terça-feira, 21 de setembro de 2010

De onde ela vem (21/09)

A oposição aos governos não nasce nos parlamentos, nem lhe é indispensável deter orçamentos públicos para azeitar a vida diária e suas campanhas. A origem da oposição é sempre social

Mesmo no meio de um processo eleitoral há espaço para a lógica. No fim de semana o presidente da República fez o que fez, disse o que disse sobre os veículos jornalísticos que publicam acusações de supostas irregularidades no governo. Já ontem, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, saiu de um encontro da coordenação de governo afirmando que Luiz Inácio Lula da Silva mandou apurar tudo, para a punição dos eventuais responsáveis.

Qual é a face real do comboio governista, o Lula do fim de semana ou o Padilha de ontem? Provavelmente ambos. O presidente deve sim estar enfurecido com a sucessão de acusações contra a administração, e é normal que veja nelas motivação político-eleitoral, mas numa democracia não há jeito de a autoridade escapar das obrigações legais. É preciso mover-se, produzir providências. Até por razões político-eleitorais. Pelo andar da carruagem, o governo sairá das urnas com motivos para sorrir. Mas a vida segue, e a política idem.

Lula deseja que a atual oposição encare outubro dizimada, e tem uma chance de conseguir. E daí? E daí nada, ou muito pouco. O Brasil já assistiu antes a belas hegemonias eleitoriais. Em 1970 a Arena massacrou o MDB, que chegou a pensar em autodissolução. Em 1986 o PMDB reacendeu os temores de “mexicanização”, ao ganhar tudo e mais alguma coisa. Tomou o Planalto, quase todos os governos estaduais e a maioria esmagadora na Constituinte. E em 1994 o PSDB abocanhou a Presidência da República, São Paulo, Minas Gerais e o Rio de Janeiro.

O poder absoluto, ou quase, não foi suficiente para a Arena, o PMDB e o PSDB se eternizarem. A “mexicanização” frequenta esporadicamente o noticiário, mas nunca se consumou. Por quê? Assunto para os doutores. De todo jeito, a oposição aos governos não nasce nos parlamentos, nem lhe é indispensável deter orçamentos públicos para azeitar a vida diária e suas campanhas. A origem da oposição é sempre social, e mesmo governos maravilhosamente bem avaliados, e votados, podem virar pó se o vento na rua muda de sentido.

Desde, é claro, que exista um ambiente institucional favorável à democracia. Como aqui.

Governos sempre colhem os frutos da bonança econômica. Este não é exceção. E as hegemonias recentes no Brasil foram minadas por frustrações econômicas. O eleitor sempre encontrou uma maneira de, nessas crises, manifestar o desejo de mudança. E recebeu a bola quem estava, como diria o Capitão Coutinho, no ponto futuro. Só isso. O problema é que para chegar a esses pontos futuros as forças da esperança precisaram atravessar, cada uma a seu tempo, um deserto particular.

Lula e a imprensa

Já identifiquei aqui antes uma rachadura na lógica do presidente da República quando trata da imprensa. Umas horas diz que ela não tem mais tanto poder quanto antes. Mas se isso é fato por que gastar tanta saliva com o assunto?

O que mudou na relação entre a imprensa e seus leitores, telespectadores, ouvintes? Hoje há bem mais fontes de informação, e essas fontes são fiscalizadas em tempo real pela internet. O sistema de freios e contrapesos funciona para valer, cada vez melhor.

O que não mudou? A razoável independência entre o que acham e dizem os jornalistas e o que pensa o eleitor.

Lula de vez em quando parece imaginar que está diante de uma baita novidade. Menos, presidente. A História do Brasil já teve outros episódios de dissonância entre o poder e a opinião pública, nos quais a maioria da população seguiu o primeiro e não a segunda. É só pesquisar. Um bom exemplo está no livro “Minha Razão de Viver”, na parte em que Samuel Wainer (com a redação de Augusto Nunes) conta da campanha que levou Getúlio Vargas de volta ao poder em 1950.

O papel dos “formadores de opinião” foi e é limitado. Em geral, quando alguém busca uma ideia é para poder defender melhor o que já desejava defender. O sujeito gosta de um governo ou não gosta. Mas sempre por razões objetivas. Depois vai buscar a explicação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (21) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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10 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, acho que vc e outros jornalistas, cientistas politicos, sociologos e interessados em geral deveriam abrir uma discussao seria sobre reforma politica, em vez do arrodeio que e a questao da mexicanizaçao ou liquidaçao deste ou daquele partido. Sou jornalista aposentado (mas nem por isso inativo, sou pensante), homem de esquerda lucido, sempre critiquei o denuncismo (colegas petistas muitas vezes nao aceitavam minhas colocaçoes) e a criaçao de crises irresponsavelmente (como a veja, a folha e as organizaçoes globo fazem agora, e sempre fizeram). Imprensa e pra noticiar serio, sem picaretagem. Um exemplo foi a assunçao e queda de collor, uma historia pra ser contada, um dia, por quem tiver vontade de resgatar a seriedade da imprensa. Um grande abraço, e parabens pelos seus artigos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010 02:10:00 BRT  
Anonymous joaquim pinto disse...

Alon, acho que vc e outros jornalistas, cientistas politicos, sociologos e interessados em geral deveriam abrir uma discussao seria sobre reforma politica, em vez do arrodeio que e a questao da mexicanizaçao ou liquidaçao deste ou daquele partido. Sou jornalista aposentado (mas nem por isso inativo, sou pensante), homem de esquerda lucido, sempre critiquei o denuncismo (colegas petistas muitas vezes nao aceitavam minhas colocaçoes) e a criaçao de crises irresponsavelmente (como a veja, a folha e as organizaçoes globo fazem agora, e sempre fizeram). Imprensa e pra noticiar serio, sem picaretagem. Um exemplo foi a assunçao e queda de collor, uma historia pra ser contada, um dia, por quem tiver vontade de resgatar a seriedade da imprensa. Um grande abraço, e parabens pelos seus artigos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010 02:10:00 BRT  
Blogger cleidebrag disse...

Alon
O que você expõe claramente, em seu primeiro parágrafo, é que Lula é um caso perdido de “tripla personalidade política”.
Aquele Lula raivoso, que espuma nos comícios e ataca de forma totalmente inadequada, seja a oposição, seja a imprensa, é o Lula “pai dos pobres” e “perseguido pela elite”, que sabe ser essa uma linguagem perfeitamente compreensível ao Zé povinho. Este Lula sabe que aquela imagem será reproduzida por todo o país e vista por aquela maioria desinformada, que o idolatra e mantém sua popularidade nas alturas.
O Lula que vai ao gabinete e exige providências “vistosas” – que na verdade são apenas “para inglês ver” – é o Lula preocupado com sua imagem aqui e lá fora, no momento sob os holofotes da população mais informada e dos formadores de opinião.
A verdadeira personalidade, aquela dominante, é maquiavélica e está, no momento, agindo nos bastidores para que os diversos órgãos encarregados das apurações, só “apurem” o que lhe convier politicamente.

terça-feira, 21 de setembro de 2010 02:42:00 BRT  
Blogger pait disse...

Você é otimista. Acha que a democracia conseguiria sobreviver até aos ataques da Dilma presidente. Eu também sou otimista e concordo. Mas há quem tema. O grupo do PT menos Lula que está chegando tem um projeto de poder mais intolerante que os partidos majoritários anteriores.

terça-feira, 21 de setembro de 2010 06:36:00 BRT  
Anonymous Calvero disse...

Samuel Wainer,vem a calhar. Solitário baluarte opositor a campanha esmagadora contra Getúlio Vargas, empreendida pelo reacionarismo udenista e a mídia de então,igualmente poderosa e influente:Globo, Diários Associados e Tribuna da Imprensa,este, panfleto diário de Carlos Lacerda.O desfecho , todos conheçemos.
Lula tem sido nestes oito anos objeto de investidas semelhantes aquelas sofridas por Getúlio.Neste caso, sem a providencial Última Hora, de Wainer.Contudo a blogosfera procura disufusamente se contrapor aos noticiários que mais sugerem peças de campanha eleitoral da oposição.Obama,rotulou a FOX News,de partido político recusando-se a dar entrevistas a esse veículo.Nem por isso a SIP, os órgãos e ONGs de apoio as liberdades civís cairam-lhe em cima com impropérios cívicos,muito menos comparando-lhe a Chávez.
Aqui, sem meias palavras, adiantou a presidente da ANJ, se a oposição é incompetente,cabe a imprensa assumir esse espaço.E, assim está sendo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010 10:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Joaquim Pinto (terça-feira, 21/09/2010 às 02h10min00s BRT),
Concordo quase integralmente com você. O problema que nos impede de uma decisão de força é que não temos como saber que a Imprensa está noticiando sério sem picaretagem ou se está noticiando na troça com picaretagem. A única alternativa plausível é a condenação posterior quando constatar a picaretagem. Condenação que observando o devido processo legal deve guardar relação com o dano e com a picaretagem.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/09/2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010 21:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Cleidebrag (terça-feira, 21/09/2010 às 02h42min00s BRT),
Pensara em falar nessas três personalidades de Lula para Alon Feuerwerker. Vejo que você se adiantara. Tiraria uma ou outra palavra e restringiria a sua última frase somente até “bastidores” deixando-a assim:
“A verdadeira personalidade, aquela dominante, é maquiavélica e está, no momento, agindo nos bastidores”.
Enquanto não houver uma lei que o proíba o político de ter três ou até mesmo mais personalidades, essa será a pratica comum tanto nos governos como na oposição tanto no Brasil como em qualquer lugar em que a Democracia possua limites muitos flexíveis e generosos de liberdade. Embora eu me apóie em Montaigne para considerar a mentira o pior dos crimes, penso que cabe à Democracia revelar os seus mentirosos e dar-lhes a pena merecida e, enquanto isso, torço para que os limites da liberdade continuem flexíveis e generosos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/09/2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010 22:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Aproveito para fazer duas observações sem relação direta com este post. Primeiro penso que você poderia deixar indicado junto ao post o endereço dele na internet e no Twitter.
A segunda observação diz respeito o ótimo material que encontrei há pouco na internet com a chamada "O que muda com os blogs" e que trata de uma sua apresentação no XII Seminário de Comunicação do Banco do Brasil, intitulado "O Futuro da Comunicação" realizado em 13/11/2007 e que parece teria como tema "Blogs: democratização x limites". Talvez fosse o caso de você fazer chamada à sua exposição na primeira página do blog.
E faço agora observações quanto a este post “De onde ela vem” de 21/09/2010 que me pareceu muito bom. Primeiro eu considero que o encadeamento lógico é diferente do que você propõe quando você diz:
“O sujeito gosta de um governo ou não gosta. Mas sempre por razões objetivas. Depois vai buscar a explicação”.
Sempre considerei que o sujeito gosta de um governo ou não gosta pelas razões das ideologias que ele e o governo professam. Depois para justificar racionalmente a escolha vai buscar os critérios objetivos.
Também não vi o que você chamou de “rachadura na lógica do presidente da República”. A menos que você considere que não há lógica a se aplicar em uma campanha eleitoral é que se justifica acusar ou apontar a dualidade do comportamento do presidente. Em uma campanha eleitoral, entretanto, o candidato do governo e seus prosélitos como o candidato da oposição e demais envolvidos vão buscando encontrar um fio condutor que potencialize as ações ou omissões em que eles incorrem. E a cada momento e a cada lugar a lógica a conduzir as ações fica cada vez mais clara, menos dual ou plural como quer o comentarista Cleidebrag no comentário de terça-feira, 21/09/2010 às 02h42min00s BRT. É preciso arte para a encontrar, mas ela existe.
E há ainda a merecer uma consideração maior o parágrafo em que você trata das conseqüências do desiderato de Lula em ver a oposição dizimada. Há entretanto muita coisa a dizer sobre isso que prefiro deixar para depois.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/09/2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010 23:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Em meu comentário de terça-feira, 21/09/2010 às 23h25min00s BRT, eu disse que haveria muita coisa a falar sobre o segundo parágrafo deste seu post post “De onde ela vem” de 21/09/2010. Você o inicia dizendo que:
“Lula deseja que a atual oposição encare outubro dizimada, e tem uma chance de conseguir. E daí? E daí nada, ou muito pouco”.
Você pode encontrar boas justificativas em ter iniciado a frase com o nome do presidente Lula, mas não custa lembrar que este é desiderato de todo governante o que no mínimo você poderia ter destacado colocando entre vírgula uma expressão semelhante a “como todo governante”. Você pode alegar que fez melhor ao dizer que o desejo de Lula, quer dizer, o desejo de todo governante desde que mantida a democracia e mesmo se alcançado tem pouco efeito. Não diria que você fez melhor. Penso que é outra discussão e que a frase inicial deu um viés que não precisava ser dado. E você tem lembranças boas para expressar essa idéia que domina o governante de não ter oposição. Você deve-se lembrar da campanha de Richard Nixon em 1972 contra George MaGovern. Mesmo com uma vitória que foi descrita nos jornais – se não me engano foi assim a capa da revista Time – como uma avalanche, embora na eleição para o Congresso a vitória não tenha sido tão expressiva assim, Richard Nixon agiu de modo até ilegal, o que o levou a sofrer o impeachment, para tentar vencer completamente a oposição, em uma época que o páis já ia para quase 200 anos de democracia.
Talvez os governantes não tenham percebido a importância de levar em conta a sua teoria expressa junto ao post “Platitudes” de terça-feira, 14/09/2010 de que as oposições (A imprensa inclusa)
“Funcionam como um sistema imunológico sadio a eliminar regularmente células estranhas”.
Pois a funcionar assim, eliminando-se todos os focos de doenças que pudessem levar os governos à morte, aos governantes poderia ser assegurado o poder eterno. A imaginar que o poder eterno seja o que os governantes almejam. A menos que, para Lula, o interessante fosse uma Dilma Rousseff fragilizada sem oposição em que os focos de doença se disseminassem e os de dentro não tivessem propensão à solidariedade pela ausência da pressão oposicionista ameaçando o condomínio e se estrebuchassem.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/09/2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010 13:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Ainda do muito a analisar sobre o parágrafo em que você fala dos desejos hegemônicos dos governantes, considero que só fazia sentido a menção ao nome de Lula se a intenção fosse criticar os que criticam Lula de ter a pretensão à hegemonia. Era como se você estivesse dizendo: “não me venham com essa conversa de que Lula quer acabar com a oposição porque, mantido o regime democrático, não há, mesmo que ele tenha esse desejo, não há nem se pode pensar que haverá qualquer efeito importante a ser mencionado de um possível período hegemônico de qualquer partido político no Brasil”.
E para reforçar você dava exemplos de períodos hegemônicos. Aliás, você tão não dava importância que chamou os períodos hegemônicos de belos.
Nesse sentido, tudo bem ter mencionado o nome de Lula, mas então, ainda mais que chamou os períodos hegemônicos de belos, você não deveria ter novamente feito comparação com o período da ditadura militar. Comparação que em má hora você houvra ensaiado junto ao post "Platitudedes" de terça-feira, 14/09/2010.
No fundo esse parágrafo pecou pelo excesso e pela falta. Não deveria ter mencionado o período da ditadura militar. E quanto a mencionar a eleição do Plano Cruzado em 1986 e a do Plano Real em 1994, você deveria ter acrescentando exatamente a referências aos Planos. Nos dois casos houve os planos exatamente para que se conquistasse a hegemonia.
Aliás, aqui se percebe que em política tudo é permitido se não houver uma lei que proíba. Os dois Planos tiveram efeitos nocivos que se estenderam por muitos anos. Quantas famílias foram desagregadas e em conseqüências tiveram seus membros encominhados para a marginalia porque se fizeram planos que levaram o país a constrangimentos externos e em conseqüência à redução na taxa de crescimento e, portanto, ao aumento da taxa de desemprego.
Enfim, os dois Planos deveriam ser mencionados ao indicar a eleição de 1986 e a de 1994 como belos períodos hegemônicos. É claro que parodiando Fernando Pessoa pode-se dizer que não haver plano é um plano também.
Enfim, era isso. Um post muito bom que pecou aqui e ali, principalmente neste parágrafo dos belos períodos eleitorais, pelo excesso – não precisava mencionar o período da ditadura militar – ou pela falta – ficou faltando a referência aos planos econômicos.
E para que eu não fique em falta não posso deixar de mencionar que o governo fez tudo para conseguir que o crescimento econômico em 2010 fosse o melhor possível para eleger a candidata do governo. E fez de tudo significou valorizar o real tal como Itamar Franco em 1994 e FHC em 1998 fizeram e tal como José Sarney fizera em 1986. E que se diga, que FHC garantiu a valorização enquanto José Sarney não, mas que talvez nunca se saberá qual foi a decisão (ou a falta de decisão) mais acertada.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/09/2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010 20:32:00 BRT  

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