domingo, 12 de setembro de 2010

A travessia (12/09)

Quem conhece Marina sabe que ela tem tutano para encarar a caminhada. Mas será que o PV dará o necessário apoio? Como fez o PT para Lula?

A três semanas do primeiro turno, os números de todos os levantamentos convergem para um padrão. Entre eles e também na comparação com as duas eleições anteriores. Três quintos do eleitorado “útil” (o que vota em candidatos) pendem para a favorita de Luiz Inácio Lula da Silva. A diferença é que em 2002 e 2006 essa configuração só se cristalizou no segundo turno. Ou seja, em vez de a ex-petista Marina Silva dividir no primeiro turno votos de seu antigo campo, os números mostram que ela semeia no terreno da potencial oposição. Não só a atual, mas a futura.

Marina segue uma estratégia à la Antanas Mockus, o verde que chegou em segundo lugar na eleição da Colômbia: fincar estaca como a alternativa para adiante. É inteligente, mas sempre será preciso ver se a senadora do Acre e seu PV vão suportar a travessia do deserto. Lula e o PT atravessaram o deserto na oposição porque partiram de duas premissas. Não apoiariam nenhum governo liderado por outros e cauterizariam todas as possíveis dissidências conciliatórias.

Quem conhece Marina sabe que ela tem tutano para encarar a caminhada. Mas será que o PV dará a ela o necessário apoio? Como fez o PT para Lula? O exemplo de Ciro Gomes está aí. Na hora H o PSB puxou o tapete, ainda que a puxada estivesse escrita nas estrelas desde o esboço da candidatura.

O recuo do PSB decorreu de uma visão estratégica sobre a necessidade de coesão do bloco governista, diz o PSB. Ou de renunciar a um projeto nacional em favor de projetos regionais, dizem os críticos. Pouco importam as explicações. Ciro Gomes ficou fora e o PSB está agarradinho a Dilma Rousseff. O amor aliás é recíproco.

Marina ainda sonha com a ida a um hipotético segundo turno, e os ganhos pontuais dela entre os grupos mais formalmente instruídos certamente vão animar. Aí seria a sopa no mel, mesmo em caso de derrota. Ela restaria como a primeira da fila, posição que José Serra conquistou em 2002. Como o cenário mais visível não é esse, vale especular então sobre o grau de resistência da própria Marina e, principalmente, do novo partido dela às forças centrípetas do poder.

O PT pôde fincar pé na oposição por funcionar em boa medida como um único organismo e pela inserção social e no poder local, com importantes orçamentos municipais sob controle. Coisas que o PV não tem. Como os parlamentares do PV irão resistir à caneta do Executivo?

De outro ângulo, entretanto, a situação de Marina é animadora. A onda peemedebista nos anos 80 trazia na testa o atendimento às aspirações democráticas, a tucana nos anos 90 contemplou os desejos modernizantes, e a petista nesta primeira década do século 21 enfatizou a justiça social.

Quem está mais bem posicionada para a agenda do ponto futuro é Marina Silva. Falta a ela massa crítica para realizar agora este potencial, e é preciso saber se conseguirá manter a tropa reunida para, como disse, fazer a travessia. Mas sua resistência a ser desidratada nesta eleição é um sinal.

Como nos primórdios

Uma boa conversa ao longo da semana passada com dois próceres petistas, separadamente, revelou certo incômodo com a perspectiva de ter uma “oposição interna” peemedebista nos próximos quatro anos, na eventualidade de vitória de Dilma Rousseff. Acham que um também eventual enfraquecimento extremo da dupla PSDB-DEM fará a oposição social ao PT deslocar-se para o polo mais viável, o PMDB, mas argumentam que há aí duas atenuantes.

Uma é a expectativa de poder futuro simbolizada na possível volta de Lula. É um trunfo petista. Um cano frio a ser encostado na testa dos permeáveis a tentações de dissidência. Outro trunfo é o previsível inconformismo da oposição tradicional com o papel de coadjuvante. Por isso, acreditam, sempre poderão contar com o PSDB para enfraquecer o PMDB, caso necessário. Como se passava, aliás, nos primórdios petistas e tucanos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (12) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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11 Comentários:

Anonymous Anísio_FC disse...

Beleza de coluna...
O fato é que há tempos não vejo uma oposição tão chinfrim no Brasil, PSDB e DEM não trabalharam como oposição séria nunca, só tinham o projeto de fazer o presidente, agora que deu água estão sem rumo.
É boa a perspectiva do PV/Marina fazerem esse papel, pode ser uma boa futuramente, agora fazendo papel secundário está se saindo bem, é bom aprendizado pra virar protagonista...

domingo, 12 de setembro de 2010 12:18:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Como já foi observado anteriormente aqui, o PSDB errou feio ao não viabilizar politicamente a chapa SP/MG. Por que não conseguiram? Que sobre isso se expliquem os tucanos.

Quanto a Marina, para mim ainda faltam elementos para formar um juízo. Mas estou atento às suas análises.

Sobre o "cano frio a ser encostado na testa dos permeáveis a tentações de dissidência", é lamentável que essa truculência seja constitutiva da política brasileira. Mas estamos no Brasil e não é de hoje que o autoritarismo personalista do chefe do executivo joga importante papel na unificação das forças políticas oligárquicas regionais (que, aliás, exercem em suas regiões de origem idêntico mandonismo).

É a nossa cultura política que hoje é aceita pelos petistas como regra do jogo, mas com a desculpinha de sempre de que "sem reforma política" o que resta é o realismo da governabilidade e blablabla. Muito bom para quem acredita em duendes ou está em busca de algum pote de ouro estatal.

Quanto ao contrapeso psdbista, ao que parece a combinação teria sido com Aécio Neves. Mas acho que este está mais para um simulacro do avô. Não vejo nele capacidade de liderar uma futura "oposição responsável" e propositiva.

Vamos aguardar e ver o que vai acontecer.

domingo, 12 de setembro de 2010 16:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Meu caro, sabe o que a Heloisa Helena falou para a Marina: Eu sou você amanhã.

domingo, 12 de setembro de 2010 17:35:00 BRT  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon, os dois próceres petistas têm razão em se preocupar com a oposição interna nos próximos quatro anos, assim como com o enfraquecimento do PSDB que não aponta para uma boa alternativa pelo lado da oposição.
Não concordo com as atenuantes. Lula já prestou serviços ao país. Chegou o momento de termos, inclusive no próprio PT, alternativas a Lula. E há quadros na esquerda para isso, tanto no PT, como no PSB, no PC do B e no PSDB. Ainda que considere que a linha política mais representativa da esquerda seja do PCB. Infelizmente a esquerda democrática em nosso país tem se apequenado ao não formar uma frente que efetivamente gere transformações sociais. Até o momento nenhum dos candidatos apresentou um programa de governo. Isto é impressionante!

domingo, 12 de setembro de 2010 23:34:00 BRT  
Blogger Marcus Vinícius Simioni disse...

PARTE 01

Eu me filiei ao PV em janeiro, fui apoiador de primeira hora da Marina. Já participava do movimento Marina Silva desde, pelo menos, junho de 2009. Sempre fui muito empolgado com a construção de uma terceira via que pudesse, de forma democrática e propositiva, se contrapor à famosa polarização PTxPSDB, que até então não aceitava. Se decepção matasse...
Tudo isso tinha um início: pela então chamada "refundação ética" do PV. O video abaixo, do Roda Viva, é ilustrativo. A partir de 1min34seg:

http://www.youtube.com/watch?v=0VMJVjWTbs0&feature=related

Triste foi constatar que isso virou discurso de gaveta. O congresso prometido para março deste ano foi adiado por tempo indeterminado. O compromisso com a reforma do partido virou na reforma do compromisso. Ao invés de se trabalhar as contradições do PV, a opção foi pela minimização dessas contradições, pelo argumento de que isso é normal na vida política dos partidos, ou seja: Conformismo e Fatalismo total.

O partido continua o feudo que sempre foi: um verdadeiro clube de amigos, onde o filiado, o militante, não tem direito nem a voz, nem a voto!

Livro de José Louzeiro, muito esclarecedor pra quem quer conhecer mais dos porões do PV:

http://tinyurl.com/3yjlm39

segunda-feira, 13 de setembro de 2010 12:21:00 BRT  
Blogger Marcus Vinícius Simioni disse...

PARTE 02

Nesse sentido, a campanha da Marina foi entendida e buscada por esses senhores feudais do partido como uma grande oportunidade de sair do mesmismo das vereâncias e assessoratos (que sempre deram a medida exata da mediocridade do partido), se alavancando na possibilidade de pegar carona no desempenho eleitoral da Marina, supondo que os votos da Marina se converteriam também em votos na legenda: oportunismo puro! Arrecadar votos com uma liderança importada.
O PV é um partido reprimido. Não há sequer 01 diretório estadual independente. Todos as executivas estaduais são provisórias! Todas indicadas pela Nacional! Claro, nessas condições, quem está na presidência se perpetua no poder. Ficaria indiferente caso se tratasse de um clube, no entanto o partido recebe um polpudo fundo partidário. Fundo a que responde o partido com 24 anos de existência e apenas 73 prefeitos eleitos em todo o Brasil. Somente a Micarla governa uma capital (Natal-RN) e, casualmente, com apoio do DEM.

Nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Roraima, Rondônia se unem aos setores mais degradadores do agronegócio... sem qualquer vinculação ideológica. Por vezes se utiliza o partido pra fazer o "greenwashing político": limpeza da reputação de determinados setores por candidaturas ligadas a ideias amenas e contemplativas da natureza.

Fora isso, o que predomina em outros estados, sobretudo os maiores, é um alinhamento automático com PSDB/DEM. Algumas vezes isso fica explícito. Noutras há um esforço em se disfarçar. Isso não me afetaria caso a Marina se contrapusesse a esta situação. No entanto, cada vez mais, a Marina abandona a sua história pra servir de batente a um outro candidato que hoje enfrenta, de maneira vil e difamatória, o partido no qual Marina militou por 30 anos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010 12:23:00 BRT  
Blogger Marcus Vinícius Simioni disse...

PARTE 03

Fora isso houve mudanças de discurso. Mudanças de ideia sobre as privatizações e diante de temas como o Controle Social da Mídia:

http://www.youtube.com/watch?v=ERK97L_j9Bg

http://www.minhamarina.org.br/blog/2010/06/marina-e-contra-qualquer-forma-de-censura-a-imprensa/

http://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2010/06/20/democratizacao-da-comunicacao-perguntas-a-marina-silva

Como vê, tive diversas decepções nesta caminhada, mas a maior de todas foi mesmo ver o abandono do Projeto Brasil Sustentável, que seria um foro virtual para o debate programático, aí sim, análogo ao que fez Antanas Mockus durante a refundação do Partido Verde colombiano. Aliás, assisti atentamente e com muito entusiasmo ao processo que levou Mockus ao segundo turno.

Hoje Mockus atribui o seu desempenho à consistência da sua proposta, que iniciou com uma consulta pública na escolha do candidato do Partido, a elaboração do programa em conjunto com os militantes e a interação ímpar entre militantes e candidato.

Por aqui a ideia do Projeto Brasil Sustentável foi prontamente abandonada. A ideia de democratização do PV é um pesadelo dos seus maiores dirigentes, o presidente chega ao cúmulo de dizer, abertamente, que no PV nunca haverá o que ele chama de "democratismo".

segunda-feira, 13 de setembro de 2010 12:24:00 BRT  
Blogger Marcus Vinícius Simioni disse...

PARTE 04

ndo por aí, o programa se tornou um desfile intelectual de um grupo de iluminados: escolhidos pela Marina em seu critério "dos melhores". Gente como o professor Eduardo Gianetti da Fonseca que defendeu a invasão do Iraque pelo EUA, argumentando ser uma sorte tremenda o mundo contar com a moderação de forças dos EUA.
Só o fato de se utilizar um critério subjetivo a uma pessoa já se vê uma pretensão antidemocrática enorme, um messianismo ímpar e além de um preconceito de origem.

Daquele projeto Brasil Sustentável ficou apenas a iniciativa de arrecadação para o partido(fui um dos "patos" que colaborou). Aliás, a campanha da Marina tem sido pródiga justamente nisso: democratização da arrecadação, só na arrecadação.

A campanha que começaria "ao fim e ao cabo do processo de refundação", foi menor do que o efeito da frase.

Ontem tivemos debate na RedeTV, ao invés de questionar os outros candidatos de forma a forçar a agenda ambiental (conforme ela mesma se propôs lá no início da caminhada), ela resolveu aderir ao denuncismo fracassado do Serra. No mesmo tom fulanizador de quem pretende acusar o adversário de se envolver na quebra de sigilo sem, no entanto, ter provas disso.
Pior foi ver que nem nessa crítica ela se mostrou honesta, propositiva, avaliando as deficiências do sistema da Receita. Acusou a Dilma no mesmo tom que Serra a havia acusado.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010 12:25:00 BRT  
Blogger Marcus Vinícius Simioni disse...

PARTE 05

Enquanto isso, e na esteira do prejuízo do debate, temas como Código Florestal, Política Nacional de Resíduos Sólidos, Usina Hidrelétrica de Belo Monte, COP15 e preparativos para a COP16 ficaram na periferia, ironicamente, pela candidata que iria salvar o mundo segundo a revista "Times".

Dentro do partido, resoluções determinando que se iria aplicar a lei de Ficha Limpa (no início do ano) mesmo que essa lei não tivesse êxito na aprovação, se tornaram risíveis com a manobra jurídica que personalidades do partido como Sarney Filho(PV/MA) que conseguiu do TRE-MA a façanha de ter a lei Ficha Limpa reinterpretada no sentido em que não valeria para crimes retroativos à sua aprovação... Veja você, logo a Marina que saiu do PT no mesmo dia em que o PT livrou o Sarney de investigação no senado, veja onde foi parar. O que antes era apelo ético, hoje se tornou golpe de cena.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010 12:25:00 BRT  
Anonymous Thereza Christina Jorge disse...

Finalmente, algo que li que funcionou como uma luz no fim do túnel. Parabéns, não é a primeira vez que acho você lúcido não-patrulhado e profético. Thereza

segunda-feira, 13 de setembro de 2010 14:49:00 BRT  
Blogger Wood disse...

Prezado Alon,

Desculpe-me, mas tutano é o que a candidata Marina não tem! Ela poderia se firmar como oposição responsável e discutir programas. A contra partida deste ato era ficar fora da mídia. No entanto ela escolhe ser linha auxiliar de uma candidatura que não se sustenta sem escandalosos convenientemente divulgados, e ainda é taxada como esperta, com tutano.

Alon, faça o favor, respeite a inteligência de seus leitores.

Antonio Carlos

quinta-feira, 16 de setembro de 2010 12:16:00 BRT  

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