quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Do tudo ao nada (07/10)

O PT está entre o céu e o mais absoluto inferno. O céu não virá tão bonito quanto a ideia original, dada a força da oposição nos estados. Mas o inferno seria de lascar

Em seu já célebre discurso de 18 de setembro em Campinas (SP), quando anunciou que “nós somos a opinião pública”, Luiz Inácio Lula da Silva produziu uma passagem reveladora. Na época passou meio despercebida.

- Vocês sabem que tucano come até filhote no ninho. Quando o (Aloizio) Mercadante se eleger governador, vou criar um Bolsa Família para os tucanos não passarem fome.

Lula é bom de palanque, e sempre é preciso dar um desconto. Mas o trecho lança luz sobre a essência da política. Nas eleições, tribos entram em luta pelo domínio do aparelho de estado. Vencida a eleição, o grupo terá poder sobre orçamentos e cargos, essenciais para alimentar os exércitos vencedores.

Sempre foi assim, desde que a política e a guerra eram uma coisa só. Nunca mudou na essência. Se hoje há normas a civilizar a repartição do butim, ele continua sendo repartido. Com a possibilidade de alternância, abre-se a porta para um revezamento.

Qual era a situação das tropas antes do primeiro turno? A fortaleza federal estava teoricamente bem defendida pelas forças petistas, que acossavam os dois maiores redutos do inimigo, São Paulo e Minas Gerais.

Em Minas, montou-se uma mega aliança contra os tucanos. Se não em número de partidos, na amplitude do arco simbólico. A lista impressiona. Lula, José Alencar, Dilma Rousseff, Fernando Pimentel, Patrus Ananias, Hélio Costa.

Nas terras paulistas a tática foi diferente. O PT investiu na fragmentação do campo adversário, para fugir da bipolarização e tentar provocar um segundo turno.

Mas não deu, o PSDB garantiu já no primeiro turno mais quatro anos no comando de suas principais máquinas político-eleitorais. E a incerteza mudou rapidamente de endereço.

Dilma foi bem numericamente no primeiro turno, ficou perto de ganhar a eleição e precisa agregar quantitativamente menos do que José Serra. Mas suponhamos, só para especular, que o PT perca a disputa presidencial no segundo turno. Onde suas tropas encontrariam abrigo?

Ao contrário do PSDB, o PT venceu no domingo passado em unidades da federação com relativamente pouca autonomia diante do governo federal, estados que estão longe de ser potências orçamentárias.

O PT conseguiu boas bancadas na Câmara dos Deputados e do Senado, mas se derrapar no segundo turno será perfeitamente possível ao novo governo tucano articular uma maioria. Bastará atrair o grosso da base de Lula/Dilma e isolar o petismo.

Não deverá exigir muito esforço. Será quase natural. O que o PT teria a oferecer aos aliados para impedir que mudassem de lado?

O PT está entre um certo céu e o mais absoluto inferno.

O céu não virá tão bonito quanto a ideia original, dada a força da oposição nos estados e a fragmentação partidária no Congresso, que verá em 2011 aumentado seu poder de barganha.

Mas o inferno seria de lascar. O PT regrediria em peso político, e com um detalhe: antes de chegar ao Planalto a legenda tinha mais poder na esfera local do que tem hoje.

Lula operou esta eleição na base do tudo ou nada. Conseguiu matar politicamente alguns adversários não tão fortes, mas quem sobreviveu está com musculatura.

Já para o PT, o tudo ficou fora de alcance, e agora o partido foge de ser colhido pelo nada. Tem uma chance razoável de conseguir, mas eleição é eleição.

Piorou

Lula livrou-se de um grupo de senadores que discursavam contra ele. Ficaram fora Heráclito Fortes, Mão Santa, Artur Virgílio. Livrou-se ainda de senadores que discursavam pouco e nunca lhe criaram problemas reais, como Tasso Jereissati e Marco Maciel.

Em compensação, o possível governo Dilma receberá de presente um Senado bem mais perigoso, com o PMDB em posição de dominância incontestável e a oposição reforçada por políticos craques em falar macio e operar nos bastidores.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (07) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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10 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

O PSDB não comanda São Paulo desde não sei nem quando e Aécio não passou 8 anos como governador de Minas? Sei não, mas tenho a impressão que sei lá...Acho que não entendo mais nada.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010 07:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, um dia iria acontecer: Lula seria tragado pela própria malandragem. Nos morros do Rio existe um provérbio: "Malandro demais se atrapalha". Em Minas, o ditado correspondente é "esperteza quando é muita, vira bicho e come o dono". A falta de humildade a Lula fará com que o PT continua fora do governo dos dois principais estados da União, provavelmente perca a presidência da República e ele ainda terá de amargar o resgate da figura histórica do presidente FHC no horário eleitoral tucano. Não é a toa que ele anda meio sumido. Já percebeu o xeque-mate que levou no segundo-turno e não sabe lidar com os revezes da vida, só com o sucesso.
Fernando José - SP

quinta-feira, 7 de outubro de 2010 11:09:00 BRT  
Anonymous Tovar disse...

Face aos riscos que assumiu ao aceitar ser apenas um peão no jogo do Lula - entregando-lhe as principais candidaturas - além do PT não poder reclamar nada, até que não está se dando tão mal.
Fez alguns governos, até o inesperado RS, e ainda é o favorito no DF, além de aumentar as bancadas federais. Desconheço as repercussões estaduais.
Ou seja, a depender da conquista de menos de 30% dos votos da Marina, a menos que sobrevenha um desastre ou uma onda amorosa em favor do Serra, dentro das circunstâncias, o PT terá um pedaço do céu. Talvez bastante menor do que o desejado, mas certamente maior do que o próprio juízo.
E se o inesperado ocorrer, quem sabe assim o PT não venha a mais facilmente sobrepujar o Lulismo (e outros ismos) e recompor a trajetória partidária e o juízo?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010 12:34:00 BRT  
Blogger Cristiano disse...

Bela análise, caro Alon! Muito sensata, como sempre. E original!

Um abraço,

Cristiano.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010 20:21:00 BRT  
Anonymous Calvero disse...

A visão privilegiada de Lula do topo do planalto central do país,lhe dá alguma primazia sobre os demais observadores postados em posições menos estratégicas.
O fustigamento da mídia nas ultimas semanas, a proposta profilática
da extinção dos "demos" , a elevação do tom dos discursos,teve um único objetivo:sacudir a militãncia do seu acomodamento desde a inexorável vitória apontada pelo oráculo das pesquisas .Pragmatismo de Lula imune aos espasmos róseos das tréguas da adversidade,detectou o flanco frágil que se expunha na presente campanha.Permitiu-se que a mosca azul zumbisse sedutoramente em vária cabeças.Enxotada a tempo,emigrou para a receptiva Marina onde convive sem ser importunada,muito pelo contrário.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010 22:06:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, seus últimos textos tem comemorado a solidez da nossa democracia, e você está certo. O decreto programa sobre direitos humanos, ou mesmo o programa radical que a candidata Dilma Rousseff primeiro entregou ao STE e depois recolheu – típicos expedientes getulistas: usar a esquerda como espantalho, como sabiam fazer Brizola e Jango ¬– ou do outro lado, a reunião da nova UDN no Clube Militar, onde qualificaram o presidente de fascista, são excessos verbais (escritos ou falados), esperados em momento de ânimos exaltados como o eleitoral. Mas a política parece ter algo de futebol, um lance mais ou menos feliz ou mesmo uma sorte ou azar repentino, e inverte-se o resultado e a avaliação que se pode fazer da partida. Eu diria que raspou a trave, dessa vez por dentro. Afinal, em havendo uma chance, mesmo pequena, de o resultado me ser favorável em curto espaço de tempo, ao final do mês, não há motivos para tentar entornar o caldo antes, não é mesmo? O inesperado segundo turno aliviou a tensão, parece enfim que Lula pode não se perpetuar no poder, mas é bom não esquecer que a oposição PSDB/DEM nada tem qualquer mérito na ocorrência do segundo turno, o que dá bem a medida de sua possibilidade de vitória.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010 12:08:00 BRT  
Blogger Remindo disse...

Ei, só publicas os cometários a favor.

sábado, 9 de outubro de 2010 12:27:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Adendo ao comentário anterior

Brandiam Maquiavel, mas em “apud” retirados de Gramsci.

sábado, 9 de outubro de 2010 22:49:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

O comentário anterior.

Alon.

Concordo com a análise.

Disso tudo, parece mesmo que o partido (a máquina) deu-se mal. Veja o que aconteceu com o PT de MG. O PT de SP em evidente dependência de puxadores de votos de outros partidos, como Tiririca e Netinho. Por bem pouco Marta quase perdeu a vaga.

Em Santa Catarina, foi um arrasa quarteirão que contou com a inestimável colaboração das soberbas presidencial e petista-catarinense naquele fatídico (para o PT) discurso de Lula que ordenou um “delenda DEM”.

E mudinhos estão os intelectuais e os estrategistas do partido que brandiam Maquiavel e decretavam a fatura liquidada já no primeiro turno. O fato é que quase tudo não saiu como o previsto. Eles tentam, mas não há maquiagem capaz de ocultar expressões depressivas. O que foi aquele “ar de velório” no dia em que Lula NÃO esteve no palanque de Dilma, logo após os resultados finais da eleição?

Esse desconforto com a situação de segundo turno, que os estrategos da máquina queriam evitar a qualquer custo, é claro sinal de insegurança quanto ao potencial de fogo da candidata no segundo turno.

Dilma não é Lula e Lula popular não é dono da vontade popular. Isso ficou claramente demonstrado quando a população foi às urnas. Na democracia o poder encontra limite certo e pela medida exata da vontade das urnas, para o bem e para o mal.

Madame de Stael dizia que os arrogantes são como grandes balões, bastando a ponta aguda de um reles alfinete para dar fim a eles.

domingo, 10 de outubro de 2010 20:15:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

:) Valeu a insistência. Obrigado.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010 13:17:00 BRT  

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