domingo, 19 de setembro de 2010

Distinção necessária (19/09)

Eleição resolve um bom número de problemas, define quem vai sentar na cadeira e a turma que vai ocupar os cargos, mas não tem o efeito de interromper o processo político-institucional

Há uma diferença entre governo e Estado. Um é de grupo, o outro é de todos. Uma distinção teórica, porque o Estado é comandado pelo governo, ainda que nas democracias o primeiro tenha dose de autonomia em relação ao segundo.

No Brasil algumas iniciativas de garantir ao Estado certa independência diante do governo deram certo. O Banco Central, o Ministério Público, a Polícia Federal são exemplos. Outras deram muito errado. Um ícone do fracasso são as agências reguladoras.

Mas sempre resta a tensão. Agora mesmo a onda de acusações contra a Casa Civil desperta dois tipos de reação: no governo a ansiedade é sobre possíveis efeitos nas urnas, no Estado deve ser por apurar tudo tintim por tintim, e adotar as devidas providências.

Não é realista imaginar que faltando duas semanas para a eleição o governo esteja disposto a cortar ilimitadamente na própria carne para descobrir até onde chegaram os problemas na Casa Civil.

O Palácio do Planalto toca a bola de lado à espera do apito final do eleitor. De vez em quando alguém dá um bico para a arquibancada, pois o jogo é de campeonato. Que o diga a ex-ministra Erenice Guerra.

Mas é legítimo desejar que as instituições de Estado entrem em ação, e não há motivo para suspeitar de que não entrem. Ou de que já não tenham entrado.

Até por uma razão de ordem profilática. Se derrapou, são necessárias medidas para desestimular que volte a derrapar.

Os desdobramentos da investigação não se confundem com os resultados da eleição.

Eleição resolve um bom número de problemas, define quem vai sentar na cadeira e a turma que vai ocupar os cargos, mas não tem o efeito de interromper o processo político-institucional.

Será ruim se um eventual governo Dilma Rousseff, eleito em primeiro ou segundo turno, precisar carregar na largada um fardo desse tamanho.

Será triste se o eventual futuro governo já nascer refém da maioria parlamentar, antes mesmo da posse. Precisando entregar anéis e dedos para evitar CPIs.

E a eleição propriamente dita? Toda reta final embute turbulências, com a possibilidade de mudanças. Desta vez o quadro aponta alguma estabilidade em cima. A novidade é que Marina Silva mostra mais fôlego que Heloísa Helena e Cristovam Buarque quatro anos atrás.

A verde terá gás para fazer algo de diferente nas próximas duas semanas? Essa é a dúvida, além das indagações sobre o efeito na campanha de Dilma Rousseff das denúncias recentes.

Há variações sobre o que levou a eleição presidencial de quatro anos atrás ao segundo turno. Uns dizem que foram as fotos do dinheiro do chamado dossiê dos aloprados. Outros, a ausência de Luiz Inácio Lula da Silva no debate final do primeiro turno.

Mais provável que tenha sido uma combinação das duas coisas. Lula deu a impressão de fugir das explicações sobre um assunto grave. Isso incomodou uma parte do eleitorado dele. Que decidiu castigar o presidente-candidato. Aí veio o segundo turno, o PT conseguiu encurralar o PSDB politicamente e levar a eleição para casa.

Como venho escrevendo nos dias recentes, há situações em que o lero-lero da politicagem adquire outra dimensão, e a sociedade passa a prestar atenção e a pedir explicações. O governo tem mostrado nos últimos dias maior permeabilidade à pressão. O que é bom, mas talvez ainda não tenha vindo na dose suficiente.

Governo e oposição correm contra o relógio. Isso é uma parte do enredo. Há porém outra parte, que não obedece ao tic-tac do cronograma da Justiça Eleitoral.

Se governo e Estado interligam-se, não são a mesma coisa, como engatou esta coluna no começo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (19) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous Uriel disse...

Passada a tormenta(se passar...),e tudo o que se ecreveu sobre Erenice Guerra e sua família não for comprovado ,muito pelo contrário e, as suspeitas lançadas como óregano sobre todos,se mostrarem como se parecem aos olhos dos atentos,quem há de repar o dano,colher as plumas ao vento jogadas?

domingo, 19 de setembro de 2010 20:15:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Será triste se o eventual futuro governo já nascer refém da maioria parlamentar, antes mesmo da posse. Precisando entregar anéis e dedos para evitar CPIs."

Pois é. Porém, como você observou em post anterior:

Ora bolas, qual foi mesmo o grande escândalo da política brasileira que tenha tido no foco um partido dos pequenos, ou micros? Rigorosamente nenhum. E qual problema relevante nasceu da atividade parlamentar de um outsider? Nenhunzinho.

O partido grande, ou com projeto de ser grande, desesencadeia as trapalhadas, para incontinenti seus líderes virem a público debitar a conta nas alegadas deformações da moldura político-institucional. E que solução apresentam? Mais poder para eles mesmos. [...]

O único consenso amplo (entre os donos da política brasileira) é dar um jeito de concentrar a representação em menos partidos. Como se fosse uma solução para as confusões por eles mesmos criadas. Não deixa de ser engenhoso. A dúvida é saber onde vamos parar, de engenhosidade em engenhosidade.

http://www.blogdoalon.com.br/2010/09/grandes-e-espertos-0308.html

domingo, 19 de setembro de 2010 23:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que pode reparar danos às pessoas é exatamente o que o post alerta: Estado é Estado, Governo é Governo. A inteligência política deve ser utilizada para saber distinguir muito bem uma coisa de outra. Ou saber onde há interrelações, limites, respeito e sabedoria. Principalmente, a inteligência política, deve ser capaz de não confundir conceitos tão caros com casa sem dono.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 20 de setembro de 2010 15:02:00 BRT  
Anonymous TúlioVillaça disse...

A separação Estado/governo é utilíssima para entender um momento político, mas extremamente nebulosa para a população. Isto facilita bastante o trabalho da oposição emsua gritaria. Aliás, a maior acusação da oposição é de que este governo teria tomado conta do Estado a ponto de impedir que este funcionasse - esquecendo propositalmente os exemplos positivos que você citou. Agora, se a oposição continuar oposição, continuará não tendo compromisso com o Estado, e podera atuar no sentido de impedir a governabilidade fazendo aquelas CPIs que não servem para nada, por exemplo. Tenho a impressão de que, se o MP e Judiciário funcionam bem, a instituição CPI deve acabar, até em prol do sistema de freios de contrapesos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010 16:40:00 BRT  
OpenID lotsemann disse...

"No Brasil algumas iniciativas de garantir ao Estado certa independência diante do governo deram certo. (...) Outras deram muito errado. Um ícone do fracasso são as agências reguladoras."

Este é um assunto que mereceria um post.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010 16:51:00 BRT  

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