domingo, 5 de setembro de 2010

O pêndulo (05/09)

Lula viu longe, e chegou longe, mas talvez não o suficiente. Lula não é Robert Mugabe, mas não leva jeito de chegar ao patamar de Nelson Mandela. A culpa pode até ser das circunstâncias, como alegaria Ortega y Gasset, mas aí, de novo, o que vale não é a explicação sobre a obra, é a obra em si

Luiz Inácio Lula da Silva terá sido um presidente singular na História do Brasil. Principalmente pelo agudo simbolismo da projeção nativa do “american dream”: depois de Lula, ninguém mais poderá dizer que o Brasil não tem mobilidade social, ou que aqui é uma sociedade de castas. Para um país de rosto e alma picados pela varíola dos séculos de escravidão, é um salto gigantesco adiante.

Vamos falar das coisas como são. Depois de Lula ter chegado lá e de ter governado bem, de ter liderado o país numa era de prosperidade e mais justiça social, todo branco bem nascido com alguma massa encefálica e algum caráter deverá fazer sua análise particular de consciência a respeito de como olhava antes para o trabalhador braçal com que cruzava no dia a dia. E observar como olha agora. Talvez seja um belo termômetro qualitativo das mudanças profundas em marcha no país.

O Brasil deve essa a Lula. O político, como o artista, precisa ser avaliado pela obra.

É provável que Lula passe a ser visto mais adiante como o consolidador de uma certa densidade de protagonismo popular nos nossos hábitos políticos. Se for para o bem, nada mau. É o bastante para preencher uma biografia.

Esse é o lado bom. E onde está o problema? No detalhe de que Lula, para cumprir a missão (ou saciar o desejo), precisou, ou preferiu, ou simplesmente quis reproduzir os mecanismos clássicos de exercício do poder entre nós. Os motivos para isso deverão ser analiados pelos historiadores ou cientistas políticos e sociais. Ou pelos estudiosos da alma.

Que façam bom uso dos seus salários nas universidades, ou de suas bolsas de pós-graduação. Como aqui o ofício é jornalismo, posso limitar-me a constatar e especular.

Não é um fenômeno original, mais ainda nas terras fatiadas pelos reis espanhois e portugueses no Tratado de Trodesilhas. O líder popular acaba caindo no canto das sereias que o convencem da beleza e da delícia de concentrar poder, de fundir-se a ele. Justiça se faça, talvez a exceção seja Evo Morales, que, independente das questiúnculas sobre a "pureza” de suas origens indígenas, parece ser bem mais índio do que “criollo” quando o assunto é política.

Lula viu longe, e chegou longe, mas talvez não o suficiente. Lula não é um Robert Mugabe, mas não leva jeito de chegar ao patamar de um Nelson Mandela. A culpa pode até ser das circunstâncias, como alegaria Ortega y Gasset, mas aí, de novo, o que vale não é a explicação sobre a obra, é a obra em si.

Notei outro dia que com o passar do tempo foram desaparecendo do discurso de Lula todos os antigamente citados como responsáveis pelas degraças do Brasil. Banqueiros, latifundiários, oligarcas, sindicalistas pelegos. Foi absorvendo e "anistiando" um a um sob o guarda-chuva legitimador. Sobrou como merecedora de críticas só uma “elite” em boa medida abstrata, cujo único traço comum é a resistência ao líder.

A História não se escreve como o "poderia ter sido”. Mas com seu cacife político e seu peso simbólico Lula está a desperdiçar a mais visível oportunidade que o Brasil já teve de fazer uma consolidação institucional democrática a partir do ângulo da busca de justiça social. Da libertação verdadeira do indivíduo, inclusive em relação ao Estado.

Foi no que Mandela investiu tudo que tinha acumulado politicamente ao longo da vida na oposição e na longa cadeia, e nem assim há a garantia de que sua herança fique intacta nesse aspecto. O que será o CNA (Congresso Nacional Africano) depois da morte de Mandela? Quem sabe?

Mas ele pelo menos tentou.

Vício

A crer nas pesquisas, e não há motivo para não crer, por enquanto não há influência decisiva das eleição nacional nas estaduais. Estas continuam a der desenhadas basicamente por razões estaduais. Pode mudar ainda? Veremos, mas a resistência dos vetores locais é a de praxe.

Assim como na nacional, as eleições estaduais parecem até agora obedecer à lógica da amplitude das alianças políticas. E depois dizem que no Brasil a política é inorgânica. Confunde-se pluralismo com inorganicidade.

É, de novo, nosso vício autoritário.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (05) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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12 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Mugabe? Mas Mugabe destruiu a economia de seu país....

domingo, 5 de setembro de 2010 12:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito interessante a sua reafirmação e autoposicionamento de jornalista frente a um fenômeno político complexo que representa hoje em dia a figura de Lula para todo o mundo. Com certeza nem ele, nem sua cúpula tem ainda consciência mais clara do que representam, mas, quem milita na causa desde os primeiros tempos não tem dúvidas sobre o projeto empreendido, - ele era relativamente simples, porém trabalhoso, frente ao meio social, qual seja: fazer de LULA PRESIDENTE DO BRASIL, essa era e sempre foi a palvra de ordem desse `mix` entre intelecuais e sindicalistas que formam o corpo do partido, e que fique bem clara a diferença sobre os partidos de esquerda tradicionais, aqui a liderança seria dos trabalhadores, e não há como negar esse estatuto, agora que tudo aconteceu mais ou menos como planejado, e, a despeito de todos os percalços, e depois de tudo, agora, mais românticamente ainda, poderemos emplacar uma ex-guerrilheira e primeira mulher presidente do país. Vá lá, que as coisas não tenham saído assim tão bem quanto gostaríamos, mas, negar que um percurso desses não vá marcar a história política do mundo, ah, isso eu duvido, até porque é mais do que evidente.
Ismar Curi

domingo, 5 de setembro de 2010 18:37:00 BRT  
Anonymous CDM disse...

Alon,
Eu acho que você está enganado...
Dizer que o Lula desperdiçou a oportunidade de consolidar as instituições democráticas a partir de um ponto de vista da justiça social é de uma cegueira abissal...
Significa, de um jeito um pouco mais charmoso, caminhar na mesma linha que o FHC no artigo de hoje e a também a fala do blogueiro oficial do Serra, o RA.
Há muita gente que diz que o barbudo fez exatamente o contrário:
Ao inserir milhões de pessoas no "sistema" e possibilitar que esse povo deixasse de ter que se preocupar exclusivamente com o próximo prato de comida, Lula trouxe esse pessoal para a instituicionalidade democrática. Esse pessoal agora pensa no futuro, na motinha 125 c que vai comprar em 60 prestações, na escola das crianças e sobre quando o saneamento vai chegar.
Milhões de pessoas deixaram a condição miserável manipulável a troca de um prato de comida e agora tem demandas de bem-estar, segurança e educação, emprego com carteira e outras coisas mais ou menos típicas de qualquer cidadão.
E isso tem o peso de uma revolução política, só que silenciosa. Mas pouca gente entendeu.
Aí se espantam com o fato de que a candidata do Lula, mesmo sem experiência eleitoral, vá levar no 1º turno.
Mas o pior não é isso. O pior é enchergar, mesmo de boa fé (no seu caso), que a inclusão desse contingente nas condições básicas de sobrevivência/cidadania, mas sem tocar fogo no país, representa algo como despolitizar o povo ou não fazer as "mudanças realmente" necessárias.
E, me desculpe mais uma vez, esse seu discuro é o mesmo que faz o pessoal da universidade que milita na esquerda autista e acha que o PT vendeu a alma ao diabo.
Um discurso de esquerda, só que da esquerda elitista e desconectada da realidade.
Ainda bem que o Lula sacou tudo muito rápido e engoliu os intelectuais primeiro.
Quem gosta de revolução é intelectual, o povo gosta mesmo é de geladeira cheia e de ser reconhecido como cidadão.

domingo, 5 de setembro de 2010 18:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
O Estado é o uso da força. Democrático de Direito é a forma como a força é usada. Não sei como um Estado Democrático de Direito possa funcionar se não como tem funcionado no Brasil desde a Contituição de 1988. Nunca funcionou como do meu agrado. Mesmo durante o período de Antônio Palocci quando o câmbio era favorável ao crescimento puxado pelo mercado externo, meu grande desiderato, eu me sentia satisfeito com o funcionamento do Estado Democrático de Direito no Brasil. Quando vejo a educação no Brasil e quando sei que nos próximos 20 anos não daremos um nível mínimo de educação igualitária para todos os brasileiros sinto o quanto ainda o Brasil está distante do que eu sonho para o Estado Democrático de Direito no Brasil. De todo modo espero que o que eu desejo seja alcançado com os instrumentos que estão disponíveis para o Estado Democrático de Direito.
Você diz que Lula chegou lá e que teria governado bem alem de que talvez possa ser visto como alguém que consolidou uma uma certa densidade de protagonismo popular nos nossos hábitos políticos. E complementa:
"Esse é o lado bom. E onde está o problema? No detalhe de que Lula, para cumprir a missão (ou saciar o desejo), precisou, ou preferiu, ou simplesmente quis reproduzir os mecanismos clássicos de exercício do poder entre nós".
Dá a impressão que você viu alguma coisa, mas não quis nos dizer o que foi que você viu. É sempre bom, como diz aqui o governo de Minas Gerais no choque de gestão que ele diz fazer, compartilhar conhecimentos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/09/2010

domingo, 5 de setembro de 2010 21:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Desculpe-me não ter feito a correção do comentário. Queria dizer:
"Mesmo durante o período de Antônio Palocci quando o câmbio era favorável ao crescimento puxado pelo mercado externo, meu grande desiderato, eu não me sentia satisfeito com o funcionamento do Estado Democrático de Direito no Brasil".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/09/2010

domingo, 5 de setembro de 2010 23:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Singularidade começa pela eleição do operário metalúrgico.Isso contraria a tradição republicana,isto é, da república proclamada através de golpe em 1888,e mantidos e cevados seus valores até recentemente.Promoveu mobilidade social intensa contrariando os conservadores. Desarticulou a política dos sub-salários ,com seus programas sociais,descontentado novamente beneficiários de sempre. Deliberadamente , fez justiça histórica promovendo a sua sucessão,
representante da geração sonegada
de democracia,uma ex-combatente.
Mais coerência é impossivel.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010 10:12:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Em boa parte concordo com o CDM.
Bobagem supor que Lula pretenda botar fogo no circo. O plano não vai por aí.
Lula não é revolucionário ou mudancista; é conservador.
A ambição é dirigir o espetáculo. O problema é não querer limite nesse tempo.
Não há culpa nisso. Seguidas as regras democráticas e essa mudança é direito tão somente do eleitor.
Lula fez um governo melhor que o de FHC, ainda que não tenha significado ruptura qualquer. Se teve mais sorte ou não, é irrelevante, o acaso é do jogo.
Se demonizou o antecessor injustamente, caberia a esse defender-se e ao seu partido e aliados defendê-lo. Não fizeram.
Lula nadou sozinho, quando não auxiliado. Impossível querer parecer sério ao atacá-lo somente agora. Vésperas da eleição.
Atacar sua criação não altera nada.
A criação é mero reflexo do criador. Nela nada pega, porque dela nada se espera além de seguir o líder.
Além de errar o alvo, Oposição que se preze não ganha Belfort Duarte, parafraseando Moisés, ex-zagueiro do Vasco.
Lula talvez não fosse um gênio, não fossem seus adversários tão medíocres.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010 12:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A melhor definição, ou umas das bem humoradas, foi a de um amigo. Ele fez a colocação de que Lula é um político tradicional que, em alguns pequenos momentos, foi metalúrgico e sindicalista.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 6 de setembro de 2010 18:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Lula não fez um governo melhor que FHC, apenas colheu o resultado das políticas de FHC mantendo a mesma.
O resultado durante o governo Lula foi melhor, mas não por causa do Lula. Em política, isso de nada adianta, não dá votos, porém cabe aqui fazer essa ressalva.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010 18:26:00 BRT  
Blogger chico disse...

Alon, nunca ouvi falar de nenhum líder q tivesse mudado "os mecanismos clássicos de exercício de poder" num país que já estava inserido num modelo de democracia capitalista.
Ou vc pode me citar um país caitalista-democrático que possua mecanismos de exercício de poder q nao sejam como os nossos? (a menos q vc estive esperano de Lula uma revolução, o que nao me parece razoavel no contexto atual do mundo...).

O unico caminho que me parece viavel para se seguir num contexto como o nosso é diminuir as diferenças sociais, estimular o crescimento e aprofundar a influência e a eficiência do Estado, e essas coisas sao processos longos, nao me parecem coisas de uma gestao (embora até nisso Lula tenha feito seu dever de casa colocando a sua melhor técnica no trono com uma bancada ampla).
Querer q Lula exerça um papel de Mandela ou de Lênin sem contexto para tal é insano.

ps: engraçado, é sintomático de todos os jornalistas, sejam de esquerda ou de direita, reclamar alternadamente que o Lula é anacronicamente de esquerda e um segundo dps dizer q ele esqueceu suas raízes e se tornou partidario do estatus quo...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010 20:17:00 BRT  
Anonymous Denian disse...

o homem nunca irá poder governar discípulos de deus. lula assim como milhares deles apenas fazem parte da movimentação e sofrimento de toda nação.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010 22:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Notei outro dia que com o passar do tempo foram desaparecendo do discurso de Lula todos os antigamente citados como responsáveis pelas degraças do Brasil. Banqueiros, latifundiários, oligarcas, sindicalistas pelegos. Foi absorvendo e "anistiando" um a um sob o guarda-chuva legitimador. Sobrou como merecedora de críticas só uma “elite” em boa medida abstrata, cujo único traço comum é a resistência ao líder."

Em economês, eu diria que Lula se muniu de um hedge para se proteger dessa "elite" abstrata, mas que quando o calo lhe aperta sabe muito bem se mostrar concreta.

Talvez tenha sido essa a grande sabedoria do Lula. A história irá dizer. Conseguiu fazer transformações que jamais seriam feitas se esta "elite" ainda distribuísse todas as cartas, como até então sempre ocorreu.

A alternativa mais romântica, para uma certa esquerda ou mais desejável, a uma certa direita, por permitir o embate seco e direto, seria Lula ter sido o nosso Allende.

Nossa classe dominante ainda tenta provocar o tumulto no país, por enquanto sem sucesso, tal como a do Chile conseguiu fazer em 1973.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010 23:06:00 BRT  

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