quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Uma elite abstrata (26/08)

Lula foi mudando os adversários à medida que se consolidava no manche. Pouco a pouco, foram desaparecendo da narrativa de Lula e do PT os antes responsáveis pelas desgraças do Brasil

É preciso reconhecer que os jornalistas e o jornalismo somos chegados a um não me toques. Vivemos a pontificar e a fazer juízos de valor sobre tudo e todos, mas quando o sentido da crítica se inverte acomete-nos um excesso de sensibilidade.

É equivocado acreditar que as críticas à atividade jornalística são por hipótese um atentado à liberdade de expressão. A imprensa não pode pretender estar imune ao sistema de freios e contrapesos na democracia.

As seguidas reclamações do presidente da República contra o jornalismo pátrio devem ser catalogadas no rol das coisas normais, rotineiras, positivas. De toda crítica, mesmo a mais descabida, recolhe-se algo bom.

Há porém um detalhe curioso na atitude de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o tema: o discurso presidencial é bipartido, contraditório, antagônico em si mesmo. Uma hora sua excelência regozija-se ao decretar o fim do oligopólio dos “formadores de opinião”. Outra hora se preocupa em protestar contra o tratamento, segundo ele injusto, que recebe dos veículos de comunicação.

Se de fato o jornalismo dito profissional perdeu importância após a explosão planetária das redes que distribuem informação em formato digital, por que razão o presidente da República investe tanto do seu escasso e precioso tempo nesse combate sem tréguas?

Vocação incontrolável para ombudsman? Vontade de contribuir generosamente para o Brasil ter a cada dia uma imprensa melhor?

A explicação talvez esteja em outro ponto. Quando Lula se retirar para São Bernardo alguém deverá fazer a análise das transformações no discurso presidencial na passagem pelo poder. Não se faz política sem adversários, uma forma amena de nomear os inimigos. E Lula foi mudando os adversários à medida que se consolidava no manche.

Pouco a pouco, foram desaparecendo da narrativa de Lula e do PT os antes responsáveis pelas desgraças do Brasil.

Os latifundiários da cana viraram heróis nacionais quando interessou ao governo alavancar em escala planetária o etanol como biocombustível global. Os empresários que arremataram as estatais na era tucana viraram amigos de infância — o que não impede o PT de continuar falando mal da privatizações, ainda que não tenha revertido nenhuma delas.

E os bancos, com seus lucros estrondosos, gordas tarifas, spreads pornográficos? O que antes era defeito virou qualidade. Afinal, um sistema bancário sólido — e põe sólido nisso! — ajudou-nos a sair razoavelmente bem da crise.

Se fosse o caso de completar a lista, o espaço desta coluna seria insuficente. Permanece, é claro, o discurso genérico contra a elite, uma reverência ritual ao passado. Mas a elite em carne e osso passa ao largo das críticas presidenciais, a não ser quando pode se contrapor a algum objetivo do poder.

Os antes “inimigos” do PT são agora fustigados apenas nos horários eleitorais das microssiglas de esquerda, o pessoal que luta para sair do traço nas pesquisas de intenção de voto. Assistir a elas na tevê é quase um exercício de arqueologia.

Que inimigos sobraram para Lula? Os atores políticos que eventualmente possam representar obstáculo à consolidação e ampliação do poder. Encaixam-se aí, além de um gordo pedaço da imprensa, instituições como o Ministério Público, o Tribunal de Contas, os órgãos de fiscalização ambiental, o Congresso Nacional (quando resiste a seguir os ditames presidenciais).

Qualquer um que se atreva a questionar, no todo ou em parte, as decisões de sua excelência.

E a imprensa, é santa? Longe disso. Não há santidades nessa rixa. Ainda que cada uma das partes insista em apresentar-se como merecedora da canonização.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (27) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Parabéns Alon realmente a imprensa tem cometido alguns absurdos e abusos. Mas a quero livre sem censura. Nós a sociedade deveríamos fiscaliza-la(sem ligação com governo). Ainda não sei como fazer isso. Mas aceito sugestões.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010 21:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Pergunta interessante:
"Se de fato o jornalismo dito profissional perdeu importância após a explosão planetária das redes que distribuem informação em formato digital, por que razão o presidente da República investe tanto do seu escasso e precioso tempo nesse combate sem tréguas?"
É claro que a pergunta perde muito do interesse quando se observa que a resposta é um tanto óbvia:
"Porque a explosão planetária das redes que distribuem informação em formato digital não é razão suficiente para que se deixe de criticar o jornalismo profissional."
Quanto ao fato de que
"Os latifundiários da cana viraram heróis nacionais quando interessou ao governo alavancar em escala planetária o etanol como biocombustível global . . . . os empresários que arremataram as estatais na era tucana viraram amigos de infância . . . .
É de se louvar o governo por ter tido essa habilidade gerencial e estratégica fundamental tanto no incremento do comércio exterior como no incremento do mercado interno (Em especial, quando isso passou a ser de interesse do governo, isto é, depois que o governo percebeu ali no meado do primeiro trimestre de 2009 que o crescimento puxado pelo mercado externo seria muito e gradual sem o poder de fogo para alavancar a candidatura de Dilma Rousseff) apesar de toda a amarração que o sistema de metas de inflação e o câmbio flutuante trouxeram para a economia.
Minhas duas observações a este seu post "Uma elite abstrata" de 26/08/2010foram críticas ao seu texto que no geral eu considero como a maioria do que você escreve como muito bom. Criticas que no meu entendimento tornam irrelevantes diante do belo, expressivo e verdadeiro fecho que encerra o post.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/08/2010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010 23:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A meu ver, nesta questão, o presidente não deveria intrometer-se. No popular, é sempre bom lembrar que não cabe ao presidente indicar ao cidadão, o que este deve ou não ler, assistir ou assinar. Isso pelo fato de, embora de forma amorfa, sempre deixa algo ameaçador no ar quando aborda o assunto. Um certo ranço de controle. E neste aspecto de controle, todos devem saber o sigificado de controle e do que acostumaram-se a chamar de mídia. O único problema é saber o que seria o social nessa história toda. De repente, alguém passa a ser mais social do que outros. Ou passa a ser incomum dentre os comuns. No caso das falas do presidente, ele não entra em detalhes, digamos, ideológicos, da questão. Mas, sim, coloca-se sempre como vítima de um monstrengo que precisa ser controlado. Na realidade, ao que parece, tenta colocar-se como herói, no imaginário popular. Ai, utiliza-se do mesmo meio que assinala como uma verdadeira quimera ameaçadora. Ou medusa.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 27 de agosto de 2010 11:28:00 BRT  
Blogger pait disse...

Essa descrição do Lula tem semelhanças com a direita raivosa do EUA - o pessoal populista que se orgulha de não saber nada, os milionários que gritam contra a Zelite de lá, que seriam os jornalistas e as pessoas com mais estudo....

sábado, 28 de agosto de 2010 10:08:00 BRT  

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