domingo, 10 de outubro de 2010

Não é trivial (10/10)

Construir o monopólio do poder a partir de uma situação em que as massas estejam satisfeitas com a vida material, reduzindo a política a atividade apenas de alguns políticos: eis o sonho de todo candidato a líder inconteste. Ou déspota, conforme o ângulo de visão

O militante oposicionista chinês Liu Xiaobo foi premiado com o Nobel da Paz. O noticiário carimba-o como “dissidente”. A escolha das palavras é uma atividade fascinante. Por que “dissidente”, e não “oposicionista”?

Talvez considerem que em determinadas situações dissentir seja a versão mais radical da atitude corriqueira de oposição. Ou é o verbo adequado a situações em que se opor vira tarefa perigosa para além da rotina. Vai saber.

De todo modo, a premiação de Xiaobo abre um debate sobre as características do socialismo chinês, sobre os limites da fórmula prosperidade+controle.

A China vem exibindo ao mundo nas últimas três décadas belíssimas curvas de crescimento econômico e inclusão social. Pelas leis da inércia, bastará àquela grande nação esperar com calma o dia de liderar o planeta, econômica e militarmente. Seria questão apenas de calendário.

É espantoso que um país de tais dimensões geopolíticas e com esse brilhante futuro projetado não consiga conviver com uma oposição política pacífica, só por ela transbordar os limites do Partido Comunista.

A China tem lá seus motivos para enxergar-se pressionada do exterior. Especialmente quando entra em pauta a integridade territorial do país. Há a divergência sobre Taiwan e as pressões independentistas, no Tibet e em áreas de forte presença muçulmana. Todos problemas reais.

Mas a encrenca maior é outra.

Para inocular prosperidade social numa sociedade atrasada, a elite dirigente do país vem há mais de trinta anos abrindo a economia a investimentos de fora e também incentivando internamente a atividade econômica privada.

Por não haver almoço grátis, essa nova sociedade civil, urbana e próspera, entra em contradição com o monopólio do poder pelo Partido Comunista, ainda que o PCC tenha absorvido, no período recente, mecanismos internos de alternância não traumáticos.

O mesmo temor bloqueia maiores atrevimentos democráticos na cúpula cubana. Também vem daí o impasse aparentemente eterno na Coreia do Norte.

Ao menos nos países em que até agora se tentou implantá-lo, o socialismo parece precisar bastante de capitalismo para sobreviver, ou para fazer sobreviver politicamente o grupo dirigente.

Mas a prosperidade trazida pelo uso intensivo do capitalismo produz novos e mais fortes atores, e eles entram em contradição com o desenho político que luta para persistir.

É o nó chinês. Observado com atenção e curiosidade no mundo todo.

Construir o monopólio do poder a partir de uma situação em que as massas estejam satisfeitas com a vida material, reduzindo a política a atividade apenas de alguns políticos: eis o sonho de todo candidato a líder inconteste. Ou déspota, conforme o ângulo de visão.

Mas congelar a História nunca é trivial.

Tarso

Números tomados por si podem ser a origem dos mais terríveis enganos. O que os 46% e os 48% de Luiz Inácio Lula da Silva nos primeiros turnos de 2002 e 2006 têm a ver entre si e com os 46% de Dilma Rousseff em 2010?

Pouquíssimo. A proximidade numérica apenas mascara a mudança de perfil. O PT desloca-se para as profundezas do Brasil, enquanto os adversários do PT consolidam posições no pedaço mais moderno e economicamente dinâmico.

Resumindo, os votos do PT em 2002 eram para o partido. Em 2010 estão misturados aos votos do governo. Votos que costumam ser oferecidos a qualquer governo.

O mapa eleitoral mostra a dificuldade de o PT estabelecer ou retomar a hegemonia nas regiões mais prósperas do Sul/Sudeste/Centro-Oeste. Quanto mais forte e expressiva a classe média, maiores as dificuldades relativas do petismo.

Talvez este fim de coluna tenha a ver com o começo dela.

E o Rio Grande do Sul? Parece que ali o PT conseguiu reeencontrar alguns elos que o ligam ao Brasil moderno.

Por quê? Houve o caos político dos últimos quatro anos. E há também certos traços favoráveis da personalidade política de Tarso Genro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (10) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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10 Comentários:

Anonymous Calvero disse...

Quem conhece a história da China, para ficar apenas no âmbito contemporâneo, a inesquecível ocupação ,divisão e saque por dezesseis nações,ocidentais, seguida das humilhações de praxe,invasão japonesa nos anos da segunda guerra e seu corolário de crueldades,a interferencia dos EUA,na vitória de Mao Tse Tung sobre Chan Kai Chek e transformação de Formosa em Taiwan ou "China Nacionalista",membro da ONU,da razões de sobra aos suditos do Império do Meio.
Ironia da história desfilando sob nossos olhos ou como advertia Confúcio:é o passado que prevê o futuro.

domingo, 10 de outubro de 2010 10:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ao que parece, ninguém está muito disposto a comprar qualquer tipo de encrenca com a China. Nem política nem econômica, uma vez que a militar está totalmente fora de questão. Assim, talvez, falar em dissidente seja mais leve do que falar em opositor. Alguma diferença? Caso não fosse a China do outro lado, ou no meio, a diferença assumiria características bem diferentes. Postar-se em frente a colunas de tanques é opor-se ou dissentir? Para a China, foi crime. Entre a China ser economia de mercado ou não, o Brasil rapidamente optou pela primeira alternativa. E o que era entrada de produtos a preços abaixo do custo de produção internos, virou devorador de empresas nativas. A única certeza é que a diplomacia de canhoneiras (55 Dias em Pequim, 1963, Nicholas Ray) acabou.
Swamoro Songhay

domingo, 10 de outubro de 2010 15:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vc parece partir da mesma hipótese de André Singer sobre o lulismo (deslocamento da base eleitoral da classe média para o subproletariado) para chegar a uma visão menos substantiva do fenômeno ao se referir a "votos que são oferecidos a qualquer governo"... um bom debate...

Cambraia

domingo, 10 de outubro de 2010 19:18:00 BRT  
Anonymous Guilherme Scalzilli disse...

Continua mais difícil do que parece

A campanha de Dilma Rousseff conferiu excessiva importância à popularidade do presidente Lula, à vantagem da propaganda gratuita e à capacidade da blogosfera de conter a sanha dos adversários. Subestimou a força dos instrumentos tradicionais de persuasão política (a parcialidade da mídia corporativa, o engajamento de lideranças religiosas, a disseminação de boatos, o clientelismo regional), que atingem um imenso público alheio à internet.

Também cometeu o equívoco de partidarizar a disputa entre os institutos de pesquisas, caindo na armadilha de apegar-se aos levantamentos alvissareiros como se fossem peças de propaganda. A militância criou enorme expectativa de vitória, que se alastrou para o restante do eleitorado. Em alguns meses, o segundo turno presidencial deixou de parecer previsível para transformar-se num verdadeiro triunfo oposicionista

Menosprezar o front paulista foi um erro estratégico indesculpável. Há muito sabíamos que o fortalecimento de Aloizio Mercadante poderia levar ao desgaste de José Serra no pleito nacional. A campanha de Mercadante começou isolada, amadorística, materialmente pobre. Quando engrenou, já havia desperdiçado um tempo valioso. O apoio de Geraldo Alckmin e Aécio Neves nos dois maiores colégios eleitorais do país permitirá a Serra atuar livremente nos redutos dilmistas.

Marina Silva cumpriu o papel que lhe coube desde o início: o de anti-Dilma. Aglutinou os votos indecisos ou descontentes, criou canais de fragilização da petista, reduziu a polarização que o PSDB temia. A “vitória” de Marina presenteia Serra com vinte milhões de potenciais eleitores, interessados muito mais na mudança do que na preservação do cenário político. É um eleitorado permeável à influência dos grandes veículos jornalísticos, e identificado social, cultural, econômica e geograficamente com as plataformas do tucano.

Serra também será favorecido com a animosidade da disputa pelos votos de Marina. Os eleitores dela já recebem ataques da militância petista e tendem a responder com um oposicionismo agressivo, moralmente determinado, que contagiará largas esferas da juventude urbana. As sombras espúrias do DEM e do quercismo serão momentaneamente afastadas para dar voz a formadores de opinião e lideranças políticas identificados com esse conservadorismo de cores “modernas”. A deputada que anda de bicicleta, o defensor dos cachorrinhos, o doutor recém-formado e artistas hipersensíveis encarnarão as novas Reginas Duartes amedrontadas.

E Dilma terá de sofrer quieta. A grande imprensa, convenientemente protegida pelo papel de vítima, acirrará o civismo de factóides. Qualquer reação à inevitável onda de ataques midiáticos alimentará o repertório truculento criado para a petista. Os aliados vitoriosos, satisfeitos com o generoso quinhão eleitoral recebido pelo apoio de Lula, hesitarão até o último instante em defendê-la.

O cenário apresentado é excessivamente pessimista, mas antecipa alguns dos obstáculos que a coordenação da campanha petista precisará contornar se não quiser que o segundo turno vire uma sangrenta batalha de resultado incerto. Àqueles que evitam as atribulações da realidade incômoda restará depois apenas lamentá-la.

http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/

segunda-feira, 11 de outubro de 2010 19:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

oi Alon
hoje o Bruno Reis comentou seu blog no facebook. Os acolitos do Serra adoraram a analise. Tambem comentei, lembrando a eles que embora você hoje, por exemplo, fale do voto dos "modernos" e " dinâmicos " em Serra e do das regiões " atrasadas" em Dilma, você em 2006 já explicara qual a razão da popularidade de Lula entre os pobres. E anexei o artigo seu de 2006 abaixo.
abraço
Inês

anexo o meu comentario ao Bruno Reis no facebook:

tambem acho o Alon muito inteligente. Sempre achei. Quando ele era do PCdo B em 1979, eu já o achava um dos mais brilhantes diretores da UNE. Reencontrei-o no gabinete do Aldo Rebelo no início do governo Lula onde trabalhou e naquela época era adepto e defensor da Lei de Falências que o Palocci e o grupo da " Agenda perdida" do Scheinkman de Chicago tentara emplacar na campanha do Serra e depois conseguira passar ao Palocci. Discordei obviamente da Lei de Falencias que protege os grandes credores e se balda para os funcionarios das empresas falidas, mas achei o Alon coerente pois ele tinha feito a campanha do Serra. Mais tarde, ainda com Aldo Rebelo, Alon substituiu o Waldomiro dos Bingos na Câmara e fez um grande trabalho de defesa do governo Lula. Sempre vou ao blog dele que tem análises políticas muito bem feitas. A de hoje trata da vitoria da oposição nas areas mais "dinâmicas e modernas" do país e do PT nas atrasadas. Em 2006 ele já tratara disso, explicando a popularidade de Lula entre os pobres.

Anexo a análise:

quinta-feira, 20 de abril de 2006
Desinformação, ignorância e a popularidade de Lula (20/04)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010 23:18:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro anônimo, nem tudo está certo, mas publiquei assim mesmo. E o link p o texto de 2006 é este: http://www.blogdoalon.com.br/2006/04/desinformao-ignorncia-e-popularidade.html

segunda-feira, 11 de outubro de 2010 23:54:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Scalzilli, independente de concordar ou não, seu comentário está muito bem elaborado.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010 23:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"PSDB tem votação entre os modernos".
Alon, o que significa ser moderno para você?

abs.

Daniel MEnezes

terça-feira, 12 de outubro de 2010 16:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, permita-me, primeiro, parabenizá-lo pelo espírito de abrigar pensamentos contrários e não. Segundo, brincar com coisa séria: parece que seus textos são ideais para o exercício do tal controle social da tal de "mídia". Terceiro, enquanto for permitido, ganharemos muito com tudo isso. Quarto, que liberdade vença. Sempre.
Swamoro Songhay

terça-feira, 12 de outubro de 2010 18:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não sei o que o PT poderia ter feito ou não. Contudo, os problemas que está encontrando nas eleições, possam derivar da imposição de uma candidatura ao partido. Normalmente o PT escolhe seus candidatos via processo de votação dos filiados. Desta vez foi apenas homologador de uma vontade superior. Pela inexperiência da candidata, só poderia contar mesmo com a capacidade de transferência de votos de Lula. O resultado do primeiro turno demonstrou que há um limite para tanto.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 13 de outubro de 2010 11:41:00 BRT  

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