. O câmbio, em realidade, não deve ser assim tão flutuante. Sinal disso pode ser o acúmulo de reservas. Caso flutuasse de verdade e livremente, ele tenderia a anular os fluxos cambiais. Assim, em tese, não gerariam excedentes a serem esterilizados pelo BC/Tesouro. Ou seja, compra de US$ que entram, emissão de R$, retirada de R$ ofertando Títulos da Dívida Pública/Tesouro Nacional. Os US$ das reservas, aplicados, na maior parte em títulos da Dívida Pública/Tesouro dos EUA. De todo modo, é bom que não saibamos como tudo isso é realizado em profundidade. Caso contrário, não haveria política monetária ou cambial que não fosse antecipada por interessados. Por isso existem os consultores e analistas. De todo modo, o IOF parece ter efeito inócuo. Recriar um velho fantasma em cascata, a CPMF, também o seria, a meu ver. Não que entenda que você advogue o retorno daquele imposto ruim. Mas, o que sobra dessa elocubração toda, é que o PT não pode fazer absolutamente nada. Exceto sustentar que tudo está ótimo. Na dúvida, a Petrobras sempre pode anunciar mais uma superdescoberta de petróleo.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 29 de outubro de 2010 11:47:00 BRST  

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