sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Mudança de hábito (17/09)

Todo governante esperto cultiva canais de diálogo com as forças contrárias, para o dia em que precisar. Um dia que não costuma mandar recado, chega de repente. E quando chega, diria o velho filósofo, tudo que parece sólido se desmancha no ar

Mesmo antes da queda de Erenice Guerra da Casa Civil, notou-se nos últimos dias um ajuste na maneira como o governo aborda questões espinhosas. Pode ser só o efeito “falta pouco para a eleição”, mas isso é de menos.

O ministro da Fazenda finalmente se moveu diante dos descalabros na Receita Federal. Ergueu-se do berço esplêndido e tomou medidas. Se são boas ou não, se enfrentam ou não os nós, se é ou não diversionismo, que se discuta ad eternum. Mas o fato é que Guido Mantega precisou mexer-se.

E a própria candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, deu-se ao trabalho de explicar o que o presidente da República quis dizer quando falou em “extirpar” o Democratas da política nacional.

Segundo a ex-ministra, Luiz Inácio Lula da Silva usou o termo no sentido de “derrotar eleitoralmente”. A explicação é aceitável, não há por que duvidar dos propósitos democráticos do presidente e da sua porta-voz.

Já escrevi algumas vezes que a popularidade de Lula trouxe ao governo um efeito colateral indesejável. A convicção disseminada de que a cada contratempo a melhor coisa é desqualificar os críticos. Como se isso automaticamente desqualificasse a crítica.

A luta política existe, mas não engloba toda a realidade. O ataque, a denúncia ou a revelação podem muito bem partir de alguém com má-fé, movido apenas pela disputa do poder ou desejoso de enfraquecer o governo, ou mesmo de dar termo a ele. Mas sempre pode haver algum mérito no que se diz, independente de quem diz.

Um governo democrático deve permanentemente explicações, e isso não o diminui. Ao contrário, fortalece. A oposição e a vigilância firmes de fora ajudam os de dentro a se livrar das células malignas, ou mesmo dos tumores já mais desenvolvidos. E a combater o sentimento de “tudo pode”.

Quando esse sistema imunitário está deprimido o organismo todo periga.

O que mantém um governo, especialmente na democracia? A satisfação da maioria com a vida.

Há alguma ilusão sobre o conforto que o poder retira de imensas maiorias parlamentares. Mesmo sólidas bases de apoio correm o risco de virar fumaça quando muda o vento no mundo lá de fora.

Todo governante esperto cultiva canais de diálogo com as forças contrárias, para o dia em que precisar. Um dia que não costuma mandar recado, chega de repente. E quando chega, diria o velho filósofo, tudo que parece sólido se desmancha no ar.

Aqui Dilma leva vantagem sobre Lula, que com o tempo parece ter passado a considerar suficiente sua relação direta com as massas. Se for eleita, ela começará do zero, tem poucos contenciosos já instalados. E os que tem não lhe causaram até agora maior prejuízo.

Dilma também dependerá mais que Lula do sistema político orgânico.

Não tem por que não conversar.

Bode expiatório

Os republicanos veem chance real de retomar nas eleições parlamentares deste ano o controle da Câmara dos Representantes (Deputados), que nos Estados Unidos é completamente renovada a cada dois anos (deveriam implantar algo parecido aqui, mas precisaria haver o voto distrital).

Não é raro que presidentes americanos com dois anos no cargo sofram nas “midterm elections”. Desta vez, a oposição republicana a Barack Obama pode sair das urnas com um detalhe adicional: um punhado de parlamentares mais radicais, alinhados ao movimento ultraconservador da legenda.

Será um problema para Obama, mas também pode embutir uma oportunidade. Se a ação dos radicais inviabilizar os entendimentos no Congresso, Obama poderá na campanha de reeleição, daqui a dois anos, oferecer o Legislativo como bode expiatório.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (17) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O q me deprime nestes escandalos todos e' q na pratica nada acontece de verdade para previni-los.
Eu ate' entendo q o governo e oposicao utilizem estes episodios politicamente para denegrirem a imagem um do outro, mas o q de fato sera' feito para previnir q algo semelhante venha a ocorrer novamente?
Neste ultimo escandalo da Casa Civil, por exemplo, seria uma otima oportunidade para se regularizar o lobby em Brasilia (cadastrando lobistas, proibindo parentes de autoridades de fazerem lobby etc) e se regularizar a contratacao de parentes em cargos comissionados.
Mas o q acontece (fora a demissao do pivo do escandalo) e' somente uma troca de acusacoes entre governo e oposicao e nada de fato e' realmente feito.
Daqui um tempo um escandalo semelhante vai surgir novamente e toda essa historia se repetira'...
E' por essas e outras q eu duvido q o brasil venha a ser realmente um pais de primeiro mundo :-(

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 10:40:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

Fritando Erenice

O sacrifício de Erenice Guerra seguiu o roteiro conhecidíssimo das campanhas de destruição de reputações operadas pela mídia oposicionista.
Um. A escolha da vítima, a protagonista do escândalo, é feita criteriosamente. Quem vive nos bastidores do poder sabe onde procurar.
Dois. A fonte principal das acusações é personagem suspeito, quiçá mesmo criminoso, que recebe um estranho voto de confiança das redações. Em algum lugar do enredo há coadjuvantes ligados a políticos ou àquela facção serrista da Polícia Federal, mas esses detalhes passam “despercebidos”.
Três. As acusações são tecnicamente mirabolantes e inverossímeis. Qualquer tribunal as derrubaria, mas em certas ocasiões os comentaristas adoram parecer idiotas.
Quatro. As matérias repercutem essas falácias diariamente, repetindo simplificações grosseiras, boatos e especulações, até que a obviedade mais rasteira ganhe uma aura pecaminosa.
Cinco. Os personagens caricatos do entorno viram bodes expiatórios. Ganham apelidos. São fotografados em poses repugnantes, têm suas biografias devassadas. Caem no escárnio público e o episódio entra para o anedotário político da nação.
Fim. Pressionada por todos os lados, desmoralizada e exausta, a vítima principal do conluio não vê outra saída senão pedir demissão. É a glória do jornalismo corporativo.
Esse esquema serve para qualquer escândalo do governo Lula. Basta inserir os nomes nos espaços vagos. Trata-se de estratagema irresistível, porque utiliza o imediatismo da imprensa diária e os imensos recursos das grandes corporações para um ataque fulminante, que não permite respostas.
Qualquer medida judicial contra esse abuso recebe imediatamente a pecha de censura. Quando ficar evidente que tudo não passou de um ardil malvado, será tarde para a devida reparação. E o assunto terá caído na irrelevância.
A isso os editoriais chamam "liberdade de imprensa".

http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 12:01:00 BRT  
Blogger Vitor disse...

Alon, você tocou num ponto interessante agora, sobre a renovação da câmara americana a cada dois anos e que faria sentido implantar isso aqui mas que seria preciso voto distrital para isso.

Qual a sua opinião sobre voto distrital? Eu sou totalmente a favor a ele e contra o voto em lista, acho que no distrital temos uma vantagem imensa que é poder fazer o voto contra, ou seja voto no candidato X para derrotar o candidato Y.

Minha dúvida é como isso funcionaria num modelo pluripartidário, acho que para ser bem sucedido o voto distrital teria que ocorrer em dois turnos para que o eleito tenha uma maioria dos votos do distrito e não apenas uma pluralidade.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 12:05:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, percebo agora que de fato me expressei mal, ou de modo insuficiente, em meu comentário ao seu post de 14/9. Quando disse que quase nunca as coisas se apuram no final das contas, não pretendia apontar apenas a conseqüência negativa de que isso abre espaço a falsas acusações. A meu ver vai mais longe, sabendo que ao final não terá confirmação das acusações, o eleitor deixa de levá-las em consideração, daí a sensação de que as acusações são inúteis, e ele está certo. Acho que é possível ampliarmos a imagem de que tudo termina em pizza, já que esta não estaria reservada apenas aos acusados, que acabarão impunes, mas também aos acusadores, que podem praticar a irresponsabilidade sem stress. Para o controle externo do governo funcionar, alguém precisa carregar o piano, confirmar as acusações, afinal o ministério público, os aparatos policiais diversos, servem ou não para mais do que correr atrás de holofotes, e do contracheque ao final do mês? Para que a acusação se traduza em mudança no posicionamento do eleitor precisa ter credibilidade, e não basta os luminares dos partidos e da imprensa hipotecarem sua palavra que depois não se comprovará. Com todo esse barulho, todo esse circo, as zelites parecem não perceberam que, de fato, enfrentam-se dois candidatos iguais ideologicamente. Digo as zelites porque o eleitor é menos bobo e vai no caminho que lhe parece mais seguro (mas está errado! Fazer o que... são outros 500).

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 12:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os efeitos dos fatos recentes, ambos graves, já causaram seus efeitos políticos, num sentido mais geral e mais especificamente, no processo eleitoral. O que resta saber é em que nível.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 13:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Olá Alon,

A citação inicial é motivo de reflexão partindo da premissa que o diálogo com forças contrárias para garantir um projeto (aqui nesse caso trata-se de projeto politico)se deve ter em mente que tal diálogo não muda a essência do que se é proposto e sim para ampliar debates. Tudo que é SÓLIDO e com um alicerce firme não se desmancha e nem evapora e isso observamos em algumas medidas adotadas no governo FH que Lula manteve e fez muito bem em manter e em aperfeiçoar outras que se tornaram pétreas. Toda alteração programática é essencialmente politica, entretanto outras mudanças envolvem pessoas e isso só ocorrerá SE as pessoas atingidas aceitarem. Abraço

Ângelo A. Regis POA/RS

sexta-feira, 17 de setembro de 2010 17:03:00 BRT  

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