sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Excesso de esperteza (08/10)

No mundo ideal de alguns, o eleitor irá às urnas no segundo turno depositar um voto contra as (ou a favor das) privatizações e ganhará no dia seguinte um governo disposto a impulsionar no Congresso um monte de surpresas sobre
outras pautas


Vazam do poder informações sobre o estado de espírito de Luiz Inácio Lula da Silva, relacionadas à avaliação que sua excelência faz do próprio desempenho até agora nas eleições.

Estaria o presidente propenso a admitir certo exagero na retórica? Ou viu o eventual excesso como tendo sido necessário para cumprir determinadas missões no primeiro turno?

Faço como os ministros do Supremo (que pretensão!). Peço vênia para dizer que isso não tem a menor importância.

Inclusive por não haver como medir a suposta soberba. O que seria uma taxa ideal de soberba? A que serviria para trucidar os adversários políticos sem entretanto ouriçar a imprensa?

Pouco importa se o presidente da República acredita que ele e os dele são a opinião pública. Lula tem o direito de achar e dizer qualquer coisa. O mesmo direito que a imprensa reivindica para si -e que a Constituição garante a todos.

Mas interessam jornalisticamente as medidas que sua excelência e a candidata do PT imaginam implementar para estabelecer o controle social da comunicação. Quem vai controlar? Quais serão os parâmetros desse controle?

Recorro ao tema porque ele é recorrente nos textos que vêm do coração do PT. Assim como o direito ao aborto legal.

Aqui vale a mesma regra. Pouco importa se Dilma Rousseff foi anos atrás a favor da legalização e agora deixou de ser. Todo mundo tem o direito de mudar de opinião, mais ainda em assuntos complexos e com raízes na esfera espiritual.

Importante é o que Dilma fará, se eleita. Não vale dizer que deixará por conta do Congresso. Numa eventual administração dela o PT terá bastante força e poderá, a partir das posições de mando, operar em assuntos polêmicos sem o governo deixar muitas digitais.

Por isso Dilma precisa esclarecer -e o mesmo vale para José Serra- não suas opiniões pessoais, que aliás interessam só a ela. Os candidatos devem é nitidez sobre como vão orientar a base política em temas complicados, como o aborto, se chegarem à Presidência.

Por ironia, o assunto provoca incômodo tanto no PT/governo quanto nos que Lula critica por se enxergarem como donos da opinião pública. Ambos pedem que o debate sobre o aborto seja abandonado em favor de assuntos "mais elevados".

Talvez não compreendam que a agenda das igrejas cristãs é, pelo menos, tão importante quanto qualquer outra.

Um tema que o PT/governo e os adversários parecem desejar discutir são as privatizações. Desejo legítimo.

A encrenca está em outro ponto. No mundo ideal de alguns, o eleitor irá às urnas no segundo turno depositar um voto contra as (ou a favor das) privatizações e ganhará no dia seguinte um governo disposto a impulsionar no Congresso um monte de suspresas sobre pautas não debatidas na eleição. Como por exemplo o aborto.

É excesso de esperteza.

Um ditado mineiro volta e meia repetido nesta coluna é que esperteza quando é muita vira bicho e come o dono. Para evitar esse triste desfecho, por que o PT e o PSDB não assumem o compromisso com uma moratória de pelo menos quatro anos, a suspensão por esse período de qualquer inciativa para alterar as leis relativas ao aborto?

Seria razoável. Especialmente para quem acha ser um assunto menor. Se não tem importância, imagino que não se incomodarão de o colocarem na geladeira até 2015.

Boato regulamentado

É espantosa a quantidade de gente em Brasília nestes dias brandindo números de pesquisas que não foram feitas e jamais serão.

Se bobear, qualquer dia aparece um deputado ou senador propondo regulamentar boato sobre pesquisa.

Para moralizar a coisa, o boato só poderia ser espalhado depois de registrado noTSE.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (08) no Correio Braziliense.

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