sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A conta para o futuro (22/10)

É possível que a próxima presidenta, ou presidente, surpreenda como um prodígio de habilidade política e talento reconciliatório. Mas não é irrealista imaginar que a nova era se abra com os derrotados de faca nos dentes, ainda que no começo possa não parecer

Há sempre algum exagero nas previsões catastróficas feitas a partir de campanhas eleitorais acirradas. Governos têm meios de buscar um alto grau de consenso, especialmente nos períodos de bonança econômica. E passada a eleição prevalece no primeiro momento a tendência centrípeta. Potencializada pelo instinto de sobrevivência.

Mas é razoável também tentar compreender os elos entre o ambiente construído ao longo da campanha e as circunstâncias que acabam se impondo depois. Quando colocou Miriam Cordeiro no programa eleitoral, Fernando Collor de algum modo ajudou a traçar o destino que teria na Presidência. E, segundo a mesma lógica, o perfil “Lula paz e amor” capitalizou o atual presidente um tanto que lhe deu fôlego de sobra para gastar nos maus momentos destes oito anos.

O Lula que chegou ao Planalto era -lembram-se?- conciliador e prometia transformar o Palácio na grande instância de negociação entre contrários. Oito anos e muitas crises depois, Lula vai deixar o cargo legando ao sucessor, ou sucessora, um cenário com traços de conflagração. E importa menos discutir “de quem é a culpa”, algo que na política nunca tem maior importância.

O presidente preferiu conduzir a sucessão de 2010 com uma tática antagônica a 2002. Suposições são sempre perigosas, mas talvez isso explique que um governo com 80% de ótimo/bom e montado na maior aliança política da história das eleições presidenciais brasileiras tenha chegado a uma semana do segundo turno ainda em clima de disputa.

O governismo poderá argumentar que a radicalização veio de fora e atrapalhou, mas isso não explica por que quase metade dos que apoiam o governo não apoiam hoje Dilma.

Em Pernambuco, por exemplo, assistiu-se a uma campanha bastante radicalizada (como costumam ser as eleições naquele estado). Mas o governador reeleito, Eduardo Campos (PSB), concretizou integralmente em votos suas taxas de aprovação e foi campeão brasileiro da modalidade este ano.

Uma questão de estilo. Nesse quesito Eduardo Campos é um anti-Lula e tanto.

Lula preferiu o caminho de dividir os brasileiros entre quem está com ele e com o Brasil ou contra ele e contra o Brasil.

A fatura vai ser paga por quem sentar na cadeira presidencial a partir de janeiro de 2011.

Se vai sair caro ou barato, ninguém sabe. É possível que a próxima presidenta, ou presidente, surpreenda como um prodígio de habilidade política e talento reconciliatório. Mas não é irrealista imaginar que a nova era se abra com os derrotados de faca nos dentes, ainda que no começo possa não parecer.

Mudança estratégica

A oposição ressentiu-se nos últimos anos de ter seus principais líderes em posições administrativas. Não dá para um governador estar na linha de frente da luta política contra o presidente da República. E se o general está constrangido pelas circunstâncias, a tropa tem naturais dificuldades para combater.

Agora não. Seja qual for o resultado, haverá pelo menos um líder oposicionista em tempo integral. Se ganha José Serra, terá Lula na oposição assim que o petista colocar o pé fora do Palácio -ou antes. Se ganha Dilma Rousseff, o PSDB terá no senador Aécio Neves (MG) o maestro perfeito para comandar a orquestra rival.

Eis um resultado já certo desta eleição. Diferentemente dos últimos oito anos, teremos uma oposição de verdade. Até porque ela vem sendo construída nesta campanha, de ambos os lados.

Em 2002 e mesmo em 2006 havia algum contrangimento de confrontar Lula, pelo simbolismo social ou pelo simples temor do choque contra a maior liderança político-popular do país.

Isso mudou.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (22) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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9 Comentários:

Blogger Remindo disse...

Alon. atualmente o Brasil se divide em 4% que odeia o Lula e 80% que o adora. O PSDB só existe na mídia. A Dilma vai se eleger com 60% dos votos e daqui um ano os mesmos 80% a estarão adorando, menos os 4% que se informam pela Globo, Folha e Veja.

sábado, 23 de outubro de 2010 00:04:00 BRST  
Blogger Livio disse...

Alon, permita-me discordar da sua afirmação acerca dos motivos da oposição, que seria constrangimento de atacar Lula... O motivo é pura incompetência política!!! Em 2006 o PT estava saindo de uma crise terrivel e ainda assim a oposição não conseguiu capitalizar. O problema é falta de modelo politico viável... A oposição não tem discurso contra todo o sucesso de inclusão observado nesses anos de governo Lula.
Se a oposição quiser ter alguma força, tem que se repensar, se reconstruir na ordem programática e oferecer um programa inclusivo que seja viável e mais efetivo que o que temos vivido. Simples assim...
Não creio que uma liderança vazia de discurso, se apoiando em escândalos se viabilize nesse país, que nos últimos anos aprendeu - e adorou - distribuir renda e incluir socialmente.
Abraços,

sábado, 23 de outubro de 2010 10:09:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O novo presidente, necessariamente, terá de procurar raiar as beiras do estadista. Correrá sério risco de ser um fracasso político se tiver o intento de peitar inimigos, para agradar aprendizes de feiticeiros. Aqueles de capuzes bicudos para cima e tochas acesas. E o fracasso será maior ainda se tentar confrontar inimigos imaginários. Estes, teria de inventar, o que seria muito perigoso. Tipo o herói do filme "Uma Mente Brilhante". Pode até ser que, mesmo agora, estejam colaboradores mais próximos, estruturando cursos rápidos que ensinem a ver inimigos figadais inventados, como adversários políticos reais. Ao menos problemas reais não hão de faltar. Já é um alívio. Principalmente quando relembra-se do ditado: cabeça vazia é oficina do demônio.
Swamoro Songhay

sábado, 23 de outubro de 2010 11:46:00 BRST  
Anonymous Mauricio disse...

O que você chama de oposição seria dos dois lados? O PSDB não consegue nem fazer campanha, se nao fosse os spams, as igrejas e a imprensa não teria ocorrido a vitoria do PT no primeiro turno? É preciso sim construir algo bom pois desta campanha sordida captaneada pela direita so vai sobrar o ódio, e a ideia da campanha do PSDB que só Serra vai unir,o que ele dividiu, me parece muito dificil, pois seu lema é dividir para vencer.

sábado, 23 de outubro de 2010 11:58:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon

"Diferentemente dos últimos oito anos, teremos uma oposição de verdade."

Eu entendi bem o sentido do post e que a frase acima resume.

Queria fazer um contraponto cético ao seu otimismo quanto a o que nos reservaria o futuro. Pensei, pensei e pensei no que escrever. Mas desisti porque não vi como não chover no molhado.

Vamos aguardar o dia 31. Faltam poucos dias.

Para a hipótese Dilma, é preciso esperar para ver no pós-2010 como essa equação política e a sua incógnita serão resolvidas.

PS: O Seretário do Tesouro mais do que sugere que o grande negócio no momento é comprar dólares. O mercado vai sentir "a força do governo" para elevar o preço do real em relação ao dólar, avisa o secretário.

A coisa está mesmo feia, Alon. O que devo fazer? Sacar os meus caraminguás da poupança e comprar o dólar barato de hoje, apostando na sua valorização futura, como sugere o governo?

Tesouro estuda ''muitas medidas'' para o câmbio

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101023/not_imp628623,0.php

sábado, 23 de outubro de 2010 13:20:00 BRST  
Anonymous Luis disse...

Alon, oposição com a faca nos dentes existe desde 2003! O que não existiu (e continuará não existindo, caso Dilma vença) é oposição programática, isto é, uma oposição liberal que se assuma como tal, que faça crítica liberal ao nacional-estatismo petista e apresente alternativas. Tá certo que, agora, o mar não tá pra peixe pro discurso liberal, até mesmo por causa do sucesso do distributivismo e desenvolvimentismo de Lula. Mas, continuará assim daqui a dois ou três anos?

sábado, 23 de outubro de 2010 14:45:00 BRST  
Blogger EPx disse...

Dizer que 80% adoram o Lula só porque 80% acham o governo ótimo ou bom é otimismo demais :)

sábado, 23 de outubro de 2010 17:51:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Mandei colocar o meu nome.

sábado, 23 de outubro de 2010 13h20min00s BRST

sábado, 23 de outubro de 2010 23:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Interessante como cobra-se programa das oposições e não analisa-se se o governismo apresenta algum programa. E se apresenta, sinceramente, qual é? Quanto ao aspecto cambial, tudo indica que não é caso para pequenos investidores. É problema para quem vai governar por quatro anos a partir de 2011. Ou seja, uma herança, essa sim, bastante indigesta para inexperientes.
Swamoro Songhay

domingo, 24 de outubro de 2010 11:51:00 BRST  

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