quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mudos de carteirinha (01/09)

É uma situação grotesca no plano moral, mas nada que faça despertar maiores preocupações políticas. Direitos humanos em Cuba não dão nem tiram votos suficientes para decidir uma eleição no Brasil

Fidel Castro veio a público para assumir a responsabilidade pela discriminação dos homossexuais em Cuba. E pelas perseguições. Segundo o ex-governante, as pressões imperialistas no pós-revolução levaram-no a cometer o erro original. Pede agora desculpas e que o regime mude de atitude em relação a esse grupo social.

O aspecto bizarro é Fidel atribuir seus erros às circunstâncias. Mas é bacana, finalmente, Cuba abrir-se a um debate sobre mais uma deformação do processo político. A autocrítica de Fidel tem também outra utilidade: todos poderão agora criticar a discriminação dos gays em Cuba sem correr o risco de receber o rótulo de contrarrevolucionário. Ufa!

E se Fidel tivesse morrido rapidamente da doença que o tirou do poder? E se não vivesse para fazer a autocrítica? E se não viver o suficiente para fazer as demais? Como ficarão os que admiram o bravo povo cubano mas divergem dos caminhos adotados na ilha? Deverão ir para o túmulo com suas objeções, silenciados pela falta da autocrítica libertadora alheia?

Antes de ontem, quantas vezes os movimentos específicos dos partidos de esquerda e socialistas no Brasil tinham se dado ao trabalho de produzir ao menos uma miserável moção em defesa dos direitos dos homossexuais em Cuba? Alguém pode informar?

É um caso parecido com o da iraniana condenada à morte por “adultério”. O assunto transita entre a ameaça de apedrejamento e o “alívio” do enforcamento. Sob o silêncio eloquente do feminismo e do progressismo pátrios. Mas se Mahmoud Ahmadinejad der a ela o perdão será elogiado pelos atuais mudos de carteirinha.

Fidel tem estado ativo nos últimos tempos, especialmente no front das letras. Vem recentemente de abordar a crise iraniana, com previsões apocalípticas. Pelo menos sobre o lado iraniano ele deve saber o que diz, tem conhecimento de causa.

O Partido Comunista de Cuba tem o apoio dos aliados continentais para exigir dos Estados Unidos o fim incondicional do embargo econômico. É também a posição brasileira, baseada no princípio da autodeterminação dos povos. O “incondicional” tem um significado bastante específico: sem mudanças no regime político ou na esfera dos direitos humanos.

Já observei aqui que a atitude brasileira é defensável, com exceção de um detalhe: em Honduras, o caminho seguido pelo Itamaraty é o oposto. Para o Brasil, ou Tegucigalpa atende às exigências de Luiz Inácio Lula da Silva ou o presidente brasileiro não pega nem o mesmo ônibus que o colega hondurenho.

Em Cuba o governo é amigo, então que se defenda a autodeterminação. Em Honduras não é, então que se pratique a ingerência.

O Itamaraty afirma que as gestões brasileiras sobre os direitos humanos em Cuba precisam ser discretas, para não criar constrangimento e não erguer mais barreiras a soluções possíveis. Ainda bem que o humorismo está liberado no período eleitoral. É óbvio que, faz tempo, o Brasil decidiu abrir mão de qualquer protagonismo na pressão sobre Havana nesse terreno.

E vai ser assim até o dia em que, como na discriminação dos homossexuais, a posição cubana mudar, talvez por alguma transformação interna no próprio regime, ou por pressão externa. Então os áulicos daqui vão aplaudir, e reivindicar o mérito para si na cara dura.

É uma situação grotesca no plano moral, mas nada que faça despertar maiores preocupações políticas. Direitos humanos em Cuba não dão nem tiram votos suficientes para decidir uma eleição no Brasil. Para efeito de contabilidade eleitoral, o assunto fica catalogado no rol dos que exigem apenas respostas espertas, para evitar maiores repercussões.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (01) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous CPR disse...

Muito bom texto

quarta-feira, 1 de setembro de 2010 12:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Enquanto na terra de Obama inauguram o "Tea Party",versão sofisticada dos WASP, em Cuba, Fidel,surpreende a todos praticando a velha autocritica que muitos julgavam esquecida no baú de inservíveis do marxismo.
Lula precavido trata de construir
com vistas a seu pós,uma "nova frente ampla",contra os cacoetes autofágicos e as investidas da turma do alambrado.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010 12:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Com perdão da brincadeira. Contudo, pode ser mais uma ação discreta da diplomacia brasileira que deve ter até, na surdina, escrito o texto para o Fidel ler.
E já devem estar trabalhando no discurso que darão ao Obama, para quando este for anunciar o fim do embargo a Cuba.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 2 de setembro de 2010 10:56:00 BRT  
Anonymous JV disse...

O Brasil está nas mãos dos mais espertos...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010 16:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Tenho minhas dúvidas sobre a sua crítica à política externa do governo Lula, principalmente ao que você considera ser incoerência da política externa brasileira.
Não é a minha seara, mas é perceptível que a política externa de um país tem a ver com os valores que o governo defende. Quanto mais hegemônico for o domínio do governo no país mais transparece na política externa do país os valores que este governo defende. O governo do PT não é um governo hegemônico. E nem será se Dilma Rousseff ganhar as eleições. Agora, mesmo que fosse, o governo do PT teria que ser ou um governo socialista ou um governo capitalista. Se fosse um governo capitalista ele teria que defender o interesse dos capitalistas no país.
Nos Estados Unidos fica bem claro como o interesse capitalista americano é bem representado pelos seus governantes. No governo de Lula isso também ocorreu, pois Lula se transformou em um mascote e mascate do Brasil no exterior. Nos Estados Unidos a força capitalista do país obriga os representantes sejam democratas sejam republicanos a defender o interesse capitalista americano. Assim, entra democrata ou entra republicano e pouco muda a política externa americana, e tudo fica mais ou menos igual.
E não ia ser assim. Quando George Bush filho se elegeu a expectativa é que ele tirasse o caráter intervencionista da política externa americana e se voltasse para o interior do país. É claro que quem conhece os Estados Unidos sabe que uma política externa isolacionista como preconizavam alguns intelectuais do Partido Republicano é impossível.
Voltando para a política externa brasileira, pode-se dizer que ela tem cor. Mesmo sendo o Embaixador Celso Amorim alguém que militava no PMDB, a política externa atual do Brasil tem a cor mais próxima do PT, mas ela visivelmente não é a política do PT.
Como política com a cor mais avermelhada ela tem de estar mais próxima de Fidel Castro do que de Álvaro Uribe, por mais que o governo do colombiano tenha preenchido todos os pontos no que diz respeito à democracia. Só que Álvaro Uribe é de direita e aceita certa submissão aos interesses americanos. Mais fácil para o governo Lula é ficar mais próximo de Hugo Chávez, por mais caricatural que Hugo Chávez seja, do que do governo de Álvaro Uribe ou agora do governo de Juan Manuel Santos Calderón.
Vou desdobrar o meu comentário em dois. Primeiro me dediquei a mostrar que é possível ver partes dos valores do PT na política externa brasileira. No próximo comentário falo do que eu não considero correto na sua crítica à nossa política externa.
(A continuar)
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/09/2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010 22:35:00 BRT  

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