terça-feira, 14 de setembro de 2010

Platitudes (14/09)

Na hipótese de Dilma Rousseff chegar à Presidência, a força política intrínseca das urnas talvez dê a ela o impulso necessário para reconstruir o sistema imunológico governamental, debilitado nos anos recentes

Quem ganha mais quando um governo é alvo de denúncias? Ele mesmo ou a oposição?

A resposta óbvia seria “o país”.

Como toda generalização, seria também inútil. Platitude. É preciso sempre analisar tais episódios à luz da luta política, da disputa pelo poder, vetor que em última instância comanda as ações dos personagens.

Mas será que não há, em todo caso, um “interesse geral” embutido em qualquer braço de ferro da política?

Há outra pergunta razoável: Como combater um governo popular, termo aqui usado como sinônimo de “detentor de grande popularidade”? Ou deve-se abdicar de combatê-lo por causa das remotas possibilidades imediatas de sucesso?

Bom exemplo pode ser buscado em tempos não tão distantes, nas circunstâncias enfrentadas pela oposição ao regime militar na passagem dos anos 60 para os 70 do século passado.

Foi um período maravilhosamente próspero, o do “milagre brasileiro”. Infelizmente, a produção de prosperidade convivia com a supressão das liberdades, com a tortura dos presos políticos e outras coisas tristes e condenáveis.

Fez bem a oposição na época (o MDB, Movimento Democrático Brasileiro) quando decidiu não esmorecer. Mesmo passando por vexames homéricos, como a surra que tomou na eleição de 1970.

Daria o troco quatro anos depois, na lavada que impediu a institucionalização do regime e abriu o caminho para a democracia.

Antes que os lunáticos de plantão comecem a espumar, esclareço não haver aqui qualquer paralelismo estrito entre aquela época e hoje. São situações diferentes. Uso aqueles episódios históricos como referência para os acontecimentos atuais.

Existir uma oposição, orgânica e difusa, é sempre bom para a democracia. Mais: é essencial. E é bom para o próprio governo. Governos são conglomerados de interesses e ambições, cujo controle é impossível fazer só “de dentro”. Pois o normal é os “de dentro” serem solidários entre si quando a pressão “de fora” ameaça o condomínio.

E importa menos aqui saber se a oposição e a fiscalização externas em cada caso são “justas” ou “injustas”. O importante é que existam. Funcionam como um sistema imunológico sadio a eliminar regularmente células estranhas, que de outro modo poderiam se transformar em focos de doenças capazes de levar o organismo à debilidade extrema e mesmo à morte.

A administração de Luiz Inácio Lula da Silva vai muito bem. A economia cresce, a confiança dos consumidores e das empresas anda em alta, alguns nós estruturais da injustiça social vão sendo enfrentados. O resultado é a força política do presidente, do partido dele e da candidata que apresentaram à sucessão.

Mas o governo tem também uma deficiência séria. Seu sistema imunológico deprime-se progressivamente . Um sintoma são as reações tíbias aos desarranjos. Estes sucedem-se, sem que se note incômodo ou constrangimento. Ou ação real. Nada parece tão grave que não possa ser tratado com um muxoxo.

É da natureza do poder. Quando se vê muito forte, dá-se ao luxo de (não) reagir assim. E sempre haverá nos palácios quem sopre nos ouvidos do príncipe que o exercício bruto da força é a solução para todos os problemas.

Por um tempo, pode até ser. Pode ser até por um bom tempo. Mas nunca é para sempre.

Esta coluna não terminará pessimista. Eis uma vantagem da democracia. Em janeiro haverá um novo governo. Hoje o cenário mais visível na neblina é a continuidade. Se houver a virada, e a oposição ganhar, a ruptura será natural.

Mas mesmo na hipótese de Dilma Rousseff chegar à Presidência a força política intrínseca das urnas talvez dê a ela o impulso necessário para reconstruir o sistema imunológico governamental, debilitado nos anos recentes.

Você pode achar que é só torcida. Mas quem disse que o analista político não tem o direito de torcer de vez em quando?

A alternativa é ruim. É o eventual futuro governo já nascer velho, já manietado pelas coisas que não podem mais ser corrigidas facilmente, pelos tumores inoperáveis, com suas metástases.

Desculpem a platitude, mas o Brasil não merece isso.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (14) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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20 Comentários:

Anonymous Radical Livre disse...

"Um sintoma são as reações tíbias aos desarranjos. Estes sucedem-se, sem que se note incômodo ou constrangimento."

Custaria enumerar alguns destes desarranjos? A frase, solta assim, peca pela platitude. Qualquer coisa cabe nela.

abs

terça-feira, 14 de setembro de 2010 00:57:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

Cosquinha

O máximo que a mídia oposicionista consegue fazer para prejudicar Dilma Rousseff a semanas do pleito são essas acusações vazias e insignificantes contra sua assessora? Convenhamos, o governo Lula (e a própria Dilma) já foi vítima de baboseiras pseudo-investigativas muito piores nos últimos oito anos.
A crise de credibilidade da imprensa corporativa é tamanha que chegamos a tolerar e até ridicularizar certas ilicitudes “menores” – sejam as calúnias do noticiário, sejam os eventuais desvios que ele aponta. Aceitamos a falta de escrúpulos generalizada como contingência do processo eleitoral. Ninguém realmente acredita que a Veja ou a Globo receberão punições equivalentes aos malefícios que provocaram, ou tentaram provocar.
O grande ataque midiático, anunciado e temido pela militância petista, não está descartado, pelo contrário. Mas, observando o ritmo da desmoralização dos veículos a serviço de José Serra, a tendência é eles apenas alimentem o já caudaloso anedotário jornalístico nacional. A não ser que a iniciativa extrapole o âmbito puramente noticioso.

http://www.guilherme.scalzilli.nom.br

terça-feira, 14 de setembro de 2010 01:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

Pra variar a sua coluna e' brilhante, mas nao sou tao otimista qto vc.
Supondo q o proximo governo seja da Dilma (tudo indica q sera'), ele ja' nascera' velho e com tumores inoperaveis.
Posso estar errado, mas creio q a disputa de poder interna (PT x PMDB, PT x PT etc) e a irresistivel tendencia ao patrimonialismo q o poder gera, associado ao fato q a economia deve diminuir naturalmente seu ritmo vai gerar muita polemica, escandalos e uma oposicao mais forte.
Por fim, parafraseando Clint Eastwood em 'Os Imperdoaveis': "Deserve's got nothin' to do with it"

terça-feira, 14 de setembro de 2010 09:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que está sendo divulgado não é assim insignificante, Guilherme Scalzilli. Se, por algum motivo, o que se denuncia é banalizado por corriqueiro, se as vítimas são também banalizadas e tomadas por réus, porque alguém acostumou-se com escândalos, isso denota algo muito mais grave. Como admitir que quebras de sigilos e uso de órgãos públicos para fins pessoais ou de grupos podem ser consideradas coisas banais? Se assim for, algo está profundamente errado. Ai, já não estamos falando de um País que se desenvolve. Mas de algo que não saiu do lugar, senão para um lugar muito pior. E o que o fez piorar não será extirpado, mas sim, cultivado com mais afinco, mais adubo. É difícil crer que tudo isso sequer, minimamente, apoquente cidadãos compulsórios pagadores de tributos. Seria considerar que todos pedem por esbulhos. Admitir tal estado de coisas é, no mínimo, desastroso.
Swamoro Songhay

terça-feira, 14 de setembro de 2010 11:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Creio que o discurso de Lula em Santa Catarina, responderia concisamente as inquietações do bloguista. Pessismismo ,deixemos por conta dos velhos complexos nacionais,que supõe a falencia das inicitivas abaixo da linha do equador.Procupemo-nos, sim, com os rumos erráticos da mídia.Oito anos de oposição,com perspectiva de mais oito.O descrédito é visivel.Hoje ,pregam para aqueles 4% das pesquisas.E ,os 96%,restantes ?

terça-feira, 14 de setembro de 2010 11:37:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

O problema, Alon, é que o Governo Dilma só entrará em campo depois que o Governo Lula aceitar sair. Até lá será de continuidade. A menos que o peso do cargo em uma democracia desbalanceada conduza a por fogo no circo e, a La Dom Pedro, lançar laços fora.
O risco é o do aprofundamento do desequilíbrio, com o reforço da figura monocrática, a exemplo de outros países latinoamericanos, agravado pela “extirpação” da Oposição.
Nuncantes a imprensa neste País, com os defeitos que tiver – e os têm -, fará falta. O que não nos falta é cópia mambembe da Senhora Kirchner.
Melhor para todos que a inspiração de Lula tenha sido a exchanceler Bachelet.

terça-feira, 14 de setembro de 2010 14:06:00 BRT  
Blogger Paulão disse...

Não concordo que este governo seja brando com os "desarranjos". Durante este governo vimos ministros cairem, poderosos serem processados no STF, milionários sendo algemados, governadores e vice governadores sendo cassados, senadores e deputados caindo e sendo processados. "Muxoxo" ? Não.

O governo anterior pode ter sido "muxoxo", ao engavetar tudo o que conflitava com seus interesses. Este governo para o bem ou para mal tomou atitudes que antes eu não havia visto no país das bananas tropicais.


Se o governo de continuidade der a liberdade que este deu a policia federal, ao ministério público, ao TCU e outros orgãos de controle, tenho certeza que será muito melhor que a alternativa oposicionista, que no ambito federal não fez nada disso, e no ambito estadual fez ainda menos.


É preciso melhorar ? Com certeza ! Porém a oposição , neste caso, não representa melhora e sim atraso. A oposição cumpriria melhor papel derrotada, ao apontar erros e repercuti-los através de uma mídia
que a apoia., porém estes erros apontados devem estar baseados em provas, ou terão cada vez menos força para enfrentar a situação, o povo não engole mais qualquer coisa meus amigos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010 16:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Estamos vivendo um momento muito importante na politica brasileira. Vislumbra-se logo adiante a possibilidade de uma mulher vir a ocupar o cargo mais importante no país. O que se observa de maneira geral na mídia é a forma pouco respeitosa que se dá a ela Dilma, esquecendo sua competência técnica, maior até que politica, e se fazendo projeções sobre o que o atual Presidente fará após sair do cargo, uns (inclusive o senhor Serra , candidato oposicionista) lamentando que em 2014 Lula voltará a ser candidato e outros especulando sobre seu futuro e afirmando que ele se candidatará a Secretário Geral da ONU. Quem é candidato e quer ser Presidente , a princípio, deveria se preocupar com proposições de seu governo e não com o que os opositor fará e será quando sair da Presidência da República. Afirmam alguns, de maneira alarmista, que o pais tá doente pela forma como se conduzem algumas coisas e de como se tomam algumas decisões. Será que as mazelas e os desarranjos não estão dentro de algumas cabeças que tiveram suas expectativas frustradas? Será que a preocupação com um governo já nascer velho não tem um incômodo ar de ranço de uma política ultrapassda cujo espaço não se verifica mais atualmente para tal? Minha crença é que as coisas ficarão melhores e os cuidados com o bem público e a ética serão redobrados pois caso isso não ocorra o custo para para o PT será desastroso. Toda e qualquer ação que venha a atacar algo ou a alguém deve ser rechaçada de imediato, inclusive as que tem sua gênese nos outros poderes que até o momento estão passando "batidos". Fico me perguntado por que motivo as bandalheiras ocorridas no governo FHC (privatizações, e o mensalão que iniciou lá naquela época) não fizeram e nem fazem parte da pauta das grandes agências de notícias que poderia ter como título Quem se aproveitou mais? Bandalheira Comparada... Acho que atualmente se peca bem menos e tais pecados se tornam públicos, o que, de certa forma não ocorria no passado pois TUDO éra abafado, entretanto ressalto que isso não justifica erros cometidos decorentes de atos corruptos. Vale a pena pensar nisso.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010 16:33:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Escrevi "indiferentismo". Mas a palavra melhor para expressar o que eu queria dizer é niilismo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010 16:52:00 BRT  
Anonymous Túlio Villaça disse...

Entendi a premissa de auto-regulação do sistema democrático independentemente da boa intenção da oposição. Mas discordo. Não acho que não importe se a "oposição e a fiscalização externas em cada caso são 'justas' ou 'injustas'." Partindo da premissa utópica de que no fim das contas quem lucra com as denúncias é o país, é óbvio perguntar se o país lucra com denúncias falsas - e acho que não. Além disso, se o objetivo de uma denúncia é apurar e punir os culpados, o país lucra. Mas se o objetivo é desestabilizar o governo, não sei se lucra - e aí é inevitável a avaliação política. Concordo que o governo atual tenha se tornado leniente e que, se a Dilma ganhar, poderá reestruturar o "sistema imunológico", o que será bom. Por outro lado, levando em conta o oportunismo político das denúncias atuais, uma vitória do Serra o poria numa vidraça de cristal. Nenhum deslize poderia ser perdoado por quem fez as acusações que ele está fazendo. O governo precisa ser justo, mas se não é, é a oposição que precisa ser.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010 18:40:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Acho que não chegou. Vai novamente o primeiro comentário e já corrigido.

Alon

Escolher pelo o que ou por quem torcer quando vislumbra um futuro é direito teu como é de qualquer um e, em última instância, algo que concerne à consciência dos indivíduos, e neste caso, ao indivíduo Alon.

É assunto dos leitores o que você escreve, isto é, os seus atos jornalísticos, os seus objetos em análise, os quais podem ser colocados em debate em comentários, concordâncias, discordâncias.

Comento que a distinção proposta no post entre otimistas e pessimistas é parcial. Ela seria mais completa se contemplasse também os céticos. E os indivíduos que compõem essas três grandes categorias classificatórias têm em comum o desprezo moral ao niilismo militante e/ou oportunismo blasé em relação ao mundo sensível, no qual a política é elemento fundamental.

No entanto, nada é mais eficaz do que um bom capilezinho oferecido pelo poder para entorpecer a indiferença dos indiferentes.

Abs.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010 19:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pera aí, pera aí, de novo Alon. Eu não espumei como um lunático pela comparação entre períodos ditatorial e democrático, mas, saiu um cuspezinho aqui do lado da minha boca, pois, achei superotimista a sua avaliação de que o PMDB resolveu todos os nossos problemas a partir da oposição permitida dentro da ditadura. Que o revés de 1974 que teria aberto um caminho...Que caminho longo deveríamos afirmar! Tão lento em gradual com quria Geisel, com ele tivemos o Pacote de Abril. Depois não foram apenas longos quatro anos de Figueiredo, mas longos seis com a extensão de mandatos, e para finalizar uma bomba no Rio Centro como demonstração de que a truculência encontrava-se ameaçadora. Se não bastasse tudo isso, tivemos frustadas nossas reivindicações de Diretas Já, e engolimos não apenasn mais quatro, mas ainda, um ano a mais para Sarney. Noves fora nada, desde 1974 até 1989, foram quinze aninhos.
Agora, se pelo contrário, avaliássemos, os poderes estabelecidos como continuidade do ideário econômico-político do grupo que executou o Golpe Militar de 1964, aí então é covardia, parece mesmo que eles nunca estiveram fora. Só para exemplificar que tal penasar em dois ícones civis do tempo da ditadura, que ainda circularam e circulam entre nós, José Sarney, Antônio Carlos Magalhães. Da até uma monografia sobre o tema.
Ismar Curi

quarta-feira, 15 de setembro de 2010 21:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Oposição incompetente não pode produzir o que dela se espera dentro da lógica apresentada.
A oposição ao governo Lula não esteve preocupada com os problemas nacionais, tampouco em aperfeiçoar a administração pública ou coisa semelhante. DEM e PSDB olharam para o próprio umbigo, como sempre fizeram quando foram governo.
A torcida é em vão. A derrota será acachapante e uma nova oposição, mais qualificada (ou pelo menos, mais inteligente do que esta), certamente surgirá nos próximos anos. É o que eu espero.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010 10:08:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, estou enganado ou você também sente que há algo errado em tudo isso? Se a ação profilática decorre da presença da oposição, como poderia decorrer da “força política intrínseca das urnas” no caso de um governo recém eleito? Algo roda em falso na nossa democracia. Liberdade de organização política existe, imprensa livre também – chorar as pitangas de estar sendo perseguida faz parte do exercício dessa liberdade de imprensa – mas nada parece fazer efeito... acredito que a tração falha justamente onde o “teatro” (e com essa palavra não quero desqualificar a denúncia, ela sempre será um teatro, cuja veracidade cabe averiguar) das denúncias deveria ganhar consistência, plausibilidade (ou não, ser desmascarado como leviano), e me refiro não apenas aos julgamentos indefinidamente adiados, cuja conclusão tempestiva seria de grande ajuda, me refiro também a investigação sobre o que é alegado, e aqui quase nada aparece. Podemos pegar qualquer caso recente, o “esquema Collor”, por exemplo, que foi qualificado como o maior esquema de desvio de verba pública... quem pagou? Quem recebeu? Quanto foi? O que foi apurado com segurança? Ou o mensalão, foi um esquema de “mesada” a parte dos deputados para que votassem com o governo, como acusou a oposição, ou foi o acerto de dívidas de campanha em situação de falta de recursos “contabilizados”, como alegou o PT? Na ausência de conclusões mais claras nos fingimos que o teatro é o bastante, por exemplo, a pressão sobre parlamentares do PT foi pesada até que se consumasse a cassação de José Dirceu... quem ficou para depois foi absolvido, a oposição acreditava tolamente que sangrara fatalmente o governo. Furibunda e ridícula foi a reação à dança em plenário da Deputada Ângela Guadagnin, que desmascarou a indignação oposicionista, e foi massacrada por essa oposição e pela imprensa. Essa satisfação com o que é farsa, com o que é circo, cria uma aparência de democracia que por sua vez permite uma disputa como a atual, entre o seis e o meia dúzia. Onde, inclusive, a proximidade ideológica dos candidatos impede que o segundo colocado explore as deficiências mais evidentes da candidata líder das pesquisas. Minha esperança é que a morte política da atual pseudo oposição permita o surgimento de uma oposição real, que represente ideologicamente a parcela da população insatisfeita como o PT. Caso contrário, caso nos mostremos incapazes de produzir uma força política conservadora consistente, caminharemos para um novo varguismo, ou para sermos mais atuais, um novo chavismo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010 12:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker
Li recentemente uma discussão sua com Idelber Avelar no blog dele junto ao post “Aos leitores que querem mais Derrida e Jackson do Pandeiro, e menos Dilma” de quinta-feira, 09/09/2010, no endereço http://bit.ly/c1Jvh7, a respeito dos números comparativos do governo de FHC com o de Lula. Gostei mais das ponderações de um outro comentarista João Paulo Rodrigues, principalmente no comentário (#92) de 10/09/2010 às 01:24 PM em que ele de certo modo mostra que os números são frios e que não dizem muita coisa, além de que talvez fosse necessário esperar o passar do tempo para ver a consistência dos números.
Concordo com ele, mas penso um pouco de outra forma. Para mim os números são escolhas de nossa ideologia. O julgamento dos governantes, enquanto não se inventar um instrumento de medição objetivo ficará sempre obnublidado pela nossa incapacidade de compreensão da realidade de modo autônomo de nossa ideologia.
Assim é sempre bom dizer quando se está julgando um governante que se trata de opinião. Eu sou um comentarista de blog e, portanto, o que eu digo é quase sempre opinião. Não sei se há alguma regra para os donos dos blogs, mas em princípio parece-me que um blog é mais aberto para se constituir em uma espécie de jornal de opinião. Nos blogs de jornalistas, entretanto, deve-se redobrar a atenção de tal modo a que se fique bem clara a distinção entre opinião e fatos.
Essa atenção é ainda mais importante se atentarmos para uma questão posta no quarto parágrafo. Pergunta você:
“Mas será que não há, em todo caso, um “interesse geral” embutido em qualquer braço de ferro da política?”
Sim, há em todo caso um interesse geral. Esse não é o problema. Ou o problema decorre disso e de mais um pouco. A não ser quando o judiciário diz em sentença transitada em julgado que o interesse geral e esse ou aquele, nós não sabemos qual é o interesse geral. E a decisão do juiz pode ser errada, mas é a mais correta. E é dessa impossibilidade de sabermos qual é o interesse geral que acaba nos impedindo de julgar objetivamente os nossos governantes. Onde há o interesse geral perfeitamente definido, determinado e conhecido todos são unânimes em atendê-lo e nesse ponto os governantes não se diferenciariam. Eles se diferenciam em relação aos casos em que o interesse geral é indeterminado, ou melhor, é determinado pela nossa ideologia.
Logo após você traz duas questões em seqüência:
“Como combater um governo popular?”
E acrescenta:
“Ou deve-se abdicar de combatê-lo por causa das remotas possibilidades imediatas de sucesso?”
Em meu entendimento, embora possa parecer apenas a adição de mais uma pergunta, tendo em vista se tratar da quarta ou quinta questão que você formulou, o uso de “ou” deu um caráter disjuntivo ao que não é assim. Tem-se ai mais uma questão que não anula a anterior.
Agora a sua descrição de qual deve ser o papel da oposição exemplificando comparativamente com o papel que a oposição desempenhou durante a ditadura militar não foi feliz. Melhor seria mencionar a época de Juscelino Kubitschek em que os altos índices de crescimento econômico não impediram que a oposição se destacasse seja através de Jânio Quadros, seja através de Carlos Lacerda. Comparação muito mais natural quando se sabe que na época nós vivíamos em uma democracia como vivemos agora.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/09/2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010 22:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker
Você diz que
”E é bom para o próprio governo. Governos são conglomerados de interesses e ambições, cujo controle é impossível fazer só “de dentro””.
Sim é verdade. É assim, foi assim e assim será. Entretanto, você faz um acréscimo que não me pareceu à altura da sua sempre muito arguta argumentação. Diz você:
”Pois o normal é os “de dentro” serem solidários entre si quando a pressão “de fora” ameaça o condomínio”.
Se se deixa conduzir por sua lógica chegar-se a conclusão que é preferível que não houvesse oposição ou que ela não ameaçasse para que os de dentro não fossem solidários entre si.
Ai você surge com a bela construção da oposição como sistema imunológico do governo. Bela eu disse, mas não custa reafirmar que as comparações claudicam. Primeiro que a crer em outras passagens do seu post há dois sistemas imunológicos: o de dentro e o de fora ou o da oposição e o da fiscalização externas que você diz que é importante que existam e o da fiscalização interna que, embora não explicitada, fica subentendida. Dois sistemas imunológicos que podem estar em conflito e se destruírem reciprocamente.
Que se aceite, entretanto, como normal dois sistemas imunológicos. Você acrescenta que o sistema a oposição é sadio e que é ele que elimina as células estranhas. Não vou discutir se ele é sadio ou não ou se as células eliminadas são estranhas ou não. O que era necessário esclarecer é quem elimina as células de quem. As células estranhas são do governo ou da oposição e quem as elimina, o governo ou a oposição?
A primeira dúvida certamente eu a fiz constar apenas para argumentação, ainda que mais à frente você não seja muito afirmativo em dizer que sem o sistema imunológico representado pela oposição as células estranhas:
”poderiam se transformar em focos de doenças capazes de levar o organismo à debilidade extrema e mesmo à morte".
Disse que você não foi muito afirmativo porque se se imagina que as células estranhas a serem eliminadas são do governo e não da oposição, o risco de se tornar débil e mesmo de morrer é do governo e, portanto, o resultado de uma oposição sadia é a perpetuação do governo. E aqui a frase famosa “Immota labascunt et quae perpetuò sunt agitata manent (O que é rígido desaba e o que está em constante movimento persiste) parece só fazer sentido se aplicada ao governo que se move por pressão da oposição que melhor faria se ficasse parada.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/09/2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 08:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker
Muito do que eu disse no meu comentário de quinta-feira, 16/09/2010 às 22h24min00s BRT era para justificar a minha discordância ao que você dissera sobre a administração de Lula no início da segunda metade do seu post. Você diz
”A administração de Luiz Inácio Lula da Silva vai muito bem. A economia cresce, a confiança dos consumidores e das empresas anda em alta, alguns nós estruturais da injustiça social vão sendo enfrentados. O resultado é a força política do presidente, do partido dele e da candidata que apresentaram à sucessão”.
Dizer que a administração de Lula vai bem é um fato, mas é também uma opinião. Se você diz que vai bem referindo-se aos altos índices de popularidade do presidente trata-se de um fato. Agora se você está atribuindo uma qualidade da administração de Lula, aí é mera opinião. Só que você apresenta fatos para justificar você ter dito que a administração de Lula vai bem. Vai bem porque a economia cresce, porque a confiança de consumidores e empresários aumenta e porque a injustiça social tem sido reduzida. De certo modo, fica parecendo que você fala da qualidade da administração do governo Lula, não como uma opinião, mas como um fato.
E a leitura de “vai bem”, no sentido de que é boa a qualidade da administração do governo, tem mais um complicador quando você estabelece como conseqüência a força política do presidente. Ora talvez não seja bem assim. Um bom governante pode não ter força política e a possuir um governante administrativamente ruim.
E se tomarmos o governo Lyndon Johnson – e acho melhor mencionar Lyndon Johnson do que a ditadura militar – talvez naquela época existisse crescimento econômico e da confiança e se atacassem os grandes problemas de injustiça social estadunidenses e, no entanto, ele nem arriscou a concorrer a reeleição. A bem da verdade eu não deveria trazer o exemplo de Lyndon Johnson não só por desconhecer os dados da economia americana, mas também porque não concordo que o crescimento econômico, o povo satisfeito e o enfrentamento da injustiça social significam a existência da boa qualidade da administração pública.
Enfim, parece-me que o parágrafo poderia ser construído por três frases, mas desde que elas não guardassem relação e teríamos só fatos. Você poderia ter dito: A popularidade do governo é alta e se constata que a economia cresce, que aumenta a confiança, que se combate a injustiça social e que há força política do presidente, do partido dele e da candidata que apresentaram à sucessão.
Da forma que você disse, principalmente no tocante a administração do presidente Luis Inácio Lula da Silva, ficou transparecendo que você se referia à qualidade da gerência do governo Lula, ou no mínimo há dubiedade.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/09/2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 13:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

As oposições devem sempre fazer o papel com o qual apresentaram-se e pediram votos ao eleitor. Ou seja, se por acaso apresentaram-se como oposição, praticamente assinaram um contrato com o eleitor: vou representá-lo naquilo que você considera errado no governo. Idem para a situação: vou representá-lo naquilo que você considera certo no governo. Nuances acontecem ao longo do tempo: achar tudo errado ou achar tudo certo. O que não dá é ter oposição governista. Ou governista de oposição. Vira bagunça. O que vivemos hoje, malgrado o simplismo da análise, é um pouco das duas coisas. Ou de todas as coisas, o que bagunça ainda mais. Pode ser debitado a isso, sem desconsiderar o oportunismo, a falta de debates sobre política externa, política econômica, educação, infraestrutura etc. Temas que aparecem apenas em rápido sobrevôo nos ditos programas. Além do fato dos principais candidatos, em quase todas as eleições, parecerem iguais. Assim, parecem jogar pacotes para cima e quem pegar, pegou. Quem comprar, comprou. E a vida segue.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 13:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker
Depois de dizer que a administração de Luis Inácio Lula da Silva vai muito bem, e aqui supondo que você se referisse a qualidade da gestão do governo Lula e não ao índice de popularidade dele, você começa a elaborar tese contrária e diz:
“Mas o governo tem também uma deficiência séria. Seu sistema imunológico deprime-se progressivamente . Um sintoma são as reações tíbias aos desarranjos”.
Aqui eu não entro no mérito se o governo tem sistema imunológico deficiente. É bem possível que você esteja a dizer a pura realidade. É bem verdade que é uma realidade um tanto abstrata, pois não se sabe em relação a que nível de eficiência, em relação a que governo se está atribuindo deficiência ao governo. O que me chamou mais a atenção, entretanto, foi você dizer como chegou a conclusão de que o sistema imunológico do governo deprime-se progressivamente: o motivo foram as reações tíbias aos desarranjos.
Veja como o ser humano só tem como alternativa na avaliação do governo ser ideológico. Segundo você, as reações tíbias aos desarranjos revelam a ineficiência do sistema imunológico. Quem diz que reações tíbias revelam ineficiências do governo, qual o livro, qual a autoridade? É você mesmo a autoridade. Há evidentemente controvérsias. É o que parece indicar os dois parágrafos seguintes do seu post Platitudes” de 14/09/2010. Segundo o que se depreende do que você disse há a reação tíbia e há as vozes dos que propõem o uso bruto da força. Qual é a melhor reação? Você não diz. Fica um pode ser que não se sabe o que é entre os dois extremos, o que me faz pensar que você é defensor do “áureo é o meio termo”. Corrigindo, parece que você é defensor de “áureo é o meu termo”. O que não torna as suas idéias muito diferentes das que propugno, afinal eu também acho que áureo é o meu termo. O que me deixa um pouco preocupado sobre as minhas idéias, que digo parecer com as suas, por não saber exatamente quais são as suas. Não se deve ser tíbio e fazer uso da força?
E se você for a favor da força, parece que o governo resolveu escutá-lo, demitindo a ministra Erenice Guerra. No caso, o uso da força pode-se mostrar interessante. Há a crise do sigilo. A imprensa, não se sabe a pedido de quem, muda a discussão da questão do sigilo para a questão da corrupção de familiares de Erenice Guerra. Erenice Guerra é demitida no modelo da força bruta. E agora, o que teremos na mídia, volta-se a questão do sigilo ou fala-se da bruta decisão do governo? No fim, se percebe, se se leva em conta outras situações semelhantes no passado, que as ações ou inações do governo divulgadas na mídia não são as ações ou inações do governo que o fazem um bom ou um mau governo, mas aquelas que mídia e governo se comprazem em divulgar.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/09/2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 13:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker
Por fim, você prevê que se eleita Dilma Rousseff terá que reconstruir o sistema imunológico governamental. Aqui houve então uma referência a um sistema imunológico do governo depois de insistir muito no sistema imunológico da oposição a serviço do governo. Continuo considerando que dois sistemas imunológicos em um só corpo sejam conflitantes. O melhor é chamar o sistema pelo nome certo: sistema de controle e de auditoria. Supondo, entretanto, que funcionem bem, você diz em seguida que talvez o impulso da vitória dê a Dilma Rousseff condições de reconstruir o sistema imunológico governamental.
Não sei se o sistema imunológico governamental foi destruído. Sei que há a auditoria interna e externa e que elas devem estar funcionando. Se não estão isso já deveria ter sido divulgado pela mídia. Ainda assim, mesmo que não estejam funcionando há a Polícia e o Ministério Público.
Para você, entretanto, se a Dilma não vier com o impulso da reconstrução há o risco, ou melhor, há como alternativa:
“o eventual futuro governo já nascer velho, já manietado pelas coisas que não podem mais ser corrigidas facilmente, pelos tumores inoperáveis, com suas metástases”.
Bem, na letra de “ The sound of silence” há a passagem: “silence like a cancer grows”. Eu sempre achei que Simon pisou na bola ao trazer para a letra da canção e junto ao silêncio o câncer. Aqui também acho que você não foi muito feliz em trazer o câncer para a sua justificativa de que o futuro governo nasce velho com tumores e metástases se não reconstruir o sistema imunológico. Comparação que é claudicante mesmo que se prove que a causa do câncer seja a debilidade do sistema imunológico.
De todo modo, o que deixou-me mais ensimesmado no trecho final do seu post foi a ausência do sistema imunológico da oposição eliminando regularmente as células estranhas. É como você estivesse a dizer que não mais haveria oposição e que de agora em diante tudo dependesse do governo. O Brasil dependeria assim que o governo reconstruísse o sistema imunológico. Insisto, como toda a máquina pública, o sistema de controle e auditoria do governo está em evolução. Em um espaço de 20 anos pode-se dizer com segurança que ele é melhor hoje do que ontem. Não creio que tenhamos que nos preocupar com essa possível debilidade do nosso sistema de controle e auditoria. É claro que isso não significa que ele não possa ser melhorado e que a melhora não seja motivo de nossa preocupação.
Quanto a oposição e a imprensa relembrando o que você disse antes, é essencial que a oposição exista orgânica e difusa. E o mesmo cabe dizer em relação à imprensa. Não se pode ter uma imprensa subserviente ao governo. Fazê-las, oposição e imprensa, desaparecer como você fez no final do seu post, pareceu-me que você subestima a oposição e desconsidera a imprensa. Isso, sim, é que o Brasil não merece.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/09/2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 14:04:00 BRT  

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