quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sem nada a ganhar (22/09)

É nítido nos últimos tempos que os líderes continentais buscam aumentar a distância do imbróglio levantino, para que não cheguem a estas plagas os estilhaços de uma eventual confrontação

Publiquei dias atrás um comentário sobre as autocríticas de Fidel Castro, especialmente quando reconheceu, segundo dois jornalistas americanos, que o modelo em Cuba não funciona mais.

Depois Fidel fez questão de retificar o sentido das palavras, mas os entrevistadores reafirmaram o publicado. E a polêmica diluiu-se, inclusive porque a realidade se sobrepõe às versões. E poucos duvidam da necessidade de mudanças urgentes e profundas em Cuba.

Agora é o chanceler Celso Amorim quem vai à ilha, levando uma carta de Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente cubano, Raúl Castro. O Brasil tem sido agressivo na busca de espaços econômicos ali, mas move-se com cuidado para não bater de frente com os Estados Unidos.

Pois para os americanos não faz sentido estimular a prosperidade em Cuba sem antes arrancar dos dirigentes comunistas o compromisso com reformas democráticas. Uma encrenca, pois na cúpula cubana manter a revolução intocada é ponto de honra.

Continuar no poder é condição sine qua non.

Que Cuba siga seu caminho, como achar melhor. Cada país cuida da sua vida. Mas o objetivo desta coluna não é discutir, pela enésima vez, para onde vai Cuba. É também notar a suavidade de Fidel Castro ao reagir à publicação de algo desagradável. E que supostamente não correspondia à verdade.

Ressurgido da doença que o tirou do comando do país, o ex-líder tem dedicado os dias a escrever suas “reflexões”, a forma de ele intervir publicamente no processo político local e global. Se as entrevistas são esporádicas, os escritos são regulares. Segundo os relatos, Fidel usa uma caneta “Pilot” para rabiscar o papel sobre a mesinha, e o manuscrito é digitado por outra pessoa.

Goste-se ou não de Fidel, impressiona que na idade dele e nas condições precárias de saúde encontre energia e mantenha a disciplina mental para produzir os escritos. É também o produto de uma vida de leituras e atividade intelectual intensa. Com os anos (e aqui são muitos), cria-se um estoque de ideias útil para o crepúsculo. E o tirocínio agradece.

Fidel reagiu com fidalguia ao modo como Jeffrey Goldberg e Julia Sweig expuseram as considerações dele sobre o sistema em vigor na ilha. E engoliu a reconfirmação de ambos sobre o que ele tinha dito e procurado desmentir. Certamente não lhe interessava estender ou agravar a dissonância.

Até porque o tema não tinha sido central na conversa, voltada principalmente para discutir a possibilidade de um conflito no Irã.

O ex-presidente de Cuba tem consumido as energias nisso. Tem motivos de ordem global, mas também locais. Os nexos entre os projetos iranianos e os movimentos políticos emergentes na América Latina estreitaram-se nos últimos anos, e nos levaram a uma situação renovada.

Diante das novas relações hemisféricas com Teerã, um eventual problema que antes exigiria de nós apenas declarações protocolares e posições formais tem agora maior potencial de impacto aqui. Especialmente nas relações dos Estados Unidos com a Venezuela e o Brasil, os dois principais aliados de Havana — e de Teerã — no hemisfério.

É nítido nos últimos tempos que os líderes continentais buscam aumentar a distância do imbróglio levantino, para que não cheguem a estas plagas os estilhaços de uma eventual confrontação.

A mesma lógica comanda as recentes e unânimes conclamações às Farc pela libertação dos reféns na Colômbia e pela suspensão das atividades militares. Qual é a lógica? O melhor que pode acontecer é nada acontecer.

Uma década de paz política fez a esquerda latino-americana bombar. A última coisa que ela, esquerda, poderia desejar é ser arrastada para confusões nas quais agora, talvez um pouco tardiamente, percebe que nada tem a ganhar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (22) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você tem um tema a demonstrar e os argumentos são seus. No fundo o post ficou bom, mas para quem leu a fala de Fidel Castro sobre o modelo cubano publicada pelos dois jornalistas americanos e os desmentidos e confirmações posteriores e observa a ênfase que você deu a história fica parecendo que o seu post não caminha em bases sólidas.
Qualquer análise atenta das declarações de Fidel Castro percebe-se que Fidel Castro as fez como quem viveu e sabe da história enquanto os dois jornalista parecem duas crianças a gritar "ele disse, ele disse" e depois que Fidel Castro confirma que ele dissera, mas que o que ele dissera não era o que os dois jornalistas entenderam que ele dissera, as declarações dos dois jornalistas deram a impressão de eles serem ainda mais infantis, pois eles pareciam gritar ainda mais alto "eu não disse que ele disse, eu não disse que ele disse".
Em relação ao Irã, eu lhe dou razão no sentido de que não é interesse de nenhum país da América Latina que estilhaços do Irã respinguem aqui.
De todo modo, penso que o Brasil tem agido na avaliação de que não haverá estilhaços no Irã.
Política Externa não é minha seara nem eu tenho conhecimento do Itamarati para poder saber qual a avaliação que eles fazem do Irã. Acredito, entretanto, que se pontualmente outros interesses possam mover o mundo, ele é na maior parte das vezes conduzido por interesses econômicos, e, como nunca houve demonstração de que não seja assim, não há razão porque temer que esses interesses econômicos não venham a prevalecer agora. Em outras épocas George Bush invade o Iraque para ganhar as eleições para presidente dos Estados Unidos, lá na frente o setor financeiro se arregimenta para eleger Barack Obama e livrar a cara dos americanos e da moeda deles de sofrer uma aversão mundial. Lá naquelas épocas, George Bush, diferentemente de um FHC que talvez quisesse ser presidente pela simples vaidade do diploma de presidente, precisava ganhar para comandar orçamentos trilhionários. Agora o interesse financeiro de tornar o dólar mais bem aceito no mundo é explícito.
Para o bem do dólar, o mundo vai ter que viver um longo período de paz. Com uma população de 70 milhões de habitantes, quase na fronteira da Europa, não há porque imaginar que no Irã haverá estilhaços.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/09/2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010 19:00:00 BRT  

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